Masuk“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Clarice LispectorA apresentação de Helena estava marcada para as dez horas. Ela, Santiago e Pedro chegaram ao pavilhão com tempo de sobra. O espaço fervilhava como no primeiro dia: visitantes circulando, câmeras erguidas, vozes se misturando.Próximo à entrada, a equipe da Orsini se concentrava para assistir às falas finais da feira. Lívia estava entre eles, braços cruzados, postura impecável e um olhar nada discreto quando recaía sobre um certo casal. Ruminava cada palavra da conversa da noite anterior. Se dependesse dela, arrancaria a máscara de Silvia ali mesmo, diante de todos.Quando Helena entrou no pavilhão, a atmosfera pareceu se reorganizar ao redor dela.Vestia uma calça social preta de corte elegante, escarpins vinho que alongavam a silhueta, camisa branca de tecido leve e caimento perfeito. O cabelo preso em um rabo alto ressaltava o contorno do rosto junto com a maquiagem suave. No colo repousava o pingente de cora
“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.” William ShakespeareO sábado amanheceu com uma luz pálida, quase tímida, como se o próprio dia ainda carregasse nos ombros o peso da conversa da noite anterior. O bairro antigo parecia mais silencioso do que de costume. Até o canto dos pássaros soava distante.Na frente da casa, um pequeno caminhão aguardava com o baú aberto. Pedro ajudava a acomodar as últimas caixas enquanto Marcelo orientava o motorista sobre o trajeto. Não havia móveis sendo levados — apenas o essencial: roupas, os quadros já finalizados e as telas em branco cuidadosamente protegidas, além da maleta de tintas que Helena tratava quase como uma extensão de si.Helena e Santiago acompanharam o processo em silêncio, lado a lado, até que a última embalagem foi encaixada e a porta metálica do baú se fechou com um som seco.Ela lançou um último olhar já saudoso para casa. Santiago percebeu o peso daquele instante antes mesmo que ela dissesse qualqu
“O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres não passam de atores.” William ShakespeareA pergunta ficou suspensa sobre a mesa como uma lâmpada acesa iluminando mais do que todos estavam preparados para enxergar.Novas teorias começaram a se formar em silêncio. Todos ali sabiam que Márcio não tinha nenhum vínculo direto com Helena. Não havia passado compartilhado, não havia história entre eles, nem mesmo se conheciam. Então, se ele estava preso àquela cidade… se havia voltado em vez de fugir… talvez o laço fosse com alguém próximo dela.Mas quem?Os olhares, quase inevitavelmente, se voltaram para Helena. Se havia alguma peça esquecida no passado, alguma sombra mal resolvida, ninguém melhor do que ela para reconhecê-la.Ela sentiu o peso da expectativa, mas não desviou. Em vez disso, virou-se para Santiago.— Eu sei que você jamais faria algo assim… — começou, com cuidado. — Mas, se alguém conseguisse te levar a cometer alguma coisa parecida… quem seria?Houve um breve si
“Não se encontra paz evitando a vida.” Virginia WoolfQuando Cássio chegou em casa, o primeiro impacto foi a luz da sala acesa. Parou um segundo no hall, o coração acelerando antes mesmo de entender por quê. Seus olhos correram instintivamente até o sofá.Era Silvia.Ainda assim, o susto não diminuiu.Ela estava sentada ereta, as mãos unidas sobre o colo. Levantou o rosto ao vê-lo, mas não houve sorriso — apenas um cansaço cru, mal disfarçado. A maquiagem não conseguia esconder as sombras sob os olhos.Cássio tirou o paletó, deixou-o cair sobre o aparador como se pesasse mais do que o tecido justificava. Afrouxou a gravata e sentou-se ao lado dela, deixando o corpo tombar para trás. Por um instante, pareciam dois estranhos dividindo o mesmo sofá.— Como foi a feira? — ela perguntou, a voz baixa.— Talvez tenhamos encontrado um novo parceiro internacional.Silvia inclinou levemente a cabeça.— É por isso que parece tão feliz? — A ironia foi sutil, mas cortante.Cássio soltou um riso cu
“Tentamos limpar o que fizemos para não ter que encarar quem nos tornamos.” Clarice LispectorSentada em um banco de madeira diante de uma extensa área verde, Silvia aguardava em silêncio. O lugar lembrava um sítio — árvores antigas, grama bem cuidada, o som distante de pássaros —, mas não era.Nunca tivera a menor intenção de estar ali. Ainda assim, ali estava.Talvez por causa da confusão que lhe tumultuava os pensamentos. Talvez da culpa. Ou do medo.Sentada, começou a se perguntar se ainda não era tarde demais para dar meia-volta e ir embora, fingir que aquele impulso nunca existira. Chegou a apoiar as mãos no banco, pronta para se levantar.Foi quando o cuidador reapareceu e já não estava mais sozinho.Ao seu lado vinha alguém que ela não via havia anos. Alguém que reconheceria mesmo de olhos fechados.Seu pai.— Silvia? — a voz dele saiu insegura, arrastada pelo tempo e pelo corpo que já não obedecia como antes. O espanto era visível quando seus olhos enfim a reconheceram.Ela,
“A consciência é o pior carrasco.” DostoiévskiCássio caminhava ao lado de Antônio Garcia em direção ao estande da Orsini Design, desviando do fluxo de visitantes com passos distraídos. Por fora, mantinha a postura firme; por dentro, o raciocínio tamborilava em suposições.E se Helena estivesse lá dentro, apenas fora de vista, e por isso não a viram antes? E se os funcionários soubessem detalhes de tudo o que acontecera entre eles? Isso não deixaria o clima estranho? E mesmo que ela não estivesse lá, eles certamente não contariam a ela depois que ele estivera ali?O que ela pensaria? Que ele estava espionando? Que sentia falta? Que ainda orbitava ao redor dela?— Cássio? — Renato sussurrou, percebendo o olhar distante do amigo.Ele piscou, retornando ao presente e percebendo que já estavam diante do estande.No grande telão da área institucional, imagens da coleção Prisma se alternavam com cenas do processo criativo. Em um dos cortes, as mãos de Helena deslizavam sobre a superfície de






