INICIAR SESIÓNO salão do Palazzo Biscari brilhava tanto que chegava a ofuscar a visão. Se Palermo fosse uma pessoa, ela seria uma mulher rica, elegante e perigosamente falsa. O cheiro era uma mistura inebriante de perfumes caros, champanhe francês e o aroma metálico de poder que pairava no ar.
Eu caminhava ao lado do meu pai sentindo os olhares. Eram flechas vindas de todos os lados. Alguns homens sorriam — aqueles sorrisos plásticos que não alcançam os olhos — enquanto as esposas apertavam seus colares de pérolas como se eu fosse um pecado ambulante. Eu sabia o que eles pensavam: Uma mulher? No comando da rede de negócios mais lucrativa da Itália? Eles não estavam apenas olhando para o meu vestido vermelho; estavam avaliando o tamanho da minha garganta para saber se seria fácil cortá-la.
— Mantenha o sorriso, Cassandra — sussurrou meu pai, sem mover os lábios. — Deixe que eles se perguntem o que você está planejando. O mistério é o melhor amigo de um líder.
Subimos ao palco. O silêncio que se seguiu não foi de respeito, foi de expectativa. Riccardo se posicionou diante do microfone com a autoridade de quem nunca precisou gritar para ser obedecido.
— Amigos, família, parceiros de sangue — a voz dele ecoou, firme como as rochas da costa siciliana. — Hoje não é apenas uma celebração de continuidade. É uma declaração de futuro. A partir de amanhã, o legado dos Valenti passa para as mãos da minha maior conquista. Cassandra assumirá as operações. O que é meu, é dela. E quem a desrespeitar, estará cuspindo no meu próprio rosto.
Eu dei um passo à frente. O peso do mundo parecia ter se instalado nos meus ombros, mas eu não deixei meus joelhos tremerem. Vi Donato na primeira fila, batendo palmas lentamente, com uma expressão que eu, na minha ingenuidade de herdeira, confundi com orgulho. Outros mafiosos trocaram olhares de soslaio, mas ninguém ousou protestar. No nosso mundo, a palavra do Capo é lei, e o medo é o que mantém a ordem na mesa de jantar.
— Obrigada, pai — eu disse, minha voz saindo mais estável do que eu imaginava.
O anúncio estava feito. O contrato invisível estava assinado com a expectativa de todos ali presentes. Estávamos descendo os degraus do palco, meu pai estendendo a mão para me guiar, quando o destino decidiu que eu já tinha sido feliz por tempo demais.
O estalo foi seco.
Em um segundo, o mundo era dourado e vibrante. No segundo seguinte, a escuridão absoluta engoliu o Palazzo.
O silêncio durou apenas o tempo de uma batida de coração. Então, veio o som que eu nunca esqueceria: o impacto abafado de uma bala encontrando carne e osso.
— Pai? — minha voz saiu como um sopro.
Um clarão de um segundo tiro iluminou o palco por um milésimo de segundo. Vi a silhueta dele cambalear. Vi o homem que era meu herói desmoronar como um castelo de cartas ao vento.
— PAPAI! — eu gritei, mas meu grito foi soterrado por uma cacofonia de caos.
Vidros quebrando, mesas sendo viradas, gritos de mulheres e o som rítmico de disparos automáticos. O pânico tem um cheiro específico: pólvora e suor frio. Eu tentei me lançar na direção onde ele caiu, minhas mãos tateando o chão, buscando desesperadamente pelo calor da pele dele, pela sua voz me dizendo que era apenas um susto.
Mas eu só encontrei o vazio.
Tentei me levantar para correr, a adrenalina queimando minhas veias, transformando meu sangue em ácido. Eu ia matá-los. Eu ia encontrar quem fez isso e reduzir Palermo a cinzas. Mas eu não dei nem dois passos.
Braços de aço me envolveram por trás.
Eu lutei. Usei os saltos, as unhas, os dentes. Eu era uma Valenti, e nós não nos entregamos sem levar alguns dedos inimigos conosco. Mas quem quer que fosse aquele homem, ele não era humano; era uma máquina. Ele não gemeu com meus chutes, não vacilou com as minhas cotoveladas.
Senti um pano áspero ser pressionado contra minha boca e meu nariz.
O cheiro químico do clorofórmio invadiu meus pulmões, doce e doentio. Minha luta começou a perder a força. Meus membros ficaram pesados, como se estivessem cheios de chumbo. A última coisa que vi, antes da escuridão do desmaio ser mais profunda que a escuridão do salão, foram as luzes de emergência piscando ao longe, revelando o rastro de sangue que manchava o tapete onde eu deveria ter sido coroada rainha.
Eu não estava assumindo um trono. Eu estava sendo levada para o abatedouro.
O estrondo da explosão controlada sob o palco reverberou como um trovão subterrâneo, fazendo as paredes do teatro gemerem, mas o palácio permaneceu de pé. Nicolas emergiu da fumaça e dos escombros como um fantasma de guerra, coberto de poeira e fuligem, mas com os olhos fixos em um único ponto: o lugar onde eu desabara nos braços de Marco.Ele não esperou. Nicolas atravessou o salão em chamas, afastou Marco com uma urgência bruta e me tomou em seus braços. O calor do corpo dele contra o meu, que já esfriava pela perda de sangue, foi o único choque de realidade que me impediu de mergulhar na escuridão final.— Nicolas... — minha voz era um fio, o nome dele um suspiro de alívio.— Não fale. Apenas respire, Cassandra — ele rosnou, o tom carregado de um desespero que eu nunca imaginei ouvir no General. — Você não vai a lugar nenhum.Ele me carregou para fora do palácio enquanto as chamas lambiam as cortinas de veludo e os últimos redutos de Donato eram silenciados pelo nosso exército. Ao
O grande salão do Palácio Valenti estava em ruínas. Os afrescos no teto, que um dia retrataram a glória da minha linhagem, agora estavam despedaçados no chão de mármore, misturados a estojos de balas e poeira de gesso. Donato estava encurralado atrás da mesa de carvalho do meu pai, cercado pelos seus últimos leais, enquanto Nicolas e eu avançávamos como os ceifadores do seu destino.A dor no meu ventre era uma lâmina em brasa, girando a cada passo. O sangramento não parara, e eu sentia a vida escorrendo, tornando minhas botas pesadas e minha consciência nublada.— Acabou, pai! — O grito de Nicolas ecoou, carregado de um ódio que ele reprimira por anos. — Saia das sombras e morra como o covarde que você é!Donato riu, um som seco e desprovido de arrependimento. — Você sempre foi fraco, Nicolas. Deixou-se levar por uma saia e um sobrenome morto. Olhe para ela! Ela está morrendo diante dos seus olhos e você ainda a segue como um cão de guarda!Nicolas girou para me olhar, e foi nesse mom
O palácio dos Valenti, agora a fortaleza de Donato, surgia no fim da avenida como um monumento ao roubo e à morte. O som da batalha em Palermo era um rugido constante, mas dentro do meu corpo, o silêncio era absoluto e aterrorizante.Enquanto corríamos sob o fogo cruzado, senti algo que não era o suor da batalha. Um calor úmido e viscoso escorreu pelas minhas pernas, contrastando com o frio da noite. Parei por um segundo, encostando-me a uma estátua decapitada, e levei a mão à parte interna da coxa, por baixo da farda.Quando puxei a mão, meus dedos estavam manchados de um vermelho escuro e brilhante.O mundo oscilou. O desespero, o primeiro medo real e paralisante desde que essa guerra começou, subiu pela minha garganta. Não era medo de morrer sob as balas de Donato; era o pavor de perder a única coisa que tornava minha vitória digna de ser vivida.— Cassandra! — O grito de Marco veio de algum lugar à minha direita. Ele se aproximou, usando seu corpo para bloquear a visão dos outros
O estrondo da detonação não foi apenas som; foi uma onda de choque que arrancou o oxigênio dos meus pulmões. O portão secundário da muralha norte dobrou-se como papel sob a força do C4, e o vácuo foi preenchido instantaneamente pelo grito de guerra de seiscentos homens.— AVANÇAR! — A voz de Nicolas cortou o caos, e a maré humana de mercenários e leais aos Valenti despejou-se para dentro de Palermo.A cidade era um labirinto de fogo. Granadas de fumaça transformavam as ruas em corredores fantasmagóricos onde a morte surgia a cada esquina. Eu corria ao lado de Nicolas, meu fuzil cuspindo fogo contra os ninhos de resistência de Donato. Minha visão oscilava, o cansaço e a náusea lutando para me derruba
As muralhas de Palermo erguiam-se diante de nós, não mais como a cidade que um dia chamei de lar, mas como uma carcaça fortificada. O cheiro de maresia misturava-se ao odor metálico de centenas de canos de fuzis. Donato não estava apenas nos esperando; ele havia transformado cada janela e cada beco em um ninho de metralhadoras.O exército de 600 homens estava estacionado na zona industrial, oculto pela carcaça de fábricas abandonadas. A tensão era tão espessa que o ar parecia difícil de respirar.— Ele bloqueou os portões principais com concreto e vigas de aço — Nicolas disse, debruçado sobre uma mesa de ferro. Suas mãos estavam sujas de graxa e pólvora, e seus olhos carregavam uma intensidade febril. — Se tentarmos explodir a entrada, ficaremos presos em um corredo
O ar no bunker improvisado cheirava a metal oxidado e desinfetante barato. Nicolas estava no perímetro, organizando a defesa contra a retaliação de Donato após o nosso último avanço. Eu estava sentada em um caixote de munição, sentindo o mundo girar. A fúria que me impulsionara nas últimas horas tinha sido substituída por um tremor que eu não conseguia controlar.Marco entrou na sala com um relatório de danos, mas parou assim que viu meu estado. Ele fechou a porta pesada de aço atrás de si, bloqueando o som do caos lá fora. Marco era mais que um braço direito; ele era o último elo vivo com a guarda pessoal do meu pai.— Cassandra, você está tremendo. — Ele se aproximou, baixando a voz. — Nicolas está ficando louco. Ele acha que voc&







