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Capítulo 8: Cativeiro

Autor: Jhenny M.
last update Fecha de publicación: 2026-08-01 10:35:22

~~ Giovanne ~~

Assim que deixei a sala de reuniões, engoli o gosto amargo da provocação do meu tio e segui direto rumo aos laboratórios para ver como estava a adaptação de Jade. Eu precisava de fatos, não de suposições de acionistas.

— Quer dizer que você conseguiu mesmo trazer a criadora da fórmula? E o rapaz que foi para a Apex... a criação não é dele? — Edward, meu vice-presidente e amigo de longa data, quebrou o silêncio do corredor. Ele falava com seu português carregado de sotaque americano, caminhando a passos rápidos para acompanhar o meu ritmo.

— Para a minha sorte, não — respondi, sem desacelerar. — Aquele safado era o namorado da tal Jade, a verdadeira mente por trás do projeto. Ele se aproveitou da confiança dela, roubou as informações parciais e fugiu.

— Parece até a história de alguém que eu conheço — Edward comentou, soltando um riso abafado.

Parei abruptamente antes de alcançar a antecâmara de vidro do laboratório e dei uma encarada seca nele. Meu olhar foi cortante o suficiente para que ele entendesse, de uma vez por todas, que aquela linha estava proibida. Ninguém tocava no nome de Alexandra perto de mim. Ninguém.

— A questão — continuei, voltando a andar com a voz fria — é que no Brasil, até que se prove o contrário, a Jade é a culpada por ter vazado as informações. E eu serei a última pessoa na face da Terra a colocar a mão no fogo por ela.

— O quê? — Edward franziu o cenho, o tom de brincadeira sumindo. — E se ela realmente for conivente com a Apex? Giovanne, você pode ter colocado uma espiã dentro da nossa sede global. 

— Eu estou monitorando cada passo dela, Edward. Cada respiração.

— Como? Você não vai conseguir fazer isso vinte e quatro horas por dia. Você tem uma empresa inteira para gerir.

Abri um sorriso presunçoso, olhando-o com o desdém de quem tem o controle absoluto da situação.

— Ela está ficando no meu apartamento e seguindo as normas estritas de um contrato. Instalei escutas em todos os cômodos da cobertura, incluindo os laboratórios daqui. Ela está proibida de sair de lá ou daqui sem a minha autorização expressa. Se ela vacilar um milímetro, eu mesmo destruirei a carreira dela e a coloco atrás das grades.

— Nossa, que homem cruel. Está mantendo a coitada em um cativeiro? — Edward comentou, rindo de canto, meio impressionado com o meu radicalismo.

— Se eu descobrir que ela realmente foi conivente com a Apex, assim que eu conseguir o que preciso para estabilizar a Phoenix, o destino dela será bem simples: vai sair do meu cativeiro direto para um de verdade, em um presídio federal.

Edward soltou uma risadinha maléfica, o tipo de som de quem apreciava os meus métodos implacáveis. 

Passamos pela barreira de segurança e entramos no laboratório principal. Jade estava lá, completamente focada em seu trabalho, isolada em uma bancada de inox. 

Quando a porta automática se abriu, ela passou o olhar entediado por mim, seguiu para Edward com puro desdém e, sem dizer uma única palavra, voltou a ajustar o foco do microscópio eletrônico. Aquela forma petulante e debochada de me ignorar na frente do meu vice-presidente fez meu sangue ferver.

— Você não tinha dito que ela é tão linda... — Edward comentou em inglês, baixinho, aproximando-se de mim. — Confesso que imaginei uma nerd sem sal, mas ela tem algo… Interessante.

Vi no sorriso de canto que se abriu discretamente nos lábios dela, logo abaixo das lentes protetoras, que ela havia compreendido cada palavra do inglês dele. A insolente estava se divertindo.

— Não disse porque não achei tudo isso — provoquei de volta, também em inglês, elevando o tom para que ela escutasse perfeitamente.

Notei a revirada de olhos sutil que ela deu antes de se afastar do aparelho. Sentindo-me temporariamente vitorioso, pigarreei, chamando a atenção dela de forma oficial.

— A senhorita não tem educação? Não sabe como tratar seus superiores? — chamei sua atenção, cruzando os braços.

— O que você deseja, senhor Vance? — Jade respondeu, retirando os óculos com uma calma que me irritava. — Que eu faça algum tipo de reverência ou o quê?

Edward levou a mão à boca, contendo a risada.

— Eu não irei admitir tamanha falta de respeito, senhorita Vasconcelos! Acho que você ainda não entendeu qual é a sua posição aqui dentro! Você está aqui sob os meus termos.

— A minha posição é de uma funcionária que está tentando trabalhar — rebateu, cortante. — Você quer o quê? Que eu participe da conversa fiada? Pois bem... — Ela ignorou a minha fúria e olhou diretamente para Edward, estendendo a mão calçada com a luva. — Obrigada pelo elogio, senhor é...

— Edward — meu vice-presidente a cumprimentou prontamente, apertando sua mão em um tom de flerte descarado que me deu um nó no estômago. — Muito prazer, senhorita Jade.

— O prazer é meu — ela respondeu com um sorriso simpático, o primeiro que eu a via dar desde que pisara neste país, então, ela se virou para mim, os olhos faiscando. — Quanto ao senhor, Vance... também não te acho isso tudo que dizem, por aí. Percebi que as fotos das manchetes são puro photoshop.

Edward soltou uma risada sincera e alta, enquanto o meu maxilar travava.

— Vejo que vocês dois estão se dando muito bem — meu amigo comentou, dando tapinhas pesados nas minhas costas, divertindo-se com a minha humilhação.

— Você é tão engraçadinha, Vasconcelos... — sibilei, dando um passo à frente. — Espero que quando estiver atrás das grades ainda tenha esse mesmo bom humor para piadas.

— O senhor veio aqui por quê mesmo? — ela me cortou, cruzando os braços sobre o jaleco. — Posso ajudar com algo? Ou me permite continuar o meu trabalho? O tempo está correndo para ambos.

— Vim ver de perto se está cumprindo com as suas obrigações e te avisar de uma coisa — assumi minha postura mais corporativa e fria. — Tem muita gente curiosa no conselho para saber quem é você. Para todos os efeitos, o seu contrato não é com a Vance Neuro-Genetics, é um acordo privado comigo. É confidencial. Essa é a única informação que você está autorizada a passar para qualquer funcionário que pergunte. Ouviu bem?

— Sim, senhor.

— Não dê assunto a ninguém que tentar se aproximar, não fique de conversinhas nos corredores e não passe qualquer tipo de informação pessoal ou técnica. Para o seu próprio bem — ordenei, fitando-a com severidade.

— Não se preocupe — ela deu de ombros com total indiferença, ajustando os óculos e voltando-se para o microscópio.

A forma como ela me tratava, ignorando o meu poder e a minha capacidade de destruí-la, me instigava ao mesmo tempo em que me despertava uma raiva profunda. Ninguém me peitava assim, ninguém.

O dia foi passando e eu voltei para a minha sala, mas não consegui focar inteiramente. Mantive o fone de ouvido conectado ao canal do laboratório a maior parte do tempo. Não vi Jade parar sequer para comer ou tomar água. Eu escutava o som dos equipamentos, o clique dos teclados, mas ela não falava com ninguém, sequer tocou no telefone celular. Uma coisa eu precisava admitir, ela era obstinada e absurdamente focada, exatamente o que eu precisava.

Por volta das 17h, saí da sede e fui direto a um mercado local no centro de Boston. Analisei mais uma vez aquela lista miserável que ela tinha me entregado, decidi ignorar o orgulho e comprei várias coisas a mais: frutas frescas, massas de boa qualidade, sucos e alguns condimentos. Na sequência, fui a uma loja de eletrodomésticos e comprei um frigobar de inox, um fogão elétrico de indução de duas bocas e um pequeno armário para que ela guardasse seus utensílios.

Por um momento, até me perguntei se eu não estava sendo extremista demais ao isolá-la daquela forma no quarto, mas balancei a cabeça. Quanto mais distantes ficássemos um do outro dentro daquela cobertura, melhor para a minha sanidade e para a segurança do projeto.

Cheguei em casa já passava das 19h e Jade ainda não havia retornado. Deram 20h, depois 21h, e o silêncio começou a me incomodar. Peguei o celular e liguei para o segurança disfarçado de motorista que estava encarregado de buscá-la.

— Onde está a Jade? — perguntei assim que ele atendeu.

— Ela ainda não saiu da empresa, senhor Vance. Permanece trancada no laboratório de biossegurança.

— Vá até lá agora mesmo. Diga que é uma ordem minha para encerrar o expediente por hoje — ordenei, batendo o telefone. Ela achava que era uma máquina?

Pouco mais de meia hora depois, o elevador privativo apitou e Jade passou por mim de cabeça baixa, mas a fiz parar no meio do corredor da entrada.

— Seu frigobar e o fogão elétrico já foram instalados no seu quarto. Tem um pequeno armário lá também para guardar as suas coisas — avisei, mantendo a voz firme, sem demonstrar que estive preocupado com o horário. — O que precisar de panelas, pratos e talheres pode pegar na minha cozinha raramente eu uso. Depois, se for necessário, compro um jogo exclusivo para você.

— Certo. Obrigada — a voz dela saiu arrastada, quase um sussurro. Ela estava visivelmente exausta, com os ombros levemente caídos.

— As suas compras estão ali na bancada — apontei com o queixo para as sacolas de papel pardo. — O que era de geladeira eu já guardei.

Jade respondeu desta vez apenas com um aceno de cabeça fraco. Passou por mim em um silêncio profundo, sem me dar a chance de estender a conversa, pegou as sacolas e se trancou em seu quarto, não saindo  mais.

Voltei para a minha mesa, coloquei os fones e ativei a escuta. Passei um tempo esperando para ver se ela ligaria para algum cúmplice ou para o Renato, mas a única chamada que ela fez foi para a mãe. Novamente, me vi obrigado a escutar aquela farsa dolorosa. Jade manteve a voz firme, dizendo que o primeiro dia tinha sido incrível, que os laboratórios eram de outro mundo e que estava muito feliz. Ela sustentou a aparência de felicidade até o último segundo da chamada.

Assim que desligou, o silêncio durou poucos segundos antes de dar lugar àquele choro abafado e doloroso que eu já começava a reconhecer. Fiquei ouvindo os soluços contidos dela contra o travesseiro por quase uma hora, até que o quarto silenciou por completo e ela adormeceu. Tirei os fones, sentindo um incômodo estranho no peito. Ela era uma prisioneira insolente, mas o preço que estava pagando por aquela fórmula era alto demais.

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