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07- Chamo Sim

Autor: Kaike Nunes
last update Data de publicação: 2026-08-07 01:21:34

Terminei minha refeição me sentindo muito melhor do que quando havia me sentado naquela cadeira. O número 5 realmente era uma excelente escolha, mas parecia haver algo mais pairando dentro de mim, ao qual classifiquei como gratidão pelo ocorrido, afinal, fazia total sentido me sentir assim, aberta, ou fragilizada. Fazia?

Eu estava sem celular, o que era bom e ruim ao mesmo tempo, afinal agora estava incomunicável, o que me fez lembrar de Lúcia e chegar a conclusão de que alguma forma de contato ia precisar existir antes que minha melhor amiga já me declarasse desaparecida e abrisse algum boletim de ocorrência na polícia... embora que ela tinha o contato do Sr. Luís... né.

Enquanto comia, me pegava olhando ao redor para ver se a via pelo salão e, quando via, sentia uma força descomunal forçando meus olhos a acompanhar seus movimentos e observar detalhes totalmente desnecessários. Sim, eu reparei em sua aparência e ela era uma gracinha, mas o problema era que essa “gracinha” parecia ir além da estética e a fazia brilhar numa simpatia que estava me incomodando, não com ela, mas com a forma que estava me sentindo por causa dela.

Balancei a cabeça como se assim pudesse afugentar qualquer tipo de pensamento que não deveria estar tendo, mesmo que estivesse repetindo para mim mesma que tudo não passava de fragilidade e gratidão.

– Vai querer mais alguma coisa? – Me perguntou, Camila, sorrindo e surgindo de repente ao meu lado.

Tomei um susto e foi visível, o que a fez achar graça. Sorrindo constrangida e puta por estar assim, em resposta, perguntei:

– Você também tem alguma sobremesa de sua preferência, Camila?

– Torta de bombom, é uma delícia.

Ela parecia realmente estar achando graça de mim, o que me fazia pensar sobre o como aquela menina estava me vendo, logo eu, dona de uma grande empresa em São Paulo, onde sou profundamente respeitada e, por vezes, devido a minha postura séria, até mesmo temida. Se isso afetava o meu ego? Com certeza.

– Então, por favor, me traz a torta favorita de Camila.

– Trago sim. – Saiu sorrindo.

Havia em mim uma mistura de dois sentimentos onde um me fazia querer ficar ali por muito mais tempo e o outro que me fazia ter vontade de sair dali correndo, como se estivesse fugindo de algum perigo, ou ameaça, sei lá. Ao mesmo tempo que estava sendo agradável, tanto pela vista, quanto pela comida e, lógico, pelo ótimo atendimento que estava recebendo, eu sentia um certo medo que, pro meu consciente, parecia inexplicável e assim seria ainda por algum tempo.

Camila me trouxe a torta de bombom, mas desta vez não saiu assim que a deixou sobre a mesa, pelo contrário, ficou me olhando, como se estivesse esperando que eu a provasse para, talvez, dar meu parecer a respeito de seu sabor. Peguei a colher, olhei pra ela com um olhar sorridente e brincalhão e disse:

– Vamos descobrir se essa indicação é tão boa quanto a anterior.

Ela apenas sorria enquanto eu afundava a colher e trazia à boca um pequeno pedaço daquele doce interessante e, para minha surpresa, extremamente delicioso. Mal senti seu sabor e logo a olhei espantada, o que a fez sorrir um pouco mais do que já estava sorrindo, como quem diz que: Viu? Não lhe disse?

– Me faz um favor, Camila? – Perguntei enquanto engolia aquela maravilha.

– Diga.

– Me traga outra fatia desta, só que pra viagem, e fecha a conta pra mim, por favor.

– Tudo bem.

Cada pedaço daquela torta parecia uma poesia que se recitava, ou uma música perfeitamente harmônica que se ouve. Aquele pedaço de torta era uma obra de arte, tão gostoso e bonito quanto a dona da mão que lhe trouxe até a minha mesa. Sim, eu lambia a boca por ambas, mesmo que uma destas ainda não sendo totalmente de meu conhecimento, mas lambia... lamberia.

– Aqui está.

Peguei meu cartão em minha bolsa, paguei por meu consumo e me levantei, ficando olho no olho com minha salvadora atendente simpática. Segurei sua mão livre e pedi que segurasse minha fatia de torta, comprada para viagem e, enquanto ainda segurava em sua mão junto a embalagem e sorria, disse:

– Eu não tenho como lhe agradecer pelo que você fez por mim hoje e nada do que eu faça poderia pagar por isso, mas peço que aceite esse pedaço de torta, que é o favorito da Camila, – Brinquei. – aceite como uma forma de gratidão, por favor.

Ela sorriu surpresa, me agradeceu enquanto eu a puxava para um abraço e sentia, não só a forma de seu corpo junto ao meu, mas seu cheiro. Novamente agradeci, beijei-lhe o rosto e comecei a me dirigir à saída enquanto tentava controlar minhas pernas, que pareciam bambas e desorientadas, e não era mais pelo susto do ocorrido na rua.

Minha vontade era correr desesperadamente pra longe dali sem nunca mais olhar pra trás. Meu coração palpitava acelerado e havia uma sensação de arrepio percorrendo por meu corpo. Eu estava ligeiramente ofegante sem que houvesse um real motivo para isso, mas era assim que me sentia, inexplicavelmente, era assim que me sentia por motivo algum.

– Letícia?!

Ouvi logo que saí do restaurante e havia começado a andar. Me virei pra saber quem era, embora reconhecesse aquela voz e não houvesse mais ninguém no Rio de Janeiro que realmente soubesse quem eu era. Camila vinha apressada na minha direção e com um pequeno papel em uma das mãos.

– Toma.

Peguei aquele pedaço de papel e enquanto o abria para ver o que era, ela me dizia:

– Meu telefone e meu I*******m, já que você destruiu o seu celular agora pouco. – Riu. Pela primeira vez ela parecia sutilmente constrangida enquanto falava. – Não sei por quanto tempo você vai ficar no Rio, mas qualquer coisa me chama.

Eu a olhei me sentindo como há muito tempo não me sentia. Não sabia o que dizer, estava sem palavras e isso não era algo comum. Respirei fundo, minha vontade súbita era dizer que já estava de partida e que não seria necessário, mas a voz de Lúcia ecoou em minha mente dizendo: “vê se você se permite CONHECER as pessoas”.

Respondi:

– Chamo... chamo sim.

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