INICIAR SESIÓNEnquanto Lyra se embrenhava na escuridão das montanhas do norte, o grande salão de reuniões do palácio de Blackthorn ardia em uma fogueira de discussões políticas. As longas janelas góticas permitiam que a luz do fim de tarde cortasse o ambiente, iluminando os rostos tensos de três Reis Alfas vizinhos que haviam permanecido após o banquete da noite anterior.
No centro da mesa redonda de carvalho, Kael Blackthorn apoiava os punhos cerrados sobre a madeira. Ele ainda vestia suas roupas militares, mas a capa estava jogada de lado. O incômodo surdo em seu peito havia se transformado em uma pontada constante, um eco persistente da rejeição que ele se recusava a reconhecer como fraqueza. Seu lobo continuava em um silêncio hostil, como um predador enjaulado que se negava a obedecer ao dono. — O ataque na fronteira norte não foi um caso isolado, Kael — declarou o Rei Alfa de Silverwood, um homem de meia-idade com cicatrizes profundas no rosto. — Meus batedores encontraram corpos mutilados perto dos nossos limites também. A mensagem deixada com sangue é clara: a herdeira da profecia maldita está se movendo. O Conselho da Lua tem razão em exigir vigilância total. — Vigilância é uma coisa, Gideon. Caça às bruxas é outra — Kael respondeu, a voz saindo em um tom gélido e controlado. — Lobos renegados e saqueadores atacaram uma cabana de curandeiro no meu próprio vilarejo inferior ontem à noite. Eles usam o pânico da profecia como disfarce para cometer crimes comuns. Se começarmos a executar todos os ômegas e dissidentes suspeitos por causa de histórias de fogueira, jogaremos nossos próprios reinos no caos. No canto do salão, o Sumo Sacerdote Malakor moveu-se silenciosamente entre as sombras, suas vestes cinzentas arrastando-se pelo chão de pedra. Um sorriso sutil e perigoso desenhou-se em seus lábios finos. — Histórias de fogueira, Majestade? — a voz de Malakor ecoou com uma mansidão venenosa. — A Primeira Rainha quase destruiu a soberania dos Reis Alfas milênios atrás antes de ser contida pelo Conselho. A profecia da Lua de Sangue não é um mito. A herdeira nascerá com uma marca e, se ela não for eliminada antes do despertar total de seus poderes, ela usará a submissão dos ômegas para erguer um exército contra os tronos legítimos. Kael estreitou os olhos azuis-escuros para o sacerdote. A menção à "marca" fez sua mente viajar, por um breve segundo, para o pescoço exposto de Lyra no banquete. Ele se lembrou da cicatriz escura em forma de lua crescente que Malakor chamara de deformidade. Uma dúvida rápida e incômoda cruzou seus pensamentos, mas ele a espantou imediatamente. Ela é apenas uma ômega comum, repetiu para si mesmo. Uma garota fraca que recolhia ervas com o pai. O Conselho está paranoico. — Minhas patrulhas já estão caçando os renegados que invadiram o vilarejo — Kael declarou, cortando o assunto com a autoridade de um monarca. — Se houver qualquer conexão com rebeldes da fronteira, eu mesmo arrancarei as cabeças dos culpados. Mas Blackthorn segue as minhas leis, Malakor. Não permitirei que o Conselho execute meus súditos sem provas. A Rainha-Mãe, Evelyn, que observava a reunião em silêncio perto do trono, deu um passo à frente, colocando a mão fina sobre o ombro do filho. Seu toque era suave, mas a pressão era puramente política. — Seu zelo pelo seu povo é louvável, Kael — disse Evelyn, olhando significativamente para os outros Alfas ao redor da mesa. — Mas os Reis aqui presentes precisam de garantias de que Blackthorn continua forte. Ontem à noite, a Deusa da Lua testou sua liderança ao ligar seu vínculo a uma serva comum. Você agiu como um verdadeiro governante ao rejeitá-la e priorizar o trono. Agora, precisa consolidar essa força. O Rei Gideon ofereceu a mão de sua filha primogênita, uma guerreira Alfa de sangue puro. Uma união que trará cinco mil soldados para as nossas fronteiras. O silêncio caiu sobre a mesa redonda. Todos os olhares se fixaram em Kael, esperando sua resposta. Aquela era a engrenagem do mundo em que ele fora criado. Casamentos eram tratados como tratados de paz; parceiros eram escolhidos por linhagem e exércitos, não por laços místicos. Aceitar a filha de Gideon era o movimento lógico, o passo correto para proteger Blackthorn de uma guerra iminente. No entanto, quando Kael abriu a boca para aceitar a proposta, a pontada em seu peito foi tão violenta que ele perdeu o fôlego por um milésimo de segundo. A imagem de Lyra desabando no chão, gritando de agonia enquanto o vínculo se partia, piscou diante de seus olhos. Ele engoliu o incômodo, mantendo a expressão perfeitamente neutra. — Agradeço a generosidade do Rei Gideon — Kael respondeu, a voz firme e desprovida de calor. — Mas nossas defesas atuais são o suficiente por enquanto. Não tomarei uma nova parceira enquanto o rastro dos rebeldes na fronteira norte não for completamente apagado. Discutiremos alianças de casamento quando o território estiver seguro. Gideon franziu o cenho, claramente insatisfeito, mas assentiu respeitosamente com a cabeça. Malakor recolheu-se de volta às sombras, os olhos semicerrados em pura desconfiança. Ele sabia que Kael estava resistindo, mesmo sem perceber, às cordas com as quais o Conselho vinha tentando amarrá-lo. Quando a reunião finalmente terminou e os Alfas se retiraram, Kael permaneceu sozinho no salão. Ele caminhou até a janela gótica e olhou para o vilarejo abaixo, onde a noite começava a cair. O palácio parecia mais frio do que o normal. Ele levou a mão ao peito novamente, massageando o lugar onde o vazio latejava. Kael acreditava que havia tomado a decisão certa para manter o poder de seu reino intacto, completamente alheio ao fato de que, ao rejeitar Lyra, ele havia apenas dado o primeiro passo na longa estrada que destruiria todas as mentiras que sustentavam o seu trono.Três anos haviam se passado desde a noite em que as antigas estruturas do Conselho Superior ruíram sob as muralhas de Blackthorn. O inverno ainda cobria as montanhas do norte com seu manto branco, mas a neve já não carregava o mesmo significado de antes. Naquela manhã, o pátio central do Palácio de Cristal estava cheio de vozes, risadas e passos pequenos correndo sobre a pedra aquecida pelas fogueiras. Os antigos símbolos cinzentos haviam desaparecido completamente. Em seu lugar, grandes estandartes negros e prateados tremulavam ao vento, carregando o símbolo da nova soberania. Lyra observava tudo da varanda superior. Aos vinte e cinco anos, ela já não carregava nos ombros o peso da jovem fugitiva que havia chegado àquele território tentando sobreviver. Vestia uma túnica longa de tecido escuro, bordada com fios prateados, e os cabelos cacheados caíam livres pelas costas. A marca de Kael permanecia visível em seu pescoço. Não como uma lembrança de posse. Mas como a escolha
O inverno havia dado lugar à primavera. A neve que durante meses cobrira as montanhas começava a desaparecer, revelando os primeiros sinais de verde entre as pedras. Os rios voltavam a correr pelas encostas, as estradas comerciais estavam abertas novamente e, pela primeira vez em muitos anos, as caravanas atravessavam o norte sem escoltas de guerra. Blackthorn havia mudado. Os antigos símbolos do Conselho tinham desaparecido das paredes. No lugar deles, estandartes negros e prateados tremulavam sobre as torres. As leis de Lyra haviam sido copiadas e distribuídas pelas províncias. Os impostos abusivos haviam sido abolidos. Os antigos contratos de casamento político deixaram de possuir validade. E os clãs que antes viviam separados pelo medo agora negociavam diretamente com a nova coroa. Mas havia uma mudança que todos esperavam com ainda mais ansiedade. O nascimento do herdeiro. Lyra caminhava lentamente pelos jardins internos do palácio. Uma das mãos repousava sobre o ven
O amanhecer encontrou Blackthorn coberto por neve. Pela primeira vez, porém, o frio não parecia anunciar guerra. As ruas estavam tomadas por bandeiras negras e prateadas. Fogueiras queimavam diante dos portões, enquanto os clãs que haviam descido das montanhas ocupavam o grande pátio do Palácio de Cristal. Curandeiros. Guerreiros. Comerciantes. Famílias inteiras. Todos haviam vindo testemunhar o momento que encerraria oficialmente séculos de incerteza. Dentro do palácio, Lyra estava diante de um grande espelho de prata. Não usava o pesado vestido cerimonial das antigas rainhas. Escolhera uma túnica longa de tecido negro, ajustada ao corpo, com detalhes prateados bordados nas mangas. Sobre os ombros repousava um manto escuro, preso por um broche com o símbolo da Primeira Rainha. Os cabelos cacheados estavam soltos. A marca de Kael permanecia visível em seu pescoço. E uma das mãos repousava sobre o ventre. Thomas entrou no aposento. Parou ao vê-la. Por alguns segundos,
O eclipse ainda estava a dois dias de distância. Mesmo assim, Blackthorn já parecia preparado para uma guerra. As muralhas haviam sido reforçadas. As patrulhas dobradas. Os portões permaneciam sob vigilância constante, e nenhum mensageiro entrava ou saía sem ser registrado. Mas Lyra havia proibido que os soldados demonstrassem pânico. O Círculo do Véu queria exatamente isso. Medo. Desconfiança. Caos. Ela não lhes daria nada disso. Naquela noite, o Salão de Guerra estava novamente ocupado. Kael permanecia diante do grande mapa do norte, enquanto Brandon distribuía relatórios. Silas e Helena analisavam as rotas de entrada. Valen observava as fronteiras de Ironcrag. Lyra entrou por último. Todos se levantaram. — Sentem-se. Ela caminhou até a mesa. — O homem que lidera o Círculo acredita que vai entrar em Blackthorn durante o eclipse. Kael assentiu. — E nós vamos deixá-lo entrar. Silas ergueu uma sobrancelha. — Tem certeza disso? — Absoluta. Lyra apontou para o map
O retorno a Blackthorn aconteceu antes do amanhecer. As carruagens atravessaram os portões enquanto a maior parte do palácio ainda dormia. A neve cobria as pedras do pátio, abafando o som das rodas e criando uma falsa sensação de tranquilidade. Mas, dentro do Palácio de Cristal, a tensão permanecia. Os prisioneiros foram conduzidos para a ala de julgamento. Lyra chegou pouco depois. Kael caminhava ao lado dela. Silas, Helena, Valen e Brandon vinham logo atrás. Sobre a mesa do salão estavam os documentos encontrados em Silverwood. Centenas de páginas. Nomes. Contratos. Pagamentos. Juramentos secretos. Lyra passou os dedos sobre um dos pergaminhos. — Quantos nomes confirmamos? Brandon respondeu: — Trinta e dois. Helena respirou fundo. — Trinta e dois nobres. — E mais vinte e um oficiais e comerciantes — Brandon completou. Silas soltou um assobio. — É uma rede inteira. Kael observou os documentos. — Uma rede que acreditava que o povo ainda obedeceria ao Conselho.
A estrada para Silverwood estava coberta por uma camada espessa de neve quando as primeiras carruagens deixaram Blackthorn. Lyra seguia no veículo central, acompanhada por Kael. Do lado de fora, vinte soldados escolhidos por Brandon avançavam em formação silenciosa, enquanto Silas e Helena conduziam a retaguarda. Não era um exército. Era uma operação cirúrgica. A antiga estação de vigia ficava escondida entre duas encostas, parcialmente coberta pela neve. Durante anos, ninguém a utilizara. Era exatamente por isso que os conspiradores haviam escolhido aquele lugar. Quando chegaram ao topo da colina, Brandon ergueu o punho. Todos pararam. — Há movimento — ele murmurou. Kael desceu da carruagem. Lyra veio logo atrás. — Quantos? — Pelo menos quinze homens dentro da estação. Silas desembainhou a espada. — Então temos companhia. Lyra levantou uma mão. — Ninguém ataca ainda. Kael olhou para ela. — O que está pensando? — Eles acreditam que estão escondidos. Ela apontou pa







