Inicio / Romance / SILÊNCIO COMPRADO / CAPÍTULO 5: A FISSURA

Compartir

CAPÍTULO 5: A FISSURA

Autor: Kell velloso
last update Fecha de publicación: 2025-12-09 08:12:21

A luz do computador é o único ponto vivo no meu cubículo às 19h47. O andar executivo é um deserto escuro e silencioso. O zumbido do ar-condicionado baixa para um sussurro noturno, fantasmagórico. Eu estou aqui porque o Dante me envia um e-mail às 18h59, quando eu já estou com a bolsa na mão pra ir embora. Preciso de um levantamento de todos os documentos públicos da Anvisa referentes ao registro e pós-registro do Lúmen. Relatório conciso amanhã às 8h. A mensagem não pede. Ordena. E por trás das palavras, a clara mensagem de que eu devo começar agora. Na hora.

Lúmen. A palavra agora tem um eco sujo, pesado. O último sussurro da Beatriz. O remédio que faz o Viktor sorrir com aquele ar de dono do mundo. O projeto que faz a mandíbula do Dante ficar dura de tensão.

Meus dedos voam no teclado. Acesso o portal da Anvisa, um labirinto de processos e números. O Lúmen, ou Lumatec, é um fármaco neurotrófico. Indicado para doenças neurológicas degenerativas raras. “Promove regeneração de bainhas de mielina”, diz o resumo técnico aprovado. Uma linguagem fria para uma promessa que queima: frear o que é incurável.

Encontro o registro principal. Aprovado em tempo recorde, dois anos atrás. Os dados dos ensaios clínicos da Fase III estão lá, em arquivos P*F protegidos por senha corporativa. Minhas credenciais de “Assistente Executiva Nível 1” não abrem. Só vejo os resumos: Eficácia comprovada em 78% dos casos. Perfil de segurança favorável. Eventos adversos leves e transitórios.

Parece perfeito. Tão perfeito que dá medo. Então por que tenho a sensação de estar vasculhando os arquivos de um crime?

Abro uma nova aba. Pesquiso notícias sobre o Lúmen. Tem poucas. Um comunicado de imprensa da Lobo Holding, falando de “marco para medicina nacional”. Um artigo técnico numa revista de nicho, assinado pelo Diretor de Pesquisa, Dr. Renato Farias, e pelo… Viktor Salles. O nome do Dante não aparece em lugar nenhum.

Após algumas pesquisas, com uns termos mais gerais, algo aparece. Um fórum de pacientes com doenças raras. Um tópico, de oito meses atrás, com o título: Alguém no Brasil usando Lumatec/Lúmen? Clique.

A primeira mensagem é de uma mulher chamada “MãeEmLuta”. Meu filho começou o Lúmen há 3 meses pelo protocolo compassivo. No começo, parecia estável. Nas últimas semanas, desenvolveu tremores fortes e episódios de agitação incontrolável. O médico da Lobo diz que é da doença, mas não era assim antes. Alguém com experiência parecida?

Tem três respostas. Duas são só apoio, genérico. A terceira, de um usuário “AnonBio”, diz: Cuidado com os dados de segurança. Não são o que parecem. Procure um neuro independente.

A mensagem do “AnonBio” é de cinco meses atrás. Ele nunca mais posta. O tópico morre ali.

Salvo o link. Meu coração b**e mais forte, mais rápido. É provavelmente nada. Paranoia de uma mãe desesperada e teoria maluca de um estranho na internet. Mas é uma fissura. Uma rachadinha minúscula no tal “perfil de segurança favorável”.

O som de passos no corredor me faz pular na cadeira. Quem diabos está aqui a essa hora? Fecho a aba do navegador num susto, deixando só o portal da Anvisa na tela.

A silhueta que aparece na porta de vidro fosco não é da Heloísa, nem do zelador. É alta, imponente. A porta se abre sem que ele bata.

Viktor Salles entra no meu cubículo.

Ele está sem o paletó, as mangas da camisa social branca arregaçadas, a gravata solta. Parece ter vindo de uma reunião descontraída, mas os olhos azuis dele estão alertas, brilhando no escuro como os de um gato.

— Clara! Trabalhando até tarde. Gosto de ver essa dedicação. — O sorriso dele é largo, mas não chega perto dos olhos. Ele pousa as mãos no encosto da cadeira de visitas, mas não se senta. Só ocupa o espaço, enchendo o cubículo com a presença dele.

— Senhor Salles. Boa noite. O senhor Lobo pede um levantamento urgente. — Minha voz sai mais firme do que eu espero.

— O Dante e as urgências dele. — Ele balança a cabeça, num gesto de camaradagem que parece falso, forçado. — Sempre pressionando a equipe além do limite. Você não pode deixar ele te explorar, minha cara. Equilíbrio é a chave de tudo.

Tem alguma coisa na simpatia dele que soa como uma ameaça. Uma advertência por baixo do pano.

— É um prazer poder contribuir desde o começo, — digo, mantendo o tom profissional, robótico.

— Desde o começo… sim. — Os olhos dele percorrem minha mesa, pousam na tela do computador, no logo da Anvisa. — Ah, o Lúmen. Claro. O nosso carro-chefe. Uma maravilha da ciência, não acha?

— Os dados parecem muito promissores, — respondo, escolhendo cada palavra como se fosse uma mina terrestre.

— São promissores. São transformadores. — Ele se inclina pra frente, baixando a voz como se fosse me contar um segredo. — Sabe, Clara, esse medicamento vai salvar milhares de vidas. É o tipo de legado que faz tudo valer a pena. Todo sacrifício. — A palavra sacrifício fica pairando no ar, pesada, suja. — O Dante… ele tem visão. Mas às vezes é cauteloso demais. Muito preso ao passado. Às vezes, pra fazer uma omelete, tem que quebrar uns ovos, entende?

Ele sorri. E aquele sorriso é genuíno. E é a coisa mais assustadora que eu já vi. É o sorriso de um homem que já quebrou muitos, muitos ovos, e nunca perde uma noite de sono por causa disso.

— Minha função é apoiar a visão do senhor Lobo, — falo, neutra, uma estátua de gelo.

— Claro, claro. Lealdade admirável. — Ele se endireita, dando uma batidinha no encosto da cadeira. — Só tome cuidado pra não se perder nos detalhes burocráticos. O Lúmen é maior que qualquer documento. É sobre o futuro. E o futuro… bem, o futuro pertence a quem tem coragem de construí-lo. Bom trabalho, Clara. Não fique até muito tarde.

Ele dá meia-volta e sai. Os passos dele ecoam no corredor silencioso até sumirem completamente.

Fico imóvel por um minuto inteiro, tentando controlar a respiração. O cheiro do perfume dele — algo amadeirado, caro, invasivo — ainda está no ar. A visita não é por acaso. Ele vem ver o que estou fazendo. Vem me dar um aviso. Ou fazer uma oferta de aliança.

Minhas mãos tremem um pouco quando reabro o navegador, no modo de navegação privativa agora. Volto ao fórum. Imprimo a página com a mensagem da “MãeEmLuta” e do “AnonBio”. Dobro o papel com cuidado e guardo na parte mais funda, mais escondida da minha bolsa.

Olho pra tela de novo, pros dados oficiais, limpos e frios do Lúmen. E agora vejo duas realidades, uma em cima da outra. A realidade do registro, dos comunicados, do sorriso do Viktor. E a realidade do sussurro de uma mulher morta, do desenho assustador de uma criança, de um fórum obscuro e de um homem que fala em quebrar ovos sem culpa.

O Dante me pede um relatório conciso. Ele quer os fatos públicos. Mas os fatos, agora, parecem uma mentira bonita. Uma mentira perigosa.

Fechei todos os programas. O andar está escuro, só as luzes de emergência fazem sombras longas e tortas. Ao passar pelo escritório do Dante, vejo uma fina linha de luz vazando por baixo da porta. Ele ainda está lá.

Penso em bater. Em contar da visita do Viktor. Em mostrar o print do fórum. Mas meus pés não se mexem. O contrato de confidencialidade, aquele que assinei sem ler cada linha, parece um colar de ferro apertando meu pescoço. Lealdade à empresa. Silêncio total. O que será que o Dante acha de eu fuçar o fórum de pacientes na internet?

Ele me contrata pelo meu desespero, pela minha previsibilidade. Não pela minha curiosidade.

Viro as costas para aquela fresta de luz e caminho até o elevador. O peso na minha bolsa, o peso daquele papel impresso, parece enorme, como se fosse de chumbo.

No carro de aplicativo, a caminho do apartamento minúsculo que divido com a Lara, olho pela janela para a cidade iluminada. Penso na senhora do jardim, triste. Penso na figura de um homem escondido atrás dela. Penso no Viktor Salles, e na sensação clara, certa, que tenho: aquele homem não é um sócio. É um rival. Um inimigo. E o Lúmen é o campo de batalha.

E eu, sem querer, sem planejar, acabo de pisar bem no meio dele.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • SILÊNCIO COMPRADO    EPÍLOGO: O PREÇO JUSTO

    Cinco anos depois, a magnólia é uma árvore adulta.Suas flores brancas cobrem o jardim todas as primaveras, e o seu perfume invade a casa pelas janelas abertas se misturando ao cheiro de café fresco e pão assando. A amendoeira ainda está lá, claro, mais velha, mais sábia, suas flores rosadas aparecendo primeiro, como se desse permissão para a magnólia florescer depois. As duas árvores coexistem no mesmo solo, como duas histórias que aprenderam a dividir o mesmo espaço.A casa não é mais a mesma. Não a fortaleza que Dante um dia construiu para se proteger do mundo, mas um lar de verdade, com paredes que guardam memórias e janelas que se abrem para o futuro. A horta de Melissa cresceu, agora ocupa um terço do jardim, com canteiros organizados, um pequeno viveiro de mudas e uma placa pintada à mão: "Produtos Orgânicos da Família Lobo-Silva. Prove com confiança". Ela já está com dezesseis anos e planeja cursar agronomia. "Para aprender a limpar mais terras", ela diz, e ninguém precisa per

  • SILÊNCIO COMPRADO    CAPÍTULO 79: AMOR CONQUISTADO

    O livro do Dr. Elias chega às livrarias numa quarta-feira chuvosa. Não compro um exemplar, não sei se teria coragem de ler nossa própria história contada por outra pessoa, mesmo com nomes trocados, mas Dante, mais corajoso, encomenda um exemplar online e o recebe dois dias depois, num pacote discreto.A noite o encontro no escritório com o livro aberto sobre a mesa e uma caneta na mão, fazendo anotações nas margens como se fosse um texto acadêmico.— Está lendo? — pergunto, surpresa.— Estou estudando — ele corrige, sem levantar os olhos. É estranho ver nossa vida dissecada assim. Mas é... esclarecedor, de certa forma, ele entendeu coisas que nem eu entendia na época.Me sento na cadeira ao lado, curiosa. — Como o quê?Ele finalmente levanta os olhos, e há algo novo neles — uma serenidade que não estava lá antes.— Ele escreve que o amor não é o que sentimos nos momentos bons, é o que nos mantém íntegros nos momentos ruins. E que a gente só descobre isso quando passa pelos momento

  • SILÊNCIO COMPRADO    CAPÍTULO 78: A VISITA DO DOUTOR

    O envelope chega em uma terça-feira sem nada de especial. Papel pardo, endereço escrito em uma caligrafia firme que reconheço imediatamente, remetente: Dr. Elias. Meu coração aperta antes mesmo de abrir, uma resposta automática do corpo aos anos em que esse nome significou esperança e desespero na mesma medida.Dentro, um cartão simples, com uma imagem de amendoeiras em flor. A mensagem é curta:"Queridos Clara e Dante,Estarei em São Paulo na próxima semana para uma conferência. Gostaria muito de visitá-los, se for possível. Não apenas para matar a saudade que é muita, mas para um encontro que considero necessário. Um fechamento, talvez ou um recomeço, dependendo do olhar.Me liguem quando puderem.Com afeto,Elias"Leio em voz alta para Dante durante o jantar e Melissa, que já tem onze anos e opiniões fortes sobre tudo, pergunta:— É o médico velho? Aquele do hospital?— Sim querida, o mesmo.o homem que salvou sua tia Lara. — confirmo. — Ele pode vir? Quero mostrar a horta para ele

  • SILÊNCIO COMPRADO    CAPÍTULO 77: A PLATAFORMA DA TRANSPARÊNCIA

    O convite chega num envelope de papel reciclado, timbrado com o selo de uma organização internacional que eu respeito há anos: a Aliança Global por Transparência Farmacêutica. Dentro, uma carta manuscrita, não impressa, uma carta manuscrita da diretora-executiva, uma mulher chamada Sophia Karam, cujo trabalho em políticas de saúde pública na África eu acompanho de longe com admiração."Cara Clara Silva-Lobo,Acompanhamos o trabalho do Fundo Beatriz desde a sua criação e mais recentemente, tomamos conhecimento do seu projeto de mentoria para jovens afetados por negligência corporativa, e do programa de apoio psicológico que desenvolvem em parceria com universidades públicas.Gostaríamos de convidá-la para uma conversa. Temos um projeto em gestação: uma plataforma global de denúncia e transparência para cadeias farmacêuticas. Algo que vá além dos selos de ética, além da conformidade formal. Uma ferramenta que dê voz real a quem está na ponta, pacientes, familiares, trabalhadores e que

  • SILÊNCIO COMPRADO    CAPÍTULO 76: O EQUILÍBRIO DAS COISAS SIMPLES

    Os meses passam rápido demais, Benício já está completando três meses, e a casa parece ter sido redesenhada em torno dele, e o que antes era silêncio organizado agora é preenchido por ruídos novos: choros noturnos, risadas gorgolejantes, o som constante da máquina de lavar processando fraldas de pano que Melissa insiste em usar "é melhor pro planeta, pai, você devia pensar mais no planeta". Otto, inicialmente desconfiado da criatura minúscula que roubou a atenção de todos, agora se posiciona debaixo do berço como um guarda leal, levantando a cabeça sempre que o bebê se mexe, como se dissesse "estou aqui, pode contar comigo".Dante descobre uma nova versão de si mesmo. O homem que um dia comandou reuniões de acionistas com mão de ferro, que enfrentou Viktor Salles em tribunais e negociações tensas, agora passa horas fazendo caretas para Benício, testando qual expressão arranca o sorriso mais largo e Descobrindo que sons de animais funcionam melhor que caretas , "Muu" do boi é o atual c

  • SILÊNCIO COMPRADO    CAPÍTULO 75: O RENASCER DA CARNE

    A primavera chega com cores e aromas que parecem quase intencionais, como se a natureza estivesse celebrando algo que nós ainda não sabemos. A magnólia explode em flores brancas que cobrem o jardim de pétalas, e a horta de Melissa produz mais tomates do que conseguimos comer, dona Alzira já está enlatando molho para o ano inteiro.E é nesse cenário de abundância que meu corpo começa a dar sinais, primeiro é o cansaço, um cansaço diferente do esgotamento emocional que conheço tão bem, é um cansaço físico, profundo, que me faz dormir no sofá antes do jantar e pouco tempo depois o enjoo matinal, que Melissa acha hilário “Você está passando mal igual naquele filme, Clara?” e por fim, a ausência que se torna impossível de ignorar.Dante me encontra no banheiro de manhã, ajoelhada diante do vaso com o rosto pálido e os olhos marejados. Ele se ajoelha ao meu lado, segurando meu cabelo para trás com uma mão e apoiando a outra nas minhas costas.— Isso já dura uma semana, vamos ao médico. — el

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status