FAZER LOGINO quarto de luxo da clínica particular onde Santino Lucchesi estava internado era ampla, fria e decorada com o mínimo necessário para que ninguém se sentisse à vontade demais. Ele odiava hospitais. O cheiro de álcool, os sons abafados, a sensação de impotência. Mas naquele momento, o incômodo maior estava prestes a entrar pela porta.
Ela chegou pontualmente às nove.
Saltos agulha. Blazer ajustado. Vestido vinho rente ao corpo. Os cabelos presos num coque impecável, que expunha a linha firme do pescoço e a postura ereta. Óculos de aro fino sobre olhos escuros e inquisidores. Júlia Milano atravessou o ambiente como quem entra numa arena — e Santino sentiu o impacto como um direto no estômago.
Porra…
Ele já tinha cruzado com muita mulher bonita na vida. Modelos, atrizes, fãs obcecadas. Mas aquela ali? Aquela mulher era outra coisa. Ela exalava poder. Era o tipo de beleza que não implorava para ser notada — ela se impunha. Um tipo de beleza que não distraía… intimidava.
Seus olhos correram por cada detalhe: os contornos sob o tecido elegante, o desenho da boca contida em um batom discreto, a curvatura acentuada do quadril, a tensão leve nos ombros — como se estivesse sempre preparada para a guerra.
E que guerra deliciosa seria.
Ele se ajeitou na cadeira, mordendo o canto do lábio enquanto ela se aproximava. Pensou nas manchetes que viriam se fossem vistos juntos. "Campeão acusado de homicídio contrata a advogada mais gostosa do país." Ele imaginou o feed do I*******m explodindo. E, por um breve instante, achou que talvez não fosse tão ruim assim ser acusado de assassinato.
— Achei que meu advogado seria um velho careca de terno amarrotado — soltou, com o sorriso torto que usava quando queria provocar. — Mas se for pra ser condenado, que pelo menos seja olhando pra um rosto bonito.
Ela nem piscou.
— Uma pena que beleza não conste nos autos, senhor Lucchesi. Vamos trabalhar com o que realmente importa: sua defesa.
Fria. Rápida. Cortante.
Ele adorava.
Santino se acomodou na cadeira com um meio sorriso. Era claro que ela não estava ali pra brincar. Mas quanto mais ela se mostrava inatingível, mais ele sentia vontade de provocá-la.
— Já começamos mal — rebateu. — Gosto de advogadas com mais tato. Menos… armadas.
— E eu prefiro clientes com menos ego e mais noção de risco jurídico. Mas a gente não pode ter tudo, não é?
A troca foi rápida. Cortante. Uma dança perigosa entre sarcasmo e tensão sexual. O jogo estava armado.
Ela abriu a pasta, começando a falar dos autos do processo com clareza cirúrgica. Mas Santino mal conseguia prestar atenção no início. Estava ocupado demais tentando entender como era possível que alguém conseguisse ser tão bonita e inteligente e irritante ao mesmo tempo.
Imaginou-a sem aquele blazer. Imaginou-a sem os óculos. Imaginou o coque desfeito, os longos cabelos caindo, os olhos semicerrados não por frieza, mas por prazer.
Foco, caralho. Ele sacudiu a cabeça levemente e forçou a atenção de volta para as palavras dela, que agora listava os problemas do caso com objetividade cirúrgica.
— Você é afiada. Gosto disso.
— E eu sou ocupada. Então, vamos ao que interessa.
Ela abriu a pasta e puxou alguns documentos, sem desviar o olhar. Ele a observava como quem analisa um oponente no ringue: atento, calculista… curioso.
— Você leu o relatório da perícia? — ela perguntou.
— Li o resumo que meu empresário me mandou antes de sumir do mapa. Pelo visto, não era só com meu dinheiro que ele fugia, né?
— Não é hora pra sarcasmo, senhor Lucchesi.
— Então é “senhor Lucchesi” agora? Achei que a gente tivesse quebrado essa formalidade quando você me encarou por três segundos a mais na porta.
Ela ergueu os olhos, fria como mármore.
— Eu encaro problemas. Não fantasias de ego masculino inflado.
Ele sorriu, aquele mesmo sorriso perigoso que já estampou dezenas de capas de revista.
— Vai ser divertido trabalhar com você, doutora.
Ela ignorou o comentário e começou a listar os pontos críticos do caso:
— Testemunha ocular afirma que seu carro estava em alta velocidade.
— Os exames de sangue acusaram álcool no limite permitido — o que, para a imprensa, já é motivo de linchamento. — E você tem um histórico de comportamento impulsivo, festas, mulheres, brigas. Isso não ajuda.— Eu não bebi. Pelo menos, não o suficiente pra perder o controle. E não estava correndo. O carro apareceu do nada.
— Então é sua palavra contra as evidências?
— É minha palavra contra a versão que querem vender. E você foi contratada pra impedir que me transformem em bode expiatório.
Ela inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Eu fui contratada pra analisar os fatos e montar uma estratégia que funcione. Mas se você continuar se comportando como um garoto mimado de 16 anos, vai ser difícil até te tirar da mídia — quanto mais da cadeia.
Santino a encarou por longos segundos. Havia algo nos olhos dela que desafiava, que o instigava — não era só beleza. Era precisão. Racionalidade afiada. Força disfarçada em elegância.
— Você sempre foi assim? — ele perguntou, mais sério agora.
— Assim como?
— Fria como uma tempestade de gelo.
Júlia não respondeu. Apenas organizou os papéis novamente.
— A entrevista com a promotoria será marcada nos próximos dias. Até lá, você vai manter a boca fechada com jornalistas, entender?
— Entendido, chefe.
— E vai parar com essas respostas infantis.
— Não prometo nada.
Ela se levantou para encerrar a reunião, elegante até no gesto de recolher os papéis.
— Eu volto amanhã. Quero todos os exames e declarações complementares em mãos. E se possível, que você se comporte como um adulto.
— Você acha que eu sou um caso perdido?
— Eu acho que você é um caso mal resolvido.
Santino se recostou, cruzando os braços.
— Você me acha culpado?
— Eu acho que a verdade ainda não foi contada. E até que eu escute tudo, inclusive o que você tenta esconder, ninguém vai me manipular. Nem você.— Ela fez uma pequena pausa e continuou — Estarei de volta amanhã. E espero que tenha dormido melhor. Porque da próxima vez que tentar me distrair com charme barato, vou incluir deboche como agravante no relatório.
Ela virou as costas e caminhou até a porta. Ele a acompanhou com o olhar, quase em transe.
E murmurou, só para si:
— Fodida de linda…
Ela parou por meio segundo. Mas não olhou pra trás.
E ele soube, naquele instante, que estava fodidamente encrencado.
Fim de tarde no parque. O vento empurra cheiros de grama molhada e pipoca, e a luz baixa acende um dourado que parece inventado só para eles. Santino vem à frente — camiseta simples, boné amassado, a filhinha nos ombros. As perninhas pendem, os sapatinhos batucam no peito do pai, e as mãos pequenas se enroscam no boné.— Mais alto, papai! — ela pede, e ele ergue um pouco mais, rindo. — Mais alto só quando você prometer que vai comer o brócolis do jantar, senhorita Lucchesi. — Prometo nada! — ela gargalha, cúmplice.Do lado, Júlia empurra o carrinho. O menino mais novo dorme pesado, boca entreaberta, o punho fechado como se segurasse um sonho. Júlia o observa por um instante, ajusta a mantinha num gesto automático e, depois, levanta o olhar para o homem e a menina que recortam a tarde em uma sombra só.— E então? — ela puxa assunto, voz macia. — Como foi a seletiva hoje? — Melhor do que eu esperava. Três garotos e uma garota. A menor de todas tem um jab que corta o ar. Chama Aline.
A tarde estava dourada no apartamento novo, aquela luz oblíqua que entra de lado e faz qualquer coisa parecer mais tranquila do que realmente é. Júlia passou um segundo a mais em frente ao espelho do banheiro, a caixinha do teste escondida no bolso do robe. O corpo dela já sabia, mas a faixa cor-de-rosa duplicada tinha o poder de transformar certeza em mundo.Ela saiu e encontrou Santino no balcão, distraído com uma receita que parecia mais uma batalha: frigideira quente, alho, a tentativa sincera de não queimar a manteiga. — Cheiro de vitória — ela disse, tentando sorrir com normalidade. — Ou de capitulação — ele riu, mexendo a colher. — Se der errado, a gente pede comida. Se der certo… eu ganho o direito de cozinhar de novo.Júlia chegou por trás e encostou o queixo na omoplata dele. O coração dela batia em dois tempos. — Vai dar certo — sussurrou. — E mesmo se não der, a gente pede pizza.Ele se virou. Viu alguma coisa no rosto dela e, por refl
A ilha era um ponto de verde e areia no meio de um azul que não acabava. A lancha se afastou e, com ela, todo o resto: tribunais, manchetes, vozes. Ficaram o vento, o rumor insistente das ondas quebrando em arcos, o sol que dourava a pele e a promessa mansa de que, ali, ninguém os encontraria.A casa era de madeira clara, aberta, quase toda feita de portas que corriam. Tecidos brancos dançavam com a brisa; o cheiro de sal entrava sem pedir licença. Júlia tirou as sandálias e afundou os pés na areia morna, olhos semiabertos, deixando que o mar a recebesse. Santino veio atrás, devagar. Tocou-lhe a nuca com os dedos, como se confirmasse que ela estava mesmo ali.— Bem-vinda à nossa ilha — ele murmurou, e a frase foi mais juramento que frase.Passaram o dia sem hora: mergulhos longos, risadas que estouravam e sumiam no vento, o gosto de fruta madura na boca. Quando o sol começou a se inclinar, o céu tomou uma cor de manga e a água ficou metal líquido. Júlia sentou-s
A manhã nasceu sem alarde, como se a cidade tivesse combinado de falar baixo. O endereço escolhido por Júlia e Santino era um solar antigo restaurado nos arredores da cidade — jardim de jabuticabeiras, piso de ladrilho hidráulico, vitrais que filtravam a luz num tom âmbar. Discreto, íntimo, impecável. A imprensa não foi convidada; os celulares dos poucos presentes ficariam guardados numa caixinha de madeira na entrada, ao lado de um cartão simples: “Hoje é só nosso.”No salão, cadeiras de madeira clara formavam um corredor estreito coberto por um caminho de pétalas brancas. Um quarteto de cordas afinava baixo ao fundo. Vinícius, agora sem fone de ouvido e com um terno escuro que quase o deixava irreconhecível como segurança, coordenava a portaria com um sorriso contido. Fernanda, emocionada antes da hora, ajeitava pequenos arranjos de lavanda sobre as mesas. Raúl, o treinador, ocupou a terceira fileira; Lorenzo veio ao lado, desconfortável na gravata, mas com um orgulho impos
O fórum parecia respirar junto com a cidade naquele fim de tarde: lento, pesado, definitivo. O corredor do segundo andar estava mais silencioso do que de costume, como se os passos dos servidores tivessem aprendido a respeitar os minutos finais de uma história longa demais. Júlia ajeitou o paletó, passou os dedos pelas abas da pasta — cada separador uma batalha, cada grampo uma cicatriz — e respirou fundo.— Última — disse Miguel, baixo, ao seu lado. — Última — ela confirmou, sem tremer.Na antessala, Santino esperava. Terno simples, gravata sóbria, a cicatriz discreta abaixo da gola. Quando os olhos dele encontraram os dela, tudo o que foi caos virou eixo. Ele não falou “boa sorte”. Só segurou na mão dela por um segundo e apertou, como quem repassa coragem de um corpo a outro.A sala de audiências estava cheia: imprensa em número reduzido, observadores curiosos, alguns colegas de profissão, e poucos que importavam. Luísa sentou-se atrás, com as mãos
O dia amanheceu com o gosto metálico das más notícias. Miguel entrou no escritório com o semblante fechado, um calhamaço de páginas impressas sob o braço.— Recurso — disse, antes mesmo de sentar. — A defesa do Marco conseguiu liminar pra suspender a execução da pena. E entrou com pedido de incidente de insanidade, alegando surto temporário na noite do sequestro.Júlia apoiou as mãos na mesa, respirando fundo. Lá fora, o tráfego seguia indiferente. Por dentro, tudo voltava a latejar.— Insanidade temporária… — ela repetiu, como quem mastiga um espinho. — Vão tentar tirá-lo do presídio e empurrar para medida de segurança em hospital de custódia. Tempo indeterminado, portas giratórias.— É o último golpe — Miguel concluiu. — E é bom.Júlia endireitou os ombros.— Então a gente dá o último contragolpe.Em poucas horas, o escritório virou sala de guerra. Tabelas, linhas do tempo, planilhas abertas em três laptops; telefones







