Compartilhar

Capítulo 7

Autor: Rosana Lyra
last update Data de publicação: 2025-11-07 21:13:56

Antonella

Voltei de Montreal no primeiro voo da manhã, com a sensação de que, pela primeira vez desde o casamento, minha vida estava em minhas mãos. A filial abriu com casa cheia, os números da pré-venda surpreenderam e o conselho local me recebeu com respeito.

Eu falei com calma, mostrei projeções, respondi perguntas difíceis. Nada de floreios. Só trabalho. Quando o avião pousou em Toronto, olhei pela janela e pensei que precisava guardar essa sensação. Competência também é afeto quando ninguém te dá carinho.

Cheguei à mansão pouco depois das nove. Tomei banho, troquei o terno por um vestido confortável e desci para a cozinha. Giulia me deu um sorriso orgulhoso.

— Como foi, senhora?

— Melhor do que eu esperava. — Abri a geladeira e peguei água. — Fechamos dois contratos com fornecedores locais, e três franquias sinalizaram expansão para o próximo semestre.

— Sabia que ia dar certo. A senhora trabalha demais.

— Obrigada, Giulia.

Subi para o escritório que montei no quarto de hóspedes e liguei para Emily. Ela atendeu na primeira chamada.

— “Fala, executiva! Voltei a tempo de te ver brilhando nas manchetes.”

— Foi bom, Em. De verdade.

— “Conta tudo. E não economiza.”

— A coletiva foi objetiva. Depois vieram investidores. Dois deles, mais animados do que deveriam, me convidaram para jantares privados.

— “Hum… e você?”

— Coloquei os dois nos devidos lugares. Disse que sou uma mulher honrada e casada. Fui firme. Eles recuaram.

— “Boa. Quem não sabe ouvir não merece nem sobremesa.”

— Jantei sozinha no hotel. Pedi massa com molho simples e fiquei respondendo e-mails.

— “E o senhor Iceberg?”

— Me ligou de manhã cedo com aquela voz de chefe. Tentou me desautorizar. Depois soltou uma frase ruim. Eu desliguei.

— “Ele sentiu. E quando homem que finge frieza sente, fala besteira.”

— Eu sei. Mas não quero mais discutir. Quero trabalhar.

— “Então trabalha e deixa ele te ver de longe. É assim que ele aprende.”

Ri, aliviada por ouvir alguém do meu lado. Prometi passar na casa dela no fim de semana. Desliguei e organizei a agenda do dia. Precisava passar na sede da Karvell & Bellini para assinar documentos e depois seguir para uma visita às lojas.

Quando terminei de revisar as mensagens, desci para almoçar. A mesa estava posta simples. Sentei, comi devagar e pensei nos próximos passos. No meio do prato, o interfone tocou. Giulia atendeu, ouviu, depois colocou um arranjo sobre o aparador, um buquê de lírios brancos, grande, perfumado, embrulhado em papel branco.

— Chegou para a senhora — disse.

— Tem cartão?

— Não.

Aproximar do buquê foi automático. O cheiro me trouxe calma e um frio na barriga. Toquei nas pétalas e procurei alguma pista. Nada. Só flores, perfeitas e lindas.

— Quem entregou?

— O mesmo serviço que traz as encomendas da manhã. Deixaram na portaria e foram embora.

— Estranho.

Passei o resto do dia entre a sede e duas lojas. Coletei feedback, tirei dúvidas da equipe, ouvi uma gerente com problemas de turno. Voltei para casa no fim da tarde. O buquê ainda estava lá, intocado.

Subi para trocar de roupa e desci até a guarita dos seguranças. O turno da noite já tinha assumido. Encontrei Davi, que fica na cancela principal desde antes do casamento.

— Boa noite, Davi.

— Boa noite, senhora Antonella.

— Sobre as flores… você sabe quem enviou?

Ele consultou o caderno e o sistema.

— Foram liberadas por ordem do senhor Karvell. O registro está aqui. — Virou a tela: “Autorizado por A. Karvell”.

Meu coração deu um golpe. Respirei fundo para não demonstrar nada.

— Está certo. Obrigada.

— Às ordens, senhora.

Voltei para dentro com as mãos frias. Fiquei parada diante do arranjo, sem saber se sorria ou chorava. Se ele tinha mandado, por que não falou? Por que negou o mínimo de afeto por telefone e, horas depois, enviou flores sem cartão? Talvez fosse o jeito torto dele. Talvez fosse outra coisa.

Peguei uma das flores e levei ao nariz. O cheiro era limpo, discreto. Levei o buquê para a sala e coloquei água fresca no vaso. Depois respirei fundo, endireitei os ombros e fui atrás de Alonzo.

Ele estava no escritório, de camisa dobrada nos antebraços, laptop aberto e uma pilha de papéis à esquerda. Bati de leve.

— Posso?

Ele assentiu sem erguer muito o olhar.

— Só um minuto, estou terminando um parecer.

Esperei perto da estante. Quando ele fechou o arquivo, se recostou na cadeira.

— Diga.

— Obrigada pelas flores.

Ele franziu a testa.

— Que flores?

— Os lírios brancos que chegaram hoje. Estavam autorizados no seu nome na portaria.

— Eu não mandei flores.

Senti um vazio no peito, como se o chão tivesse recuado. Fiquei alguns segundos sem resposta.

— O sistema registrou “autorizado por A. Karvell”.

— Autorizar a entrada e enviar são coisas diferentes. Eu autorizo tudo que chega na portaria. Faz parte do protocolo, sobretudo quando estou fora. Quem mandou, não fui eu.

— Entendi.

Dei um passo para trás. A garganta ardeu.

— Algo mais? — ele perguntou, o tom controlado.

— Não. Boa noite.

Saí antes que minha voz traísse o que eu estava sentindo. No corredor, respirei fundo. Tentei raciocinar. Se não foi ele, foi quem? As opções eram curtas demais. E, honestamente, óbvias.

Voltei até a sala, olhei os lírios de novo e senti o incômodo virar raiva. Eu não ia dar esse gosto a ninguém. Agradeci a mim mesma por ter ido à guarita com calma.

Peguei o celular, abri o bloco de notas e escrevi uma lista simples: “Flores, checar câmeras externas, Solicitar nota fiscal à floricultura. Falar com Giulia sobre quem recebeu na cozinha.” Salvei. Nada de cena, nada de confronto público. Apenas fatos.

Subi para o quarto e liguei para Emily. Ela atendeu com voz de série de TV no fundo.

— “Diga, senhora Karvell.”

— Recebi flores.

— “Dele?”

— Eu agradeci a ele. Ele disse que não mandou.

— “Sei. E você?”

— Sorri, disse boa noite e subi. Vou checar as câmeras e a nota fiscal amanhã.

— “E acha que foi quem eu tô pensando?”

— Acho.

— “Então mantenha a classe. E as provas.”

— Vou fazer isso.

— “E, Ella… se for ela, é porque você está no caminho certo.”

— Caminho certo?

— “Fazendo ele olhar. Gente insegura empurra. Você segue.”

— Vou tentar.

— “Não tenta, faz.”

Desliguei com uma pontada estranha entre raiva e riso. Fui ao closet, vesti um moletom e voltei para a sala no andar debaixo. Sentei no sofá, peguei um caderno e rascunhei ideias para a próxima expansão. Depois, por impulso, mandei mensagem ao time de TI pedindo acesso rápido às câmeras de entrega. Minutos depois, recebi o retorno:

— “Envio do link até amanhã 10h. Logs preservados.”

Fechei os olhos por alguns segundos. Quando os abri, vi o reflexo de alguém no vidro do corredor do escritório. Levantei com cuidado, caminhei até a parede de vidro e parei antes da curva.

Letícia estava do lado de fora, imóvel, segurando o celular. Não tinha me visto. Observava a sala de Alonzo pela transparência, com um sorriso pequeno, satisfeito, como quem terminou um jogo e espera o placar. Na mesa, ele digitava, concentrado, sem olhar para a porta.

Letícia guardou o celular, endireitou a blusa e ficou mais um segundo admirando a cena. Tive a confirmação que faltava. Não doeu do jeito que eu imaginei. Doeu menos. Era só sujo. E eu estava cansada de sujeira. Ela não devia estar aqui, mas ele parece não se importar com a invasão noturna.

Voltei para a sala e ajeitei os lírios sobre a mesa de centro. Coloquei um bilhete no vaso:

— “Obrigada pelas flores. Ass: ninguém.”

Depois ri, sozinha, do próprio humor ácido, e subi para dormir. Antes de apagar a luz, escrevi no diário:

— “Hoje eu venci em Montreal. Fui tratada com respeito. Voltei e encontrei o velho jogo tentando me puxar de volta. Não vou cair. Se querem me provocar, vão cansar. Amanhã começo pela verdade… nota fiscal, câmeras, registro. E sigo. Porque minha vida não é um vaso de flores sem cartão. É trabalho. E limite.”

Fechei o diário, deitei e encarei o teto. Pensei em Alonzo por um instante, na frase dele sobre sorrisos. Talvez ele tenha se arrependido. Talvez não. O que eu podia fazer era simples, cumprir meu plano. Ser útil. Ser forte. Ser eu.

Adormeci cedo, com o barulho baixo da casa e a certeza de que eu estava pronta para me defender sem gritar.

Lá fora, o corredor estava vazio. Mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, Letícia voltaria a testar meus limites. Quando isso acontecesse, eu já teria todas as respostas organizadas, e nenhum medo de dizer em voz alta:

— “Ele é meu marido. E eu mereço respeito.”

E se ele não aprender sozinho, eu vou ensinar pelo exemplo… trabalho, verdade, paciência e limite. O resto, cedo ou tarde, cai por si, sem barulho.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Os Trigêmeos São do Meu Ex-Bilionário Arrogante    Capítulo 121

    AlonzoO jardim está florido. A luz da manhã abraça a terra. As gêmeas dormem no carrinho, balançadas por Eliza, que toma chá sorrindo. Os trigêmeos correm pelo gramado, disputando quem chega primeiro até a árvore favorita.Fico alguns segundos parado, só olhando. Se alguém me dissesse anos atrás que esse seria o meu final, eu teria dado risada. Eu, Alonzo Karvell, bilionário arrogante, sentado num jardim, com o coração em paz e cinco filhos fazendo bagunça.No centro de tudo, ela.Antonella está sentada numa cadeira branca, com o cabelo preso de forma simples e algumas mechas soltas. O olhar dela está diferente. Mais maduro, mais firme, mais dela. Não é mais a mulher que entrou na minha casa tremendo, com medo de tudo e de mim. É a dona da própria história, da própria empresa… e do meu coração.Caminho até ela devagar, como se quisesse gravar cada passo. Quando chego perto, encosto a mão em seu ombro. Ela levanta o rosto e sorri daquele jeito que me desmonta.— Está me olhando assim

  • Os Trigêmeos São do Meu Ex-Bilionário Arrogante    Capítulo 120

    AxelA felicidade também bateu na minha porta.Dizem que o amor chega quando a gente está distraído. Eu discordo. No meu caso, o amor chegou gritando, quebrando minha porta, me chamando de tarado e me acusando de traição por conta de umas roupas da minha mãe no meu closet. Pois é, meu romance começou como um desastre. E agora estou aqui, de terno, com suor escorrendo na nuca, prestes a dizer “sim” no meu próprio casamento.A igreja não é exagerada, mas também não é simples. Tem flores brancas, luz dourada, e um cheiro que mistura perfume caro com nervosismo. Antonella e Alonzo estão aqui ao meu lado, lado a lado como um lindo casal, os dois padrinhos. Antonella sorri como se fosse minha irmã, e Alonzo está com cara de quem quer chorar, mas não pode porque tem uma reputação a manter.Dou uma olhada para Antonella. Ela faz sinal de “respira”. Eu respiro. Dou uma olhada para Alonzo. Ele faz sinal de “não desmaia”. Eu ajusto a gravata.Então, a música começa.Emily entra.Eu já vi essa m

  • Os Trigêmeos São do Meu Ex-Bilionário Arrogante    Capítulo 119

    AntonellaA vida finalmente se reorganizou. Não em perfeição, mas em felicidade. Os dias começaram a ficar mais leves depois da prisão de James. Eu ainda acordava assustada às vezes, com a sensação do cativeiro grudada na pele, mas bastava olhar para o lado e ver Alonzo dormindo agarrado em mim, uma mão na minha barriga, que eu lembrava: acabou. Ele estava preso. Longe de mim. Longe da minha família.Em contrapartida, Letícia saiu do país graças ao acordo, sem cumprir pena. Quando Alonzo me contou, eu senti um gosto amargo na boca. Parecia injusto. Parecia errado.Naquela noite, eu estava sentada na cama, alisando a barriga, quando Alonzo se aproximou com duas canecas de chocolate quente.— Está com essa cara desde que te contei sobre Letícia — ele comentou, sentando ao meu lado. — Fala comigo, coelhinha.Eu respirei fundo.— Não vou dizer que perdoo… mas se não fosse ela, talvez eu não tivesse sido encontrada. Não é perdão. É aceitação.Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me

  • Os Trigêmeos São do Meu Ex-Bilionário Arrogante    Capítulo 118

    AlonzoChegou o dia da audiência de James. O tribunal está quieto. Não é comum, é aquele momento que pesa, que prende o ar no peito, que parece ecoar entre as paredes. Nem mesmo os jornalistas ousam cochichar. As câmeras estão posicionadas, mas ninguém se atreve a disparar um flash. Todos observam a porta de ferro sendo aberta. O homem algemado entra.James McAllister.O terno escuro, o cabelo penteado como se ainda fosse um homem de negócios, e o sorriso debochado que sempre me irritou. Mas, dessa vez, o olhar dele entrega… ele sabe. Sabe que está diante do fim.Eu estou na primeira fila. As mãos suadas, as pernas tensas, o coração batendo mais rápido do que deveria. Do meu lado, Antonella. Ela segura minha mão com força. A barriga dela está protegida por mim. Ela respira fundo, olha para mim, e eu vejo nos olhos dela, coragem. Mesmo grávida, mesmo frágil, ela está aqui. Para encarar o homem que tentou destruir tudo.Quando os policiais colocam James no banco dos réus, ele olha para

  • Os Trigêmeos São do Meu Ex-Bilionário Arrogante    Capítulo 117

    Alonzo Levei Antonella para casa dois dias depois. A médica só a liberou porque eu prometi que ela iria comer bem, tomar as vitaminas no horário e descansar. Ela disse ainda que o corpo dela está frágil, ainda mais com duas bebês crescendo ali dentro. Eu prometi que cuidaria dela como nunca cuidei de ninguém na vida.Na verdade, eu apenas disse a verdade.Segurei sua mão durante o caminho inteiro. Ela olhava pela janela, quieta demais. Não era tristeza. Era cansaço. Era trauma. Era a necessidade de silêncio depois de tanto medo.— Quer parar para comer alguma coisa, coelhinha? — perguntei.Ela negou com a cabeça. Apenas entrelaçou os dedos nos meus, como se por agora isso fosse suficiente.Chegamos em casa já no fim da tarde. A mansão parecia mais viva. As luzes estavam acesas, a avó dela nos esperava na porta. Quando Antonella desceu do carro, a avó a abraçou tão forte que eu pensei que ela fosse quebrar.A voz dela saiu chorando, mas firme:— Você está em casa, minha menina. Agora

  • Os Trigêmeos São do Meu Ex-Bilionário Arrogante    Capítulo 116

    Alonzo O tempo parou. Três dias. Setenta e duas horas. Quatro mil trezentos e vinte minutos.E eu não faço a menor ideia de onde ela está. Nenhuma pista. Nenhuma ligação. A cada vez que meu telefone toca, meu coração dispara. E quando percebo que não é ela, o peso volta e eu fico mais perto de enlouquecer.A polícia diz que está fazendo o possível. Axel tenta me manter respirando, controlado, mas não consegue. Nem eu consigo.— Você precisa comer alguma coisa, Alonzo — Axel diz, colocando um prato sobre a mesa.— Eu não vou comer enquanto não souber se ela está comendo. — Eu falo sem olhar.Ele suspira, arrasta a cadeira e se senta ao meu lado. Ele conhece bem minha teimosia.— Você acha que ela quer te ver desse jeito quando voltar?— Primeiro eu preciso saber se ela vai voltar. Merda, ela precisa voltar.Ele fecha os olhos, e eu vejo meu melhor amigo com medo. Não posso fingir que está tudo bem, não consigo ser frio a esse ponto. De qualquer jeito não tenho fome, tenho saudades e t

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status