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Capítulo quatro

Autor: Lisa
last update Data de publicação: 2026-04-10 20:10:14

Saio do quarto como se estivesse em um transe, os passos automáticos, o corpo presente… mas a mente completamente perdida. Minhas mãos ainda tremem levemente, e o papel que minha mãe me entregou parece queimar entre meus dedos, como se carregasse um peso muito maior do que apenas palavras escritas.

Não consigo pensar direito.

Tudo o que ela disse… não faz sentido.

Alguém vindo atrás de mim? Para me matar? Aquele nome… aquele endereço… meu pai não pode saber…

Levo a mão ao rosto, tentando conter as lágrimas que insistem em cair, mas é inútil. Meu peito dói, apertado demais, como se eu estivesse prestes a desmoronar a qualquer momento.

E talvez eu esteja.

Mesmo assim… continuo andando.

Saio do hospital sem falar com ninguém, sem procurar meu pai, sem olhar para trás. Pela primeira vez, estou fazendo exatamente o oposto do que sempre fiz.

Estou fugindo.

O caminho até em casa é um borrão. Não lembro exatamente como cheguei… só sei que, quando percebo, estou entrando pelos portões, o carro já parando na garagem.

O silêncio da casa me atinge de forma brutal.

Grande demais. Vazia demais.

Fria.

Respiro fundo, tentando reunir o pouco de controle que ainda me resta, e subo as escadas rapidamente. Meus passos são apressados, quase descompassados, enquanto entro no quarto e começo a pegar tudo o que vejo pela frente.

Roupas. Documentos. Algumas coisas pessoais.

Tudo vai sendo jogado dentro da mala sem organização, sem cuidado… sem tempo.

Minha mente continua girando, tentando encaixar as peças, tentando entender… mas é inútil. Nada faz sentido. Nada parece real.

A única coisa que ecoa na minha cabeça é a voz da minha mãe.

“Vai. Agora.”

Fecho a mala com força, o som ecoando pelo quarto vazio, e a arrasto para fora. Desço as escadas rapidamente, o coração acelerado, como se a qualquer momento alguém fosse aparecer… como se eu já estivesse sendo observada.

Coloco tudo no porta-malas do carro com movimentos rápidos, quase desesperados, olhando ao redor mais vezes do que o normal.

Então entro no carro.

Minhas mãos tremem ao pegar o celular. Abro o GPS e digito o endereço que está no papel, olhando fixamente para a tela enquanto o sistema processa.

E quando aparece…

Meu coração afunda.

Três dias de viagem.

Três dias longe de tudo o que eu conheço… de tudo o que é seguro… de tudo o que faz sentido.

Solto um suspiro pesado, encostando a cabeça no banco por um segundo, fechando os olhos.

Eu não tenho respostas.

Não tenho certezas.

Não tenho escolha.

Abro os olhos novamente, o olhar agora mais firme, mesmo que ainda carregado de medo.

Se tem uma coisa que eu aprendi…

É que minha mãe nunca diria algo assim sem motivo.

Então eu me apoio nisso.

Apenas nisso.

Dou partida no carro, o motor rugindo baixo, quebrando o silêncio ao meu redor.

E, sem olhar para trás… eu vou.

...

Alguns minutos dirigindo parecem muito mais do que realmente são. A estrada se estende à minha frente, longa, vazia e silenciosa, cortando a escuridão da noite como se não tivesse fim. Os faróis do carro iluminam apenas o necessário, revelando o asfalto e, de vez em quando, alguma placa esquecida ou árvores que parecem observar minha passagem. O céu está completamente escuro, sem estrelas, sem lua… como se até o mundo tivesse decidido se esconder. Minhas mãos permanecem firmes no volante, mas por dentro tudo está desmoronando. Minha mente gira sem parar, tentando processar tudo o que aconteceu, cada palavra da minha mãe, cada detalhe… mas nada se encaixa, nada faz sentido, e isso me sufoca mais do que qualquer resposta.

O celular vibra ao meu lado, quebrando o silêncio de forma abrupta, fazendo meu coração disparar. Olho rapidamente para a tela e vejo o nome do meu pai novamente. Já é a segunda vez. Solto um suspiro pesado, sentindo um aperto no peito, meus dedos hesitando por um breve instante antes de pegar o aparelho. Eu não deveria atender… eu sei disso… mas, mesmo assim, eu atendo.

— Claire? — a voz dele surge do outro lado imediatamente, carregada de uma urgência que eu nunca tinha ouvido antes, uma preocupação real, crua. — Onde você está?

Fecho os olhos por um segundo, sentindo minha garganta apertar, as palavras presas, difíceis de sair. Minha respiração falha antes que eu consiga responder.

— Eu… eu não posso dizer… — minha voz sai baixa, quebrada, quase um sussurro.

O silêncio que se segue é pesado, denso, quase palpável, como se atravessasse a ligação e me envolvesse por completo.

— Foi um pedido da mamãe… — acrescento logo em seguida, como se isso pudesse explicar tudo… como se eu mesma estivesse tentando acreditar.

Do outro lado, ele não responde de imediato. Consigo ouvir apenas a respiração dele, mais lenta… mais controlada… e então—

— Eu entendo. — ele diz, e há algo diferente na voz dele, algo que me faz apertar ainda mais o volante, algo que nunca esteve ali antes.

Meu coração aperta.

— Claire… me perdoa. — ele continua, e aquelas palavras me atingem de uma forma inesperada, fazendo minhas mãos tremerem levemente. — Eu me envolvi com coisas que não deveria… coisas que agora… colocam você em perigo. É melhor assim… melhor que você fique longe… melhor que eu não saiba onde você está.

As lágrimas começam a cair sem que eu perceba, quentes, silenciosas, escorrendo pelo meu rosto enquanto a estrada continua passando diante de mim, indiferente a tudo.

— Eu estou com medo… — confesso, minha voz falhando completamente, carregada de tudo que eu estava tentando segurar.

Por um instante, só há silêncio… e então ele respira fundo.

— Eu sei… — ele responde, mais firme agora, como se estivesse tentando me passar alguma segurança — mas eu confio na sua mãe. Se ela te mandou ir… é porque você vai estar segura.

Seguro o celular com mais força, como se aquilo fosse a única coisa me mantendo de pé, me conectando a algo familiar em meio ao caos.

— Eu vou entrar em contato com você em breve… — ele diz, mais baixo agora — só… fica bem.

Quero dizer tantas coisas. Perguntar, exigir respostas, entender… mas antes que eu consiga formar qualquer frase, a ligação se encerra. O silêncio volta com força total, preenchendo o carro de uma forma sufocante, pesada, fazendo o som do motor parecer distante… irrelevante.

E então—

Tudo acontece em um único segundo.

Um impacto violento atinge a lateral do meu carro com uma força brutal, o som metálico ecoando alto demais, quebrando completamente a realidade ao meu redor. Meu corpo é lançado contra o banco, o volante escapa das minhas mãos, e tudo gira. O carro perde o controle, rodando, capotando, o mundo virando de cabeça para baixo sem qualquer aviso. Sinto o cinto de segurança pressionando meu corpo, o vidro estilhaçando ao meu redor, pedaços atingindo minha pele, o som ensurdecedor de metal se retorcendo, esmagando… tudo ao mesmo tempo.

Não sei quantas vezes o carro capota.

Uma… duas… talvez mais.

Tudo é rápido demais… e ao mesmo tempo lento demais.

Até que para.

De forma brusca.

Violenta.

Minha visão fica completamente turva, desfocada, como se eu estivesse vendo tudo através de uma camada de água. Minha cabeça lateja, um zumbido alto toma conta dos meus ouvidos, abafando qualquer outro som. Tento respirar, mas o ar parece não entrar direito, como se algo estivesse pressionando meu peito.

E então eu escuto.

Tiros.

Distantes… mas inconfundíveis.

Meu coração tenta reagir, tenta acelerar, mas meu corpo não responde como deveria. Estou presa… pesada… fraca. Com dificuldade, forço meus olhos a focarem, tentando entender o que está acontecendo ao meu redor.

Uma silhueta surge.

Se aproximando lentamente do carro.

Passos firmes… calculados.

Minha visão falha, oscila, mas eu sei que tem alguém ali. Tento me mover, tentar reagir, fazer qualquer coisa… mas meu corpo simplesmente não responde. Tudo dói. Tudo pesa.

A figura se aproxima mais.

Mais.

Mas eu não consigo ver o rosto.

Só a presença.

Só o perigo.

Minha consciência começa a escapar, escorrendo pelos meus dedos como tudo o resto. Meus olhos se fecham sem que eu consiga impedir.

E então…

Tudo fica escuro.

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Último capítulo

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