FAZER LOGINMARCO SALVATORI
O tilintar dos talheres contra a porcelana era o único som que preenchia a sala de jantar. O jornal em minhas mãos estava aberto, mas eu sequer prestava atenção às palavras. Minha mente já estava inquieta com os compromissos do dia, os negócios que precisavam da minha atenção. Ao meu lado, minha esposa permanecia sentada, imóvel, os olhos vazios fixos em algum ponto distante. O café esfriava em sua xícara, intocado. Ela estava aérea, perdida dentro da própria mente. Um incômodo constante. Eu me certificava de que ficasse assim. Era melhor para todos. A cuidadora, sempre atenta, mantinha-se perto dela, fingindo zelo. Sua lealdade a mim ia além dos deveres profissionais, e era isso que a tornava útil. Deslizei os olhos pelo relógio de ouro em meu pulso e franzi o cenho. — Chame Jade — ordenei à empregada, sem desviar o olhar do jornal. — Ela conhece as regras. Deveria estar aqui. A mulher assentiu rapidamente e saiu da sala. O silêncio voltou a dominar o ambiente, mas agora estava impregnado por uma irritação crescente. Minutos depois, passos hesitantes ecoaram pelo chão de mármore. Levantei os olhos quando a empregada retornou, o rosto pálido e apreensivo. — Senhor... — ela pigarreou, como se escolhesse as palavras. — A senhorita Jade não está no quarto. Minha mão se fechou em um punho sobre a mesa. O jornal deslizou de meus dedos e caiu ao chão. — Como assim, não está? — Ela... não está em nenhum lugar da casa, senhor. Meu estômago afundou. Um frio cortante percorreu minha espinha antes de ser substituído por um calor furioso. Meus olhos se estreitaram enquanto me inclinava ligeiramente para frente, minha voz agora carregada de uma ameaça letal. — Chame os seguranças. Agora. A empregada saiu apressada. Cada segundo que passava me corroía por dentro. Quando os homens entraram, meus olhos cravaram-se neles com puro ódio. — Como ela saiu daqui? — minha voz era um rosnado, cada palavra carregada de fúria contida. Os seguranças trocaram olhares nervosos. Um deles engoliu em seco antes de se arriscar a falar: — Senhor, nenhum dos portões foi abertos. Nenhum carro saiu da propriedade. Minha paciência se esgotou num instante. Meu punho bateu contra a mesa com força, fazendo a porcelana estremecer e o silêncio pesar ainda mais. — Então me expliquem, desgraçados, como diabos ela desapareceu?! O medo se espalhou nos olhos deles, e eu me alimentei disso. Minha voz saiu cortante, definitiva: — Se algo acontecer com Jade, um de vocês vai pagar por isso! Um arrepio de pânico percorreu o ambiente. O silêncio foi quebrado apenas pelo barulho abafado da xícara deslizando dos dedos trêmulos da minha esposa e tombando contra o prato. Ela nem pareceu notar. Mas eu notei tudo. E alguém pagaria caro por esse erro. ... DOMINICK O velho deve estar arrancando os cabelos agora. Um dia inteiro se passou e Jade ainda não colocou nada na boca. Isso tá me tirando do sério. Ela é teimosa, orgulhosa... Mas vai quebrar. Todos quebram. Essa casa de temporada não era o plano, mas o lugar certo ainda não tava pronto. Paciência. Hugo, meu cúmplice, estava resolvendo isso pra mim. Ele é pai de Edgar, meu irmão mais velho que morreu pelas mãos do maldito marco. Ele mais do que ninguém me lembra do motivo de tudo isso. "Você não pode hesitar, Dominick. Passou anos esperando esse momento. Ela é o meio para o fim." Essas palavras queimam na minha cabeça enquanto pego a corda e a fita preta. Respiro fundo. É agora, eu não posso mas voltar atrás. ... Entro no quarto. Jade me encara, a respiração acelerada, como um animal acuado. Os olhos dela gritam pavor, e isso deveria me satisfazer. Mas tudo que sinto é raiva. Ela vê a corda em minhas mãos, a fita adesiva preta. — Não! Não... fica longe de mim! — A voz dela falha, mas o medo é real. — Cala a boca. — Minha paciência já era. Ela se debate, mas eu sou mais forte. Muito mais forte. A empurro na cama, imobilizando seus braços com a corda. O cheiro do medo dela enche o ar. — Por favor! Não faz isso comigo! — Os olhos dela brilham com lágrimas, implorando. Abro a fita com os dentes, o barulho ecoando no quarto silencioso. Meu sangue ferve. — Coopera e não vai doer. — Minha voz sai firme, mas algo dentro de mim se retorce. Ela balança a cabeça freneticamente. Ela não quer. Azar o dela. Passo os dedos pelo rosto dela, afastando os cabelos desgrenhados. Ela se encolhe, o corpo todo tremendo. — Só faz o que eu mandar, princesa. — Meu tom sai baixo, sombrio. Ela solta um som abafado, negando. Então a levanto, coloco-a no chão. Amarrada, silenciada pela fita. Um desastre ambulante. Pego o celular. Ela vê e começa a se debater de novo. O pânico toma conta do rosto dela. Sabe o que eu vou fazer. — Seu pai precisa pagar. E você... você é só o começo. — Minha voz sai gelada, cruel. Gravo o vídeo. Rápido. Preciso que Marco sinta o gosto do medo. O gosto de ver sua princesinha tão desprotegida, nas minhas mãos. Detonada! Ele vai sentir a dor, vai sentir a fúria de não poder fazer nada. Ela chora, mas o olhar dela... não é só medo. É raiva. É ódio. Um ódio tão denso que chega a me sufocar. Envio o vídeo pro Hugo pra ele passar pro maldito.Era missão cumprida. Mas enquanto olho pra ela, algo me incomoda. A intensidade nos olhos dela, o jeito que ela me encara... Era isso que eu queria, não era? Então por que diabos isso não parece tão certo assim? .... Eu solto um suspiro e me abaixo de frente pra ela. Ela não me olha. Os olhos fixos no chão, o rosto ainda molhado de lágrimas. Respiro fundo, mais uma vez. Minha paciência está no limite. Seguro o queixo dela, forçando-a a me encarar. Mas ela desvia, desafiadora como sempre. — Isso não tem nada a ver com você. — Minha voz sai baixa, controlada. Ela não reage. Fica ali, firme. Então continuo. — Teu pai fez muito mal a muitas pessoas... E então, finalmente, ela me olha. Mas não como eu esperava. Não há medo. Apenas desafio. Orgulho. — Não me olha assim, garota. — Minha voz sai grave, carregada. Ela me encara com ainda mais desprezo. A raiva queima no olhar dela. — Essa tua rebeldia me deixa louco! — rosnou, arrancando a fita da boca dela de uma vez só. Ela solta um grunhido de dor. — Argh! Mas em vez de chorar ou implorar, ela me olha com um brilho felino nos olhos. — Eu vou acabar com você! — ela solta, com ódio gotejando de cada palavra. Eu sorrio, de canto. Esse jogo está ficando cada vez mais interessante. — E eu achando que você estava com medo. Ela não recua. Continua, cheia de veneno. — Meu pai já deve ter notado que eu não estava em casa. Ele vai te caçar! Vai te achar e, quando isso acontecer, eu quero estar lá pra ver. Paro de andar e a encaro. Ela quer me desafiar? Que seja. — Eu mal posso esperar então... Ela rosna e eu saio do quarto, pegando o celular e ligando pra Hugo. ...Eu já não conseguia ficar naquela casa. Aluguei um apartamento discreto, pequeno, longe da memória dos corpos e da podridão. Eu sabia que ainda estava sendo investigada. então um apartamento, longe das memórias ruins dos meus pais, devia ser pra eles uma motivação, por não conseguir suportar tanta dor. E foi lá que, certa manhã, um buquê de flores chegou. Simples. Elegante. Com um cartão escrito à mão. O coração quase saiu pela boca. As mãos tremeram. Rasguei o envelope com pressa, e li: “As estações mudam, mas a raiz permanece. Estamos mais perto da primavera. Faltam poucos dias para o jardim florescer por inteiro. Fique firme. Eu estou chegando.” E eu sabia que era ele! enigmático, subliminar, mas ele.
O helicóptero ainda rugia acima, com a hélice cortando o ar como lâminas. Foi então que o plano de descarce de toda aquela cena começou. Entrei em contatos rápidos com gente oculta, pagando bem os serviços eram excelentes. e eu não podia arriscar. O trabalho sujo seria feito, pra maquiar toda aquele cenário. Enquanto isso, mandei localizar o piloto. Ele era a única testemunha viva e cúmplice. mandei ameaçar ele, ou ele sumia ou seria preso como cúmplice de um sequestro... Claro, ele escolheu sumir por um tempo. A grana já havia sido transferida. Ele teria que desaparecer. E levaria consigo a culpa de um sequestro, por um tempo até dizer que só alugou o helicóptero pra terceiros. ... Eu sair de lá, minutos dep
Ela tremia. As mãos dele prendiam seu braço com força. O medo escancarado no rosto. Os olhos marejados, arregalados. seus cabelos balançando com o vento forte da hélice ainda girando, Ela olhava pra mim como se eu fosse a última esperança. E eu era. — Você não vai conseguir o que quer! disse entre os dentes. — Você Não sabe de nada. Ela é minha filha! — Não é mais. Apontei a arma. — E se encostar um dedo nela de novo... eu te mato com prazer. Um segundo. Só um. Jade olhou pra mim, um sinal cúmplice de atenção. E então, ela mordeu o braço dele. Com tudo. Como um animal encurralado. Ele gritou de dor e a empurrou, seu corpo caiu no chão.
DOMINICK O sangue escorria pela lateral do meu rosto. A dor latejava no corpo inteiro. Tinha gosto de ferro na boca e um zumbido constante no ouvido, como se tudo estivesse em câmera lenta. Mas o que me enlouquecia de verdade… era ver Jade sendo arrastada pra longe de mim. Três brutamontes me mantinham no chão. Um deles chutou minhas costelas de novo, e eu arqueei o corpo com um grunhido seco. Cuspi sangue. Queria me levantar, mas as pernas já não respondiam como antes. Ainda assim, não parei de lutar. Porque eu sabia. Sabia que se eu não fizesse alguma coisa, perdia ela pra sempre. Carter se aproximou. Devagar. Com aquele ar de vencedor. O terno alinhado, o cabelo intacto, como se ele não estivesse no meio de um campo de guerra. A arma na mão. E aquele maldito sorriso nos lábios. — Eu avisei. ele disse, com a voz baixa, como se saboreasse cada sílaba.
JADE Eu andava de um lado pro outro no píer, tentando não surtar. O vento batia no meu rosto, mas nem isso me fazia esquecer a aflição. Cada segundo que passava parecia uma eternidade, e eu só queria ver minha mãe ali, surgindo de qualquer canto. Dom tava impaciente, dava pra ver no jeito que ele respirava, no jeito que olhava o relógio e depois pra mim. — Não dá pra esperar mais, Jade. ele disse, parando bem na minha frente. — Eu não vou sem ela! falei firme, mesmo com o coração acelerado. — A gente só vai quando ela chegar.Eu não sei do que ele é capaz de fazer com ela se eu fugir assim. — Isso tá ficando arriscado demais. A gente tem tudo pronto, a lancha, mantimento pra semanas, uma ilha no mapa... A gente só precisa ir. — E deixar ela pra trás? soltei, olhando ele nos olhos. — Nem morta. Ele r
NARRAÇÃO MÃE DA JADE. Eu vi a chance. Finalmente! A fuga da Jade era tudo o que eu precisava. Aquela garota tola achava que estava se livrando do pai, mas, no fundo, só estava servindo aos meus próprios interesses. Aquele infeliz, me invalidou por anos, pôs aquela informante pra cuidar de mim, me dopar. Mas ela pagou da pior forma. E não é que ela era leal? não entregou o infeliz que seduziu a minha filha. Era agora! eu tinha planos... e esses planos seriam concretizados agora. Aquilo tudo era meu, meu por direito. E eu iria tomar de volta. Mas pra isso, algumas pedras teriam que ser removidas do caminho, começando pelo maldito do Marco. Peguei o telefone com um sorriso frio nos lábios. — Marco... Minha voz saiu mansa como veneno. — Ela vai fugir, Venha a







