FAZER LOGINA curiosidade era um veneno que corria pelas veias de Lívia. Após o confronto com Ricardo, ela não conseguia mais aceitar a resposta de que Frederico era apenas um "fantasma". Ninguém aprendia a paralisar um homem apenas com o olhar vivendo em bueiros.
Tarde da noite, enquanto a mansão mergulhava no silêncio, Lívia esgueirou-se até o quarto de hóspedes na ala leste, onde Frederico estava instalado. Ela sabia que ele estava no jardim — tinha visto sua silhueta alta e solitária perto da piscina minutos antes.
Com o coração martelando contra as costelas, ela abriu a porta do quarto. Estava impecável. A cama feita, nenhuma peça de roupa fora do lugar. Não havia fotos, documentos, nada. Sobre a cômoda, apenas a pequena adaga que ele carregava e o relógio de pulso quebrado que ele usava quando foi resgatado.
Lívia pegou o relógio. No verso, quase apagado pelo tempo, havia uma gravação em letras elegantes: "Ao meu Líder e Marido. O mundo é pequeno para nós. – V."
— V? — ela sussurrou, sentindo uma pontada estranha de ciúme e medo.
— O "V" significa Veneno, Lívia. Ou pelo menos, foi o que se tornou.
Lívia deu um salto, quase derrubando o relógio. Frederico estava encostado no batente da porta, as sombras escondendo seu rosto, mas a brasa de um cigarro brilhando entre seus dedos. Ele não parecia zangado, apenas exausto.
— Eu... eu só vim ver se você precisava de algo — ela mentiu, a voz falhando miseravelmente.
— Você veio procurar uma resposta que não vai gostar de encontrar — ele disse, entrando no quarto com passos silenciosos. Ele pegou o relógio da mão dela. — Esse objeto é a única coisa que me lembra de que uma vez eu fui um homem tolo o suficiente para acreditar na lealdade.
— Quem é ela? — Lívia perguntou, a coragem voltando. — Quem era você antes de chegar a Joinville? Você fala como um soldado, age como um rei e olha para o mundo como se o odiasse.
Frederico caminhou até a janela, observando as luzes da cidade. O silêncio se estendeu por tanto tempo que Lívia achou que ele não responderia.
— Em São Paulo... as pessoas não pediam por justiça. Elas pediam por mim — ele começou, a voz carregada de uma melancolia profunda. — Eu tinha tudo. O poder, o dinheiro e o que eu achava ser o amor. Mas em São Paulo, o sangue é mais barato que o uísque.
Lívia se aproximou, parando ao lado dele. O calor do corpo de Frederico era um convite perigoso.
— O que aconteceu lá? Por que você desistiu?
— Eu não desisti. Eu fui arrancado — ele disse, e pela primeira vez, ele se virou para ela. Estavam tão perto que ela podia ver os reflexos prateados em seus olhos azuis. — O meu melhor amigo e a mulher que gravou essa mensagem no relógio decidiram que eu era um obstáculo para a ambição deles. Eles não queriam apenas o meu lugar; eles queriam me ver reduzido a nada. E conseguiram.
Lívia sentiu uma vontade avassaladora de tocar o rosto dele, de apagar a dor que emanava de cada palavra.
— Por que não voltou para se vingar? Um homem como você...
— Porque o homem que eu era morreu naquela noite em São Paulo, Lívia — ele interrompeu, a voz baixando para um sussurro perigoso. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. — O Frederico que você salvou é apenas um resto de fumaça. E se você continuar cavando, essa fumaça pode sufocar você.
Lívia não recuou. Ela ergueu o queixo, desafiando a escuridão dele com sua própria luz.
— Eu não tenho medo de fumaça, Frederico. Eu já vivo no fogo há muito tempo, tentando proteger minha filha sozinha.
A tensão entre eles era tão forte que parecia eletrizar o ar. Por um segundo, Frederico olhou para os lábios de Lívia, e ela sentiu o mundo parar. Ele estendeu a mão, o polegar roçando de leve a bochecha dela — um toque tão terno que contrastava com a violência de seu passado.
— Você é uma mulher extraordinária, Lívia Albuquerque — ele murmurou. — E é por isso que eu deveria ir embora agora mesmo. Para o seu próprio bem.
— Não vá — ela pediu, quase sem fôlego.
Ele não respondeu com palavras. Apenas se afastou, recuperando sua máscara de gelo.
— Vá dormir, Lívia. Amanhã os lobos estarão de volta. E você vai precisar de mim inteiro para protegê-la.
Lívia saiu do quarto com as pernas trêmulas. Ela tinha uma pista: São Paulo. Ela tinha um nome: Vanessa (ou o misterioso "V"). Mas, acima de tudo, ela agora tinha a certeza de que estava se apaixonando pelo homem mais perigoso que já conheceu.
Enquanto Dante lutava pela vida, em uma mansão isolada no interior de São Paulo, o destino de Alessandro Fiorramont era selado. Ele estava amarrado a uma cadeira de ferro no centro de uma sala circular, iluminada apenas por uma luz fria que descia do teto.Ao redor dele, nas sombras, estavam os doze líderes da Cúpula da Máfia. Alberto estava à frente, segurando o dossiê de crimes que Alessandro cometera não apenas contra os Moretti, mas contra as leis não escritas da própria organização.— Alessandro Fiorramont — a voz de Alberto ecoou, solene e implacável. — Você quebrou o código sagrado. Você sequestrou o filho de um irmão de sangue. Você usou uma inocente como escudo. Você tentou destruir a linhagem que jurou proteger.Alessandro riu, um som seco e patético.— Eu criei
No convés do navio, o tempo pareceu dilatar. Alessandro, acuado e com a sanidade estilhaçada, percebeu que não haveria fuga. Em um último ato de maldade pura, ele apertou o cano da arma contra a têmpora de Loren.— Se eu não saio daqui, ninguém sai! — ele gritou, o dedo tensionando no gatilho.Dante, cujas mãos estavam presas pelos capangas, viu a morte nos olhos de Alessandro. Com um rugido que não era de um soldado, mas de um homem que encontrara algo por que viver, ele usou toda a força do seu treinamento. Ele girou o corpo, deslocando o próprio ombro para se livrar da pegada do primeiro capanga, e se lançou como um projétil humano entre a arma de Alessandro e o rosto de Loren.O som do disparo rasgou a no
O Silêncio antes da RupturaAs três semanas que se seguiram à revelação do DNA foram as mais sombrias da história da família. No subsolo da mansão, em uma sala blindada e repleta de monitores, Frederico, Dante e Alberto viviam em um estado de vigília constante. Pilhas de mapas do hospital de custódia e diagramas de rotas de fuga cobriam as mesas.— Não queremos apenas matá-lo, Dante — Frederico disse, os olhos injetados de sono e fúria. — Queremos extraí-lo. Ele vai ser julgado pela Cúpula. Ele vai encarar cada homem que ele traiu antes de ser apagado da existência.Dante assentia, mas sua mente estava no andar de cima. Ele agora morava na casa, no quarto de hóspedes, a poucos metros de Loren. Mas a distânc
Alberto espalhou os registros do orfanato e as fotos de Vanessa sobre a mesa. A voz dele era um fio condutor que ligava os pontos da crueldade de Alessandro: o abandono de Vanessa, o sequestro da criança e a lavagem cerebral que transformou o filho de Frederico em um carrasco.Frederico caiu sentado na poltrona, as pernas falhando pela primeira vez em anos. Ele olhou para Dante — não mais como um espião ou um reflexo incômodo, mas como a extensão de sua própria alma.— Meu filho... — a voz de Frederico saiu quebrada, um som que carregava a anos de agonia. — Ele roubou sua infância. Ele fez você me odiar para que você mesmo se destruísse.Dante estava estático. A fúria fervia sob sua pele, mas o choque era maior. Ele olhou para as próprias mãos,
O som do vidro quebrando no escritório ainda ecoava quando Loren disparou pelo corredor. O vestido de seda, antes símbolo de sua celebração, agora parecia uma mortalha de desespero. Ela ignorou os chamados de Lívia e correu para a noite, em direção aos jardins da mansão.Dante, movido por um instinto que ia além de sua missão, tentou alcançá-la, mas a mão de Frederico o segurou pelo peito com a força de um furacão.— Afaste-se dela, Dante! — Frederico rugiu, os olhos transbordando uma dor insuportável. — Você não pode tocá-la. Nunca mais. — Do que você está falando? Ela está sofrendo! — Dante gritou, tentando se soltar. — Ela está sofrendo porque descobriu que você é o irmão dela! — O golpe das palavras de Frederico foi mais forte que qualquer surra de Alessandro. — Loren é filha biológica de Alessandro. Se você é filho del
As luzes do escritório eram frias, cortando a penumbra como lâminas. Frederico mantinha a mão sobre a pistola na mesa, seus olhos azuis fixos em Dante. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o som da festa no andar de baixo.— O kit de espionagem, Dante. Agora — ordenou Frederico.Dante, sem hesitar, colocou o envelope e o pendrive sobre a mesa. Ele sabia que o jogo de Alessandro falhara no momento em que ele beijara Loren. A máscara caiu, revelando a alma torturada de um jovem que nunca teve escolha.— Alessandro me criou no inferno, Frederico — começou Dante, a voz trêmula mas firme. Ele contou sobre o treinamento na Itália, sobre a falta de amor, sobre como foi ensinado a ser uma arma. — Ele me disse que você destruiu a nossa família. Ele disse que ele







