INICIAR SESIÓNSe a fome fosse apenas uma sensação no estômago, eu daria um jeito. Mas a fome no cativeiro é psicológica; ela sussurra que você é fraca, que você é dependente e que o seu captor é o seu deus. E eu me recusava a rezar no altar de Nicolas.
A porta se abriu com aquele rangido que já estava se tornando a trilha sonora do meu ódio. Nicolas entrou carregando uma bandeja de metal com uma mistura que parecia uma papa cinzenta, tão sem vida quanto as paredes desta torre.
— Hora da ração, Cassandra. Coma. Você precisa de forças se quiser continuar com seus discursos de vingança — ele disse, largando a bandeja no chão, perto o suficiente para eu alcançar, mas longe o suficiente para me obrigar a rastejar devido à corrente.
Eu o encarei. Meus olhos deviam estar injetados. Eu não era mais a herdeira de vestido vermelho; eu era uma loba acuada em um vestido de trapo cinza, mas meus dentes ainda estavam lá.
— Eu não como lixo, Nicolas. E certamente não como nada vindo das suas mãos manchadas de sangue — respondi, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
Com um movimento rápido e carregado de desprezo, chutei a bandeja. O som do metal batendo na pedra ecoou como um tiro. A comida se espalhou pelo chão, sujando as botas impecáveis dele.
Nicolas nem piscou. Ele apenas olhou para a sujeira e depois para mim, com uma frieza que me fez querer matá-lo ainda mais.
— Engraçado — ele começou, dando um passo à frente, ignorando o resto de comida nos seus pés. — Você acha que está sendo forte. Acha que esse orgulho vai te salvar. Mas aqui, Cassandra, o seu orgulho é só um cronômetro. Em dois dias, você vai estar lambendo esse chão por uma gota de água. Você não é uma rainha aqui. Você é um trunfo. E trunfos não precisam gostar do cardápio, só precisam estar respirando.
— Você adoraria me ver rastejar, não é? — provoquei, sentindo as lágrimas de raiva queimarem, mas me recusando a deixá-las cair. — Porque é assim que você vive. Rastejando para o Donato. Você projeta em mim a sua própria existência de capacho.
Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu. Senti o cheiro de hortelã novamente, uma ironia cruel em um lugar que cheirava a morte.
— A diferença, princesa, é que eu sobrevivo. Você? Você é uma flor de estufa que acabou de ser jogada no meio do inverno. Aproveite a fome. Ela é a única coisa que você vai ter de graça por aqui.
Ele deu as costas e saiu. No momento em que a porta bateu, meu pé esbarrou em algo. Quando chutei a bandeja, um pedaço de metal — uma lasca afiada que parecia ter se soltado da borda mal soldada — rolou para debaixo da minha cama de ferro.
Meu coração disparou.
Esperei o som dos passos dele sumirem escada abaixo. Me joguei no chão, a corrente esticando até o limite, e tateei o escuro sob a cama. Meus dedos encontraram o metal. Era pequeno, frio e pontiagudo. Não era uma chave, mas era uma ferramenta. Era uma arma. Escondi-o dentro do forro do meu colchão fino, sentindo uma pequena chama de esperança aquecer meu peito gelado.
O estrondo da explosão controlada sob o palco reverberou como um trovão subterrâneo, fazendo as paredes do teatro gemerem, mas o palácio permaneceu de pé. Nicolas emergiu da fumaça e dos escombros como um fantasma de guerra, coberto de poeira e fuligem, mas com os olhos fixos em um único ponto: o lugar onde eu desabara nos braços de Marco.Ele não esperou. Nicolas atravessou o salão em chamas, afastou Marco com uma urgência bruta e me tomou em seus braços. O calor do corpo dele contra o meu, que já esfriava pela perda de sangue, foi o único choque de realidade que me impediu de mergulhar na escuridão final.— Nicolas... — minha voz era um fio, o nome dele um suspiro de alívio.— Não fale. Apenas respire, Cassandra — ele rosnou, o tom carregado de um desespero que eu nunca imaginei ouvir no General. — Você não vai a lugar nenhum.Ele me carregou para fora do palácio enquanto as chamas lambiam as cortinas de veludo e os últimos redutos de Donato eram silenciados pelo nosso exército. Ao
O grande salão do Palácio Valenti estava em ruínas. Os afrescos no teto, que um dia retrataram a glória da minha linhagem, agora estavam despedaçados no chão de mármore, misturados a estojos de balas e poeira de gesso. Donato estava encurralado atrás da mesa de carvalho do meu pai, cercado pelos seus últimos leais, enquanto Nicolas e eu avançávamos como os ceifadores do seu destino.A dor no meu ventre era uma lâmina em brasa, girando a cada passo. O sangramento não parara, e eu sentia a vida escorrendo, tornando minhas botas pesadas e minha consciência nublada.— Acabou, pai! — O grito de Nicolas ecoou, carregado de um ódio que ele reprimira por anos. — Saia das sombras e morra como o covarde que você é!Donato riu, um som seco e desprovido de arrependimento. — Você sempre foi fraco, Nicolas. Deixou-se levar por uma saia e um sobrenome morto. Olhe para ela! Ela está morrendo diante dos seus olhos e você ainda a segue como um cão de guarda!Nicolas girou para me olhar, e foi nesse mom
O palácio dos Valenti, agora a fortaleza de Donato, surgia no fim da avenida como um monumento ao roubo e à morte. O som da batalha em Palermo era um rugido constante, mas dentro do meu corpo, o silêncio era absoluto e aterrorizante.Enquanto corríamos sob o fogo cruzado, senti algo que não era o suor da batalha. Um calor úmido e viscoso escorreu pelas minhas pernas, contrastando com o frio da noite. Parei por um segundo, encostando-me a uma estátua decapitada, e levei a mão à parte interna da coxa, por baixo da farda.Quando puxei a mão, meus dedos estavam manchados de um vermelho escuro e brilhante.O mundo oscilou. O desespero, o primeiro medo real e paralisante desde que essa guerra começou, subiu pela minha garganta. Não era medo de morrer sob as balas de Donato; era o pavor de perder a única coisa que tornava minha vitória digna de ser vivida.— Cassandra! — O grito de Marco veio de algum lugar à minha direita. Ele se aproximou, usando seu corpo para bloquear a visão dos outros
O estrondo da detonação não foi apenas som; foi uma onda de choque que arrancou o oxigênio dos meus pulmões. O portão secundário da muralha norte dobrou-se como papel sob a força do C4, e o vácuo foi preenchido instantaneamente pelo grito de guerra de seiscentos homens.— AVANÇAR! — A voz de Nicolas cortou o caos, e a maré humana de mercenários e leais aos Valenti despejou-se para dentro de Palermo.A cidade era um labirinto de fogo. Granadas de fumaça transformavam as ruas em corredores fantasmagóricos onde a morte surgia a cada esquina. Eu corria ao lado de Nicolas, meu fuzil cuspindo fogo contra os ninhos de resistência de Donato. Minha visão oscilava, o cansaço e a náusea lutando para me derruba
As muralhas de Palermo erguiam-se diante de nós, não mais como a cidade que um dia chamei de lar, mas como uma carcaça fortificada. O cheiro de maresia misturava-se ao odor metálico de centenas de canos de fuzis. Donato não estava apenas nos esperando; ele havia transformado cada janela e cada beco em um ninho de metralhadoras.O exército de 600 homens estava estacionado na zona industrial, oculto pela carcaça de fábricas abandonadas. A tensão era tão espessa que o ar parecia difícil de respirar.— Ele bloqueou os portões principais com concreto e vigas de aço — Nicolas disse, debruçado sobre uma mesa de ferro. Suas mãos estavam sujas de graxa e pólvora, e seus olhos carregavam uma intensidade febril. — Se tentarmos explodir a entrada, ficaremos presos em um corredo
O ar no bunker improvisado cheirava a metal oxidado e desinfetante barato. Nicolas estava no perímetro, organizando a defesa contra a retaliação de Donato após o nosso último avanço. Eu estava sentada em um caixote de munição, sentindo o mundo girar. A fúria que me impulsionara nas últimas horas tinha sido substituída por um tremor que eu não conseguia controlar.Marco entrou na sala com um relatório de danos, mas parou assim que viu meu estado. Ele fechou a porta pesada de aço atrás de si, bloqueando o som do caos lá fora. Marco era mais que um braço direito; ele era o último elo vivo com a guarda pessoal do meu pai.— Cassandra, você está tremendo. — Ele se aproximou, baixando a voz. — Nicolas está ficando louco. Ele acha que voc&






