INICIAR SESIÓNO silêncio na sala de Júlia era quebrado apenas pelo som das páginas viradas e pelo tilintar eventual da colher no copo de chá. Eram quase onze da noite e ela ainda estava de blazer, os cabelos presos em um coque que já ameaçava desmanchar. A luminária projetava sombras duras sobre os papéis espalhados pela mesa. Era sua terceira leitura do inquérito. E, de novo, algo não batia.
Ela sublinhou um trecho com força desnecessária.
“Veículo conduzido por Santino Lucchesi trafegava em velocidade incompatível com a via.”
Incompatível. Mas qual era a base para essa afirmação? Os relatórios técnicos eram vagos, os dados sobre frenagem estavam mal documentados e o depoimento da única testemunha presencial destoava do padrão. Tudo era baseado na “impressão” de que ele vinha rápido demais. Nenhuma câmera da via fora anexada ao inquérito. Nenhuma imagem de radar.
Pegou o laudo toxicológico. O teor alcoólico era mínimo. Dentro dos limites. Ainda assim, o laudo trazia uma anotação subjetiva de comportamento "aparentemente alterado". Mas baseado em quê? Quem fez essa observação? Um agente? Um socorrista? O documento não dizia.
Ela se recostou na cadeira. Algo ali estava sendo conduzido para uma conclusão conveniente demais.
Nesse momento, seu celular vibrou. Notícia nova. O push de um site sensacionalista estampava:
“JUSTIÇA PARA A VÍTIMA: POPULAÇÃO PEDE PRISÃO DE SANTINO LUCCHESI”
“Acusado de matar um motorista em acidente suspeito, o boxeador continua livre. Especialistas questionam conduta da promotoria.”Júlia soltou um palavrão.
A pressão pública estava escalando. E isso poderia forçar o promotor a tomar decisões precipitadas. E pior — poderia inviabilizar a linha de defesa que ela ainda estava construindo.Levantou-se, pegou o celular e discou.
— Santino?
— Doutora? Achei que só ligava no horário comercial — veio a voz grave, preguiçosa. — Preciso conversar. Você ainda está omitindo informações. — E você ainda está me tratando como culpado. Estamos quites. — Não estamos. A mídia está pedindo tua cabeça, Santino. E, com esse seu comportamento, você está fazendo o jogo deles. — Quer saber o que eu acho? Eu acho que, pra você, isso aqui é só mais um caso. Uma estatística. — Você está errado. Se fosse só mais um caso, eu não estaria aqui às onze da noite com essas porcarias de laudo tentando achar uma brecha pra te manter fora da cadeia. — Então por que não me pergunta o que realmente importa?Houve silêncio dos dois lados.
— Por que você está tão certo de que eu sou inocente? — ele perguntou, voz mais baixa.
Ela mordeu o lábio, irritada. Não pela pergunta. Mas por como ela a atingiu.
— Porque até agora, todas as peças parecem montadas. E eu sou boa em montar quebra-cabeças. Quando as peças sobram ou faltam, eu sinto.
— Então siga o que você sente, doutora. Mas não espere que eu facilite. — E desligou.
Júlia ficou alguns segundos com o telefone na mão, respirando fundo. Ele era insuportável. Arrogante. Misterioso. E, droga, ainda assim, havia algo nele que a instigava.
No dia seguinte, ela foi até a delegacia onde o inquérito estava sendo processado. O delegado responsável, Carlos Britto, era um homem calvo, grisalho e vaidoso. Recebeu Júlia com um sorriso burocrático.
— Dra. Milano. Sempre uma honra.
— Preciso de acesso a tudo o que não foi anexado ao inquérito. Gravações, laudos complementares, depoimentos. Tudo. — A senhora está insinuando alguma irregularidade?Ela se manteve firme.
— Estou dizendo que estou trabalhando com material incompleto. E isso não é só prejudicial à defesa — é um erro processual grave.
O delegado pigarreou. Pegou uma pasta na gaveta, abriu, mas hesitou.
— Veja bem, doutora. A pressão está enorme. Muita gente envolvida. O promotor Álvaro Diniz já me ligou duas vezes esta semana pedindo celeridade. E agora com esse pedido da senhora...
— Vou requisitar uma perícia independente. Já encaminhei ofício ao juiz solicitando autorização. — Ela se levantou, a voz cortante. — E, com ou sem sua colaboração, vou acessar esses documentos.
Na saída da delegacia, o sol ardia. Júlia respirou fundo. Aquilo estava só começando.
No escritório, seu sócio, Miguel Tavares, a esperava com uma xícara de café na mão.
— Li a matéria no jornal. Estão te chamando de “advogada dos assassinos de luxo”.
— Sempre sonhei com esse título — respondeu ela, sarcástica. — Você está se expondo demais, Júlia. Esse caso vai explodir. A promotoria vai te sabotar. — Eu lido com promotores desde os vinte e três, Miguel. O problema não é o Diniz. O problema é que alguém está escondendo a verdade. E isso torna o caso mais complicado.Miguel a observou com um olhar misto de admiração e preocupação. Conhecia aquela expressão determinada. Júlia não recuava quando encontrava um buraco no sistema.
— E o Lucchesi? Vai colaborar?
— Não ainda. Mas ele quer ser salvo. E, eventualmente, o medo é mais forte que o orgulho.Ela se trancou na sala, acendeu o abajur e retomou os laudos. As folhas marcadas de caneta fluorescente. Os nomes das testemunhas sublinhados. Os horários desconexos.
E então, ali, no meio do terceiro laudo de perícia, uma anotação.
“Marca de frenagem incompatível com o impacto lateral observado.”
Ela congelou. Releu a frase. Aquilo era tudo que precisava para reforçar o pedido de nova perícia.
Abriu o notebook. Começou a digitar a petição com os dedos ágeis, enquanto o relógio avançava para além da meia-noite.
Do outro lado da cidade, Santino observava seu reflexo no espelho do hospital. A imagem de um campeão. Um corpo coberto de cicatrizes. Mas nada comparado ao estrago dentro dele.
E enquanto o mundo o julgava, uma mulher do outro lado da cidade apertava os nós que manteriam sua liberdade pendurada por um fio.
Mas um fio que ela, teimosa como era, se recusava a soltar.Fim de tarde no parque. O vento empurra cheiros de grama molhada e pipoca, e a luz baixa acende um dourado que parece inventado só para eles. Santino vem à frente — camiseta simples, boné amassado, a filhinha nos ombros. As perninhas pendem, os sapatinhos batucam no peito do pai, e as mãos pequenas se enroscam no boné.— Mais alto, papai! — ela pede, e ele ergue um pouco mais, rindo. — Mais alto só quando você prometer que vai comer o brócolis do jantar, senhorita Lucchesi. — Prometo nada! — ela gargalha, cúmplice.Do lado, Júlia empurra o carrinho. O menino mais novo dorme pesado, boca entreaberta, o punho fechado como se segurasse um sonho. Júlia o observa por um instante, ajusta a mantinha num gesto automático e, depois, levanta o olhar para o homem e a menina que recortam a tarde em uma sombra só.— E então? — ela puxa assunto, voz macia. — Como foi a seletiva hoje? — Melhor do que eu esperava. Três garotos e uma garota. A menor de todas tem um jab que corta o ar. Chama Aline.
A tarde estava dourada no apartamento novo, aquela luz oblíqua que entra de lado e faz qualquer coisa parecer mais tranquila do que realmente é. Júlia passou um segundo a mais em frente ao espelho do banheiro, a caixinha do teste escondida no bolso do robe. O corpo dela já sabia, mas a faixa cor-de-rosa duplicada tinha o poder de transformar certeza em mundo.Ela saiu e encontrou Santino no balcão, distraído com uma receita que parecia mais uma batalha: frigideira quente, alho, a tentativa sincera de não queimar a manteiga. — Cheiro de vitória — ela disse, tentando sorrir com normalidade. — Ou de capitulação — ele riu, mexendo a colher. — Se der errado, a gente pede comida. Se der certo… eu ganho o direito de cozinhar de novo.Júlia chegou por trás e encostou o queixo na omoplata dele. O coração dela batia em dois tempos. — Vai dar certo — sussurrou. — E mesmo se não der, a gente pede pizza.Ele se virou. Viu alguma coisa no rosto dela e, por refl
A ilha era um ponto de verde e areia no meio de um azul que não acabava. A lancha se afastou e, com ela, todo o resto: tribunais, manchetes, vozes. Ficaram o vento, o rumor insistente das ondas quebrando em arcos, o sol que dourava a pele e a promessa mansa de que, ali, ninguém os encontraria.A casa era de madeira clara, aberta, quase toda feita de portas que corriam. Tecidos brancos dançavam com a brisa; o cheiro de sal entrava sem pedir licença. Júlia tirou as sandálias e afundou os pés na areia morna, olhos semiabertos, deixando que o mar a recebesse. Santino veio atrás, devagar. Tocou-lhe a nuca com os dedos, como se confirmasse que ela estava mesmo ali.— Bem-vinda à nossa ilha — ele murmurou, e a frase foi mais juramento que frase.Passaram o dia sem hora: mergulhos longos, risadas que estouravam e sumiam no vento, o gosto de fruta madura na boca. Quando o sol começou a se inclinar, o céu tomou uma cor de manga e a água ficou metal líquido. Júlia sentou-s
A manhã nasceu sem alarde, como se a cidade tivesse combinado de falar baixo. O endereço escolhido por Júlia e Santino era um solar antigo restaurado nos arredores da cidade — jardim de jabuticabeiras, piso de ladrilho hidráulico, vitrais que filtravam a luz num tom âmbar. Discreto, íntimo, impecável. A imprensa não foi convidada; os celulares dos poucos presentes ficariam guardados numa caixinha de madeira na entrada, ao lado de um cartão simples: “Hoje é só nosso.”No salão, cadeiras de madeira clara formavam um corredor estreito coberto por um caminho de pétalas brancas. Um quarteto de cordas afinava baixo ao fundo. Vinícius, agora sem fone de ouvido e com um terno escuro que quase o deixava irreconhecível como segurança, coordenava a portaria com um sorriso contido. Fernanda, emocionada antes da hora, ajeitava pequenos arranjos de lavanda sobre as mesas. Raúl, o treinador, ocupou a terceira fileira; Lorenzo veio ao lado, desconfortável na gravata, mas com um orgulho impos
O fórum parecia respirar junto com a cidade naquele fim de tarde: lento, pesado, definitivo. O corredor do segundo andar estava mais silencioso do que de costume, como se os passos dos servidores tivessem aprendido a respeitar os minutos finais de uma história longa demais. Júlia ajeitou o paletó, passou os dedos pelas abas da pasta — cada separador uma batalha, cada grampo uma cicatriz — e respirou fundo.— Última — disse Miguel, baixo, ao seu lado. — Última — ela confirmou, sem tremer.Na antessala, Santino esperava. Terno simples, gravata sóbria, a cicatriz discreta abaixo da gola. Quando os olhos dele encontraram os dela, tudo o que foi caos virou eixo. Ele não falou “boa sorte”. Só segurou na mão dela por um segundo e apertou, como quem repassa coragem de um corpo a outro.A sala de audiências estava cheia: imprensa em número reduzido, observadores curiosos, alguns colegas de profissão, e poucos que importavam. Luísa sentou-se atrás, com as mãos
O dia amanheceu com o gosto metálico das más notícias. Miguel entrou no escritório com o semblante fechado, um calhamaço de páginas impressas sob o braço.— Recurso — disse, antes mesmo de sentar. — A defesa do Marco conseguiu liminar pra suspender a execução da pena. E entrou com pedido de incidente de insanidade, alegando surto temporário na noite do sequestro.Júlia apoiou as mãos na mesa, respirando fundo. Lá fora, o tráfego seguia indiferente. Por dentro, tudo voltava a latejar.— Insanidade temporária… — ela repetiu, como quem mastiga um espinho. — Vão tentar tirá-lo do presídio e empurrar para medida de segurança em hospital de custódia. Tempo indeterminado, portas giratórias.— É o último golpe — Miguel concluiu. — E é bom.Júlia endireitou os ombros.— Então a gente dá o último contragolpe.Em poucas horas, o escritório virou sala de guerra. Tabelas, linhas do tempo, planilhas abertas em três laptops; telefones







