FAZER LOGIN“Cada homem carrega dentro de si um inferno inteiro.” Fiódor DostoiévskiSilvia sentiu o pulso ser interrompido no ar antes de completar o gesto.O aperto era firme demais, a ponto da pressão nos ossos a fazer arfar.Virou o rosto, pronta para atacar quem quer que fosse com palavras — mas encontrou Cássio atrás dela. Com o olhar frio de reprovação.O mundo pareceu inclinar outra vez sob os pés de Silvia.Ela recompôs o semblante com rapidez. O queixo tremeu. Os olhos marejaram. — Cássio… — murmurou, como se fosse ela a ferida ali.Mas a voz dele veio baixa e cortante, como vidro arranhando mármore. — O que você pensa que está fazendo?As palavras não foram altas. Não precisaram ser.Silvia estremeceu. Se Helena ousasse mencionar o nome de Márcio ali, na frente dele… tudo poderia desmoronar.Ela lançou um olhar rápido para Helena.Helena permanecia imóvel. Não havia medo em seus olhos. Havia algo muito pior: serenidade.— Foi ela — Silvia se apressou. — Começou a me ofender porque nã
“Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.” Carl JungSilvia fingia ouvir a conversa ao seu redor.Um empresário falava sobre expansão de mercado. Outro comentava sobre exportação para a Europa. Renato argumentava algo técnico sobre matéria-prima. Cássio respondia com aquele tom calculado que ela conhecia bem.Mas nada daquilo realmente chegava até ela porque próximo dali Helena ria.Ria com a cabeça levemente inclinada para trás, como se o mundo fosse leve e feliz. Ria amparada pelo braço de Santiago, como se estivesse segura. Ria cercada por amigos, como se fosse… querida.Aquela cena feria porque Helena parecia ter aquilo que Silvia jamais conseguira: dignidade depois da queda.Ela engoliu seco.Helena tinha perdido o casamento. Tinha sido humilhada e alvo de escândalos, perseguições, atentados. E ainda assim ali estava — inteira. Respeitada. Aplaudida.Enquanto ela…Enquanto ela precisava mentir para sustentar cada passo.Precisava sorrir par
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Clarice LispectorA apresentação de Helena estava marcada para as dez horas. Ela, Santiago e Pedro chegaram ao pavilhão com tempo de sobra. O espaço fervilhava como no primeiro dia: visitantes circulando, câmeras erguidas, vozes se misturando.Próximo à entrada, a equipe da Orsini se concentrava para assistir às falas finais da feira. Lívia estava entre eles, braços cruzados, postura impecável e um olhar nada discreto quando recaía sobre um certo casal. Ruminava cada palavra da conversa da noite anterior. Se dependesse dela, arrancaria a máscara de Silvia ali mesmo, diante de todos.Quando Helena entrou no pavilhão, a atmosfera pareceu se reorganizar ao redor dela.Vestia uma calça social preta de corte elegante, escarpins vinho que alongavam a silhueta, camisa branca de tecido leve e caimento perfeito. O cabelo preso em um rabo alto ressaltava o contorno do rosto junto com a maquiagem suave. No colo repousava o pingente de cora
“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.” William ShakespeareO sábado amanheceu com uma luz pálida, quase tímida, como se o próprio dia ainda carregasse nos ombros o peso da conversa da noite anterior. O bairro antigo parecia mais silencioso do que de costume. Até o canto dos pássaros soava distante.Na frente da casa, um pequeno caminhão aguardava com o baú aberto. Pedro ajudava a acomodar as últimas caixas enquanto Marcelo orientava o motorista sobre o trajeto. Não havia móveis sendo levados — apenas o essencial: roupas, os quadros já finalizados e as telas em branco cuidadosamente protegidas, além da maleta de tintas que Helena tratava quase como uma extensão de si.Helena e Santiago acompanharam o processo em silêncio, lado a lado, até que a última embalagem foi encaixada e a porta metálica do baú se fechou com um som seco.Ela lançou um último olhar já saudoso para casa. Santiago percebeu o peso daquele instante antes mesmo que ela dissesse qualqu
“O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres não passam de atores.” William ShakespeareA pergunta ficou suspensa sobre a mesa como uma lâmpada acesa iluminando mais do que todos estavam preparados para enxergar.Novas teorias começaram a se formar em silêncio. Todos ali sabiam que Márcio não tinha nenhum vínculo direto com Helena. Não havia passado compartilhado, não havia história entre eles, nem mesmo se conheciam. Então, se ele estava preso àquela cidade… se havia voltado em vez de fugir… talvez o laço fosse com alguém próximo dela.Mas quem?Os olhares, quase inevitavelmente, se voltaram para Helena. Se havia alguma peça esquecida no passado, alguma sombra mal resolvida, ninguém melhor do que ela para reconhecê-la.Ela sentiu o peso da expectativa, mas não desviou. Em vez disso, virou-se para Santiago.— Eu sei que você jamais faria algo assim… — começou, com cuidado. — Mas, se alguém conseguisse te levar a cometer alguma coisa parecida… quem seria?Houve um breve si
“Não se encontra paz evitando a vida.” Virginia WoolfQuando Cássio chegou em casa, o primeiro impacto foi a luz da sala acesa. Parou um segundo no hall, o coração acelerando antes mesmo de entender por quê. Seus olhos correram instintivamente até o sofá.Era Silvia.Ainda assim, o susto não diminuiu.Ela estava sentada ereta, as mãos unidas sobre o colo. Levantou o rosto ao vê-lo, mas não houve sorriso — apenas um cansaço cru, mal disfarçado. A maquiagem não conseguia esconder as sombras sob os olhos.Cássio tirou o paletó, deixou-o cair sobre o aparador como se pesasse mais do que o tecido justificava. Afrouxou a gravata e sentou-se ao lado dela, deixando o corpo tombar para trás. Por um instante, pareciam dois estranhos dividindo o mesmo sofá.— Como foi a feira? — ela perguntou, a voz baixa.— Talvez tenhamos encontrado um novo parceiro internacional.Silvia inclinou levemente a cabeça.— É por isso que parece tão feliz? — A ironia foi sutil, mas cortante.Cássio soltou um riso cu



