INICIAR SESIÓNMalu
Saí daquele bar revoltada da vida, cuspindo fogo, com vontade de meter uma bala no meio da testa daquele filho da puta do Pardal. Quem ele pensa que é? Acha que eu sou um dos pentes dele, que pode fazer o que quiser comigo? Pois, ele pode tirar o cavalinho da chuva, porque não sou esse tipo de pessoa.Segui pelo meio-fio, segurando dois sacos na mão, um com os refris e outro com o fardo de latão, estava meio pesado e, para completar ainda mais o cenário, ainda tinha a porcaria do sol escaldante, que parecia mais que iria me derreter ali mesmo no asfalto. Acho que se colocasse um ovo, ele saía frito e pronto para comer.— Demorou, hein! — Julia comentou assim que entrei, pisando duro no salão.— Não me enche a porra do saco, Julia. Toma aí! — entreguei os sacos nas mãos dela, que me olhou sem entender nada, com o cenho franzido.— O que rolou, gata? Tá precisando de pica, meu anjo? — perguntou com deboche.Bufei e sentei em uma das poltronas.— Desculpa, não queria descontar minha raiva em você — não somente ela, mas também a Elô, a Flávia e a Joice, que são funcionárias do salão, me direcionaram um olhar tipicamente de quem aguarda uma boa fofoca — Acreditam que o ridículo do Pardal deu um tapa em minha bunda?A Flávia e a Julia me olharam incrédulas, abrindo a boca em um perfeito “O”, a Elô balançou a cabeça para os lados, em sinal de negação, parecendo não achar a menor graça nisso e a Joice fez o mesmo, porém, com um sorrisinho cínico.— Gata, ele pode ser tudo nessa vida, menos ridículo. — Joice comentou, me fazendo encará-la sem acreditar.De fato, o Pardal não é feio, na verdade, ele é bem gato, mas isso não dá a ele o direito de me tratar com as vagabundas que ele vive comendo por aí.— É sério, isso? — eu a vi dar de ombros com a minha pergunta.— Fala aí, foi bom? — Julia perguntou e eu estalei a língua.— Vão se ferrar vocês! Eu, hein…— Dói, um tapinha não dói, um tapinha não dói, um tapinha não dói, só um tapinha… — Julia cantou um trecho da música de Furacão dois mil, eu a fuzilei com os olhos.— Esquece, não dá pra conversar com vocês. — disse, levantando da poltrona e indo almoçar que eu ganho mais.— Deixa de ser besta, Malu. — Flávia falou quase gritando, já que estava me distanciando. Ouvi a risada da Julia e da Joice, mas não dei a mínima importância.Na área dos funcionários, levei meu marmitex para dar uma aquecida no micro-ondas, apesar de que não adianta muito, comida requentada assim é sempre uma merda. Programei o temporizador para cinco minutos e pronto, ele não demorou a apitar informando que eu já podia comer e meu estômago já estava colando nas costas.Puxei uma cadeira e sentei, segurando o marmitex e abri para comer. Não sei explicar, mas de repente, toda raiva que eu estava sentindo do Pardal, deu lugar a um aperto no peito, uma estranha sensação de que algo ruim estava prestes a acontecer. Sem perceber, mordi o lábio inferior de forma apreensiva e comecei a balançar as pernas impacientemente. Até a fome de leão que eu estava sentindo antes, ameaçou querer ir embora. A comida foi perdendo todo o seu sabor. Mesmo assim, ainda tentei comer, quando o pior começou a acontecer.Ouvi o som de fogos de artifícios, me fazendo perceber exatamente do que se tratava. Invasão. Droga!Não pensei demais, larguei tudo na mesa e corri até aonde as meninas estavam para lhes ajudar a fechar a porta e nos abrigar, a fim de não correr o risco de levar uma bala perdida — que de perdida só tem o nome.Vi a Elô e a Julia fazendo força para puxar a porta de rolar para baixo e ela não descia de jeito nenhum. Me apressei em ir até lá, para ajudá-las, a porcaria parecia ter emperrado, o que não é novidade, mas com um certo esforço, conseguimos e fomos para onde eu estava antes, porque era mais seguro.Passei a mão na testa, limpando uma gota de suor que escorria em minha testa e soltei uma lufada de ar, ouvindo a rajada de tiros que ecoava do lado de fora. Meu coração batia freneticamente feito uma escola de samba e a sensação ruim permanecia ali.Em um determinado momento, só veio a imagem da minha mãe em minha mente. Nossa casa não é muito segura para esse tipo de situação. Mas não, definitivamente não poderia ter acontecido nada com ela…— Malu? — a voz da Elô me traz de volta á realidade.— Sim. — a encaro com as sobrancelhas arqueadas.— Está tudo bem? Parece que viu um fantasma.— É… Hum… Está sim. Só estou preocupada com minha mãe… — deixo a frase no ar, sem querer dar continuidade ao assunto.— Sua mãe? Pensei que ela estivesse sumida, você não me disse que ela tinha voltado. — vejo uma ruga se formar em sua testa em sinal de confusão.Pode parecer estranho estarmos conversando normalmente, enquanto está tendo fogo cruzado do lado de fora, mas a Elô sabe como eu fico em situações como essa, então sempre tenta me distrair.— Longa história, mas de forma resumida, quando cheguei em casa ontem, ela estava derrubando tudo, procurando um tal dinheiro, depois me… — engasgo ao lembrar do ocorrido.— Te…? — dessa vez quem fala é a Julia, cheia de curiosidade.A Joice e a Flavia estão caladas, porque não temos muita intimidade.— Me bateu. — respondo em um sussurro, pedindo a tudo o que é mais sagrado para que nenhuma delas tenha escutado.— O quê? Como assim, ela te bateu? A Helena ficou doida? — pelo visto, o tiro saiu pela culatra, pois, a Elô se altera, mostrando toda a sua indignação.— Não foi nada, eu tô bem, fica tranquila. — tento apaziguar a situação, mesmo sabendo que é quase impossível.— Você deveria prestar queixa contra ela, não importa se é sua mãe ou o caralho a quatro, não pode passar o resto da vida apanhando assim e achando que é normal. — a veia da garganta dela está saltada e as outras estão em silêncio.Reconheço que todos que me dão esse tipo de conselho tem razão, mas é difícil tomar qualquer atitude se tratando da minha mãe.— Então… Ela passou a noite em casa e hoje cedo me disse que queria mudar de vida e tal, falou até em se internar — sorrio com a lembrança da nossa conversa e sinto uma gota de esperança em meu peito.Mas a Joice dá uma risadinha ao me ouvir dizer isso.— O que é tão engraçado? — lhe pergunto com seriedade, virando de frente para ela, que está praticamente do meu lado e cruzo os braços abaixo dos seios.— Essa sua ingenuidade, Malu. Vamos ser bem sinceras, todo mundo conhece a fama da sua mãe e não só de viciada — a cada palavra proferida por ela, sinto a raiva crescer — Acha mesmo que, depois de tanto tempo, ela vai se curar? Se a sua resposta for sim, então, tu é mais ingenua do que eu pensei.Travo o maxilar e dou um passo a frente, indo para cima dela. Até consigo segurar uma mecha do seu mega-hair, mas alguém me segura pela cintura, me impedindo de prosseguir.— Me solta, Malu! Esse cabelo foi caro pra porra! — a idiota suplica e, mesmo sem conseguir avançar, não solto o cabelo dela.— Não tô nem aí! Tu vai aprender a respeitar os outros nem que seja na base da porrada, tá entendendo? Agora fala, repete palavrinha por palavrinha do que tu acabou de me dizer. Vai, dona corajosa!— Para com isso, Malu! — as outras pedem, mas não dou importância.— Parar? Agora essa puta vai me ouvir. Quem tu pensa que é? Acha que é melhor do que minha mãe? Ela, pelo menos ganha dinheiro pra dar a buceta, meu anjo. Tu dá essa buceta e outras coisas mais de graça, sacô? Se liga, filhona! Eu demoro a descer do salto, mas quando desço é pra dar show. Não quero ouvir o nome da minha mãe nessa sua boca de vadia nunca mais. Ouviu? — falo tudo isso segurando os cabelos dela.A vaca não me responde, então boto mais força e chacoalho sua cabeça.— Responde, miséra! Seja mulher! — praticamente grito.— Sim. Ai, porra! — responde e reclama da dor, em seguida.— Ótimo! Que isso fique bem claro para todas aqui. — digo após soltar o cabelo da idiota.Percebemos que nesse tempo, os tiros cessaram, nos fazendo suspirar aliviada.— Meninas, vocês podem nos deixar a sós? — Elô pede a Flávia e a Julia, já que a Joice se mandou depois que quase a quebrei no pau.Elas não respondem, apenas assentem com um menear de cabeça e saem.— Nem vem, Elô. Nem adianta vir com sermão, tu me conhece bem. Eu aguento até não conseguir mais, mas quando passa daqui — passo a mão acima da cabeça em sinal de pavio curto — Já era.— Vem cá. — ela senta em uma das cadeiras e me chama, dando tapinhas no assento da outra.Vou até lá e sento ao seu lado.— O que tá acontecendo com você? Quer desabafar? Somos amigas, lembra? — ela diz, acariciando minha mão por cima da perna.— Eu só tô cansada de tudo, sabe? Não posso nem ao menos andar de boa por aí, que sempre tem alguém pra me lembrar que sou filha de puta. Alá, se não é fulana de tal. — solto uma lufada de ar e murcho os ombros.— Ninguém tem nada a ver com a sua vida, minha linda. Mas, eu concordo em partes com a Joice — arregalo os olhos, embasbacada com o que acabo de ouvir. Ela ri nasalmente — Calma, não é isso que está pensando, é que assim, só quero que saiba que não é fácil uma pessoa sair dessa vida. Quero que tenha isso em mente, porque eu já passei por isso, meu filho morreu porque não suportou as várias tentativas de internação, toda vez que a abstinência batia, ele fugia da clínica…Elô suspira e desvia seu olhar para outra direção, como se falar disso doesse muito.— Quero que tenha isso em mente, pra não se decepcionar, caso aconteça o mesmo com sua mãe. Já teve momentos que eu via meu filho, meu único filho, chorar de dor pela falta da droga, ele suplicava por um pouquinho e eu cogitava dar, só para não vê-lo sofrer. Mas eu sabia que precisava ser forte por ele, por nós dois. Então, foi aí que tudo aconteceu… Hoje não tenho mais o meu menino, mas ainda há esperança pra sua mãe. — dá um sorriso fraco após concluir sua fala.Eu a abraço em sinal de consolo, porque sei o quanto isso é difícil para ela. O filho da Elô morreu aos dezesseis anos, porque não conseguiu ser forte para se curar do vício e, em uma das vezes que fugiu da clínica, os caras da boca o encontraram e meteram bala nele, porque para sair dessa vida é assim, só morto. Bruno foi encontrado numa vala, com o corpo cheio de buracos de bala.— Obrigada, Elô. Não sei o que faria sem você. Tu é uma mulher muito forte. — digo após nos afastarmos do abraço e comprimo os lábios, sentindo um nó se formar em minha garganta, porque sei que preciso ser forte.A garra dessa mulher é um grande exemplo para mim.— Conta sempre comigo — sorri e dá uma piscadela — Agora vamos voltar ao trabalho.Levantamos e seguimos em direção a área principal.— Ah, e chega de confusão, hein. — diz por último, enquanto andamos.Acabo rindo sem graça, mesmo sabendo que ela não está me dando esporro.Por sorte, já havia chegado algumas clientes da parte da tarde, evitando assim, eu ter que olhar na fuça da Joice.MaluOito anos depois…— Rael, vai chamar seu pai! — grito, chamando a atenção dele, que está no quarto, jogando videogame.Como não ouço resposta e sei que ele deve estar com o som do jogo nas alturas, chamo outra vez.— Rael! — Quer que eu vá chamar ele, mamãe? — a pequena Hely me pergunta.— Vai lá, minha filha, antes que eu perca a paciência com seu irmão. — respiro fundo, terminando de temperar as carnes do churrasco.Hely sai correndo e escuto quando sobe a escada correndo. — Não corre, menina! — grito irritada.— Desculpa, mamãe! É sempre assim, qualquer data comemorativa em que decidimos fazer tudo aqui em casa, fico nervosa para que tudo saia perfeito. Nesse caso, ainda mais, porque além de estarmos comemorando o aniversário do Rael, planejei uma surpresa para meu marido, já que os dois fazem aniversário na mesma semana. Sendo hoje um domingo, tudo se tornou bastante propício para a situação. Inclusive, detesto quando ele precisa ir para a boca aos domingos — é raro, mas a
MaluDepois da noite que passamos naquela pousada, um momento tão perfeito, já não me restavam mais dúvidas de que, não importa para onde eu vá ou quanto tempo passe, eu sempre amarei o Pardal e terei vontade de estar com ele. Fomos embora na manhã seguinte logo cedo, ele nos levou para casa e a única coisa que tive tempo de fazer, antes de ir trabalhar, foi tomar um banho direito para tirar o cheiro de sexo do meu corpo e trocar de roupa.Algumas semanas depois, com a minha vida já encaminhada e tendo retornado para nossa casa — mesmo a contragosto da Maju — era hora de resolver uma pendência sobre um “serumaninho” que precisava ter uma família e pessoas que o amem à sua volta.Meu marido já havia ido para a boca e eu estava me arrumando para ir até o salão, conversar com a Elô sobre a adoção do Vitor que, devido à turbulência que foram meus últimos dias, não tive tempo de fazer e temo que a Aline pense que eu esqueci, quando, na verdade, estava tudo fora do meu controle.Mas, desde
MaluFicamos um bom tempo ainda no baile, até eu não aguentar mais de cansaço e dor nas costas. Sério, alguém deveria ter me avisado sobre essa parte nada feliz da gravidez, nos iludem completamente com aquelas propagandas de mulheres felizes, tentando nos passar a ideia da luz da gestação. Mas, que luz? Conversamos e decidimos que eu passaria aquela noite ainda na casa da Maju, quer dizer, eu disse que não iria para a cama com ele e o obriguei a aceitar minha decisão. Obviamente, ele não concordou, mas decidiu aceitar como prova de sua mudança em relação a mim.No dia seguinte, ele apareceu lá com a desculpa de ter ido visitar o Rael, mas eu sabia exatamente qual era a sua real intenção. Ele queria estar perto de mim e devo ser sincera em dizer que senti mais falta dele do que queria admitir.Na segunda, antes de sair para trabalhar, tinha colocado um par de tênis, que faz parte do meu uniforme, sendo estagiária, mas assim que dei um nó para fazer um laço no cadarço, senti meus pés
MaluOs últimos dias foram bem corridos, porque, além das provas que tive na faculdade, com o retorno do Pardal, o Rael só queria estar perto dele o tempo todo, tivemos, inclusive, que deixá-lo passar umas noites com a avó, para deixá-lo com o pai. Será assim enquanto eu não decidir o que fazer. Não posso voltar para minha antiga casa — a que eu morava antes de me juntar ao meu marido — porque tenho certeza de que ele jamais me deixaria em paz. Mas por um lado isso foi muito bom, porque fiquei sabendo que o Pardal ficou muito mal depois de descobrir que foi traído por um dos seus melhores soldados e amigos. Não sei muita coisa a respeito da vida dele, porque, mesmo quando morávamos juntos, meu marido não me falava absolutamente nada sobre o passado dele, não se abria. Então, tendo o Rael por perto, talvez ele conseguisse se distrair.Hoje é sábado e terá um baile no CDD, em comemoração a liberdade do Pardal e, consequentemente, a ele ter retomado o comando do morro. Desde que ficamos
PardalAlguns dias depois, chegou a hora de acertar as contas com as pessoas que me traíram. Meu ódio era tanto, que eu pretendia olhar na cara de cada um deles, antes de matar, porque, sim, eu iria matar um por um.Antes de partimos pro CDD, nos despedimos de nossas mina e, no meu caso, do meu moleque, confesso que fiquei surpreso em saber que eu seria pai de uma menina e juro que tentei, mas foi mais forte do que eu. Acabei ficando emocionado e tentei reprimir meus sentimentos, porém, não era possível, naquele momento eu percebi que tava mudando e me tornando um novo homem. Um homem de verdade.— Qual foi, Pardal, vai chorar mermo, é? — os pau no cu ficaram tirando com minha cara, quando entramos nos carros pra ir até meu morro.— Vou te mostrar quem tá chorando, otário. — respondi sério e eles riram.Não demoramos a chegar no morro e já fomos logo metendo o louco, atirando pra tudo que era lado. Como eu tava em contato com uns cabeça de confiança, eles avisaram que ia ter toque de
PardalAssim que nós chegou no morro da Rocinha, após ter sucesso em nossa fuga, fizeram, literalmente, uma festa. Obviamente, que eu não era o anfitrião, porque nada ali me pertencia e eu sabia que só tinha conseguido sair do xilindró tão rápido por causa do Grego, porque era bem provável que, se ele não tivesse sido preso também, certamente, eu apodreceria lá. Afinal, quem em sã consciência se preocuparia com um filho da puta como eu?Beleza, acho que não sou o pior ser humano da face da terra, deve ter piores, mas sendo bem sincero, não sou merda nenhuma, nem mereço nada.O barulho de fogos de artifícios e tiros, era ensurdecedor, porém, dessa vez, não era nada assustador, nem pra botar ninguém pra correr. Era um gesto pra demonstrar que nossa vitória havia sido decretada. Lili cantou e nós tamo livre, caralho!— Bora colar lá em casa — Coringa sugeriu, depois de ele e o Grego cumprimentarem os soldados, que estavam mó felizes pela liberdade do manda-chuva — Geral tá lá.— Até a Ma







