FAZER LOGINEnquanto a noite avançava, os lobos do norte bebiam e riam, e as conversas paralelas preenchiam o salão.
Dois jovens guerreiros de Durnwarth, sentados à minha esquerda, cochichavam. — Ele recusou a filha do Alfa… — Ou é louco, ou já tem outra. — Aposto que tem. Deve ter uma loba escondida em cada canto de Thunderwoof. — Ou talvez... não goste de lobas. — riram. Ignorei. Não valia a pena responder. Kaelen me lançou um olhar discreto, buscando aprovação para encerrar a noite. Assenti. Levantamo-nos após mais uma rodada de vinho e trocas diplomáticas. A comitiva nos seguiu até os aposentos preparados para nós. Fechado no quarto, o som abafado do banquete continuava ecoando pelas paredes grossas. Mas minha cabeça... já estava em outro lugar. Grendor permaneceu em silêncio a noite inteira. Mas agora, estava acordado. Inquieto. *** Humano idiota, tenho uma pergunta. Ele disse e revirei os olhos com o apelido que ele me deu, ah e covarde de merda também. *** Pergunta então, não posso simplesmente calar sua boca. Ele me ignorou e perguntou. *** Porque ela não veio até nós quando o cheiro nos atingiu? Não sabia o que responder, mas também fiquei intrigado. *** Não sei, e agradeço, se ela está na minha matilha significa que me conhece, talvez ela tenha um ponto, pois em qualquer lugar que vá do reino, fêmeas querem ser lunas a todo custo, não vê Saphira. Ele rosnou. *** Saphira é uma cadela sem berço. Olhei para fora da janela vendo a neve que acumulava do lado de fora. *** Talvez ela tenha honra e não seja como as outras fêmeas, ela sabe que o destino pode estar a emparelhando com um grande Alfa. *** Cale Grendor, ela é só mais uma que quer poder e pode estar jogando um jogo de esconde- esconde onde acha que pode me enganar, sou Ares Onderwood fui forjado e não serei engando por uma fêmea sem valor. Fechei os olhos e respirei fundo. O vinho já não aquecia. Só ardia. A noite caiu sobre Durnwarth como um véu pesado. O silêncio nos arredores da fortaleza parecia mais denso do que o normal. E mesmo depois do vinho, mesmo depois de apagar todas as velas e de afundar o rosto no travesseiro, o sono não trouxe paz. Trouxe... ela. Maldição, Flores silvestres e orvalho da manhã, minha mente vagava em pensamento, mas o que não sabia era que, era somente um sonho brutal que estava sentindo. Envolveu meus sentidos como névoa em campo de batalha. Eu não a via, mas sentia sua presença, como uma corrente quente deslizando por minha pele. Ouvi passos... Leves. Descalços. A terra respondia a eles com reverência. Meus olhos se abriram em meio à escuridão do que parecia ser a clareira da antiga floresta da minha infância. Mas eu não estava sozinho. — "Quem está aí?" — minha voz soou rouca, mas serena. Nenhuma resposta. Apenas o sussurro do vento... e a respiração dela ecoava na escuridão da minha mente. Minhas mãos estavam suadas. Meu coração batia tão rápido que doía no peito. Grendor dentro de mim, rosnava baixo, como se lutasse entre o desejo e o medo. E então a vi. Sombras e luz se misturavam ao seu redor. Seus cabelos longos, impossíveis de distinguir a cor, dançavam como se fossem vivos. Ela estava nua, mas não havia vulgaridade nela — apenas a beleza crua de algo que pertencia à natureza... e a mim. Minha companheira. Mesmo sem conhecê-la. Mesmo sem saber seu nome. Era ela. Seus olhos — que eu não conseguia focalizar — se cravaram em mim com uma dor antiga. Como se ela me conhecesse de antes do mundo. Ela se aproximou. — “Por que você me evita, Alfa?” — sua voz era um sussurro de tempestade. — “Eu... eu não sei quem você é.” — “Mas seu lobo sabe.” — “Então por que você não vem até mim?” — perguntei, com um nó na garganta. — “Talvez eu esteja mais perto do que imagina.” — ela sorriu. Seu toque foi como fogo em brasa sobre minha pele. Minha respiração falhou. Ela passou os dedos pelo meu peito, pelo meu pescoço, subindo até os cabelos. E então me beijou. O gosto dela era como vinho quente com mel e sangue. Inesquecível. Fatal. Minhas mãos encontraram sua cintura. Ela se encaixou contra meu corpo como se tivesse sido feita para ele. Não havia lógica. Não havia pudor. Só havia instinto e destino. Ela gemeu baixo, arfando contra meu pescoço. Eu a deitei sob as folhas secas da floresta e, quando penetrei nela, um grito escapou — não dela, mas de Grendor, rugindo dentro de mim, tomado por prazer e desespero. Era tão real... O calor, os sons, o peso do corpo dela contra o meu... Era mais real do que qualquer coisa que eu já sentira acordado. — “Você me encontrará? Me deixará entrar no seu coração? — ela perguntou, ofegante. — “ Não sei" — respondi, cravando os olhos no vazio. Mas quando olhei de novo... Ela já não estava lá. A clareira escureceu, o chão desapareceu, e minha pele estava coberta de suor frio. Acordei com um sobressalto. Estava em Durnwarth, sozinho, nu, os lençóis enrolados ao redor do meu corpo, minha ereção dolorosa, como se eu tivesse realmente a tocado. Grendor uivava dentro de mim. Furioso. Frustrado. — Onde ela está? — Foi só um sonho... — murmurei para mim mesmo. — Um maldito sonho. Mas meu corpo dizia o contrário. Minha alma dizia o contrário. Me levantei e fui até a janela. A lua ainda brilhava, redonda e cruel. O vento noturno soprava com aquele mesmo cheiro sutil que me perseguia desde Thunderwoof. Ela está lá. Que merda a deusa está fazendo na minha vida, tenho dezoito anos e não quero uma companheira. Maldição. Maldita Deusa que muda o destino conforme suas necessidades infernais. Poderia me deixar. Poderia não me arrastar para essa loucura. Mas não, ela tem que fazer isso. Olhei a lua e praguejei ao vento, ela não vai conseguir me enlouquecer, não vou deixar. *** Você já está louco, covarde de merda. Grendor disse zombando de mim mais uma vez. Essa noite será longa e desastrosa.Décadas depois… O tempo passou como o vento que atravessa as montanhas — às vezes suave, às vezes impetuoso, mas sempre seguindo seu curso. Thunderwoof já não era a mesma vila que um dia lutou para sobreviver; era agora um reino vivo de pedra, madeira e histórias. As casas se erguiam maiores, as ruas eram largas e iluminadas por tochas que ardiam mesmo nas noites mais frias. O som dos martelos do ferreiro, o farfalhar das folhas, o tilintar dos sinos nas portas… tudo carregava a marca de uma terra que aprendeu a florescer mesmo após tantas tempestades. Os anos trouxeram rostos novos. As crianças de ontem eram hoje guerreiros, caçadores, curandeiros, líderes de patrulha. Netos corriam entre lobos patrulheiros, rindo alto, sem medo algum — algo que um dia parecia impossível. As velhas histórias de batalhas eram contadas em volta das fogueiras, mas já não com o peso da dor, e sim como lembranças que moldaram quem eram. Selene, a pequena Alfa de pelagem prateada, havia crescido p
Perspectiva de Ares Onderwood"Eu, Ares Onderwood, rejeito você como minha companheira."Sim… essa frase esteve comigo por anos. Não apenas como lembrança, mas como um fantasma. Ela ecoou em minha mente nas noites mais silenciosas, assombrou meus sonhos e pesou sobre cada passo que dei. Eu a disse olhando nos olhos da minha luz… no momento mais sombrio da minha vida, pouco depois de perder tudo que um dia pensei ser capaz de amar.Quem diria que um dia pensei que isso seria minha frase para a vida? Que eu acreditaria que era melhor viver sem sentir, sem amar, sem me entregar. Que eu veria a rejeição como escudo… sem perceber que era a lâmina que abriria feridas mais profundas que qualquer batalha.Mas o destino não aceita ordens.E a Deusa não se cala diante de um erro.Hoje, olhando Thunderwoof sob esta lua cheia, não sou mais aquele homem. Aquele Ares morreu junto com o medo que carregava.Do alto da torre, vejo a vida pulsar lá embaixo. Ouço os risos, os passos firmes, o tilintar m
Perspectiva de Clarice Winsper"Quem um dia pensaria que eu, Clarice Winsper, seria a Luna de Thunderwoof… mãe, companheira, e guardiã de um legado?"Se me dissessem isso anos atrás, eu teria rido. Ou talvez ficado em silêncio — como sempre fiz. Porque durante muito tempo, a única verdade que conheci foi a dor de perder, a solidão de não pertencer, e a sensação sufocante de ser invisível mesmo diante de tantos olhos.Fui a menina que cresceu entre cinzas.A órfã que aprendeu a se encolher para caber nos espaços onde a queriam.A ômega sem lobo que ninguém queria por perto, mas que todos queriam humilhar.Eu conheci o frio do desprezo.Eu senti o peso de trabalhar até as mãos sangrarem para, no final, ainda ser chamada de “menos”.E, por muito tempo, acreditei que era exatamente isso que o destino tinha para mim: sobreviver… e nada mais.Mas a Deusa, silenciosa e paciente, esperou o momento certo para me provar que estava errada.Ela me levou ao fundo para que eu pudesse ver a luz.E,
Os anos correram como água de rio, ora serenos, ora turbulentos, mas sempre seguindo em frente, esculpindo margens e abrindo novos caminhos. Thunderwoof floresceu.A vila que antes carregava cicatrizes profundas de batalhas e perdas agora ostentava muralhas reforçadas, erguidas com pedra cinza e madeira tratada, capazes de resistir ao tempo e aos inimigos. Casas foram ampliadas, ganhando varandas cobertas por heras e janelas com flores que mudavam de cor a cada estação. As ruas, antes silenciosas e marcadas pelo peso da sobrevivência, agora viviam repletas de movimento — crianças corriam entre lobos patrulheiros, gargalhando, enquanto o som metálico das marteladas do ferreiro se misturava ao farfalhar das árvores ao vento.O cheiro era de vida — de pão fresco saindo do forno comunitário, de couro curtido para novas armaduras, e do mato recém-cortado nas áreas de treino. Ao fundo, o uivo distante de um lobo solitário lembrava que, apesar de tudo, a natureza seguia sua própria cadência.
O inverno havia cedido lugar a uma primavera vigorosa, e com ela vieram dias mais longos, cheios de treino, colheita e celebrações discretas. Os ventos quentes traziam o perfume de flores silvestres que brotavam nas encostas, misturado ao aroma úmido da terra recém-revolvida. O canto dos pássaros enchia as manhãs, e até os lobos pareciam mais leves, com passos silenciosos e olhares atentos para o horizonte.Caelan e Draven, agora mais altos e com músculos moldados pelo treinamento diário, alternavam entre as tarefas da matilha e treinos especiais que Ares supervisionava pessoalmente. Não era apenas preparo físico — era disciplina, estratégia e, acima de tudo, controle.Ainda faltam duas luas para a primeira transformação… lembrou Grendor, caminhando ao lado de Ares enquanto observavam os gêmeos correrem na pista de resistência, o suor brilhando sob o sol.Eles já sentem o chamado? perguntou Lyanna, aproximando-se com Clarice, seus olhos dourados fixos nos meninos.Sentem… mas ainda nã
O tempo, sempre implacável, parecia ter encontrado em Thunderwoof um lugar onde queria caminhar mais devagar. A cada estação, a vila se transformava, mas sem perder aquela essência de lar que a tornava única.Caelan e Draven, agora com nove anos, eram duas forças da natureza. Herdaram a agilidade e a astúcia do pai, mas com a determinação obstinada da mãe. Passavam as manhãs treinando no pátio sob o olhar atento de Ares, e as tardes explorando os limites da floresta — sempre acompanhados por Grendor ou Aly, que mais de uma vez precisaram impedir que a “exploração” se transformasse em um ato de pura imprudência.Caelan preferia o combate corpo a corpo, rápido e direto, enquanto Draven demonstrava uma habilidade natural para estratégia, criando emboscadas e pequenas simulações que deixavam até guerreiros veteranos impressionados. E embora brigassem como todo irmão, bastava alguém ameaçar um deles para o outro se colocar à frente, dentes e punhos prontos.Selene, com três anos, já mostra







