INICIAR SESIÓNO dia seguinte acordou como se alguém tivesse baixado o volume da cidade. Os carros passavam, as notificações chegavam, a imprensa rondava — mas Santino desapareceu do som. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhum “tô aqui”. Ele treinou cedo, sem música, sem plateia. Alongou até doer, bateu manopla até a pele arder, correu no estacionamento vazio do prédio com o capuz na cabeça e o celular no modo avião.
— Hoje sem rede, sem entrevista, sem nada — avisou ao Lorenzo. — Diz que eu tô fo
Fim de tarde no parque. O vento empurra cheiros de grama molhada e pipoca, e a luz baixa acende um dourado que parece inventado só para eles. Santino vem à frente — camiseta simples, boné amassado, a filhinha nos ombros. As perninhas pendem, os sapatinhos batucam no peito do pai, e as mãos pequenas se enroscam no boné.— Mais alto, papai! — ela pede, e ele ergue um pouco mais, rindo. — Mais alto só quando você prometer que vai comer o brócolis do jantar, senhorita Lucchesi. — Prometo nada! — ela gargalha, cúmplice.Do lado, Júlia empurra o carrinho. O menino mais novo dorme pesado, boca entreaberta, o punho fechado como se segurasse um sonho. Júlia o observa por um instante, ajusta a mantinha num gesto automático e, depois, levanta o olhar para o homem e a menina que recortam a tarde em uma sombra só.— E então? — ela puxa assunto, voz macia. — Como foi a seletiva hoje? — Melhor do que eu esperava. Três garotos e uma garota. A menor de todas tem um jab que corta o ar. Chama Aline.
A tarde estava dourada no apartamento novo, aquela luz oblíqua que entra de lado e faz qualquer coisa parecer mais tranquila do que realmente é. Júlia passou um segundo a mais em frente ao espelho do banheiro, a caixinha do teste escondida no bolso do robe. O corpo dela já sabia, mas a faixa cor-de-rosa duplicada tinha o poder de transformar certeza em mundo.Ela saiu e encontrou Santino no balcão, distraído com uma receita que parecia mais uma batalha: frigideira quente, alho, a tentativa sincera de não queimar a manteiga. — Cheiro de vitória — ela disse, tentando sorrir com normalidade. — Ou de capitulação — ele riu, mexendo a colher. — Se der errado, a gente pede comida. Se der certo… eu ganho o direito de cozinhar de novo.Júlia chegou por trás e encostou o queixo na omoplata dele. O coração dela batia em dois tempos. — Vai dar certo — sussurrou. — E mesmo se não der, a gente pede pizza.Ele se virou. Viu alguma coisa no rosto dela e, por refl
A ilha era um ponto de verde e areia no meio de um azul que não acabava. A lancha se afastou e, com ela, todo o resto: tribunais, manchetes, vozes. Ficaram o vento, o rumor insistente das ondas quebrando em arcos, o sol que dourava a pele e a promessa mansa de que, ali, ninguém os encontraria.A casa era de madeira clara, aberta, quase toda feita de portas que corriam. Tecidos brancos dançavam com a brisa; o cheiro de sal entrava sem pedir licença. Júlia tirou as sandálias e afundou os pés na areia morna, olhos semiabertos, deixando que o mar a recebesse. Santino veio atrás, devagar. Tocou-lhe a nuca com os dedos, como se confirmasse que ela estava mesmo ali.— Bem-vinda à nossa ilha — ele murmurou, e a frase foi mais juramento que frase.Passaram o dia sem hora: mergulhos longos, risadas que estouravam e sumiam no vento, o gosto de fruta madura na boca. Quando o sol começou a se inclinar, o céu tomou uma cor de manga e a água ficou metal líquido. Júlia sentou-s
A manhã nasceu sem alarde, como se a cidade tivesse combinado de falar baixo. O endereço escolhido por Júlia e Santino era um solar antigo restaurado nos arredores da cidade — jardim de jabuticabeiras, piso de ladrilho hidráulico, vitrais que filtravam a luz num tom âmbar. Discreto, íntimo, impecável. A imprensa não foi convidada; os celulares dos poucos presentes ficariam guardados numa caixinha de madeira na entrada, ao lado de um cartão simples: “Hoje é só nosso.”No salão, cadeiras de madeira clara formavam um corredor estreito coberto por um caminho de pétalas brancas. Um quarteto de cordas afinava baixo ao fundo. Vinícius, agora sem fone de ouvido e com um terno escuro que quase o deixava irreconhecível como segurança, coordenava a portaria com um sorriso contido. Fernanda, emocionada antes da hora, ajeitava pequenos arranjos de lavanda sobre as mesas. Raúl, o treinador, ocupou a terceira fileira; Lorenzo veio ao lado, desconfortável na gravata, mas com um orgulho impos
O fórum parecia respirar junto com a cidade naquele fim de tarde: lento, pesado, definitivo. O corredor do segundo andar estava mais silencioso do que de costume, como se os passos dos servidores tivessem aprendido a respeitar os minutos finais de uma história longa demais. Júlia ajeitou o paletó, passou os dedos pelas abas da pasta — cada separador uma batalha, cada grampo uma cicatriz — e respirou fundo.— Última — disse Miguel, baixo, ao seu lado. — Última — ela confirmou, sem tremer.Na antessala, Santino esperava. Terno simples, gravata sóbria, a cicatriz discreta abaixo da gola. Quando os olhos dele encontraram os dela, tudo o que foi caos virou eixo. Ele não falou “boa sorte”. Só segurou na mão dela por um segundo e apertou, como quem repassa coragem de um corpo a outro.A sala de audiências estava cheia: imprensa em número reduzido, observadores curiosos, alguns colegas de profissão, e poucos que importavam. Luísa sentou-se atrás, com as mãos
O dia amanheceu com o gosto metálico das más notícias. Miguel entrou no escritório com o semblante fechado, um calhamaço de páginas impressas sob o braço.— Recurso — disse, antes mesmo de sentar. — A defesa do Marco conseguiu liminar pra suspender a execução da pena. E entrou com pedido de incidente de insanidade, alegando surto temporário na noite do sequestro.Júlia apoiou as mãos na mesa, respirando fundo. Lá fora, o tráfego seguia indiferente. Por dentro, tudo voltava a latejar.— Insanidade temporária… — ela repetiu, como quem mastiga um espinho. — Vão tentar tirá-lo do presídio e empurrar para medida de segurança em hospital de custódia. Tempo indeterminado, portas giratórias.— É o último golpe — Miguel concluiu. — E é bom.Júlia endireitou os ombros.— Então a gente dá o último contragolpe.Em poucas horas, o escritório virou sala de guerra. Tabelas, linhas do tempo, planilhas abertas em três laptops; telefones







