FAZER LOGINCora
Acordei no dia seguinte com o sol invadindo o quarto pelas enormes cortinas de seda.
Por alguns segundos fiquei completamente imóvel, encarando o teto branco impecável enquanto tentava entender onde estava.
Então tudo voltou de uma vez.
A mansão.
O noivado.
Otto.
Dona Alma.
Minha mãe.
Soltei o ar lentamente e virei a cabeça para o lado da cama.
Vazio.
Otto não estava ali.
E aquilo não me surpreendeu.
Na verdade... eu já esperava.
Porque depois da conversa da noite passada, uma coisa ficou muito clara:
Eu e Otto jamais nos amaríamos.
Nós nos casaríamos.
Seríamos parceiros.
Talvez até melhores amigos.
Mas amor?
Não.
E pela primeira vez desde que tudo aquilo começou... eu não via isso como algo ruim.
Talvez fosse mais fácil assim.
Mais seguro.
Sem expectativas.
Sem dor.
Sem corações partidos.
Eu até conseguia imaginar nosso futuro.
Casados.
Dormindo em quartos separados.
Sorrindo em eventos sociais.
Sendo o casal perfeito diante das câmeras enquanto escondíamos nossos próprios segredos.
Provavelmente eu mesma sugeriria inseminação artificial no futuro só para dar os netos que Alma tanto queria.
Porque, no fundo...
Otto carregava algo dentro dele.
Um segredo.
Eu senti isso ontem.
Nas pausas.
Nos olhares desviados.
Na forma cuidadosa como escolhia cada palavra.
Era como se estivesse constantemente escondendo alguma coisa.
E mais do que isso...
Era algo que Dona Alma jamais poderia descobrir.
Não sabia se aquilo era medo.
Vergonha.
Ou os dois.
Mas eu sabia que existia.
E sabia também que Alma surtaria se descobrisse.
- Bom dia, sumida.
A voz de Judith me arrancou dos pensamentos.
Olhei para porta vendo ela entrar no quarto acompanhada de Kami, que segurava um copo gigante de café e parecia ter acabado de acordar de um coma.
- Bom dia... - murmurei me jogando novamente na cama.
Kami entrou sem cerimônia nenhuma.
- Alma teve que ir para o México resolver algumas coisas. - Kami diz.
Franzi a testa.
- México?
- Negócios. - Judith respondeu calmamente. - Otto foi com ela.
- Então... - Kami sorriu maliciosamente. - Você está oficialmente livre dela pelos próximos três dias.
Levantei as mãos para o alto dramaticamente.
- Graças a Deus!
As duas começaram a rir.
- Dramática. - Judith comentou.
- Realista. Minha futura sogra me dá medo.
Kami se jogou numa poltrona.
- Isso porque você conheceu a versão controlada dela. - Kami diz indiferente.
- Existe versão pior?! - Pergunto querendo me jogar da janela.
As duas se entreolharam.
Aquilo não era um bom sinal.
Sentei na cama cruzando as pernas.
- Meninas... Otto tem algum segredo? - Pergunto.
O ambiente mudou imediatamente.
O sorriso delas sumiu.
Kami quase derrubou o café.
Judith ficou pálida.
E aquilo confirmou ainda mais minhas suspeitas.
- De onde você tirou isso? - Judith perguntou cautelosa.
- Nós conversamos a noite toda. - respondi dando de ombros. - E dava para sentir que ele queria me contar algo... mas alguma coisa o impedia.
Silêncio.
Kami encarava Judith como se estivesse dizendo "não fala nada".
Judith suspirou.
- Cora... quando dissemos que Otto seria o melhor marido para você... falamos sério. - Judith diz cautelosa.
Franzi a testa.
- O que isso significa?
- Significa que Otto jamais faria algo que você não quisesse. - ela respondeu cuidadosamente. - E mesmo que você quisesse... talvez ele ainda não faria.
Aquilo fez meu coração acelerar.
Meu Deus.
Kami fechou os olhos imediatamente.
- Não podemos abrir o bico, Judith. - Kami diz nervosa.
Judith mordeu o lábio discretamente.
- Vocês começaram. Agora terminem. - falei.
Kami se levantou da poltrona.
- Não podemos, Cora. Quem precisa contar é o próprio Otto. Isso é pessoal demais.
A sinceridade na voz dela me fez baixar a guarda.
- Eu entendo.
E entendia mesmo.
Se Otto escondia algo tão importante... talvez fosse porque aquele mundo não permitia certas verdades.
Levantei da cama indo em direção ao banheiro.
- Vou tomar banho.
- E depois? - Kami perguntou.
- Depois eu vou existir sem a supervisão da Alma De Luca.
Ela riu.
- Radical.
Tomei uma ducha rápida.
Quente.
Silenciosa.
E pela primeira vez desde que entrei naquela mansão consegui respirar um pouco.
Quando saí do banheiro enrolada na toalha, fui direto ao closet gigantesco.
Mas dessa vez ignorei completamente os vestidos absurdamente caros.
Peguei um short confortável.
Um moletom largo.
Tênis branco.
Roupa de verdade.
Roupa de Cora Moreira.
Quando saí do closet, Judith quase infartou.
- Que roupa é essa?!
Olhei para mim mesma.
- Uma roupa?
- Cora! - ela parecia genuinamente horrorizada. - Você parece...
- Feliz? Confortável? Humana?
Kami começou a gargalhar.
- Eu gostei.
- Judith... - suspirei. - Alma está no México. Eu estou livre dos mandamentos dela por três dias. Então vou me vestir como Cora Moreira, não como futura princesa da Disney rica.
Kami bateu palmas lentamente.
- Finalmente alguém enfrentando o sistema.
Judith massageou a testa dramaticamente.
- Vocês vão me enlouquecer.
- Vai sobreviver. - respondi sorrindo.
Peguei o celular na bancada.
- Vocês estão liberadas.
- Liberadas? - Kami arqueou a sobrancelha.
- Sim. Vão para festas. Casas de praia. Escândalos milionários. Façam o que vocês faziam antes de eu aparecer.
Kami abriu um sorriso enorme.
- Ótimo. Vou passar três dias trancada no quarto lendo romances proibidos. - Kami diz mostrando uma animação que ainda não tinha visto.
- Você é deprimente. - Judith comentou.
- E você controladora.
Revirei os olhos divertida enquanto as duas começavam a discutir.
No fim Judith veio me abraçar primeiro.
- Qualquer coisa me liga.
- Vou sobreviver.
Kami me abraçou logo depois.
- Não morre enquanto eu estiver fora.
- Vou tentar.
E então elas foram embora.
O silêncio tomou conta da mansão.
Finalmente.
Enfim sozinha.
Suspirei aliviada antes de sair do quarto.
Desci as enormes escadas lentamente observando a casa vazia.
Sem Dona Alma.
Sem empregados correndo atrás de mim.
Sem eventos absurdos.
Só paz.
Atravessei a sala principal indo em direção ao jardim.
E meu Deus...
Aquele lugar era gigantesco.
Literalmente maior que meu bairro inteiro.
Flores perfeitamente cuidadas preenchiam o ambiente enquanto fontes enormes refletiam a luz do sol.
Parecia cenário de filme.
Caminhei sem rumo pelos caminhos de pedra até encontrar um banco escondido entre árvores altas.
Sentei devagar respirando fundo.
Silêncio.
Finalmente silêncio.
Passei os olhos distraidamente pelo banco até notar algumas letras entalhadas na madeira.
Franzi a testa.
Me aproximei mais.
Otto & Julian.
Meu coração falhou.
Espera...
Não.
Meu Deus.
Meu Deus.
O segredo.
Otto é gay.
Levei a mão até a boca lentamente enquanto tudo fazia sentido dentro da minha cabeça.
A falta de interesse.
O cuidado extremo comigo.
As pausas nas conversas.
O peso nos olhos dele.
Meu Deus...
Coitado.
Meu peito apertou imediatamente.
Porque eu conseguia imaginar.
Aquela família.
Aquela sociedade.
Dona Alma.
Casamentos arranjados.
Fortunas.
Imagem perfeita.
Otto estava preso.
Preso numa vida onde nunca poderia amar livremente.
Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto sem que eu percebesse.
Passei os dedos devagar pelo relevo do nome gravado no banco.
Otto & Julian.
Havia amor ali.
Dava para sentir.
E aquilo me destruiu.
Porque ninguém deveria esconder quem ama por medo.
Ninguém.
- O que faz aqui?
A voz masculina atrás de mim me fez dar um pulo enorme.
Virei rapidamente.
E então o mundo simplesmente... parou.
Porque o homem parado poucos metros atrás de mim era absurdamente bonito.
Não.
Bonito não era suficiente.
Ele era intenso.
Alto.
Cabelos escuros levemente bagunçados.
Olhos quase negros.
Perigosos.
E havia alguma coisa nele...
Algo sombrio.
Algo que fez uma corrente elétrica atravessar meu corpo inteiro no instante em que nossos olhares se encontraram.
Meu coração disparou tão forte que fiquei irritada comigo mesma.
- Tomando ar. - respondi tentando parecer normal.
Ele me observou em silêncio por alguns segundos.
Como se me analisasse.
Como se tentasse descobrir algo.
- Quem te deu permissão?
Arqueei uma sobrancelha imediatamente.
- Desculpa?
- Para ficar aqui.
- Alma. A dona da casa. - rebati cruzando os braços. - Você é o chefe da segurança?
Ele pareceu ofendido.
- O quê? Claro que não.
- Então por que esse interrogatório?
Ele se aproximou devagar.
Meu Deus.
Até andando aquele homem parecia perigoso.
- Porque tem uma estranha no jardim da minha casa.
Minha casa.
E então tudo fez sentido.
Meu coração tropeçou.
Dante.
Aquele era Dante De Luca.
- Alma foi para o México. - falei tentando ignorar o efeito absurdo que a presença dele causava em mim. - Fiquei sozinha e resolvi vir ao jardim. Não pedi para estar aqui, senhor De Luca.
Ele arqueou uma sobrancelha lentamente.
- Você sabe quem eu sou?
- Não sabia. - admiti. - Mas você disse "minha casa", então deduzi.
Os olhos dele desceram lentamente pela minha roupa simples.
Short.
Moletom.
Tênis.
Quase ri sozinha.
Claro que ele me confundiria com uma funcionária.
- E você quem é?
- Cora.
Silêncio.
- Nova funcionária?
Não consegui evitar a risada debochada.
- Não.
Ele franziu a testa.
- Então?
- Sou a noiva do seu irmão.
Os olhos dele mudaram imediatamente.
Interessado.
Surpreso.
Confuso.
- O noivado foi ontem. - continuei. - Você não estava presente, coisa que deixou sua mãe extremamente estressada e acabou sobrando para mim, porque ela me obrigou a usar um salto assassino que destruiu meus pés.
Falei rápido demais.
E ele riu.
Baixo.
Rouco.
Meu Deus.
Aquilo arrepiou minha pele inteira.
- Qual a graça? - perguntei irritada.
- Você fica vermelha quando fala das loucuras da minha mãe.
Revirei os olhos.
- Porque ela é maluca.
- Um pouco excêntrica talvez.
- Não. Maluca mesmo.
O sorriso dele aumentou discretamente.
E aquilo deveria ser proibido.
- Você se acostuma. - ele disse. - Em breve será uma De Luca.
- Não por opção.
Algo estranho passou pelos olhos dele naquele instante.
Como se entendesse exatamente o peso daquela frase.
- Meu irmão vai te tratar bem.
Olhei novamente para o banco.
Para os nomes gravados.
E meu peito apertou.
- Pena que nenhum de nós poderá ser feliz.
Passei os dedos lentamente sobre o nome Julian outra vez.
Quando levantei os olhos novamente... Dante estava diferente.
Tenso.
Os olhos escuros emanavam puro alerta.
- Minha mãe não pode saber.
A voz dele saiu séria.
Firme.
Intensa.
- Não conte nada a ela, Cora. Me promete.
Pela primeira vez desde que ele apareceu... eu vi medo.
Medo real.
Aquilo me assustou.
Porque Dante De Luca parecia o tipo de homem que fazia os outros terem medo dele.
Não o contrário.
Me aproximei devagar.
- Você tem medo dela?
Ele travou o maxilar.
- Tenho medo do que posso fazer com ela se machucar meu irmão.
Meu corpo arrepiou.
Porque naquele instante os olhos dele ficaram assustadoramente escuros.
Intensos.
Quase violentos.
O silêncio entre nós ficou pesado.
Denso.
E então senti algo pousar no meu pescoço.
Franzi a testa.
Uma picada forte veio logo em seguida.
- Merda!
Dante se aproximou rapidamente.
- O que foi?
Levei a mão ao pescoço.
Abelha.
Droga.
Minha respiração falhou quase imediatamente.
- Me ajuda... - murmurei já sentindo o ar sumir. - Uma abelha me picou.
O rosto dele perdeu a cor.
- Merda, Cora. Você é alérgica?!
Assenti desesperadamente.
No segundo seguinte ele me pegou no colo.
Meu coração disparou.
O mundo começou a ficar embaçado enquanto ele corria comigo para dentro da mansão.
- Fica acordada. - a voz dele saiu firme. - Olha pra mim.
Mas estava difícil respirar.
Muito difícil.
O ar parecia desaparecer dos meus pulmões.
E tudo o que consegui pensar foi na minha mãe.
Se eu morresse...
Quem cuidaria dela?
- Eu não posso morrer... - minha voz saiu falha.
- Não fala besteira. - Dante respondeu imediatamente. - Você não vai morrer.
Ele me colocou no sofá da sala rapidamente e correu até um armário.
Voltou segundos depois com uma caixa de primeiros socorros.
- Vou aplicar a injeção. - falou enquanto preparava tudo rapidamente. - Mas preciso tirar o ferrão primeiro.
Eu só consegui assentir.
A visão estava ficando turva.
Dante levantou delicadamente meu moletom no ombro para alcançar a picada próxima ao pescoço.
Então aplicou a injeção na minha coxa.
A ardência me fez prender a respiração.
Mas no instante seguinte...
Ele afastou meu cabelo.
E senti sua boca tocar minha pele.
Meu corpo inteiro entrou em colapso.
Literalmente.
Cada nervo.
Cada músculo.
Cada parte de mim pareceu despertar violentamente ao mesmo tempo.
O mundo ficou lento.
Meu coração bateu tão forte que chegou a doer.
E mesmo sem conseguir respirar direito...
Mesmo em pânico...
Mesmo assustada...
Tudo o que meu corpo conseguia sentir...
Era Dante De Luca.
{...}
CoraA vida é bela.Às vezes, tão bela que chega a parecer impossível.E talvez justamente por isso eu tenha aprendido a valorizá-la de uma maneira que nunca imaginei.Hoje faz exatamente cinco anos desde o dia em que nós rejeitamos Alma De Lucca.Cinco anos desde que decidimos que não permitiríamos mais que aquela mulher ditasse nossas vidas.Cinco anos desde que escolhemos a liberdade.E, olhando para aquela sala naquela noite de Natal, eu sabia que havia sido a melhor escolha de nossas vidas.Porque estávamos vivos.Estávamos juntos.Estávamos felizes.E, principalmente, estávamos livres.Nossa casa continuava cheia.Na verdade, acho que "nossa casa" já não era uma expressão suficiente para explicar o que havíamos construído.Continuávamos morando no mesmo prédio.Todos nós.Um andar inteiro transformado em lar.Uma família inteira vivendo lado a lado, compartilhando almoços, jantares, aniversários, brigas bobas, risadas, filmes, segredos e, principalmente, amor.Naquela noite, o a
KamiA mensagem do Dr. Almeida chegou como sempre, pontual, às oito da manhã.— Kami, precisamos que você venha ao hospital hoje. Os exames de rotina estão atrasados, e eu preciso ver como você está.Eu olhei para a tela do celular, sentindo o peso daquelas palavras. Eu sabia que precisava ir. Eu sabia que precisava encarar a realidade. Mas uma parte de mim queria continuar vivendo naquele sonho, naquele mundo onde eu era feliz, onde eu era esposa, onde eu era amada.Kael ainda dormia, e eu deixei-o descansar. Eu precisava fazer isso sozinha. Eu precisava enfrentar meus medos sem o peso de vê-lo sofrer.Vesti uma roupa confortável, um vestido leve, e peguei uma bolsa. Antes de sair, deixei um bilhete na mesa da cozinha.— Fui ao hospital. Volto logo. Te amo.Eu sabia que ele ficaria preocupado quando acordasse e não me encontrasse. Mas eu precisava fazer isso. Eu precisava saber.O caminho até o hospital foi silencioso. Eu olhava pela janela do táxi, vendo a cidade passar, sentindo o
CoraOs enjoos matinais tinham começado há três dias. Eu acordava com o estômago embrulhado, uma onda de náusea que subia da garganta e me obrigava a correr para o banheiro. No começo, eu tinha atribuído à ansiedade, ao estresse da volta à rotina, à mudança na alimentação. Mas quando o atraso se tornou evidente, quando as cólicas leves começaram a incomodar, quando os seios ficaram doloridos e sensíveis, uma suspeita começou a crescer dentro de mim.Eu estava grávida. Eu tinha quase certeza.A ideia me assustava e me enchia de alegria ao mesmo tempo. Dante e eu tínhamos conversado sobre ter filhos, tínhamos planejado, tínhamos tentado. Mas agora, diante da possibilidade real, eu sentia o coração acelerar, as mãos suarem, uma mistura de medo e expectativa que me tirava o fôlego.Eu não queria fazer o teste sozinha. Eu precisava de apoio. Eu precisava das minhas amigas.Sentei-me na cama, o celular na mão, e respirei fundo. Meus dedos tremeram enquanto eu digitava a mensagem no grupo qu
KamiO sol entrava pelas frestas das cortinas, pintando o quarto com tons dourados, e eu acordei com o coração acelerado, uma ansiedade gostosa crescendo no peito. Hoje era nosso primeiro mês de casados. Trinta dias desde aquele dia perfeito na fazenda, trinta dias desde que eu e Kael tínhamos selado nosso amor diante de todos, trinta dias de pura felicidade.Eu me virei na cama, observando Kael dormir. O rosto sereno, a respiração calma, os lábios entreabertos. Ele estava tão lindo, tão meu. Eu estendi a mão, acariciando o rosto dele com a ponta dos dedos, sentindo a textura da pele, o calor do corpo.— Bom dia, marido. — sussurrei, a voz cheia de amor.Ele murmurou algo incompreensível, virando de lado, e eu ri, baixinho. Deixei-o dormir mais um pouco e me levantei, vestindo um vestido leve, amarelo, que combinava com a minha felicidade. Eu tinha planos para hoje. Planos que envolviam uma surpresa, um piquenique, e o homem que eu amava mais do que qualquer coisa no mundo.Desci as e
CoraA semana na fazenda tinha sido um sonho. Cada dia parecia uma bênção, um presente que o universo tinha resolvido nos dar depois de tantas provações. Acordar com o sol batendo no rosto, o cheiro de café fresco vindo da cozinha, as risadas das crianças ecoando pelo jardim, as conversas longas na varanda, os jantares regados a vinho e histórias. E as noites, ah, as noites eram sempre minhas e de Dante, entregues ao amor, ao prazer, à redescoberta constante um do outro.Mas toda boa fase precisa de um fim. E quando a manhã de domingo chegou, com as malas sendo arrumadas e os abraços de despedida sendo trocados, eu senti uma pontada de tristeza no peito. A fazenda tinha se tornado um refúgio, um lugar onde o tempo parecia andar mais devagar, onde os problemas pareciam distantes. Mas a vida real nos chamava de volta, e eu sabia que precisávamos responder.— Vamos sentir saudade de vocês — Kami disse, me abraçando apertado na porta da casa. O vestido leve dela ondulava com a brisa da ma
Cora O dia amanheceu claro, com um céu azul sem uma única nuvem, como se o próprio universo tivesse se vestido para a ocasião. Eu acordei antes do sol, o coração batendo acelerado no peito, uma mistura de ansiedade e alegria me envolvendo como um abraço. Hoje era o dia. O dia do casamento duplo. O dia em que duas histórias de amor seriam celebradas diante de todos.Dante ainda dormia ao meu lado, o rosto sereno, a respiração calma. Eu me virei para olhá-lo, sentindo o amor transbordar dentro de mim. Ele tinha chegado na noite anterior, depois de semanas de trabalho, e a gente tinha passado a noite inteira nos amando, como se o tempo tivesse parado. Mas agora, o tempo tinha voltado a andar, e eu precisava me levantar.— Cora? — ele murmurou, os olhos ainda fechados. — Que horas são?— Cedo. — Beijei a testa dele. — Dorme mais um pouco. Eu preciso me arrumar.— Hmm. — Ele sorriu, puxando o cobertor sobre a cabeça. — Boa sorte.Eu ri, vestindo um roupão, e desci as escadas. A casa estav







