FAZER LOGINOutra rodada de risadas atravessa a oficina.
Juninho quase derruba uma chave inglesa da bancada de tanto rir. Eu não entro nelas. Minha mão desliza automaticamente até o bolso de trás da calça. O gesto é tão natural que eu nem penso nele. A foto ainda está lá. Sempre está. Tiro o papel dobrado, já meio gasto nas bordas de tanto ser aberto e fechado. Desdobro devagar. O Rolls-Royce prateado ocupa quase toda a imagem — impecável, clássico, aristocrático. A carroceria reflete a luz como um espelho líquido, as linhas elegantes parecem mais escultura do que máquina. Um carro desses não entra em qualquer oficina. Mas meus olhos não ficam no carro. Eles descem para o canto inferior da foto. Para a assinatura. Isadora Alves Villela. É um nome que carrega peso. Dinheiro. Influência. O tipo de sobrenome que abre portas que o resto do mundo precisa arrombar com o ombro. Gente desse nível não aparece em lugares como este. Não entra em oficinas pequenas no meio da Zona Norte. Não pisa em chão manchado de óleo. E, ainda assim… Ela entrou aqui. Sozinha. Num lugar onde qualquer outra mulher do círculo dela pisaria apenas com segurança particular, motorista e talvez até algum advogado olhando o contrato antes de falar com o mecânico. Isso me incomoda. Porque gente rica normalmente não faz nada sem cálculo. — Então? — Juninho insiste, aproximando-se. — Vai pegar o serviço ou vai mandar a princesa procurar outro castelo? Dobro a foto lentamente, pressionando o vinco com o polegar antes de guardá-la de volta no bolso. — Se o carro vier… eu olho. — Ih — Rodrigo aponta a chave de roda pra mim como se estivesse denunciando um crime. — Olha só. O homem já está interessado. — Eu estou interessado no motor. — Claro. — Só no motor. Eles trocam olhares. Aqueles olhares carregados de sarcasmo masculino que dizem muito mais do que qualquer frase. — É — Caíque concorda, coçando o queixo. — No motor. Silêncio. O rádio velho no canto da oficina começa a tocar um rock antigo, chiado, daqueles que parecem vir de outra década. A guitarra rasga o ar abafado do lugar enquanto a bateria acompanha o ritmo preguiçoso da tarde. Volto para debaixo do Mustang, puxando a prancha com o pé e deslizando sob o carro. A lataria bloqueia a luz do sol que entra pelo portão, mergulhando tudo numa sombra fria de metal. Mas antes de desaparecer completamente sob o carro, meus olhos escapam para o portão da oficina. Para a rua molhada lá fora. Para o espaço vazio onde o Jaguar dela esteve estacionado minutos atrás. Uma sensação estranha aperta no peito. Algo entre curiosidade… E aquele tipo específico de pressentimento que normalmente antecede um acidente. Porque, se aquela mulher realmente voltar amanhã — trazendo um Rolls-Royce clássico, aquele olhar arrogante e o tipo de problema mecânico que ninguém conseguiu resolver — …minha vida pacata de graxa, silêncio e motores provavelmente acabou de receber um impacto frontal. E, pela primeira vez em meses…isso não parece uma péssima ideia.IsadoraO cheiro de café fresco e o som abafado dos noticiários financeiros preenchem a cozinha espaçosa da mansão Atlas. Não é o meu mundo de antes, mas se tornou o nosso. Daniel está sentado à mesa de mármore, os olhos fixos na tela do tablet, enquanto toma seu café preto. Ele ainda tem aquele ar de lobo, mesmo de terno impecável, mas agora, quando me olha, há uma doçura que derrete qualquer armadura que eu ainda insista em usar. Minha rotina mudou. As reuniões na Villela Motors continuam, mas agora há um novo propósito, uma leveza que antes não existia. Não corro mais para provar nada a ninguém, apenas para construir algo sólido ao lado do homem que escolhi. As noites não são mais solitárias. São preenchidas com o calor do corpo dele, com conversas sussurradas sobre o futuro, sobre os desafios da Atlas Tech e da Villela Motors, sobre a vida que estamos tecendo juntos. Hoje, porém, algo está diferente. Uma náusea sutil me acompanha desde o café da manhã, um mal-estar que não consig
Jantamos tarde, com velas que os funcionários deixam acesas na mesa do deque antes de se retirarem para o outro lado da propriedade com aquela discrição treinada de quem sabe quando não estar. A mesa está arrumada com flores do casamento da Letícia, como Daniel havia prometido — um buquê de gardênias brancas no centro que cheira a outra vida, a outro dia, e que de alguma forma fecha um ciclo sem que eu precise nomear qual.Comemos sem pressa. Conversamos sem agenda.Ele me conta sobre a primeira vez que veio para a ilha sozinho — três semanas depois da morte da mãe, quando a mansão ficou pequena demais para conter o luto e grande demais para aguentar o silêncio. E aqui ele ficou quatro dias sem falar com ninguém além dos funcionários. Leu dois livros inteiros sentado nesta mesma pedra sobre o mar, e no quarto dia acordou de madrugada com a sensação clara de que a vida ia continuar quisesse ele ou não, e que tinha que decidir como queria que ela continuasse.— Então um ano depois da mo
IsadoraO silêncio que fica depois que o helicóptero some é de um tipo que eu não conhecia. Não é o silêncio do apartamento vazio às seis da manhã, quando a cidade ainda não acordou, mas já respira. Não é o silêncio dos corredores da Villela depois de uma reunião que correu mal, quando todo mundo sai com as palavras não ditas pesando mais do que as ditas. É outro. É o silêncio que existe quando um dia muito cheio termina e as pessoas que o preencheram foram embora e sobrou o essencial — o vento, o mar, e a pessoa com quem eu escolhi ficar.Daniel ainda está de pé no heliponto por alguns segundos depois que o ponto escuro no horizonte desaparece de vez. Depois ele se vira para mim com aquela expressão que eu levei tempo para aprender a ler — não é fechamento, é a cara dele quando está sentindo alguma coisa fundo e não vê necessidade de traduzir em frase.— Fome? — ele pergunta.— Ainda não, depois desse churrasco — eu digo.Ele assente, como se fosse exatamente o que esperava ouvir.—
— A gente gosta dele também, e muito antes de saber quem ele era — Rodrigo diz, simplesmente.A tarde avança com aquela lentidão generosa de quando o tempo deixa de ser uma métrica de produtividade. O Juninho descobre o jet ski ancorado no píer com o entusiasmo de uma criança. Daniel passa vinte minutos explicando o equipamento com uma paciência que eu nunca o vi ter em reuniões da diretoria, e o Juninho ouve com uma atenção que provavelmente nunca deu a nenhuma instrução de segurança na vida. Naturalmente, ele ignora metade do que foi dito e sai em velocidade máxima, arrancando gritos de todos no píer.— Ele vai morrer — diz Caíque, de braços cruzados, sem nenhuma preocupação real.— Já deveria ter morrido três vezes na oficina — responde Rodrigo. — Ele é resistente.Daniel se vira para os dois: — Vocês querem tentar?— O jet ski?— O jet ski.— Sim! — eles respondem em coro, e Daniel ri, um som limpo que se perde no vento.—Vistam os coletes salva-vidas então.Minutos depois a luz m
IsadoraA picanha desaparece em minutos. Não é o tipo de desaparecimento elegante de uma mesa bem posta, onde os pratos circulam com calculada moderação. É o tipo de voracidade que acontece quando homens com fome real encontram carne de primeira: pratos sendo repassados, garfos disputando os últimos pedaços e a linguiça sendo arrancada do espeto ainda crepitando. Daniel ri de algo que o Caíque disse, virando mais um espeto com a naturalidade de quem fez isso centenas de vezes — provavelmente na oficina, em domingos de futebol que eu nunca vivi, mas que agora consigo imaginar com uma clareza que me pega de surpresa.Fico olhando para ele por um segundo a mais do que pretendo. Não é o Daniel que eu aprendi a desmontar nos últimos meses — aquele que media as palavras e calibrava cada passo. Este aqui parece mais largo nos ombros, mais confortável dentro da própria pele. O avental ridículo com a frase dourada “churrasco” ajuda a quebrar a imponência, mas é mais do que isso: com eles, ele
IsadoraO cheiro de carne assando se mistura à brisa salgada, e o som das risadas ecoa pela ilha, abafando o barulho das ondas. Não é uma risada polida, contida, como as que eu ouço nos jantares da alta sociedade. É uma risada solta, sem filtro, que vem da barriga e contagia. Daniel está na churrasqueira, um avental de couro com a frase “O Mestre do Fogo” amarrado na cintura, virando espetos com a destreza de quem sabe o que faz. Caíque e Rodrigo já estão na piscina, os olhos arregalados para a borda infinita que se funde com o azul do oceano. Juninho, com sua mochila velha jogada em um canto, está ao lado de Daniel, dando palpites sobre o ponto da carne e contando alguma história que faz Daniel balançar a cabeça, rindo.Eu observo a cena, um sorriso genuíno nos lábios. No início, confesso, senti um leve receio. Meus amigos, os que frequentam os círculos da alta sociedade, são tão diferentes. A formalidade, as conversas sobre negócios e arte, os sorrisos polidos. Aqui, com esses homen