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Capítulo 314 — A casa escolhida outra vez

last update publish date: 2026-10-06 20:21:49

Quase um ano depois de terem recebido as chaves da casa alugada, Helena recebeu um e-mail de Eduardo Ferraz enquanto comia uma banana entre duas reuniões.

Leu o assunto.

Imóvel — proposta aos atuais locatários

Parou de mastigar.

Abriu.

Eduardo escrevia com a objetividade de quem sabia que qualquer tentativa de delicadeza podia tornar uma questão imobiliária mais assustadora do que precisava ser. Por razões pessoais e reorganização patrimonial, pretendia vender a casa nos meses seguintes. Antes
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    No primeiro inverno em que a casa era deles, Helena descobriu flores junto ao muro.Não muitas.Quatro, talvez cinco, escondidas entre folhas que ela passara quase um ano ignorando porque o arbusto parecia empenhado em ser apenas verde.Saiu para o quintal às seis e quarenta da manhã com uma caneca de café, viu as pequenas flores rosadas cobertas por gotas de orvalho e ficou parada.O frio era leve, desses que faziam as pessoas da região vestir casaco pela manhã e carregá-lo no braço antes do meio-dia. Ainda assim, a grama estava úmida, o ar tinha uma nitidez diferente e Helena precisou esfregar o pé descalço sobre o outro para aquecê-lo.Augusto apareceu na porta da cozinha.— Você vai ficar aí sem sapato?Helena não virou.— Vem ver.— O quê?— Flores.Silêncio.— Helena, existe vegetação no quintal há bastante tempo.Ela olhou por cima do ombro.— Vem.Ele veio.Não porque estivesse impressionado com a botânica.Porque ela pediu.Augusto parou ao lado dela e observou o arbusto.— A

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    Quase um ano depois de terem recebido as chaves da casa alugada, Helena recebeu um e-mail de Eduardo Ferraz enquanto comia uma banana entre duas reuniões.Leu o assunto.Imóvel — proposta aos atuais locatáriosParou de mastigar.Abriu.Eduardo escrevia com a objetividade de quem sabia que qualquer tentativa de delicadeza podia tornar uma questão imobiliária mais assustadora do que precisava ser. Por razões pessoais e reorganização patrimonial, pretendia vender a casa nos meses seguintes. Antes de anunciar ao mercado, queria oferecer aos dois a oportunidade de compra. Não havia obrigação, nem necessidade de resposta imediata. O contrato de locação seria respeitado integralmente se recusassem, e eventual comprador teria de assumir a locação vigente.Helena leu duas vezes.Depois uma terceira.A banana continuou na mão.Clara entrou na copa e parou.— Você está encarando fruta.Helena levantou os olhos.— O dono vai vender a casa.Clara ficou séria.— A casa de vocês?— A casa que a gent

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    Davi decidiu que Daniel fazia parte da família numa quarta-feira às quatro e vinte da tarde e imediatamente se arrependeu de ter usado uma palavra tão grande.A culpa foi da escola.Naturalmente.A professora havia distribuído uma folha intitulada MINHA REDE DE FAMÍLIA E CUIDADO, o que parecia simples até Davi perceber que havia círculos demais e instruções insuficientes.No centro, precisava escrever o próprio nome.Ao redor, pessoas importantes em sua vida.Podiam ser parentes ou não.A professora explicara isso três vezes.Mesmo assim, Davi ficou vinte minutos olhando para um círculo vazio.Elisa percebeu da cozinha.— Travou?— Não.— Você está parado na mesma palavra desde que eu comecei a cortar cenoura.— Estou pensando.— Certo.Ela não se aproximou.Era uma habilidade aprendida.Na folha já estavam:Mãe.Pai.Tomás continuava ali sem qualquer dúvida.Depois:Tio Augusto.Tia Cecília.Davi tinha começado a escrever Helena como “tia Helena”, parado no meio e riscado.Não porque

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    Três semanas depois do casamento, Augusto descobriu que vinte minutos podiam ser mais assustadores que uma cerimônia inteira.No casamento, pelo menos, Helena estivera ao lado dele.No Festival Instrumental de Lago Sereno, ela estaria na terceira fileira.Diferença pequena em metros.Considerável no corpo.— Você já tocou em público — disse Helena.Estavam no quarto do hotel, duas horas antes da apresentação.Augusto ajeitava a manga da camisa pela terceira vez.— Recital pequeno.— Continua sendo público.— Era outro contexto.— Qual?Ele olhou.— Menos gente.— Quantas pessoas você acha que vão estar hoje?— Não sei.— Então está com medo de uma quantidade imaginária.— Obrigado.Helena sorriu.— Disponha.O festival ocupava um antigo centro cultural perto da praça principal de Lago Sereno.Nada enorme.Dois auditórios.Um palco externo.Oficinas durante o dia.Apresentações curtas à noite.Música instrumental suficiente para atrair gente interessada e insuficiente para transformar

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    Na manhã seguinte ao casamento, Helena acordou porque Augusto estava tentando alcançar o próprio telefone sem acordá-la.Falhou nas duas tarefas.Ela abriu os olhos e encontrou o braço dele estendido para o criado-mudo, a aliança nova refletindo uma faixa estreita de luz.— O que você está fazendo?Augusto parou.— Nada.— Isso claramente é alguma coisa.— Vendo as horas.— Por quê?— Para saber as horas.Helena fechou os olhos outra vez.— Casamos ontem e você continua péssimo mentindo.Ele pegou o telefone.— Oito e dezenove.— Horrível.— Temos reserva às duas.— Na serra. Uma hora e meia daqui.— Duas, com trânsito.Helena puxou o lençol.— Ainda temos quase quatro horas.— Cinco e quarenta e um minutos.Ela abriu um olho.— Se você fizer contagem regressiva da lua de mel, eu peço divórcio.Silêncio.A palavra ficou no quarto por um instante.Nenhum dos dois riu imediatamente.Helena virou o rosto.Augusto olhava para o telefone, agora sem qualquer interesse nele.— Foi ruim? — pe

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    Às seis e vinte da manhã do casamento, Helena percebeu que tinha cometido um erro básico de planejamento.Não havia pensado no café.Não no serviço da Casa das Janelas, que estava contratado. Nem no almoço. Nem no bolo pequeno que Cecília continuava considerando uma ofensa à instituição matrimonial.No café daquela manhã.Ela estava sentada à mesa de camiseta velha, o cabelo preso de qualquer jeito, olhando para um pacote quase vazio enquanto Augusto preparava a cafeteira.— Tem pouco.— Dá para dois.— E amanhã?Augusto virou o rosto.Helena percebeu.— Certo.— Amanhã podemos comprar.— Eu sei.— Literalmente?Ela apontou para ele.— Não começa no dia do casamento.Augusto sorriu e voltou para a cafeteira.A máquina fez o barulho habitual. O mesmo de todas as manhãs em que nada legalmente relevante acontecia.Helena gostou disso.Às onze, assinariam documentos.Antes, precisavam tomar café.Nenhum dos dois tinha planejado uma separação cerimonial na manhã.Ainda assim, ela aconteceu

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