FAZER LOGINThomas ainda se estremecia quando chegou a cozinha. Ele se lembrava da cena, e estremecia outra e outra vez. Nunca tinha flagrado os pais em uma situação como aquela. Nem quando era mais novo. Eles sempre foram muito cautelosos. Depois que cresceu, sabia o que acontecia entre eles entre quatro paredes, mas não pensava sobre, e sempre batia na porta, mesmo que soubesse que estava trancada, mas naquele dia foi diferente. E ele se recriminava por isso.
— O que aconteceu com você?
— Eu vi o inferno mais cedo.
— Que horror, Thomy.
— É sério. Muito sério. Nunca, jamais entre no quarto dos nossos pais sem bater.
Natalie fez uma careta, até entender tudo e arregalar os olhos.
— Você flagrou...
— Não termine. – A cortou. – Nós nunca vamos falar sobre isso. Nunca. Jamais. Isso vai para o túmulo comigo e com você.
A gêmea estremeceu.
— Não pretendo fazer perguntas ou lembrá-lo disso.
— Obrigado.
— Bom dia.
Natalie abriu um lindo sorriso quando o viu, recebendo um beijo na testa, e só porque era algo que ele sempre fazia e que não faria o pai dela desconfiar de algo.
— Estão sozinhos?
— Estamos de babá. – Thomas diz.
— Nossos pais ainda estão na cama.
Natalie viu o irmão estremecer, se levantando da cadeira.
— Quer alguma coisa, Ezra?
— A tia Mia ainda faz aqueles bolos para o desjejum?
Thomas voltou com o bolo em resposta.
— São os melhores que eu já comi. Não contem a minha mãe.
Os irmãos riram.
— Pode dizer que só vem aqui por eles.
— Eu venho por algo melhor. – Piscou para a namorada, que sorriu.
— Eca. – Fez uma careta. – Ela é minha irmã, poderia não fazer isso na minha frente?
— Eu vejo coisas piores entre você e a Belle. Inclusive, peguei vocês em um maior amasso no quarto.
— Mas já? Estão nessa intensidade?
— Ezra!
— Vocês ainda não?
Natalie corou mais do que já estava corada.
— Thomas!
— Ainda bem que não, é demais para mim imaginar minha irmã e você...
— Ei!
— Conversa entre homens, maninha, vaza.
Ezra riu.
— Abusado! É sobre a minha vida.
— Espero que não sexual.
Natalie corou e Ezra se engasgou com o bolo.
— Amém.
— Eu não achei que você fosse falar abertamente sobre isso.
Thomas deu de ombros para o amigo, e ao mesmo tempo, Bryan adentrava a cozinha. Ele pegou uma maça, levou a boca, pegou dois biscoitos e então foi saindo.
— Moleque, onde você pensa que vai?
— Na casa do tio Elliot.
— E avisou aos nossos pais?
— Eles são nossos vizinhos. – Revirou os olhos, dando as costas ao irmão.
— Bryan já está namorando?
O garoto se virou novamente.
— Não diga asneira, Ezra.
O outro franziu o cenho.
— Só um doido faria isso. No caso, vocês.
Natalie segurou uma risada, vendo o irmão sair.
— Quem esse moleque pensa que é? – Ezra se indignou.
— Eu já disse, ele está abusado. – Thomas diz.
— Quem está abusado?
Os três se viraram para Liam.
— Quem o senhor acha? Seu filho de nove anos.
— Ele deve ter aprendido com o mais abusado dos irmãos.
Natalie gargalhou.
— O que você faz aqui a essa hora?
— Papai! – Recriminou.
— Vim pelo bolo da minha tia.
— Outro abusado. – Liam comentou, se sentando a mesa. – Depois querem falar mal do Bryan.
— Está vendo como ele o defende?
Liam revirou os olhos.
— É por isso que o garoto sai sem avisar.
— Como é?
— Se interessou, pai?
— Bryan saiu. Foi no tio Elliot. – Natalie contou.
Liam soltou um suspiro.
— Por que não vai atrás dele e o trás pelos cabelos? – Thomas questionou.
— Porque ele sabe que a tia Mia faria ele dormir no sofá.
Os mais jovens riram.
— Bom dia, meus amores. – Mia chegou com um sorriso. – Ezra. Que bom que veio nos ver, querido.
— Ao menos a senhora gostou da minha visita.
— O abusado do seu sobrinho veio aqui pela comida. – O marido dela diz.
— Comida. – Thomas riu. – É tão inocente.
Liam franziu o cenho.
— Como é?
— Ai, meu Deus, a Liv está chutando!
Liam quase que pulou da cadeira quando escutou a esposa.
— Você é idiota ou se faz, maninho?
— Foi mal. Não achei que ele fosse escutar.
— Nosso pai tem um ouvido melhor do que o do nosso avô.
— É assustador. – Ezra comentou.
— Vai ser assustador quando ele souber sobre o segredinho de vocês. Ele vai te comer vivo.
Ezra olhou para o tio, que tinha um sorriso enquanto tocava a barriga da esposa.
— Eu vou comer desse bolo enquanto ainda posso.
Thomas riu e Natalie revirou os olhos, mesmo sabendo que seu pai iria surtar quando soubesse sobre seu namoro. Talvez o namorado estivesse certo. Aquela poderia ser uma das últimas refeições que ele faria.
ANOS DEPOIS — Bryan. Ele se virou ao reconhecer aquela voz. Ela se aproximava com o sorriso de sempre. Nada nela havia mudado desde que soube de seus sentimentos. Mesmo achando que eles não seriam os mesmos, que ele se sentiria desconfortável perto dela e que eles não conseguiriam ser os amigos de antes, o sorriso dela continuava o mesmo. Ela era a mesma com ele. Carinhosa, cuidadosa, amável. E sorridente. Até quando o irmão fazia comentários que deixava a ambos envergonhados, algo que com o tempo eles começaram a saber lidar. Henry era e sempre seria inconveniente. Um bom amigo, mas muito inconveniente. Ele não sabia quando calar a boca. Tinha vezes que acabava levando a mão atrás da cabeça dele. Isso quando não fazia um pedido mudo para que Nicholas o fizesse. O que não era incomum, já que Nicholas sempre reagia àquela maneira quando o amigo deles falava alguma besteira. Com as mãos nos bolsos, ele esperou que Hope se aproximasse. Ela vestia-se com a costumeira saia e a camiset
— Agora acabou? Finalmente acabou? — Sim, acabou. – Nathan quem respondeu a Mia. — Com a confissão dela, as provas que nós encontramos e o que o gênio do Matteo conseguiu... ela vai passar o resto da vida miserável dela na cadeia. – Liam contou. Mia se virou para o filho mais novo, vendo-o sentado no sofá, com Hope ao lado. — Meu amor, como você está? — Estou bem. É claro que foi um choque escutar tudo que ela disse sobre mim, mas... eu já sabia que ela não se importava comigo. Ou importou um dia. — Ela quem perde. – Hope diz. – Ela está sozinha e atrás das grades, e você tem uma família incrível. — Sim, sua amiga está certa. – Nathan diz. – Akemi perdeu muito aqui. Inclusive a liberdade dela. — E o luxo, que era o que ela mais queria nessa vida. Mais até que você, Nate. – Natalie diz. – Psicopata. – Estremeceu. – Quando ela começou a falar, meu estômago revirou. — O que importa é que isso acabou. – Mia sorriu para o garotinho dela. – Nós estamos todos juntos, e felizes.
Liam entrou naquela casa, que mais parecia um labirinto, como uma que ele morou quando era mais novo, observando tudo atentamente. Atrás dele, estavam seus dois filhos mais velhos, seu filho mais novo e Hope. Sim, a garotinha insistiu que estaria ao lado do melhor amigo, e o pai do menino não teve opção a não ser concordar. Enquanto isso, Nathan fazia o trabalho de manter Holly bem longe daquela casa. Não foi fácil tirá-la dali, menos ainda de forma que ela não desconfiasse de nada. Mas ela era gananciosa e quando o “marido”, no seu modo tanto faz, insistiu para que ela comprasse um vestido e um sapato por causa da festa da empresa que aconteceria no fim da semana, ela aceitou. Tudo como planejado. Ela nunca iria desconfiar da festa da empresa de Nathan. E menos ainda quando ele era obrigado a levá-la como sua esposa. O que de certa forma fazia com que ele se enojasse por saber que teria de passar mais de três horas com ela ao seu lado. Mia tinha ficado em casa com os mais novos. Sob
— Bryan. O menino percebeu a surpresa nos olhos do pai, o que já era esperado por ele. — Não vai me abraçar? Não houve resposta. — Tudo bem, eu faço isso. E então Bryan se aproximou, abraçando o pai, que o correspondeu após um segundo, relaxando. A tensão no corpo de Nathan evaporou no instante em que teve o filho em seus braços. Foram tantos dias se perguntando se ele estava bem. Emocionalmente, no caso, já que ele era um tanto sensível quando o assunto era “família”. Ele podia estar muito feliz por ter o outro pai de volta em casa, mas não queria dizer que estava completamente feliz, não quando não podia ver o outro pai. Nathan também se sentia mal. Triste. Com saudades. Mas foi a única forma de fazer com que Holly deixasse aquela família, o que incluía seu garotinho, em paz. Se ela soubesse que eles ainda estavam se vendo, ela poderia imaginar em sua cabecinha, que ele estava tramando contra ela. E ele realmente estava. — Senti sua falta. — Eu também senti. – Suspirou. –
— Irmãozinho, você está arrasando corações, é isso mesmo? Bryan corou, e se sentiu um idiota por ter falado sobre o que aconteceu com a mãe, estando ambos seus irmãos mais velhos em casa. Era para ser segredo. Só falou com ela sobre, porque não sabia como ser ele mesmo com Hope agora que sabia que ela gostava dele. Se Henry não tivesse contado, ele nunca saberia. Não que não gostasse da irmã do amigo, ou que ela não fosse bonita. Na verdade, ela era muito bonita, mas ele tinha quase dez anos, e ela já tinha completado os dez. Não pensava em garotas ainda. Até porque, com sua vida complicada e cheia de emoções, como ele iria pensar nelas? Mesmo Hope estando ao seu lado quase que sempre. E agora não parava de pensar que ela deve estar se sentindo envergonhada, chateada e pensando se ele não começaria a tratar ela diferente, e tudo por culpa do linguarudo do irmão dela. — Que fofinho. — Thomy, deixe-o em paz. — Mãe, eu quero ajudar meu irmão a conquistar a garota. — Ele não quer c
Por onde passava, havia uma revista ou uma manchete com o título: “O casamento da golpista”. Era o título do ano. Ou deveria ser, se não tivesse um outro mais chamativo e que chegou trazendo revelações. Todos queriam saber quem era a golpista e qual foi o golpe que ela deu no “marido”. Havia também alguns outros títulos, alguns pesados até demais, mas nem por isso fez com que Mia, ou alguém da família dela sentisse pena de Holly. Ela merecia ser tachada como golpista. Ou como chantagista. Ou como “o diabo veste ganância”. Um dos títulos de uma das revistas mais aclamadas pela cidade. Primeiro por causa do título incrivelmente curioso e segundo porque era de um editor novo na cidade. Tudo que sabiam era que ele era anônimo e que a revista dele se chamava: Precious. Mia pegou a revista nas mãos, dando uma foleada antes de pagar. Normalmente ela não gostava de saber sobre as fofocas, mas aquilo era diferente. Era sobre Holly. Era sobre Nathan. E também poderia muito bem ser sobre Bryan.