FAZER LOGIN~~ Jade ~~
— Está sim. Mas tenho uma nova proposta… — Giovanne determinou: — Você vai sair do Brasil, vai arrumar suas malas e me acompanhar para Boston, onde trabalhará no laboratório da minha sede principal, sob a minha supervisão total e o meu monitoramento vinte e quatro horas. Te darei vinte e quatro horas para pensar.
Saí do escritório da presidência completamente atordoada. Eu, em Boston? Trabalhando para o temido Giovanne Vance? Não era possível.
Quando cheguei em casa, minha mãe não estava, provavelmente havia ido passar um tempo com o meu irmão. Me joguei no sofá com os pensamentos a mil por hora, e em minutos meu celular tocou.
— Amiga! Você viu ele? Minha nossa, que homem lindo! Ainda mais bonito do que nas manchetes… Me conta tudo! O que ele disse? O que vai fazer com você?
— O que tem de lindo tem de arrogante! Ele… Me deu uma chance, mas…
— Deu??? Então ele acreditou em você?
— Não necessariamente, mas ele precisa do projeto, e se eu sair, eles perdem tudo… Nem mesmo o maldito do Renato sabe finalizar, e por isso ele quer que eu continue trabalhando, mas não na empresa.
— Como assim?
— O Sr, Vance me quer em Boston, para que possa vigiar cada passo meu. Em resumo, praticamente me tornarei a prisioneira do seu querido CEO.
Houve um silêncio por um tempo, então continuei meu desabafo.
— Agora me diz… O que eu faço? Como posso deixar a minha mãe aqui sozinha com o meu irmão? Como posso aceitar isso?
— Amiga, você precisa respirar — a voz de Valentina vinha pelo viva-voz do celular, cheia de preocupação. — O Giovanne Vance é um monstro corporativo, ele sabe mexer com o psicológico das pessoas, mas essa me parece ser a sua única saída.
Eu andava de um lado para o outro no apartamento, puxando meus próprios cabelos.
— Ele me olhou como se eu fosse um lixo. Se eu aceitar, vou me entregar nas mãos de um homem que nem sei do que é capaz!
— Mas e o João Pedro, Jade? — o argumento de Valentina me congelou no lugar. — Sem o convênio da Vance, o tratamento dele vai ser cortado. Se transferirem o João para o SUS no estado em que ele está, ele não vai resistir por muito tempo, você sabe que já é difícil conseguir um leito de UTI... Você se encontra em uma situação de risco, se recusar, ele vai te ferrar, então use a sua mente brilhante a seu favor, ele também precisa de você. O dinheiro desse bilionário pode salvar seu irmão!
Fechei os olhos. Valentina estava certa, pelo meu irmão e minha mãe, eu faria qualquer sacrifício.
Já era fim do dia quando mamãe chegou em casa, o semblante abatido como sempre ficava por ver meu irmão naquele estado. Um rapaz que sempre foi ativo e bem humorado, agora imóvel e vivendo a custas de aparelhos em cima de uma cama.
— E então, mamãe. Como ele está?
— Na mesma, filha. Os médicos disseram que devemos começar a preparar a casa, pois é muito arriscado mantê-lo no hospital dessa forma, o risco de infecção é grande. Eles querem mandá-lo para casa com um home care.
— E isso não é bom, mãe? Ele vai poder ficar mais perto, vamos poder cuidar dele e estimular o progresso e…
— Filha… — Minha mãe me olhou com os olhos repletos de lágrimas. — Como isso seria possível com você desempregada? Desde que tudo aconteceu eu tive que largar o meu emprego pra cuidar dele, como vamos arcar com uma reforma? Com a equipe de enfermagem e tudo que é preciso? O SUS não oferece suporte 24h como seu irmão precisa, para isso teríamos que recorrer à justiça e até lá… Eu não sei o que fazer…
— Mãezinha… — Segurei as mãos dela, engolindo minha própria dor para tentar acalmá-la. — O presidente da empresa esteve lá e me chamou para conversar… Ele… Ele acreditou em mim.
— Mesmo? — Ela abriu os olhos com espanto, um sorriso brilhando em seu rosto. — Então você não foi demitida?
— Não… Mas… A minha permanência na empresa requer uma condição… É que… Eles querem manter a minha segurança e a segurança da fórmula e pra isso querem que eu trabalhe na sede do exterior.
— O que? Querem te mandar para os Estados Unidos?
— Isso, em Boston, e… Ele me garantiu que vai cuidar dos custos referentes ao meu irmão.
— Por que esse homem faria isso? Ele deve ter um coração de ouro, não é? Mas… Vamos ficar longe? Por quanto tempo?
— Não é bem bondade, mãe. É interesse. Eles precisam do meu trabalho.
— E o que você acha disso tudo? — Minha mãe me olhou com preocupação, enquanto eu tentava fingir que essa era a oportunidade da minha vida.
— Eu acho que pode ser muito bom para a minha carreira, e lá o laboratório é de ponta, talvez tenha mais recursos. Quanto antes eu conseguir finalizar essa fórmula, melhor…
Mamãe suspirou, talvez me lendo por dentro, identificando meus medos, minha angústia.
— Só faça isso se realmente for o melhor pra você, filha. Senão, nós daremos um jeito. Tudo bem?
Assenti com a cabeça, engolindo o nó que apertou minha garganta, tentando não chorar.
— Vai ser sim, mamãe, será o melhor pra nós.
No dia seguinte, às oito da manhã em ponto, empurrei as portas da presidência. Giovanne já estava lá, impecável, com um olhar que parecia ler a minha alma. Ao lado dele, um homem de expressão severa segurava uma pasta de couro preta. O advogado da família Vance.
— Vejo que é pontual, Dra. Vasconcelos — Giovanne disse, apontando para a cadeira à sua frente. — Sente-se, o Dr. Robert vai ler as cláusulas do seu novo regime de contratação.
Sentei-me, mantendo a espinha ereta.
— Eu aceito. Mas quero ouvir os termos.
O advogado pigarreou e abriu o documento. Cada palavra que saía da boca dele parecia uma corda se amarrando ao meu pescoço:
— Contrato de Desenvolvimento Científico e Exclusividade Pessoal. Vigência: trezentos e sessenta e seis dias. Cláusula Primeira: Do Isolamento e Coabitação. A contratada exercerá suas funções exclusivamente na sede principal em Boston. Por razões de segurança e risco de novos vazamentos, a contratada residirá obrigatoriamente na cobertura de propriedade do Sr. Giovanne Vance, tendo sua rotina e comunicações monitoradas pela segurança privada da empresa.
Olhei para Giovanne, chocada. Morar com ele? Sob o mesmo teto? Isso era um cativeiro? Mas ele permaneceu impassível, apenas me encarando.
— Cláusula Segunda: Da Disponibilidade. A contratada manterá regime de dedicação exclusiva e disponibilidade integral, incluindo plantões noturnos e viagens internacionais mandatórias com o CEO, sempre que o processamento de dados exigir.
— Cláusula Terceira: Da Restrição Afetiva. Fica expressamente proibido à contratada estabelecer qualquer tipo de relacionamento amoroso, flerte ou envolvimento íntimo com funcionários da Vance, concorrentes ou terceiros durante a vigência deste contrato.
Soltei uma risada cheia de deboche, encarando Giovanne diretamente.
— Restrição afetiva? Você quer controlar até com quem eu me relaciono, Vance? Isso é ridículo!
— Eu controlo o risco, Dra. Vasconcelos — a voz dele cortou o ar como uma navalha de gelo. — Foi a sua "afetividade" com o Renato que quase destruiu a minha empresa. No meu laboratório, você será uma cientista focada, não uma mulher vulnerável e distraída por sentimentos inúteis. Continue, Robert.
O advogado limpou a garganta, desconfortável. — Cláusula Quarta: Da Contrapartida. Em cumprimento ao acordo, a Vance Neuro-Genetics assumirá, a partir desta data, todos os custos médicos e internação de alta tecnologia do paciente João Pedro Vasconcelos em uma clínica de ponta, além de um subsídio mensal em dólares para o sustento de sua mãe. Caso o contrato seja quebrado por culpa da contratada, o financiamento médico cessará imediatamente.
O silêncio voltou a reinar na sala quando o advogado colocou a caneta sobre o papel.
Eu olhei para aquela linha de assinatura. Giovanne Vance tinha desenhado a armadilha perfeita. Ele ia me monitorar vinte e quatro horas por dia, me tratando como uma ameaça, mas, ao mesmo tempo, estava garantindo a vida da minha família.
— Tudo bem, mas tenho uma condição.
Giovanne me encarou erguendo uma sobrancelha, um ar de pura soberba.
— Meu irmão precisa ir para casa com um home care. Precisamos adaptar a nossa casa com uma semi UTI, e essa reforma e transferência dele deve ocorrer antes da minha viagem e é o senhor quem vai custear.
O homem soltou uma risada rouca, enquanto eu mantinha minha postura ereta e irredutível, afinal, ele precisava de mim tanto quanto eu precisava dele.
— A senhorita não está em condições de fazer exigências, Vasconcelos, mas diante da situação e como inclui os custos com o seu irmão… Tudo bem, faremos isso.
~~ Eleanor ~~Eu estava na sala da presidência em Boston, revisando os relatórios de mitigação de danos após a prisão de Washington, quando a secretária abriu a porta com uma expressão hesitante.— Senhora Vance... A senhorita Alexandra Hastings está na recepção. Os seguranças iam barrá-la, mas ela está muito alterada e exigiu falar com a senhora.Fechei a pasta de couro sobre a mesa, sentindo a minha espinha enrijecer.— Deixe-a entrar — ordenei, ajeitando a minha postura na cadeira. Eu queria ver até onde ia a audácia daquela garota.Quando a porta se abriu novamente, a mulher que cruzou a soleira não parecia a herdeira impecável e soberba de sempre. Alexandra estava pálida, com os cabelos levemente desgrenhados e uma expressão de puro pânico.— Eleanor... — ela começou, a voz trêmula, dando passos rápidos até a minha mesa. — Graças a Deus a senhora me atendeu. Onde ele está?Encarei-a com um olhar que poderia congelar o próprio inferno. Não me levantei, sequer pisquei.— Como você
~~ Jade ~~Duas semanas se passaram. Saber por Eleanor que Richard Hastings estava sendo investigado pela polícia americana como um dos prováveis financiadores do ataque contra Giovanne, além de toda a sujeira financeira contra a empresa, mantinha o meu estômago embrulhado.A sensação de impotência e medo era uma sombra constante. Eleanor havia redobrado a segurança em Boston e ordenado escolta privada vinte e quatro horas para nós no hospital. Edward, Valentina e eu, mesmo estando no Brasil, vivíamos nos escondendo, em alerta constante. Eu não tinha mais coragem de pisar nem mesmo na sede brasileira da Vance.Certa manhã, enquanto me preparava para ir ao hospital, parei de frente ao espelho do quarto. Estava vestindo apenas as minhas roupas íntimas, que agora já começavam a ficar desconfortavelmente apertadas.Minha barriga, agora entrando no quarto mês, finalmente começava a criar forma. A pequena curva sob o umbigo já era perceptível, arredondada e impossível de ser escondida sob r
~~ Eleanor ~~O peso de retornar à sede da Vance Neuro-Genetics parecia carregar todas as toneladas do fracasso que evitei encarar por anos. Enquanto meu salto estalava contra o piso do saguão, os olhares dos funcionários e executivos recaíam sobre mim com uma mistura de choque, sussurros e temor. Washington, meu próprio irmão, havia sido preso em uma operação federal esmagadora, arrastado por crimes que ameaçavam desmoronar o império fundado por meu falecido marido.Entrei na imensa sala de reuniões do conselho com a postura erguida, vestindo uma armadura de frieza que aprendi a dominar no mundo corporativo. Ao redor da mesa oval, os acionistas majoritários murmuravam em pânico. A queda das ações na bolsa nas últimas horas era um reflexo direto do escândalo.— Silêncio, por favor — exigi, ocupando a cadeira principal da presidência, um lugar que por direito pertencia ao meu filho.O burburinho cessou aos poucos. Antes que qualquer acionista pudesse abrir a boca para disparar question
— Preso? Minha nossa! Mas por quê? — Minha mãe nos olhou com espanto, totalmente por fora do que estava acontecendo.— Então ficou comprovado? Ele teve envolvimento com o acidente? — ela continuou, levando a mão ao peito e passando o olhar de mim para Eleanor, em busca de respostas.— Não sei. Não souberam me dizer exatamente os termos, mas não teriam prendido ele à toa... — Eleanor balbuciou, visivelmente abalada.Minha mãe rapidamente correu para ampará-la, puxando uma cadeira próxima. — Venha, sente-se um pouco. Vou pegar uma água.Em poucos segundos, mamãe retornou e a serviu com o copo de água, que minha sogra segurava com as mãos trêmulas, tomando um gole com dificuldade.— A senhora teve acesso aos documentos da auditoria? — perguntei, cruzando os braços, tentando entender a extensão do estrago que estava ocorrendo em Boston.Eleanor abaixou a cabeça, balançando-a positivamente. — A polícia me chamou para prestar depoimento. Eu não sabia dessa sujeira toda, Jade. Meu marido me
~~ Jade ~~A semana finalmente chegou ao fim e, como prometido, no sábado pela manhã, Eleanor desembarcou no Brasil. Minha mãe havia ficado com Giovanne no hospital, então eu mesma fiz questão de buscá-la pessoalmente no aeroporto.Encontrei-a no saguão, vestindo um conjunto de alfaiataria elegante e arrastando duas malas caras. O trajeto até o carro foi silencioso, mas assim que o motorista assumiu o volante, ela quebrou o silêncio, olhando pela janela com uma expressão pensativa.— Já faz anos que não retorno aqui. Depois que meus pais morreram, nunca mais tive vontade.— O Washington é seu único irmão? — perguntei, tentando manter um tom amigável e abrir espaço para a nossa primeira conversa civilizada.— Nós éramos quatro, mas um já faleceu, e a outra vive na Europa.Sorri de leve, assentindo, enquanto observava a paisagem de São Paulo passar.— Viu o Giovanne hoje? Como ele está? — ela perguntou, o olhar ainda fixo no trajeto, mas a voz carregando uma preocupação verdadeira.— Ho
~~ Valentina ~~ Mesmo que Edward já tivesse me contado os fatos, ouvir tudo novamente causava a mesma sensação de angústia misturada ao desejo implacável de obter justiça.O silêncio na sala virtual de videoconferência permaneceu pesado por alguns segundos após o término do relato dele. Através da tela, o detetive Walker e o oficial de ligação da cooperação internacional pareciam processar cada palavra, anotando detalhes minuciosos que ele acabara de expor.— Obrigado, Sr. Harrison. O seu depoimento é cristalino e muito esclarecedor — o detetive Walker declarou, ajeitando os óculos com uma expressão firme. — As provas documentais que a auditoria e os representantes da família apresentaram corroboram exatamente a sua narrativa.Senti um misto de alívio e amargor ao ouvir aquilo. Edward me olhou com uma expressão de profunda tristeza, os olhos repletos de lágrimas.— Fico satisfeito em saber que a verdade está vindo à tona — ele respondeu com a voz embargada. — Se precisarem de qualque







