INICIAR SESIÓNQuando Heitor pede um divórcio de apenas trinta dias, Laura acredita que ouviu errado. Segundo ele, tudo faz parte de um plano. Existe outra mulher que ele deseja conquistar, e, para isso, precisa parecer um homem totalmente livre. Assim que os trinta dias terminarem, eles voltarão a se casar e continuarão a vida como se nada tivesse acontecido. Humilhada, Laura aceita o acordo. Não por acreditar nas promessas do marido, mas porque se recusa a implorar pelo amor de alguém que a colocou em segundo plano. Enquanto Heitor vive a fantasia que escolheu, Laura tenta reconstruir a própria vida. E é justamente nos braços de Rafael, o melhor amigo do ex-marido, que ela encontra o respeito, o carinho e a paixão que jamais recebeu durante o casamento. Quando os trinta dias acabam, Heitor volta para buscá-la, certo de que ela estará esperando. Só que o tempo que ele usou para brincar com o casamento foi o mesmo que bastou para perder a mulher da sua vida. Agora, ele terá que assistir ao amor que desprezou florescer nos braços do único homem que sempre soube enxergar o valor dela.
Ver másO aroma do jantar se espalhava por todo o apartamento.
Laura desligou o fogo do risoto, conferiu o molho que acompanharia o filé e sorriu ao observar a mesa cuidadosamente arrumada. Velas, taças de vinho, flores brancas e um pequeno bolo de chocolate ocupavam o centro da mesa.
Na parede da sala, o relógio marcava oito horas da noite.
Ela olhou para a tela do celular.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Respirou fundo e tentou afastar a frustração.
Gustavo costumava se atrasar quando surgia alguma reunião inesperada. Era o que dizia todas as vezes. Ainda assim, fazia questão de preparar algo especial naquela noite.
A data merecia.
Cinco anos de casamento.
Cinco anos dividindo a mesma casa, os mesmos sonhos e a promessa de que envelheceriam juntos.
Laura caminhou até o espelho da sala e ajeitou uma mecha do cabelo. O vestido azul-marinho que escolhera era um dos favoritos de Gustavo. Não era extravagante, mas ele sempre dizia que ela ficava linda quando usava aquela cor.
Sorriu sozinha.
Pegou o celular mais uma vez.
Ligou.
A chamada caiu na caixa postal.
Ela tentou novamente.
Nada.
— Deve estar dirigindo... — murmurou, tentando convencer mais a si mesma do que ao silêncio do apartamento.
Enquanto recolocava o aparelho sobre a bancada da cozinha, uma notificação apareceu.
Número desconhecido.
Ela imaginou que fosse propaganda e quase ignorou.
Mas a prévia da mensagem fez seu coração acelerar.
"Você merece saber quem é o homem com quem se casou."
Havia um vídeo anexado.
Laura franziu a testa.
Os dedos hesitaram por alguns segundos antes de tocar na tela.
A imagem começou tremida.
Parecia gravada dentro de um restaurante sofisticado.
A câmera focava um homem sentado à mesa.
Ela reconheceu imediatamente o relógio em seu pulso.
Depois, o rosto.
Gustavo.
Ele usava exatamente o mesmo terno que havia vestido naquela manhã antes de sair para o trabalho.
Em frente a ele estava uma mulher jovem, bonita e extremamente elegante.
Os cabelos longos caíam sobre os ombros enquanto ela segurava uma taça de vinho.
A voz da desconhecida rompeu o silêncio.
— Eu não aguento mais viver escondida.
Gustavo permaneceu calado.
— Estou cansada de ser a outra.
Laura sentiu um frio percorrer seu corpo.
A mulher continuou.
— Você prometeu que resolveria isso. Eu quero um relacionamento de verdade. Não quero continuar sendo amante.
Gustavo passou a mão no rosto.
Parecia impaciente.
— Bianca, fala baixo.
— Não vou falar baixo. Você sempre inventa uma desculpa diferente.
Ela aproximou o celular do rosto dele.
— Hoje você vai responder.
Ele soltou um suspiro longo.
— Eu disse que vou resolver.
— Quando?
Silêncio.
— Quando vai contar para sua esposa?
Gustavo olhou ao redor antes de responder em voz baixa.
— Muito em breve.
— Eu quero uma data.
Ele sorriu de lado.
— Trinta dias.
A mulher arqueou uma sobrancelha.
— Só acredito vendo.
Gustavo segurou a mão dela sobre a mesa.
— Confia em mim.
O vídeo terminou.
Laura permaneceu imóvel.
O celular escapou de seus dedos e caiu sobre o sofá.
Ela piscou várias vezes.
Talvez estivesse entendendo errado.
Talvez existisse alguma explicação.
Talvez...
O som da fechadura interrompeu seus pensamentos.
A porta se abriu.
Gustavo entrou em casa falando ao telefone.
— Amanhã resolvemos isso.
Ele desligou a ligação antes mesmo de perceber que Laura estava parada na sala.
Ainda sorriu.
— Desculpa o atraso.
Ela não respondeu.
Pegou o celular.
Abriu o vídeo novamente.
Sem dizer uma palavra, colocou a tela diante do rosto dele.
O sorriso desapareceu.
Os olhos de Gustavo permaneceram fixos na imagem durante alguns segundos.
Não houve surpresa.
Nem indignação.
Muito menos a pergunta que qualquer inocente faria.
Quem gravou isso?
Ele apenas respirou fundo.
Como alguém que sabia que aquele momento chegaria.
Laura sentiu um aperto ainda maior no peito.
— Então é verdade.
Gustavo passou a mão pelos cabelos.
— Laura...
— Há quanto tempo?
Ele desviou o olhar.
Aquilo respondeu tudo.
As lágrimas começaram a se formar, mas ela recusou-se a deixá-las cair.
Não diante dele.
— Eu fiz uma pergunta.
— Alguns meses.
O mundo pareceu girar devagar.
Cinco anos de casamento.
Meses de mentiras.
Meses dividindo a cama com um homem que encontrava outra mulher escondido.
Ela riu.
Um riso pequeno, desacreditado.
— Você conseguiu destruir cinco anos em uma única frase.
— Não é assim.
— Não?
Ele respirou profundamente antes de dizer algo que Laura jamais imaginaria ouvir.
— Já que você descobriu... talvez seja melhor conversarmos sobre uma solução.
Ela cruzou os braços.
— Solução?
— Sim.
Ele caminhou até a mesa de jantar.
Observou as velas acesas.
O bolo.
As flores.
Seu semblante demonstrou um leve desconforto.
Mas durou pouco.
— Precisamos nos divorciar.
Laura piscou lentamente.
— O quê?
— É só por trinta dias.
Ela acreditou que tivesse escutado errado.
— Repete.
— Um divórcio temporário.
A naturalidade em sua voz era tão absurda que ela não encontrou palavras imediatamente.
Ele continuou explicando como se estivesse apresentando um projeto de trabalho.
— Bianca não aceita continuar comigo enquanto eu estiver casado. Ela quer exclusividade. Quer acreditar que estou realmente comprometido.
Laura permaneceu olhando para ele.
Sem expressão.
Sem reação.
Gustavo interpretou aquele silêncio como uma oportunidade.
— Nós assinamos o divórcio. Fico oficialmente solteiro durante trinta dias. Vivo esse relacionamento, descubro se é exatamente o que ela espera... depois encerro tudo e voltamos a casar.
Laura sentiu vontade de rir.
Ou de gritar.
Ainda não sabia qual dos dois.
— Você enlouqueceu?
— Não.
Ele respondeu com uma calma quase irritante.
— Estou sendo prático.
Ela deu um passo em sua direção.
— Você quer brincar de solteiro durante um mês...
— Não é isso.
— É exatamente isso.
— Laura, tenta entender.
— Me explicar que pretende passar um mês dormindo com outra mulher enquanto eu espero em casa?
Ele respirou fundo.
— Você sabe que nosso casamento sempre foi sólido.
Ela o encarou sem acreditar.
— Acabou de admitir uma traição e ainda chama isso de casamento sólido?
— O que sinto por você é diferente.
Ela fechou os olhos por um instante.
Era impressionante.
Gustavo realmente acreditava que fazia sentido.
— Você sempre será minha esposa.
Laura soltou uma gargalhada amarga.
— Que generoso da sua parte.
Ele se aproximou.
— São apenas trinta dias.
A frase atravessou seu peito como uma faca.
Apenas.
Para ele, destruir um casamento era algo pequeno.
Trinta dias.
Como se amor pudesse ser colocado em pausa.
Como se fidelidade tivesse prazo de validade.
Como se respeito pudesse ser devolvido no trigésimo primeiro dia.
Ela olhou para a mesa posta.
As velas continuavam acesas.
O jantar esfriava lentamente.
As flores pareciam zombar dela.
Então compreendeu algo.
Não era naquela noite que seu casamento estava acabando.
Ele havia terminado muito antes.
Ela apenas não tinha sido avisada.
Gustavo retirou uma pasta da mochila.
Colocou sobre a mesa.
— Conversei com um advogado hoje.
Laura arregalou os olhos.
— Você já preparou os documentos?
— Achei melhor adiantar tudo.
Ela abriu a pasta.
O pedido de divórcio estava pronto.
Datado.
Organizado.
Assinado por ele.
Enquanto ela preparava um jantar de aniversário, Gustavo organizava o fim do casamento.
Ele estendeu uma caneta.
— Se assinarmos amanhã cedo, tudo será resolvido rapidamente.
Laura segurou o documento.
Leu cada linha lentamente.
Depois levantou os olhos.
Gustavo sorriu, acreditando que ela começava a aceitar a proposta.
Ela assinou.
Sem hesitar.
Empurrou a pasta de volta para ele.
— Pronto.
Ele relaxou os ombros.
— Eu sabia que você entenderia.
Laura sorriu.
Um sorriso tão discreto que ele nem percebeu o quanto havia de tristeza escondido nele.
Porque Gustavo estava certo apenas sobre uma coisa.
Ela havia entendido.
Entendido que não existia mais casamento.
Não existia mais confiança.
Nem amor suficiente para reconstruir o que ele acabara de destruir.
Enquanto ele recolhia os documentos, satisfeito com o próprio plano, Laura fez uma promessa silenciosa.
"Para você, este divórcio dura trinta dias."
"Para mim..."
"É para sempre."
Ela observou Gustavo subir para o quarto como se tivesse resolvido um simples problema administrativo.
Na sala, as velas continuavam queimando.
Laura caminhou até a mesa.
Apagou uma por uma.
Depois retirou lentamente a aliança do dedo.
Colocou-a ao lado das taças que jamais seriam usadas.
Naquela noite, o jantar de aniversário morreu antes mesmo de ser servido.
Assim como o casamento deles.
Laura permaneceu parada na varanda.O celular continuava em sua mão.A mensagem ainda estava aberta na tela."Você quer saber quem matou seu avô?"E, logo abaixo:"Pergunte a Rafael onde ele estava naquela noite."Ela leu novamente.Depois levantou os olhos.Rafael continuava diante dela.O mesmo homem que havia segurado sua mão durante os momentos mais difíceis.O homem que a ajudara a enfrentar Gustavo.O homem que havia prometido não deixá-la sozinha.O homem por quem seu coração havia escolhido bater novamente.Agora alguém estava tentando colocar uma dúvida entre eles.— Laura?Ela não respondeu.Rafael percebeu imediatamente que havia algo errado.— O que aconteceu?Laura estendeu o telefone.Ele leu.Seu rosto mudou.Não por culpa.Por reconhecimento.Laura percebeu.— Você sabe alguma coisa.Rafael levantou os olhos.— Sei.Ela sentiu o coração apertar.— Então é verdade?— Não do jeito que essa pessoa quer que você pense.— Onde você estava naquela noite?Rafael ficou em silê
O carro avançava pela estrada em velocidade máxima.Laura permanecia no banco traseiro ao lado de Rafael, segurando a pasta contra o peito.O avô estava no veículo com eles.Eduardo dirigia.Gustavo seguia logo atrás com Otávio.Todos estavam indo para a antiga sede da Montenegro Holdings.O prédio estava pegando fogo.E Maria estava lá.Laura olhava pela janela, tentando controlar a respiração.— Mãe, por favor...Rafael segurou sua mão.— Vamos chegar até ela.— E se for tarde demais?— Não vai ser.— Como pode ter tanta certeza?Rafael virou o rosto para ela.— Porque ainda temos uma coisa que eles não têm.— O quê?— Você.Laura franziu a testa.— Eu?— Você é o motivo de todos estarem se movimentando.Seu avô olhou para ela.— Rafael está certo.Laura encarou o homem.— Então me diga a verdade.Ele suspirou.— Que verdade?— A que Helena mencionou.A verdadeira identidade do homem que criou o império Montenegro.O avô de Laura ficou em silêncio.Eduardo apertou o volante.— Pai.
Laura ficou encarando o doutor Henrique.As palavras dele pareciam não fazer sentido.O avô de Laura estava escondido na antiga casa de Gustavo.A casa onde ela havia vivido durante o casamento.A casa que havia deixado depois do divórcio.A casa onde tantas lembranças dolorosas ainda estavam guardadas.Laura olhou para Gustavo.— Você sabia disso?Gustavo parecia tão surpreso quanto ela.— Não.— Tem certeza?— Laura, eu juro que não sabia.Henrique interrompeu:— Ele não sabia.— Como você pode ter certeza?— Porque seu avô escolheu aquela casa justamente por causa disso.Laura franziu a testa.— Por causa do quê?Henrique respirou fundo.— Porque ninguém procuraria alguém ligado à sua família dentro da casa do seu ex-marido.Gustavo passou a mão pelos cabelos.— Então ele esteve lá esse tempo todo?— Não exatamente.— Explique.— Seu avô utilizava um cômodo subterrâneo que não aparece na planta da casa.Laura sentiu o coração acelerar.— O porão.Gustavo olhou para ela.— Eu nunca
Laura permaneceu em silêncio depois das últimas palavras de Teresa.A casa que ninguém mencionava.A casa que não aparecia nos registros.A casa conhecida apenas por Eduardo, Maria e seu avô.E, segundo Teresa, era exatamente ali que poderia estar o homem que todos acreditavam estar morto.Eduardo parecia perdido em pensamentos.Laura se aproximou.— Pai, você conhece essa casa.Não era uma pergunta.Ele respirou fundo.— Conheço.— Onde fica?— A cerca de uma hora daqui.— Por que nunca ouvi falar dela?— Porque seu avô mandou apagar qualquer registro.— Por quê?Eduardo olhou para a filha.— Porque era um lugar de emergência.— Emergência para quem?— Para nossa família.Laura franziu a testa.— Você já levou alguém para lá?Eduardo demorou a responder.— Sim.— Quem?— Você.Laura ficou imóvel.— Eu?— Quando era criança.— Eu estive naquela casa?— Sim.— E não me lembro.— Você tinha apenas alguns anos.Laura passou a mão pelos cabelos.— Então talvez meu avô tenha escondido algu












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