FAZER LOGINCora
Eu não fazia ideia de como ainda estava de pé.
Sério.
Aqueles saltos eram instrumentos de tortura disfarçados de sapato de luxo. Meus dedos doíam tanto que eu já não conseguia sentir metade do pé direito, enquanto o esquerdo parecia implorar misericórdia a cada passo que eu dava naquele salão gigante.
E ainda tinha gente sorrindo.
Conversando.
Dançando.
Como se ficar horas em cima de um salto agulha fosse algo natural.
Ricos eram perturbados.
Definitivamente perturbados.
Eu estava parada ao lado de Otto enquanto mais um casal desconhecido nos parabenizava pelo "lindo futuro juntos" quando senti minhas pernas vacilarem discretamente.
Otto percebeu na mesma hora.
- Ei. - sua voz saiu baixa e gentil perto do meu ouvido. - Você quer se retirar?
Quase chorei de gratidão.
- Por favor...
Ele sorriu de lado.
Não um sorriso arrogante.
Um sorriso compreensivo.
Como se entendesse exatamente o tamanho do caos que aquela noite estava sendo para mim.
- Podemos fugir.
Franzi a testa.
- Fugir?
- Uhum. - ele pegou duas taças de champanhe de uma bandeja que passava. - Eu fico com você no seu quarto até tudo isso acabar e depois colocamos a culpa no fato de estarmos nos conhecendo melhor.
Aquilo me fez rir baixinho pela primeira vez desde o início da festa.
- Você parece experiente nisso.
- Em fugir de eventos da minha mãe? Bastante.
Sorri sem perceber.
- Obrigada.
Foi a única coisa que consegui dizer.
Porque eu realmente estava agradecida.
Otto poderia simplesmente me deixar ali sorrindo para estranhos até meus pés caírem do corpo, mas em vez disso estava tentando me salvar daquela tortura social.
Ele me ofereceu o braço elegantemente.
- Vamos antes que Alma perceba.
Segurei seu braço tentando parecer natural enquanto atravessávamos o salão discretamente.
Ou pelo menos tão discretamente quanto possível.
Ainda sentia olhares em mim.
Pessoas cochichando.
Mulheres me analisando da cabeça aos pés.
Mas dessa vez... eu não ligava tanto.
Tudo o que eu queria era tirar aqueles saltos.
Subimos as escadas enormes da mansão enquanto a música ficava cada vez mais distante.
O silêncio do segundo andar parecia outro universo comparado ao caos elegante lá embaixo.
- Você está melhor? - Otto perguntou.
- Vou responder depois que arrancar esses sapatos dos meus pés.
Ele riu baixo.
Meu Deus.
Otto ria com facilidade.
Era estranho.
Eu esperava alguém frio.
Distante.
Arrogante.
Mas ele parecia... normal.
Rico.
Absurdamente bonito.
Mas normal.
Quando chegamos ao quarto que Dona Alma havia separado para mim, quase suspirei de alívio.
Era enorme.
Muito maior que a casa onde morei minha vida inteira.
As luzes suaves deixavam tudo aconchegante demais para um lugar tão luxuoso.
Otto soltou meu braço.
- Vou esperar aqui.
Assenti rapidamente e praticamente corri para o closet.
Assim que a porta fechou atrás de mim, tirei os saltos num movimento desesperado.
- Ai, meu Deus... - gemi aliviada sentando no pequeno sofá do closet.
Meus pés estavam vermelhos.
Machucados.
Quase assassinei Kami mentalmente por dizer que aquilo "nem era tão alto".
Bufei tirando o vestido cuidadosamente logo depois.
Minhas mãos pararam por alguns segundos no tecido branco caro.
Aquilo tudo parecia tão distante da minha realidade.
Como se eu estivesse interpretando alguém.
Uma versão falsa de mim mesma.
Escolhi um pijama longo de cetim claro que tinham deixado no closet e o vesti rapidamente.
Calça comprida.
Blusa de mangas longas.
Confortável.
Humano.
Eu nunca pensei que sentiria tanta felicidade por usar pijama.
Prendi o cabelo num coque bagunçado antes de voltar para o quarto.
Otto estava sentado na ponta da cama mexendo no celular, mas levantou os olhos imediatamente quando me viu.
E então sorriu.
- Muito melhor.
- Você não faz ideia.
Ele olhou para meus pés descalços.
- Sobreviveu?
- Por pouco.
Aquilo arrancou outra risada dele.
Caminhei até a cama e sentei do outro lado mantendo certa distância.
O silêncio entre nós não era desconfortável.
O que me surpreendeu.
Na verdade... parecia leve.
Estranhamente leve.
Otto soltou o celular de lado.
- Então... oficialmente somos noivos.
Meu estômago revirou um pouco.
- É estranho ouvir isso.
- Pra mim também.
Ergui os olhos rapidamente.
- É?
Ele assentiu calmamente.
- Minha mãe decidiu tudo muito rápido.
Aquilo me deixou surpresa.
- Você não sabia?
- Sabia que ela queria me casar. - respondeu soltando o ar lentamente. - Mas não sabia quem seria.
- E isso não te incomoda?
Otto ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.
- Eu cresci nesse mundo, Cora. Depois de um tempo você entende que algumas coisas simplesmente... acontecem.
- Isso é triste.
Ele deu um sorriso pequeno.
- Um pouco.
Observei seu rosto por alguns segundos.
Otto realmente era lindo.
Perigosamente lindo.
Mas ainda assim...
Nada.
Nenhum frio na barriga.
Nenhuma faísca.
Nenhuma loucura.
E aquilo me fazia sentir uma pessoa horrível.
Porque ele estava sendo gentil comigo desde o momento em que nos conhecemos.
- Você está pensando demais. - ele comentou de repente.
Pisquei surpresa.
- Como sabe?
- Você faz essa carinha.
- Que carinha?
Ele imitou minha expressão séria e perdida.
Acabei rindo.
- Ridículo.
- Acertei.
Balancei a cabeça negativamente enquanto sorria sem perceber.
Meu Deus.
Eu estava confortável.
Confortável com o homem que deveria ser meu futuro marido.
Talvez aquilo fosse bom.
Talvez facilidade fosse melhor do que paixão.
Paixão destruía pessoas.
Conforto não.
- Posso te perguntar uma coisa? - Otto disse.
- Acho que sim.
- Você odeia muito essa ideia?
Meu coração apertou.
Porque a pergunta dele foi sincera.
Sem ego.
Sem arrogância.
Ele realmente queria saber.
Baixei os olhos para minhas mãos.
- Eu não odeio você.
- Mas...
Suspirei.
- Mas eu odeio o motivo de estar aqui.
O silêncio caiu entre nós.
Otto não pareceu ofendido.
Só... compreensivo.
- Sua mãe vai ficar bem. - ele disse baixo.
Aquilo quase me destruiu.
Porque fazia horas que eu estava fingindo força.
Horas fingindo que não estava morrendo de medo por dentro.
Minha mãe estava numa cirurgia enquanto eu brincava de princesa rica em uma mansão.
Meus olhos arderam imediatamente.
Droga.
Otto percebeu na hora.
- Ei... - sua voz suavizou ainda mais.
Virei o rosto rapidamente tentando me recompor.
- Desculpa.
- Não se desculpa.
Mas era tarde.
A primeira lágrima caiu.
Depois outra.
E outra.
Levei as mãos ao rosto completamente envergonhada.
- Eu não consigo parar de pensar nela... - minha voz falhou. - E se acontecer alguma coisa? E se eu tiver vendido minha vida inteira e no final ela ainda...
- Cora.
Otto se aproximou devagar.
Sem invadir meu espaço.
Sem exageros.
Apenas sentando mais perto.
- Minha mãe move hospitais inteiros se quiser. Sua mãe está recebendo o melhor tratamento possível.
Fechei os olhos tentando respirar.
- Eu estou com medo.
- Eu sei.
A forma como ele disse aquilo...
Calma.
Gentil.
Quase me desmontou completamente.
Otto pegou uma caixa de lenços da mesa ao lado e me entregou.
Acabei rindo no meio do choro.
- Que romântico.
Ele sorriu.
- Sou um cavalheiro moderno.
Limpei o rosto respirando fundo.
- Você é sempre assim?
- Assim como?
- Bonzinho.
Otto gargalhou baixo.
- Kami definitivamente diria que não.
- Então ela mente?
- Frequentemente.
Sorri de novo.
E ali, naquele momento, eu percebi algo importante:
Otto seria meu amigo antes de qualquer outra coisa.
A tensão que eu imaginava não existia.
Não havia aquele desespero de proximidade.
Nem desejo.
Nem nervosismo.
Só... paz.
Era quase como conversar com alguém que eu conhecia há anos.
- Quer saber um segredo? - Otto perguntou de repente.
- Depende do segredo.
Ele se aproximou conspiratório.
- Eu odeio essas festas tanto quanto você.
Arregalei os olhos.
- Mentira.
- Juro.
- Mas você parece tão confortável.
- Treinamento de infância.
Ri baixinho.
- Então você é um farsante profissional.
- Com diploma.
Ficamos conversando por horas depois disso.
Sobre coisas simples.
Minha escola.
Os lugares onde trabalhei.
As viagens dele.
Os jantares absurdos da alta sociedade.
As histórias malucas de Kami.
As tentativas de Judith em controlar o caos daquela família.
E quanto mais conversávamos...
Mais eu tinha certeza:
Otto seria um ótimo amigo.
Talvez até o melhor que eu já tive.
Mas não parecia o homem da minha vida.
E aquilo deveria me preocupar mais do que preocupava.
{...}
CoraA vida é bela.Às vezes, tão bela que chega a parecer impossível.E talvez justamente por isso eu tenha aprendido a valorizá-la de uma maneira que nunca imaginei.Hoje faz exatamente cinco anos desde o dia em que nós rejeitamos Alma De Lucca.Cinco anos desde que decidimos que não permitiríamos mais que aquela mulher ditasse nossas vidas.Cinco anos desde que escolhemos a liberdade.E, olhando para aquela sala naquela noite de Natal, eu sabia que havia sido a melhor escolha de nossas vidas.Porque estávamos vivos.Estávamos juntos.Estávamos felizes.E, principalmente, estávamos livres.Nossa casa continuava cheia.Na verdade, acho que "nossa casa" já não era uma expressão suficiente para explicar o que havíamos construído.Continuávamos morando no mesmo prédio.Todos nós.Um andar inteiro transformado em lar.Uma família inteira vivendo lado a lado, compartilhando almoços, jantares, aniversários, brigas bobas, risadas, filmes, segredos e, principalmente, amor.Naquela noite, o a
KamiA mensagem do Dr. Almeida chegou como sempre, pontual, às oito da manhã.— Kami, precisamos que você venha ao hospital hoje. Os exames de rotina estão atrasados, e eu preciso ver como você está.Eu olhei para a tela do celular, sentindo o peso daquelas palavras. Eu sabia que precisava ir. Eu sabia que precisava encarar a realidade. Mas uma parte de mim queria continuar vivendo naquele sonho, naquele mundo onde eu era feliz, onde eu era esposa, onde eu era amada.Kael ainda dormia, e eu deixei-o descansar. Eu precisava fazer isso sozinha. Eu precisava enfrentar meus medos sem o peso de vê-lo sofrer.Vesti uma roupa confortável, um vestido leve, e peguei uma bolsa. Antes de sair, deixei um bilhete na mesa da cozinha.— Fui ao hospital. Volto logo. Te amo.Eu sabia que ele ficaria preocupado quando acordasse e não me encontrasse. Mas eu precisava fazer isso. Eu precisava saber.O caminho até o hospital foi silencioso. Eu olhava pela janela do táxi, vendo a cidade passar, sentindo o
CoraOs enjoos matinais tinham começado há três dias. Eu acordava com o estômago embrulhado, uma onda de náusea que subia da garganta e me obrigava a correr para o banheiro. No começo, eu tinha atribuído à ansiedade, ao estresse da volta à rotina, à mudança na alimentação. Mas quando o atraso se tornou evidente, quando as cólicas leves começaram a incomodar, quando os seios ficaram doloridos e sensíveis, uma suspeita começou a crescer dentro de mim.Eu estava grávida. Eu tinha quase certeza.A ideia me assustava e me enchia de alegria ao mesmo tempo. Dante e eu tínhamos conversado sobre ter filhos, tínhamos planejado, tínhamos tentado. Mas agora, diante da possibilidade real, eu sentia o coração acelerar, as mãos suarem, uma mistura de medo e expectativa que me tirava o fôlego.Eu não queria fazer o teste sozinha. Eu precisava de apoio. Eu precisava das minhas amigas.Sentei-me na cama, o celular na mão, e respirei fundo. Meus dedos tremeram enquanto eu digitava a mensagem no grupo qu
KamiO sol entrava pelas frestas das cortinas, pintando o quarto com tons dourados, e eu acordei com o coração acelerado, uma ansiedade gostosa crescendo no peito. Hoje era nosso primeiro mês de casados. Trinta dias desde aquele dia perfeito na fazenda, trinta dias desde que eu e Kael tínhamos selado nosso amor diante de todos, trinta dias de pura felicidade.Eu me virei na cama, observando Kael dormir. O rosto sereno, a respiração calma, os lábios entreabertos. Ele estava tão lindo, tão meu. Eu estendi a mão, acariciando o rosto dele com a ponta dos dedos, sentindo a textura da pele, o calor do corpo.— Bom dia, marido. — sussurrei, a voz cheia de amor.Ele murmurou algo incompreensível, virando de lado, e eu ri, baixinho. Deixei-o dormir mais um pouco e me levantei, vestindo um vestido leve, amarelo, que combinava com a minha felicidade. Eu tinha planos para hoje. Planos que envolviam uma surpresa, um piquenique, e o homem que eu amava mais do que qualquer coisa no mundo.Desci as e
CoraA semana na fazenda tinha sido um sonho. Cada dia parecia uma bênção, um presente que o universo tinha resolvido nos dar depois de tantas provações. Acordar com o sol batendo no rosto, o cheiro de café fresco vindo da cozinha, as risadas das crianças ecoando pelo jardim, as conversas longas na varanda, os jantares regados a vinho e histórias. E as noites, ah, as noites eram sempre minhas e de Dante, entregues ao amor, ao prazer, à redescoberta constante um do outro.Mas toda boa fase precisa de um fim. E quando a manhã de domingo chegou, com as malas sendo arrumadas e os abraços de despedida sendo trocados, eu senti uma pontada de tristeza no peito. A fazenda tinha se tornado um refúgio, um lugar onde o tempo parecia andar mais devagar, onde os problemas pareciam distantes. Mas a vida real nos chamava de volta, e eu sabia que precisávamos responder.— Vamos sentir saudade de vocês — Kami disse, me abraçando apertado na porta da casa. O vestido leve dela ondulava com a brisa da ma
Cora O dia amanheceu claro, com um céu azul sem uma única nuvem, como se o próprio universo tivesse se vestido para a ocasião. Eu acordei antes do sol, o coração batendo acelerado no peito, uma mistura de ansiedade e alegria me envolvendo como um abraço. Hoje era o dia. O dia do casamento duplo. O dia em que duas histórias de amor seriam celebradas diante de todos.Dante ainda dormia ao meu lado, o rosto sereno, a respiração calma. Eu me virei para olhá-lo, sentindo o amor transbordar dentro de mim. Ele tinha chegado na noite anterior, depois de semanas de trabalho, e a gente tinha passado a noite inteira nos amando, como se o tempo tivesse parado. Mas agora, o tempo tinha voltado a andar, e eu precisava me levantar.— Cora? — ele murmurou, os olhos ainda fechados. — Que horas são?— Cedo. — Beijei a testa dele. — Dorme mais um pouco. Eu preciso me arrumar.— Hmm. — Ele sorriu, puxando o cobertor sobre a cabeça. — Boa sorte.Eu ri, vestindo um roupão, e desci as escadas. A casa estav







