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Capítulo 9: Nas sombras da Madrugada

Author: Jhenny M.
last update publish date: 2026-08-01 10:45:43

~~  Jade ~~

Nos dias seguintes, eu me transformei em um robô.

Minha rotina se resumia ao tique-taque do relógio e às ordens cegas do contrato. Às 7h40 em ponto, eu cruzava a portaria e entrava no sedã preto do motorista silencioso. Passava de doze a catorze horas trancada no laboratório de biossegurança da Vance, ignorando os olhares de soslaio e os sussurros em inglês dos pesquisadores americanos, que claramente me viam como uma intrusa protegida pelo chefe. 

Eu não me importava, minha mente estava focada em simular as combinações moleculares da Fórmula Phoenix até os meus olhos arderem. Quando voltava para a cobertura, por volta das vinte e duas horas, eu me trancava na minha gaiola de ouro e desabava.

Quase duas semanas haviam se passado, mas na madrugada daquela quinta-feira, meu corpo cobrou o preço.

Eram quase duas da manhã. Eu estava sentada na escrivaninha do quarto, encarando os gráficos de saturação sináptica no laptop, quando uma enxaqueca violenta latejou atrás dos meus olhos. Minha garganta parecia seca como gesso, então levantei-me e fui até o frigobar de inox que Giovanne havia instalado, mas ao abrir a porta, vi minha garrafa vazia, eu tinha esquecido completamente de abastecê-la.

Olhei para a porta da suíte, a regra dele tinha sido clara: “prefiro que evite circular, não quero perder a minha privacidade”. Mas eu precisava de água e de um analgésico de forma desesperada.

Afastei os lençóis e saí pelo corredor escuro. Eu vestia apenas uma camisola simples de algodão branco, de alças finas, que ia até a metade das minhas coxas. Era uma peça confortável para dormir, mas no escuro daquela cobertura monumental, de repente me pareceu leve e exposta demais. Caminhei na ponta dos pés em direção à cozinha em formato de ilha, torcendo para que o monstro de gelo estivesse dormindo em seus aposentos no outro extremo do apartamento.

Mas ele não estava.

Prendi a respiração, congelando no lugar quando entrei na área da cozinha. Sentado em uma das banquetas altas de couro, de frente para o vidro que exibia a linha do horizonte iluminada de Boston, estava Giovanne.

Naquele momento, não havia ternos sob medida, gravatas alinhadas ou um visual impecável. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza e estava completamente sem camisa. Meus olhos se fixaram na silhueta dele antes que eu pudesse evitar. Sob a luz do luar, o corpo de Giovanne era absurdamente atraente; os ombros largos, os braços definidos e os músculos do abdômen desenhados de forma impecável mostravam um vigor físico que o terno costumava camuflar. Seus cabelos escuros estavam desalinhados, caindo levemente sobre a testa, e uma garrafa de uísque importado, já pela metade, repousava ao lado de um copo de cristal. Ele segurava o copo com os dedos longos, os olhos azuis perdidos na imensidão das luzes da cidade. Ele parecia... humano e terrivelmente quebrado.

Tentei recuar um passo, mas o meu chinelo rangeu de leve no piso.

Giovanne não se assustou, apenas girou o copo devagar, o som do gelo batendo no cristal ecoando no silêncio, e virou o rosto na minha direção. Seus olhos estavam levemente injetados e desprovidos do cinismo habitual.

— Eu disse para limitar suas necessidades ao quarto, Dra. Vasconcelos — a voz dele saiu mais rouca do que o normal, arrastada pelo cansaço e pelo álcool. — O que faz de pé a essa hora? 

— Minha garrafa está vazia e eu precisava de água para tomar um remédio — respondi, mantendo a voz baixa, o coração batendo rápido contra as minhas costelas. — Não achei que estaria acordado.

— Remédio? O que você tem?

— Muita dor de cabeça.

— Já parou pra pensar que pode ser cansaço? Talvez dormir seja o remédio.

Giovanne levantou-se da banqueta com uma lentidão calculada. Quando ele se virou de frente, seus olhos azuis desceram pelo meu rosto, demorando-se nas minhas pálpebras inchadas antes de varrerem o meu corpo de cima a baixo. O olhar dele se demorou no contorno da minha camisola de algodão, que se ajustava sutilmente às minhas curvas. Houve um estalo visível de tensão no ambiente, a forma como ele me olhou, intensa e intrigada, fez minha pele arrepiar por completo.

— Pegue a água — ele disse, a voz descendo um tom.

Caminhei a passos rápidos, sentindo o calor do corpo dele enquanto passava ao seu lado. Abri a geladeira, peguei a garrafa de vidro e servi um copo, engolindo o analgésico rapidamente, desejando apenas sumir dali. Quando me virei para ir embora, percebi que ele havia encurtado a distância.

Giovanne agora estava a poucos centímetros de mim, bloqueando a minha saída e exalando um perfume amadeirado misturado ao toque forte do uísque.

— Edward me disse que você avançou duas fases da triagem molecular. Ele parecia… Impressionado. — ele começou, os olhos fixos nos meus, sustentando uma proximidade perigosa. Um sorriso cínico e minimalista surgiu em seus lábios. — Parece que o meu vice-presidente gostou bastante de você...

Antes que eu pudesse rebater, Giovanne deu mais um passo à frente, colando quase que totalmente o seu peito nu ao meu corpo, obrigando-me a recuar até que minhas costas batessem contra o balcão frio de granito. Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu pescoço, e sua voz rouca soprou diretamente perto do meu ouvido, fazendo meu coração disparar em um ritmo desgovernado.

— Mas eu preciso te lembrar de uma coisa, Jade... Você não deve se aproximar de ninguém, ninguém, nem mesmo dele. Não se esqueça. A restrição afetiva também serve para o Edward. Se eu notar qualquer conversinha fiada ou gracinha pelos corredores, o contrato acaba e o seu irmão perde o meu suporte. Fui claro?

A proximidade do seu corpo quente contra o meu, a fragrância dele e a ameaça sussurrada criaram uma atmosfera sufocante. Havia uma batalha silenciosa acontecendo ali; ele tentava usar o contrato como uma arma, mas os seus olhos entregavam uma faísca de possessividade que não tinha nada a ver com negócios.

— Eu sei muito bem o que assinei, senhor Vance — respondi, o queixo erguido, tentando manter a voz firme apesar do tremor interno que me dominava. — Eu não estou aqui de brincadeira, tenho tanto interesse quanto o senhor de acabar com isso o quanto antes.

Giovanne travou o maxilar, os olhos descendo para os meus lábios por um milésimo de segundo antes de recuar um passo, quebrando o feitiço que parecia nos prender no escuro daquela cozinha, então pegou o copo de uísque e me deu as costas.

— Volte para o quarto, Jade e amanhã, abasteça a sua geladeira. Não quero novas interrupções.

Virei-me e praticamente corri pelo corredor. Fechei a porta do meu quarto e me encostei nela, tentando recuperar o ar que havia sumido dos meus pulmões.

— Caramba… O que foi isso?

Giovanne Vance era um monstro de gelo, arrogante e implacável, mas aquela madrugada tinha provado que a nossa convivência seria muito mais perigosa do que eu imaginava. O toque invisível da sua presença tinha feito o meu corpo reagir de um jeito que eu jamais deveria permitir. 

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