INICIAR SESIÓNSamantha
Eu respirei e pensei na menina que eu fui, que recolhia migalhas de cuidado onde desse, que cresceu aprendendo a não implorar. Eu prometi para mim mesma ali, com a coluna ereta, que não me quebraria de novo em público. — Ayres. — arrisquei, com calma — Eu senti. Você sentiu também. O olhar dele ardeu. Por um instante, o homem venceu o Alfa. A dor que passou naquele rosto era tão nítida que me deu vontade de tocar sua face e dizer que estava tudo bem, que a vida não nos dá presentes para arrancá-los depois. Só que ele recuou um meio passo, não do meu corpo, do que eu representava. — O que eu sinto ou deixo de sentir não muda o que devo fazer. — respondeu, cortando o espaço entre as palavras — Uma companheira precisa… precisa ser uma fortaleza. Eu não posso… — Não pode o quê? — Minha pergunta saiu macia. Não era provocação. Era um pedido de verdade. Ele fechou as mãos, os tendões saltando sob a pele. A tatuagem no braço pareceu ganhar vida, uma expressão severa acompanhando a rigidez do dono. Por um segundo achei que ele iria embora, como quem vira as costas para um precipício. Mas ele ficou. E isso doeu quase do mesmo jeito. — Não posso permitir que o que aconteceu com a minha mãe aconteça de novo. — disse, baixo, como se confessasse ao chão — Amar custou caro demais à nossa alcateia. E eu… eu não vou expor minha matilha a essa… fraqueza. A palavra caiu como pedra na água, gerando círculos de choque que alcançaram gente que nem queria ouvir. “Fraqueza.” Foi ali que entendi, não era sobre mim. Era sobre fantasmas. Sobre uma noite antiga, um fogo, tiros, gritos, coisas que eu só conheço de boatos e olhares que se desviam quando o assunto aparece. Abri a boca, fechei, escolhi com cuidado. — Você chama de fraqueza o que te salvaria. — falei, ainda doce — Não a mim. A você. Os Anciãos trocaram entre si um murmúrio grave. A mestra de cerimônias, sábia, não interferiu. Eu senti que o próximo passo seria dele. Parte de mim queria correr, me esconder, poupar o coração. Outra parte, mais adulta e recém-nascida, ficou. Ele mexeu no colar do pescoço, um hábito nervoso que eu não conhecia, e agora conheço. Quando tornou a falar, não havia raiva. Havia sentença. — Samantha… — o meu nome na boca dele soou bonito e triste — Você merece alguém que a receba de braços abertos. Alguém inteiro. Eu não sou esse homem. Eu rejeito você. O chão inclinou. Engoli a vontade de cair. Alisei o tecido do vestido só para ter o que fazer com as mãos. Olhei para cima, para a clarabóia, para a Lua enorme escutando tudo. Eu quis perguntar por que a Lua nos faria isso. Mas a pergunta morreu na garganta, porque, ao mesmo tempo, eu sabia, nada que vem dela é por mal. Às vezes, ela acorda a gente pelo susto. — Se essa é a sua decisão… — respondi, sustentando o olhar dele — que ela caia sobre você, não sobre mim. Não era um ataque. Era um limite. Eu precisava escolher a mim mesma naquele instante, ou a menina do chalé dos órfãos voltaria, e eu não queria mais ser ela. O silêncio que se espalhou, aquele de verdade, tenso, que antecede temporal, foi cortado pela voz da mestra: — A vontade do Alfa foi dita. A vontade da Deusa permanece. A história é mais longa que uma noite. A cerimônia seguiu, mas nada realmente seguiu. Eu ouvi nomes que não me diziam respeito, bênçãos derramadas em outras cabeças, promessas feitas por gente que mal conseguia alinhar as palavras. Ninguém me tocou. Ninguém precisou. Eu era uma ilha no meio de um oceano que se fingia calmo. Quando a última tocha apagou, a Lua ficou imensa sobre nós. Caminhei devagar até a entrada, os passos soando dentro de mim como tambores distantes. Senti quando ele se aproximou, o perfume amadeirado, o calor do corpo, a presença que é impossível ignorar. — Samantha. — ele chamou, quase um sussurro — Eu não… — Não explica. — pedi, virando o rosto apenas o suficiente para que ele me visse firme — Só me prometa uma coisa. Ele assentiu, hesitante. — Promete que, se um dia você perceber que o que te assusta não é amor, e sim a lembrança de ter perdido, você não vai me procurar para desfazer a dor rápida que deixou hoje. Eu não sou atalho para a sua cura. Os olhos dele brilharam, não sei se por raiva de si mesmo ou por uma espécie de alívio em ouvir o que ninguém ousa dizer a um Alfa. Ele não prometeu. Também não negou. Ficou ali, preso aos próprios medos, enquanto eu seguia. Saí do salão. A floresta me recebeu com o som dos galhos e um vento que cheirava a mudança. O caminho de volta parecia outro. Talvez porque eu fosse outra, um pouco mais inteira na própria rachadura. O céu tinha aquela cor impossível do fim da noite, quando não é mais escuro e ainda não é manhã. A Lua me acompanhou, teimosa. Parei no meio da trilha. Fechei os olhos. As vozes dos sonhos voltaram, claras, como se falassem do meu lado. — “Você não foi abandonada. Foi apontada. O que é seu não se mede por aceitação alheia.” Abri os olhos com a certeza de quem acorda de um pesadelo e encontra a própria mão. Eu ainda tremia, mas era a tremedeira antes da corrida. Apertei o vestido na altura do peito, como se pudesse segurar o coração no lugar, e sussurrei para o céu: — Se não é hoje, que seja quando tiver que ser. E, quando for, que eu esteja forte o bastante para escolher. Continuei andando. Atrás de mim, deixei o eco de uma decisão que não partiu de mim, mas que não me diminuiu. À frente, algo se movia, não um caminho pronto, e sim uma estrada possível. Meu nome continuava comigo, inteiro. E, lá em cima, a Lua parecia sorrir com os cantos. Naquela noite, voltei para o chalé dos órfãos e sentei na beira da cama sem acender as luzes. O quarto carregava memórias alinhadas nas prateleiras, uma fita antiga de cabelo, duas cartas que nunca enviei, um desenho de uma loba feito quando eu tinha sete anos. Encostei a cabeça na parede e respirei. Do lado de fora, um uivo respondeu a outro, distante. Eu não chorei. Não porque não doesse, mas porque alguma coisa em mim já trabalhava para transformar a dor em impulso. Eu desconhecia o nome desse trabalho íntimo, mais tarde, eu o chamaria de chamado. Naquela noite, eu só soube de duas coisas: o Alfa tinha um coração que não era cruel, apenas cercado, e eu tinha um caminho que, com ele ou sem ele, iria aprender a trilhar. — Boa noite, Lua. — falei, antes de deitar — Se me escolheu, me ensina. A escuridão me cobriu como um cobertor que a gente conhece do avesso. Adormeci com a sensação estranha de que algo havia sido quebrado e, ao mesmo tempo, aberto. E, mesmo que eu ainda não entendesse, havia uma promessa ali, feita de luz pálida e teimosia, eu não seria lembrada como a garota que implorou. Eu seria lembrada como a mulher que ouviu o próprio nome dentro do peito e respondeu.SamanthaA Lua estava cheia, testemunha paciente de tudo que vivemos. Desde a noite em que fui rejeitada, até a noite em que fui aceita diante de todos, eu entendi que nada na vida acontece por acaso. As cicatrizes que um dia queimaram meu peito hoje são as linhas que desenham meu destino.Depois da guerra, depois da dor e da vitória, a alcateia Greene não era mais a mesma. Nem eu. Nem Ayres. Nem o mundo ao nosso redor.O clã Lunar, antes escondido entre sombras e lendas, desceu das montanhas para selar uma aliança com nossa alcateia. Homens e mulheres de túnicas prateadas caminharam lado a lado com guerreiros de pele marcada pelo tempo, e nenhum dos dois lados olhou o outro como inimigo. A líder deles, Maelin, ergueu sua mão e proclamou diante de todos:— A Escolhida da Lua é uma só, e ela está aqui. Onde ela pisa, nós pisamos. Onde ela luta, nós lutamos.A matilha inteira uivou em resposta. Naquele momento, eu não era apenas a companheira do Alfa. Eu era ponte. Eu era caminho. Eu er
AyresA manhã encontrou a cabana ainda com cheiro de lenha fria e pele aquecida. A luz entrou pelas frestas como pequenos rios dourados, atravessando o tecido leve da cortina, pousando no rosto de Sam. Ela dormia no meu peito, a respiração calma, o traço de um sorriso no canto dos lábios, como se conversasse com a Lua em segredo. Passei a mão com cuidado por seus cabelos e, por um instante, deixei que a memória me esmagasse: o menino, o estampido, a queda da minha mãe. Depois, trouxe de volta o homem que acordava ali, inteiro, pertencente, escolhido também.Se eu tivesse mantido o orgulho, o que sobraria? Uma casa silenciosa e um comando vazio. Um Alfa forte por fora, oco por dentro. Foi preciso ajoelhar para ficar de pé. A força que eu gastava para negar o óbvio hoje serve para sustentar o que me sustenta: ela.Sam abriu os olhos devagar, lindo sereno atravessado por brilho travesso.— Bom dia, meu Alfa. — disse, a voz rouca de sono.— Bom dia, minha Luna. — respondi, encostando a b
SamanthaA noite de lua cheia se abriu sobre nós como um véu prateado. O templo lunar estava lotado, mas o silêncio era tão profundo que eu podia ouvir a batida do meu próprio coração. Ayres estava ao meu lado, imponente, mas vulnerável, e por isso mais belo do que nunca.A Mestra do Ritual nos chamou para o círculo central. A matilha nos observava com olhos cheios de expectativa. Alguns choravam, outros apenas seguravam a respiração.— A Lua chama seus escolhidos. — a Mestra anunciou — Hoje, não há Alfa e Luna separados. Hoje, há união.Ayres estendeu a mão para mim. Por um instante, vi o homem que me rejeitou, o medo em seus olhos, o peso do trauma que ele carregou desde menino. Mas, quando toquei seus dedos, tudo se dissolveu. Ele era só meu. E eu, dele.A luz da Lua desceu sobre nós. As marcas prateadas na minha pele brilharam e se estenderam até encontrarem o peito de Ayres, como se fossem rios de luz conectando nossos corpos. Fenrir e Arwen uivaram ao mesmo tempo, e o som ecoou
AyresO templo lunar da nossa matilha nunca me pareceu tão imponente. As paredes de pedra bruta refletiam o luar que entrava pelas aberturas no teto, derramando clarões prateados que dançavam pelo chão. Eu caminhava um passo atrás de Samantha, observando-a como se fosse a primeira vez. Cada olhar dirigido a ela tinha peso, respeito, temor, fascínio. Mas nenhum desses sentimentos se comparava ao que queimava dentro de mim: rendição.Os anciãos a posicionaram no centro do círculo, enquanto a matilha se reunia em silêncio absoluto. A fumaça das ervas queimadas subia e se misturava à luz da Lua. Samantha manteve a cabeça erguida, as mãos firmes ao lado do corpo, o olhar sereno. A força dela não era exibida, era natural, como a respiração.Quando a voz da Mestra do Ritual ecoou, a sala pareceu se contrair:— A Deusa da Lua chama sua escolhida. Se for de Sua vontade, que as marcas se revelem.No instante seguinte, o milagre aconteceu. Na pele de Samantha, símbolos prateados começaram a br
Samantha Levei Ayres até um banco largo, perto da forja apagada. Sentei-o aos poucos, cuidando para não tensionar o lado ferido. Ele obedeceu sem discussão, o que, confessei, me deu uma paz secreta.— Vai ficar uma marca. — comentei, observando o selo de luz que ainda vibrava sob a pele.— Quero que fique. — ele disse, sem hesitar — Para lembrar do que não volto a fazer.— E do que voltamos a ser. — acrescentei.Ele segurou minha mão de novo, mas agora não era ancoragem, era afeto quieto. O pátio nos rodeava sem nos invadir, como se soubesse que aquele banco, naquele minuto, era nosso altar.— Tem algo que eu não disse do jeito certo. — Ayres começou, o olhar procurando o meu — Sempre falei sobre destino com raiva, como se fosse uma corrente. Hoje entendo: ele só aponta. Quem anda somos nós. Se eu te aceito diante de todos, é porque decidi andar contigo, não porque a Lua me empurrou.— Eu sei. — respondi, sentindo a garganta apertar do jeito bom — E, se eu digo que escolho ser tua, é
SamanthaA madrugada cedeu lugar a um início de manhã que não tinha força para ser bonito. O campo estava gasto, brasas morrendo, cascas de munição enterradas no barro, passos arrastados de quem voltou. A vitória é um bicho silencioso depois do estalo e, ainda assim, viva. Os nossos se juntaram em torno de mim e de Ayres como quem busca calor. Vi rostos manchados de terra e sangue, vi olhos fundos e, mesmo assim, inteiros. Crianças foram trazidas para fora, agarradas às saias das mães, provando com o toque que a casa continuava de pé.Ayres permanecia ajoelhado, uma mão no chão para apoiar o corpo ferido, a outra segurando a minha, como quem se ancora no que é certo. Eu sentia sob os dedos o pulsar dele irregular, mas firme o suficiente para me manter ali. A cada respiração, ele lutava um pouco, e vencia um pouco. O corte estava selado, obra da Lua e das minhas mãos, mas o veneno rondava por dentro, como um inverno tardio tentando demorar-se. Eu fiquei. Não por pena. Por escolha. Eu







