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Capítulo 292 — A cidade que não ganha

last update publish date: 2026-09-29 06:09:10

Cecília soube que podia sair de Recife numa segunda-feira às onze e quarenta da manhã.

O problema foi não sentir alívio imediato.

Sentada diante de Otávio Lacerda, diretor regional responsável pela estrutura em que Henrique trabalhava, ela não estava presente, naturalmente. A notícia chegou por mensagem às onze e cinquenta e três.

Tem possibilidade real. Te ligo depois.

Cecília leu no escritório da Casa do Pomar.

Márcia estava diante dela discutindo a substituição de duas mesas externas que com
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    Helena recebeu a chave da casa às dez e quarenta e seis de uma quinta-feira.Não houve música.Nenhuma fotografia oficial.Nenhum corretor pedindo que os dois segurassem uma placa com NOVO LAR.Denise entregou um envelope pardo depois de uma vistoria de uma hora e vinte minutos em que Helena registrou uma pequena mancha perto da área de serviço, Augusto testou três portas e Camila Salles, por chamada de vídeo durante nove minutos, confirmou que o aditivo das adaptações estava anexado corretamente.No fim, Denise colocou o envelope sobre a bancada da cozinha.— Duas cópias da chave principal, duas do portão e uma da entrada lateral. Eduardo manda a segunda cópia da lateral amanhã porque o chaveiro esqueceu.Helena olhou para o envelope.Augusto também.Denise percebeu.— Querem que eu faça discurso?— Não — responderam juntos.— Ótimo. Eu também não tenho.Empurrou o envelope.Helena pegou primeiro.Foi tão simples que demorou um pouco para parecer real.Lúcia e Álvaro já tinham ido em

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    Cecília soube que podia sair de Recife numa segunda-feira às onze e quarenta da manhã.O problema foi não sentir alívio imediato.Sentada diante de Otávio Lacerda, diretor regional responsável pela estrutura em que Henrique trabalhava, ela não estava presente, naturalmente. A notícia chegou por mensagem às onze e cinquenta e três.Tem possibilidade real. Te ligo depois.Cecília leu no escritório da Casa do Pomar.Márcia estava diante dela discutindo a substituição de duas mesas externas que começavam a empenar com umidade.Cecília leu a mensagem outra vez.— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Márcia.— Não.Márcia esperou.Cecília largou o telefone.— Henrique pode talvez mudar a base de trabalho.— Ah.— Isso não foi um “ah” neutro.— Eu não tenho “ah” neutro.— Justo.Márcia olhou para as fotografias das mesas.— É bom?Cecília abriu a boca.Parou.— Eu achei que ia saber responder imediatamente.— E não sabe.— Não.— Então talvez seja melhor comprar mesa antes de mudar de cidade.

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    A primeira discussão sobre a mudança foi causada por um sofá que nenhum dos dois amava.Helena estava no apartamento de Augusto numa quarta-feira à noite, sessenta e dois dias antes da entrega das chaves, quando perguntou:— Você vai levar isso?Augusto olhou para o sofá.Depois para ela.— O sofá?— Sim.— Você está apontando para ele.— Eu sei.— Então por que perguntou “isso” como se fosse um animal morto?Helena sentou numa das pontas.O sofá era grande.Cinza.Confortável.Caro o suficiente para que Augusto provavelmente soubesse a marca e Helena preferisse nunca perguntar.— Ele é muito... você.— Não sei se isso é ofensa ao sofá ou a mim.— Aos dois um pouco.Augusto aproximou a cadeira.— O que exatamente há de errado?Helena olhou.— Nada.— Excelente argumento.— Esse é o problema.— O sofá não ter defeito?— Ele parece escolhido por alguém que pediu “um sofá bom” e comprou o primeiro que passou numa avaliação técnica.Augusto ficou em silêncio.Helena estreitou os olhos.—

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    A árvore era maior ao vivo.Helena percebeu antes de desligar o carro.O tronco grosso subia perto do muro lateral e se abria sobre boa parte do quintal da frente, lançando sombra sobre a calçada e metade do telhado. As raízes tinham levantado um trecho pequeno do piso junto ao canteiro. Não parecia elegante. Não parecia planejada.Parecia antiga.Augusto olhou pela janela.— Você vai dizer.Helena ainda segurava o volante.— Não vou.— Está pensando alto.— Não estou falando.— Seu rosto—Ele parou.Os dois ficaram em silêncio.Helena virou devagar.Augusto fechou os olhos.— Não aconteceu.— Quase.— Reflexo antigo.— Grave.Ele apontou para a casa.— Vamos entrar antes que eu perca direitos civis.Era quinta-feira.Dezoito e quatro.Tinham chegado cedo de novo.Dessa vez, Denise já os esperava junto ao portão.A corretora carregava uma pasta fina e um molho de chaves.— Boa notícia — disse assim que se aproximaram. — O proprietário autorizou as medidas completas.Helena saiu do car

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    Denise mandou as medidas na segunda-feira às oito e treze.Helena estava terminando café no posto quando o telefone vibrou.Porta principal: 92 cm.Portas das suítes: 82 cm.Banheiro maior: porta 86 cm, área livre lateral ao vaso aprox. 95 cm.Box tem pequeno ressalto de 2 cm.Entrada principal nivelada.Garagem com piso regular e acesso interno sem degrau.Abaixo, seis fotografias.Helena abriu.Casa térrea.Fachada simples.Telhado baixo.Um pequeno jardim na frente.Sala com duas janelas grandes.Cozinha clara, sem ilha monstruosa ocupando metade do espaço.Dois quartos maiores.Um terceiro pequeno o bastante para Davi considerar violação de direitos fundamentais.E, ao fundo, uma varanda estreita com um quintal que parecia caber dentro de uma tarde.Helena ampliou a fotografia da cozinha.Clara passou atrás.Voltou dois passos.— É casa?Helena bloqueou a tela.— Você está ficando invasiva.— Isso é sim.— É uma que a corretora vai mostrar.Clara sorriu.— Bonita?Helena ficou em

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