FAZER LOGIN— O que a senhora faz aqui? Existem regras que devem ser seguidas, e uma delas é não me incomodar no apartamento.
— Eu sou sua mãe, e não vou cumprir regra nenhuma! Ela precisa de você, não pode fingir que ela não existe! Aquela mulher merece cada segundo do seu desprezo, mas ela... ela é só uma criança! — diz a senhora Olivia Collins. — Estou saindo para correr, e quando eu voltar, a senhora não estará mais aqui. Amanhã eu janto em casa, mas hoje definitivamente é um péssimo dia! Deixo o apartamento e sigo para o parque central, que fica a alguns metros do prédio. Todos os dias depois do trabalho, eu preciso desse tempo para reorganizar minha mente e recarregar as energias. É o meu tempo, um momento que ninguém se atreve a interromper. É um péssimo dia. Na empresa, na minha vida pessoal, tudo está bagunçado como nunca. Mas não são esses imprevistos que vão me parar, pois eu sou Victor Hugo Collins, e eu sempre consigo tudo o que quero — menos ser pai. — Que inferno! — digo, descansando num banco próximo. Um exame de paternidade colocou fim ao meu casamento de anos, e também ao sonho de ser pai. Eu não posso ter filhos, nunca pude, e com isso descobri uma traição. Já não estou mais casado, mas cuidei da menina como se realmente fosse minha filha. Deixar de lado toda uma vida ou seguir como se nada tivesse acontecido? Eu decido que não tenho filhos e entrego a menina para a mãe. Agora, minha mãe insiste que estou errado. Refiz meu testamento e retirei Yasmin. — Ela que procure um pai para ela! — digo para mim mesmo. Quando me levanto e volto a correr, acabo esbarrando numa jovem. — Mil desculpas, estou distraído e não te vi. Desculpa! A jovem estranhamente puxa a touca do casaco sobre o rosto e segue sem dizer uma palavra sequer. Meus olhos se mantêm nela até que ela para na faixa de pedestre. Como ninguém, ela tem uma grande dificuldade em atravessar para o outro lado da avenida. Acompanho-a com cautela, pois fico curioso. — Por favor, me deixem atravessar... como vou chegar nesse prédio? — ela sussurra para si mesma. — Você precisa colocar o pé na faixa, assim os motoristas vão saber que quer atravessar e vão parar! Eles pensam que você apenas está aqui... Olha só! Me adianto um pouco e os carros param. Ela não diz nada, apenas abaixa a cabeça e segue seu destino. — Que garota maluca! Nem mesmo um obrigado... Ótimo! Agora implico com desconhecidos na rua. Francamente, a que ponto eu cheguei. Resolvo voltar para minha corrida, mas alguém está brincando comigo. Talvez o destino queira me mostrar algo, ou é apenas coincidência? Viro à esquina do prédio e a mesma garota aparece na minha frente. Misteriosamente vestida, só consigo ver seus finos dedos e seu cabelo despenteado sob o capuz do moletom. —Você está me seguindo? Vai ser presa... — digo, levantando minha blusa para pegar meu telefone, mas a jovem se assusta e sai correndo para o meio da avenida. Tudo acontece muito rápido. Em frações de segundos, um carro em alta velocidade se aproxima. — CUIDADO! Agarro a garota pelo braço e consigo arrastá-la antes de ser atropelada. Ela cai aos meus pés. Me abaixo para ajudá-la e então percebo que se trata da jovem que Mark levou até o restaurante, a mesma que encontrei no hospital. — Você? O que está fazendo aqui? — pergunto, surpreso. — O que foi? Além de dono da empresa Collins você também é dono de toda cidade? Que eu saiba, São Francisco não é sua cidade! — ela responde. — Deveria me agradecer, eu acabei de salvar sua vida, imbecil! — De nada, arrogante! Vou pedir para entregarem um troféu de honra para você... Riquinho cheio de graça! — ela fala com deboche. — Dobre sua língua para falar comigo! Que eu saiba, você agora é minha funcionária! — POIS me demita! Que droga, eu só quero encontrar esse maldito lugar... Que droga! Por que minha vida tem que ser tão complicada? — ela fala, apanhando a mochila que está no chão. A jovem caminha em direção à praça. Ela anda em círculos, olhando um papel. Dois rapazes se aproximam e conversam. Ela mostra o papel, e eles se oferecem para acompanhá-la. Sem nenhuma malícia, inocentemente, ela segue com eles para um lugar mais afastado e escuro da praça. — Que ótimo, agora eu faço o quê? Finjo que não estou vendo que ela vai ser abusada, ou vou para casa tomar um bom vinho?... Eu vou para casa... eu não tenho nada com isso! — falo, me virando para ir embora. — ME SOLTA... SENHOR COLLINS... SOCORRO!!! Os gritos de dor e desespero atingem meus ouvidos como uma faca afiada. Ela se debate com os rapazes tentando se desvencilhar, mas seu corpo magro é lançado contra uma árvore e ela é imobilizada. O instinto de proteger fala mais alto do que tudo dentro de mim, e imediatamente ao ouvir seu pedido de socorro, corro até ela. Um dos jovens rasga sua blusa e seus seios ficam praticamente expostos. Uma fúria incompreensível toma conta de todo o meu ser e, antes que eu possa raciocinar, agarro um deles pelo pescoço e o jogo no chão. — Seus vermes malditos! Deixem a garota em paz! Perco o controle sobre meus atos. Agarro um deles e o derrubo no chão. Me esquivo de um soco e acerto seu rosto com ódio. Ele cospe sangue e, antes que possa se levantar, chuto seu rosto. — CUIDADO! — grita a jovem, me empurrando para longe do outro rapaz. Estou de costas e não percebo que a intenção do homem é me acertar com um canivete. Ela cai no chão com a mão no abdômen. Os dois rapazes fogem assim que veem o sangue escapar entre os dedos dela, caída no chão. — Eu vou morrer… me ajuda, está doendo muito… estou sangrando muito… Se eu morrer, minha mãe vai ficar sozinha — ela fala chorando, tomada pelo desespero. — Calma! Levanto sua blusa e percebo que o ferimento é superficial, mas ela está tão desesperada que não posso deixá-la sozinha. Seu corpo magro treme como se fosse se quebrar ao meio. Suas mãos estão sujas de sangue e o único som que sai da sua boca é um soluço profundo e angustiante. — Renato, preciso que venham me buscar imediatamente! — digo ao telefone para um dos meus seguranças. — Você não falou… você não enviou sua localização… como vão te ajudar? — ela pergunta. As lágrimas brilham em seus olhos no meio daquela escuridão. — Não se preocupe, eles sabem onde me encontrar! Sou monitorado o tempo todo… Olha só, já chegaram! Ela abre um sorriso amarelo, tentando conter o nervosismo, mas sua respiração deixa claro o quanto está com medo. Ela puxa seu moletom tentando esconder seus seios que ainda estão parcialmente à mostra. — Já estamos com as imagens da câmera de monitoramento… uma equipe já foi atrás deles — Renato fala. — Vamos levá-la para casa, está ferida e muito assustada! Com cuidado, pego a jovem nos meus braços e caminho até o carro. Quando a porta se fecha, ela começa a chorar novamente, e só então percebo que ela também tem medo de mim. — Eu não vou te machucar… apenas cuidar do ferimento e em seguida te ajudar a chegar ao seu destino! Tem que se acalmar, pois está sangrando cada vez mais! Ela fecha os olhos, apoiando seu rosto contra meu peito. Preciso tirar minha camisa e colocá-la sobre o ferimento. Ela treme tanto que cogito levá-la para o hospital. — Ela precisa de um chá, logo ficará bem! — Renato fala minutos depois entrando com o carro na garagem do prédio. Ela não consegue caminhar, se contorce de dor, então a levo nos meus braços até a cobertura. Seu olhar se fixa ao meu e sinto que ela parece mais uma criança perdida no mundo. Seus finos lábios estão roxos de frio. Mesmo com muita vergonha, ela se encolhe nos meus braços buscando segurança. O que seria amor à primeira vista? O que significa sentir seu coração pulsar no mesmo ritmo que o de outra pessoa? Será isso o tal do amor à primeira vista, ou somente estou me sentindo atraído por ela ser uma jovem indefesa? — Tragam os curativos… preciso cuidar do ferimento dela! Renato, providencie roupas novas para ela se vestir… E você, se acalme, está segura aqui, ninguém vai te machucar! O seu nome é Lizzy, não é isso? Ela me olha desconfiada por alguns segundos e então confirma. — Sim! Esse é o meu nome. Com cuidado, ergo sua blusa e começo a limpar o ferimento. Faço o possível para não tocar sua pele, mas com um movimento mais forte meu, ela sente dor e então agarra minha mão, apertando os lábios e gemendo. Seu gemido faz com que toda minha pele se arrepie como nunca aconteceu com ninguém. Por longos segundos, meu coração b**e fora do compasso e ideias absurdas me ocorrem. É difícil terminar o curativo e não sentir um frio estranho na barriga. A cada movimento que faço, ela geme e se contorce, me deixando cada vez mais aflito e com pensamentos duvidosos. — Está terminado… A Cibele vai te ajudar com o resto. Saio da sala e preciso de um banho gelado. Meu corpo todo queima ao lembrar da sua respiração e de seus gemidos. — Que inferno! Estou parecendo um adolescente estúpido que não pode ver uma garota que já fica todo excitado! Que porra é essa, Victor?!Existem dores que nunca desaparecem completamente. Elas apenas aprendem a ocupar menos espaço. A morte de Maria foi uma dessas dores. Durante semanas, sua ausência esteve presente em cada conversa, em cada lembrança e em cada silêncio. Havia momentos em que eu pegava Victor olhando pela janela da fazenda com o pensamento distante e sabia exatamente onde sua mente estava. Mas a vida possui um hábito curioso. Ela continua. Mesmo quando acreditamos que não deveria, quando pensamos que o mundo deveria parar. Ela continua. É o ciclo natural das coisas. E, pouco a pouco, todos nós continuamos também. Mark permaneceu conosco por algumas semanas. No início, parecia um visitante. Alguém que não sabia exatamente onde sentar durante as refeições, quando participar das conversas ou se tinha o direito de ocupar espaço naquela casa. Mas isso durou pouco, porque ninguém sobrevivia por muito tempo à força daquela família. Logo ele estava sentado à mesa conosco, participando das dis
Victor permaneceu alguns segundos sem responder. Então olhou para Maria. A mulher que, até o último dia de vida, tentou unir aqueles dois novamente. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — Acho que podemos esquecer isso. Mark respirou aliviado, mas Victor ergueu um dedo. — Porém... O alívio desapareceu imediatamente. — Eu ainda não sei se consigo confiar em você outra vez. Mark assentiu sem discutir, sem reclamar. Porque sabia que aquela era uma consequência justa. — Por causa da Lizzy. Victor virou a cabeça lentamente. — O quê? — Eu sei. Mark ergueu as mãos em rendição. — Sua esposa é linda. Uma mulher incrível e eu confundi as coisas. Victor o encarou em absoluto silêncio. O suficiente para fazê-lo se arrepender da frase. Então respondeu: — A Lizzy é herdeira de uma organização criminosa. Ela é tão mafiosa quanto eu. Apontou discretamente para o fundo do salão. — E se você olhar demais para ela, vai ter problemas com aqueles dois. Mark
O trajeto inteiro foi marcado por um silêncio pesado. Ninguém teve coragem de conversar durante o voo. Nem mesmo as crianças, normalmente incapazes de permanecer quietas por mais de alguns minutos, pareciam encontrar forças para quebrar aquela atmosfera de luto que nos acompanhava desde que recebemos a notícia. Victor passou quase todo o tempo olhando pela janela. À distância, para qualquer pessoa, poderia parecer apenas pensativo, mas eu o conhecia bem demais. Sabia reconhecer quando ele estava sofrendo. Sabia identificar aquele olhar perdido, aquela expressão vazia de quem tenta se manter firme enquanto tudo por dentro ameaça desmoronar. Ele não havia chorado, não de verdade. E isso me preocupava. Porque Victor sempre foi o tipo de homem que suportava a própria dor em silêncio, carregando pesos que ninguém além dele conseguia enxergar. Quando finalmente chegamos ao velório, o céu parecia tão cinzento quanto o estado de espírito de todos nós. Descemos dos carros sem p
LIZZY... Victor não acreditou. Eu vi em seus olhos a confusão, a dor. Durante quinze anos, eu aprendi a reconhecer cada uma das formas que ele encontrava para sobreviver à dor. Ele permaneceu imóvel no centro da sala. Os olhos fixos na mãe, como se estivesse esperando que ela sorrisse e dissesse que tudo não passava de um mal-entendido. — Victor... — Olívia sussurrou. Ele balançou a cabeça devagar. — Não. Aquela única palavra saiu quebrada. Eu me aproximei, mas não toquei nele. Às vezes, quando a dor era grande demais, Victor precisava de alguns segundos para encontrar o chão sob os próprios pés. — Ela estava bem — ele insistiu. — Eu falei com ela há algumas semanas. Ninguém respondeu. Porque não existia resposta para aquilo. Existiam apenas fatos, e fatos raramente consolam alguém. Observei suas mãos. Estavam tremendo, quase imperceptivelmente. Victor sempre pareceu inabalável para quem não o conhecia. Os funcionários, os parceiros de negócios. Até mesmo os f
Quinze anos se passaram. O tempo tem um jeito curioso de enganar as pessoas. Quando somos jovens, acreditamos que quinze anos são uma eternidade. Um período distante demais para ser imaginado. Depois piscamos os olhos e os bebês que mal cabiam em nossos braços agora ocupam espaço demais na mesa de jantar. Foi exatamente assim que aconteceu comigo. Às vezes eu ainda me lembrava de Yasmin correndo pelos corredores da mansão com os cabelos bagunçados e um vestido torto, exigindo minha atenção para alguma descoberta extraordinária. Agora ela tinha vinte e um anos. Era uma mulher. Uma mulher inteligente, gentil e perigosamente parecida com a Lizzy. Alina e Milena completaram quinze anos. Continuavam inseparáveis e transformando qualquer assunto em uma negociação internacional. Dante e Valentin tinham apenas alguns meses a menos. Eram adolescentes insuportáveis. Altos demais, confiantes demais. Pareciam demais comigo quando eu tinha a idade deles. O que era um problema. Ca
Quando chegamos em casa, descobri que alguém havia recebido a notícia antes mesmo de nós termos a chance de contar oficialmente.João já estava esperando na entrada da mansão.Vestido de forma absolutamente ridícula.Ou, nas palavras dele, "adequadamente preparado para uma ocasião histórica".Usava um terno escuro impecável, uma boina na cabeça e segurava um charuto que claramente estava ali apenas para compor o personagem.Ao lado dele havia uma garrafa de champanhe.Assim que descemos do carro, ele abriu os braços.— Finalmente chegaram os pais dos meus sobrinhos.— Como você soube?Perguntei.— Sofia me contou.Respondeu imediatamente.Assenti.Claro que tinha sido Sofia. Lizzy provavelmente contou.— E por que você está vestido assim?João olhou para o próprio traje.— Porque dois herdeiros acabaram de ser anunciados.— Você parece um mafioso.— Obrigado.— Não foi um elogio.— Eu decidi considerar como um.Lizzy já estava rindo antes mesmo de chegarmos perto.Poucos minutos depoi







