INICIAR SESIÓNKILLIAM
Nathan havia ligado mais cedo — como sempre, tentando me convencer a voltar. Ele jamais compreenderia que naquela alcateia, cada canto carregava o eco do maldito ataque que me tirou meu pai… e Jade.
Minha companheira.
Naquele mesmo dia, tornei-me alfa. Mas o homem que assumiu a liderança não era o mesmo Killiam de antes.
Uma parte de mim ficou soterrada sob o luto, sufocada por uma dor que o tempo não conseguiu dissolver. Antes de me afastar, nomeei-o meu beta e deixei sob sua responsabilidade a administração da alcateia.
Foi a decisão mais racional que consegui tomar enquanto tudo dentro de mim ruía.
Desde então, eu me mantinha ali, entre planilhas, comandas e horários de funcionários, usando a rotina como uma forma silenciosa de anestesia.
Aquela manhã estava agitada. O universo parecia ter decidido que tudo mudaria naquele dia.
Eu gerenciava um restaurante dentro da maior rede de hotéis que existia naquela região — a principal fonte de renda da minha alcateia — e aquela unidade parecia ter recebido mais turistas do que comportava.
O som das conversas e das risadas misturava-se ao arrastar constante das cadeiras no piso de madeira.
As mesas estavam todas ocupadas. Suelen — minha amiga e funcionária — atravessava o salão com passos rápidos, equilibrando pratos e pedidos com a agilidade de quem já conhecia cada centímetro daquele espaço. Eu tentava auxiliar no caixa, mas a sensação era de que o movimento havia dobrado de intensidade.
— Killiam, isso aqui está uma loucura! Precisamos de mais alguém — disse ela ao passar por mim, antes de se dirigir a outra mesa.
Apoiei as mãos no balcão por um instante, respirei fundo e analisei o salão. Meu humor oscilava mais do que o habitual, como se algo invisível estivesse tencionando o ar.
— Por favor… — chamou uma voz suave, vinda da lateral do balcão.
Virei-me por instinto.
E, no instante em que meus olhos encontraram ela, todo o restante pareceu perder nitidez.
O salão continuava cheio, as conversas seguiam altas, as cadeiras ainda se arrastavam pelo chão — mas nada disso me alcançava da mesma forma. Era como se minha percepção tivesse sido subitamente filtrada.
Observei o jeito como os cabelos dela se moviam suavemente com a brisa que entrava pela janela, o brilho curioso nos olhos, o leve franzir das sobrancelhas.
E então o perfume me alcançou.
Rosa. Orquídea. Baunilha.
Doce e envolvente, mas não enjoativo — era como um chamado que não precisava de palavras.
“Minha”
O reconhecimento não veio como um pensamento articulado, mas como uma certeza primitiva que se impôs antes que qualquer lógica pudesse interferir. Algo antigo despertou dentro de mim, não em fúria, mas em alerta.
Meu corpo reagiu primeiro — o coração acelerou, a respiração tornou-se mais pesada — e eu soube, com uma clareza desconcertante, que aquela sensação era a mesma que eu havia jurado jamais experimentar outra vez.
Eu tinha enterrado essa possibilidade.
Junto com Jade.
— Gostaria de um sanduíche de queijo — pediu, concentrada no cardápio, como se ignorasse o abalo que acabara de provocar.
Quando seus olhos encontraram os meus, buscando confirmar que eu havia ouvido, algo mudou em sua expressão. A surpresa foi breve, mas suficiente.
Ela havia entendido.
Suelen aproximou-se antes que eu conseguisse reagir.
— Oi, lindinha… bem-vinda! Já vamos atender você.
A mulher assentiu, mas manteve o olhar preso ao meu por tempo suficiente para tornar impossível fingir indiferença. Ainda assim, se recompôs antes de mim e seguiu para o lugar que Suelen havia indicado.
Percorri o salão com o olhar, atento a qualquer presença diferente, tentando captar qualquer sinal de outro lobo que eu pudesse ter deixado passar.
Ela não pertencia à minha alcateia. Mas então… o que estava fazendo ali, sozinha? Aquilo não era comum.
Fiquei alguns segundos parado feito um idiota, apenas observando-a sentada de costas para mim. Uma pressão incômoda apertou meu peito, não como dor, mas como algo que exigia espaço.
Eu não podia permitir aquilo.
Depois de tudo o que havia perdido, de reconstruir cada parte da minha rotina para manter o controle, não era aceitável que a simples presença de uma desconhecida fosse capaz de atravessar defesas que eu levei anos para erguer.
Fechei os punhos, tentando reorganizar os próprios pensamentos.
— O que houve? Por que uma loba estranha mexeu tanto com seu lobo — perguntou Suelen, notando meu estado.
— Não sei do que você está falando — respondi sem me virar, com um tom mais ríspido do que pretendia.
— Será mesmo que não sabe? Porque eu percebi o quanto você ficou abalado — disse, com ironia.
Girei lentamente para encará-la.
Ela estava ali, parada, com o avental amarrado na cintura e uma bandeja nas mãos. Conhecia-me bem demais para acreditar na minha mentira.
— Não sabemos o que ela faz aqui e claro que isso me preocupou — disse, por fim.
— Ela não parece perigosa. Mas você pode questioná-la, afinal ela está em seu território — respondeu Suelen, com naturalidade.
Havia uma delicadeza naquela recém-chegada que não combinava com o mundo que eu conhecia. O leve rubor nas bochechas denunciava nervosismo, mas os olhos… aqueles olhos não eram frágeis. Eram atentos.
Ao voltar a encará-la, notei que suas mãos tremiam levemente — um detalhe quase imperceptível, mas que não passou despercebido por mim. Ela estava nervosa.
— Ei! Nosso pedido está demorando! — reclamou um homem em uma das mesas mais próximas, batendo os dedos no tampo de madeira.
O som seco me arrancou do torpor. Pisquei algumas vezes, como se estivesse emergido depois de permanecer submerso tempo demais.
Inspirei fundo, e o aroma dela misturou-se ao cheiro da comida quente que atravessava a cozinha. Evitar não mudaria o fato de que algo havia sido acionado.
Suelen estava certa. Eu precisava ir até lá.
Peguei a bandeja com o pedido dela da bancada antes que Suelen pudesse questionar minha decisão.
Era hora de descobrir quem aquela loba era.
Antes que meu lobo decidisse por mim.
KILLIAMNo dia em que Aurora me disse que estava em trabalho de parto, eu quase enlouqueci. Meu coração disparou de um jeito que nunca antes havia sentido. Corri para casa, e o mundo pareceu entrar em câmera lenta.Não foi fácil para ela. Aurora estava exausta depois de quase doze horas de dores intensas. A cada contração, eu sentia como se parte da minha própria alma estivesse sendo testada junto com a dela.Segurei sua mão o tempo todo, sentindo os ossos dos meus dedos quase se esmagarem contra os delas — e, ainda assim, não soltei.Sua respiração estava acelerada, o suor escorria por sua testa, mas seus olhos… aqueles olhos brilhavam com uma determinação que me deixava sem ar.— Você consegue, pequena… já está tão perto — murmurei, tentando soar firme, embora minha voz tremesse.E então aconteceu.Um choro agudo e forte preencheu o ar, cortando qualquer outra sensação, como se o mundo inteiro tivesse parado apenas para ouvir aquele som.Meus olhos arderam instantaneamente. Quando n
KILLIAMO quarto estava mergulhado em um silêncio quase sagrado, quebrado apenas pela respiração serena de Aurora ao meu lado. A luz suave que atravessava a janela desenhava sombras delicadas sobre o corpo dela, ainda levemente corado depois do que havíamos compartilhado.Fiquei ali, imóvel, como se qualquer movimento pudesse desfazer aquele instante.Meus dedos deslizaram devagar por uma mecha do seu cabelo, afastando-a de sua face. Era impossível não sorrir — não um sorriso de desejo, mas de gratidão.Olhei para trás, para tudo que vivi, para o homem que eu fui.Jamais imaginei que encontraria paz. Muito menos uma felicidade tão inteira, tão viva, a ponto de doer no peito de tão intensa. Aurora foi um pulo no escuro. Tínhamos um laço, é verdade… mas laços não vêm com garantias.Houve um tempo em que eu acreditava que momento assim não eram feitos para mim.Passamos por tempestades que quase nos afogaram. Feridas que pareciam profundas demais para cicatrizar. Escolhas difíceis — algu
AURORAJoyce e Suelen comemoraram meu retorno à alcateia como se eu tivesse voltado de uma guerra.Suelen precisou sair para trabalhar, mas Joyce assumiu a missão de me mimar. Enchia meu prato sem piedade, repetindo que grávida não podia passar fome — como se aquela fosse a lei mais sagrada do mundo.Passei o dia entre risadas, histórias acumuladas e aquela sensação rara de pertencimento. Era reconfortante recuperar uma parte da minha vida que parecia ter ficado suspensa por semanas.Eu sabia que Killiam havia me machucado.Talvez eu o tivesse perdoado rápido demais.Mas eu acreditava no arrependimento dele — caso contrário, não estaria tentando da forma como vinha tentando.Não queria gastar energia remoendo a dor. Preferia reconstruir o que nos foi roubado… tudo aquilo que aquela cadela — agora apodrecendo no inferno — tentou destruir.Imaginei que ele tentaria algo mais íntimo naquela noite.Mas Killiam me surpreendeu.Era carinhoso. Cuidadoso. Respeitoso ao extremo. Limitava-se a
KILLIAMAquela desgraçada havia armado tudo.Meu lobo rugiu, tomado por uma fúria tardia. Nayara já não estava mais ali — e não existia vingança possível contra os mortos. Restava-me apenas focar no presente — e o presente era reconquistar minha mulher.Eu sabia que não podíamos continuar adiando certas verdades.Peguei a xícara, mas o café esfriava entre meus dedos.— Eu errei. Errei ao permitir que tudo chegasse a esse ponto, ao não impedir que você fosse magoada, ao deixar que essa situação nos afastasse… — respirei fundo. — Mas não errei sobre o que Nayara fez você acreditar.Os olhos de Aurora não vacilaram.— Então me explique… por que você a trouxe para dentro de nossa casa?A pergunta não carregava gritos. E isso doía mais.— Naquela época, Nayara ameaçou ir embora. Disse que levaria o bebê com ela. — Minha mandíbula travou. — E eu acreditava que ele era meu. Eu não podia correr esse risco. Aurora apertou a xícara com força; os dedos ficaram esbranquiçados.— Então você pref
AURORAJá fazia duas semanas que Killiam estava em Bloodhowl. Kael tocara no assunto algumas vezes, mas, na última conversa, fora direto — a situação havia se tornado insustentável.Killiam não saíra do quarto nem uma única vez. Manter outro alfa ali por tanto tempo poderia gerar interpretações perigosas dentro da alcateia.— Ele ainda tem espaço no seu coração? — Alana perguntou, com uma calma que feria mais do que qualquer acusação.A pergunta reverberou dentro de mim.Por mais que Killiam tivesse me magoado, meus sentimentos não haviam simplesmente desaparecido. Minha loba deixava isso claro a cada silêncio pesado, em cada batida inquieta no peito.Eu sabia que ele errara. Sabia que me ferira.Mas também sabia que ele permanecia ali — suportando o constrangimento, o peso de estar sob o teto de outro alfa… apenas por mim.Eu precisava ir até ele. Encarar o homem que me destruíra — e que, ainda assim, fazia meu coração perder o compasso — já não era uma escolha. Era inevitável. Ass
KILLIAMNunca me senti tão perto de perder o controle.Minha pele queimava como se algo tentasse rasgá-la de dentro para fora. Os músculos permaneciam tensos, vibrando sob a pressão da fúria contida, e meus olhos ardiam, alimentados por uma raiva que eu já não sabia conter.Meus punhos estavam cerrados. Se eu afrouxasse o domínio por um único segundo, esmagaria qualquer coisa que estivesse diante de mim.Duas semanas.Duas malditas semanas desde que Aurora partiu.Eu tentava — incessantemente — alcançá-la pelo nosso elo mental. Forçava minha mente contra a dela, chamando-a no silêncio. E todas as vezes… era repelido.Rejeitado.Meu lobo arranhava minha consciência, uivando pela ausência dela. Pela ausência do que era nosso. Pela ausência de nossa metade.A transformação veio sem aviso.Num instante eu ainda lutava contra o impulso. No seguinte, corria pela floresta, consumido pela fera. Galhos se partiam sob meu peso, troncos eram marcados pelas minhas garras. Um rastro de destruição







