INICIAR SESIÓNAurora
Eu passei a noite inteira pensando na mesma coisa. A proposta. O contrato. O casamento. Era estranho como uma decisão que ainda nem tinha sido tomada conseguia mudar tanto a forma como eu enxergava minha própria vida. Eu ainda não tinha assinado nada. Ainda podia recusar. O Senhor Monteiro tinha deixado isso claro desde o começo. Ele não tinha tentado me pressionar. Não tinha usado a posição dele para me obrigar a aceitar. Ele apenas colocou uma possibilidade diante de mim e esperou uma resposta. Talvez fosse isso que mais me confundia. Porque Leon Monteiro era muitas coisas. Frio. Controlado. Difícil de ler. Mas ele também era justo. E eu sabia reconhecer isso. Levantei cedo naquela manhã. Mais cedo do que o necessário. A pasta com o contrato estava sobre a mesa do meu quarto. Eu fiquei alguns segundos olhando para ela antes de pegar. Era curioso. Um simples conjunto de papéis tinha o poder de mudar completamente o rumo da minha vida. Peguei meu pingente antes de sair. Um hábito antigo. Quase automático. Passei os dedos pelo pequeno objeto e respirei fundo. Eu ainda carregava muitas coisas comigo. Memórias. Promessas. A vontade de fazer valer a pena tudo aquilo que meus pais representavam. Mas, pela primeira vez, eu me perguntava se eu estava vivendo por mim também. --- Cheguei ao Grupo Monteiro antes do horário habitual. O prédio já estava começando a se movimentar. Funcionários chegando. Reuniões sendo marcadas. Pessoas correndo de um lado para o outro. A rotina continuava normal. Mesmo que a minha estivesse prestes a mudar. — Você chegou cedo. Olhei para o lado. Lívia estava parada perto da minha mesa com um café na mão. — Bom dia para você também. Ela colocou outro café ao meu lado. — Bom dia. Agora responde. Olhei para o copo. — Obrigada. Ela cruzou os braços. — Você sempre faz isso. — Isso o quê? — Tenta mudar de assunto quando não quer falar sobre alguma coisa. Suspirei. — Eu estou bem. Ela arqueou uma sobrancelha. — Essa frase nunca convence ninguém. Acabei sorrindo. Lívia era uma das poucas pessoas no trabalho que conseguia me tirar uma reação quando eu estava presa demais nos meus próprios pensamentos. — É só uma decisão importante. Ela ficou mais séria. — Tem a ver com o Senhor Monteiro? Meu olhar foi até ela. — Como você sabe? Ela deu de ombros. — Aurora, você trabalha com ele há anos. Quando alguma coisa envolve ele, você fica diferente. Não respondi. Porque talvez ela tivesse razão. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, o elevador abriu. E algumas pessoas imediatamente mudaram a postura. Eu reconheci Daniel Monteiro. O irmão do Senhor Monteiro. Ele tinha uma presença diferente. Não carregava aquela distância que Leon carregava. Enquanto Leon parecia sempre estar analisando tudo ao redor, Daniel tinha uma expressão mais tranquila. Mais humana. Ao lado dele estava uma menina pequena de cabelos loiros, segurando sua mão. Ela devia ter uns seis anos. E era impossível não reparar nela. A menina olhava tudo ao redor com curiosidade, como se aquele enorme prédio fosse uma grande aventura. — Essa é a pequena Helena? — Lívia comentou baixinho. Assenti. Eu já tinha ouvido falar dela. Pouco. Porque Daniel era muito reservado quando o assunto era família. Ele era viúvo. Sua esposa tinha falecido alguns anos antes, e desde então ele dedicava boa parte da vida à filha. E era impossível não perceber o carinho entre os dois. A menina segurava a mão dele com confiança. Daniel se abaixou para ajeitar alguma coisa no casaco dela e falou algo que fez a pequena sorrir. Era uma cena simples. Mas bonita. — Ela é uma graça. Lívia sorriu. — Muito. Daniel passou pelo corredor e cumprimentou alguns funcionários. Quando chegou perto da minha mesa, ele parou. — Senhorita Duarte. — Senhor Monteiro. Ele sorriu levemente. — Leon está na sala? — Está. Ele assentiu. A pequena olhou para mim curiosa. — Quem é ela, papai? Daniel sorriu. — Essa é a Senhorita Duarte. Ela continuou olhando. — Ela trabalha com o tio Leon? — Trabalho. A menina abriu um sorriso. — Então ela conhece ele? Eu quase ri. — Conheço. Daniel pareceu divertido. — Cuidado. Crianças fazem perguntas demais. A menina apenas sorriu, sem parecer nem um pouco arrependida. --- Alguns minutos depois, a porta da sala de Leon abriu. E foi impossível não notar a mudança. Porque Daniel era uma das poucas pessoas que entravam ali sem aquela formalidade toda. — Você chegou cedo. A voz de Leon veio mais baixa do que o normal. — E você continua parecendo que não dormiu. Daniel respondeu. Parei por um instante. Era estranho ver Leon daquela forma. Mais solto. Mais próximo. Poucas pessoas tinham acesso a esse lado dele. E então eu lembrei de algo. Eduardo Siqueira. O melhor amigo de infância dele. Eu já tinha percebido que existiam poucas pessoas capazes de atravessar a barreira que Leon construía ao redor de si mesmo. Eduardo era uma delas. Eles tinham crescido juntos. Estudado juntos. E, mesmo sendo pessoas diferentes, existia uma amizade que parecia antiga demais para ser quebrada. Era curioso observar. Leon tinha uma imagem de homem impossível de alcançar. Mas as pessoas que realmente o conheciam sabiam que existia muito mais por trás dela. --- No horário do almoço, encontrei Beatriz. Como sempre, ela percebeu imediatamente que eu estava pensando demais. — Ainda não decidiu? Balancei a cabeça. — Não. Ela mexeu no suco. — Você quer aceitar? Fiquei em silêncio. Era a pergunta que eu evitava. — Eu acho que pode ser uma oportunidade. — Mas? Suspirei. — Mas ainda parece estranho. Ela assentiu. — Porque vai mudar sua vida. Olhei para a mesa. — Sim. E mudaria. Eu só ainda não sabia se essa mudança seria o começo de algo novo ou apenas mais uma coisa que eu estava fazendo para cumprir expectativas. --- No fim do dia, recebi uma mensagem. Senhor Monteiro: Senhorita Duarte, quando puder, gostaria que revisássemos os últimos pontos do contrato. Fiquei olhando para a tela. A decisão estava chegando. E, pela primeira vez, eu senti que talvez não estivesse escolhendo apenas um acordo. Talvez estivesse escolhendo uma nova versão da minha própria vida.Janeiro de 2030São Paulo, BrasilCinco anos haviam passado desde que Aurora Duarte e Leon Monteiro se conheceram.Cinco anos desde aquele contrato que deveria ser apenas uma solução temporária.Cinco anos desde que duas pessoas completamente diferentes entraram em uma sala acreditando que não tinham nada em comum e acabaram encontrando uma vida inteira uma na outra.Algumas histórias não terminam quando o conflito acaba.Elas continuam nas pequenas coisas.No café preparado pela manhã.Na mão que procura a outra durante a noite.Na risada que surge por algo completamente sem importância.Na certeza tranquila de que, depois de tudo, você finalmente chegou ao lugar certo.---AuroraÀs vezes eu ainda fechava os olhos e conseguia voltar para aquele dia.O aeroporto.A chuva.O medo.A sensação de estar diante da escolha mais difícil da minha vida.Durante muito tempo, achei que aquele momento definiria quem eu seria.Achei que precisava escolher entre o sonho que carreguei por anos e o
AuroraVoltar para casa com Leon naquela noite parecia estranho.Não porque algo estivesse diferente.Mas porque, pela primeira vez em muito tempo...Não havia uma data de término.Não havia uma cláusula.Não havia um contrato determinando quanto tempo teríamos.Não havia uma mentira que precisávamos sustentar.Era apenas nós.Eu olhava nossas mãos entrelaçadas enquanto caminhávamos pelo estacionamento do aeroporto.Ainda parecia impossível.Horas antes, eu acreditava que estava prestes a entrar em um avião e deixar para trás a maior história da minha vida.Agora eu estava voltando para casa.Com ele.Leon abriu a porta do carro para mim como sempre fazia.Sorri.— Você sabe que eu consigo abrir uma porta sozinha, não sabe?Ele fechou a porta depois que entrei e deu a volta.Quando sentou no banco do motorista, olhou para mim.— Eu sei.Fez uma pausa.— Mas eu gosto de fazer isso.Meu coração apertou.Porque era exatamente isso.Leon nunca fazia grandes declarações.Ele demonstrava.N
AuroraO aviso ecoou pelos alto-falantes.— Passageiros do voo com destino a...Parei de prestar atenção.Aquela frase parecia distante.Como se viesse de outro lugar.Olhei para o cartão de embarque nas minhas mãos.Era apenas um pedaço de papel.Mas carregava anos de esforço.Anos de estudo.Anos tentando provar para mim mesma que eu conseguiria.Meu sonho.Ou pelo menos aquilo que eu sempre chamei de sonho.Segurei o papel com força.Minha mãe sempre dizia que sonhos não deveriam ser uma prisão.Ela dizia que uma conquista só valia a pena se ainda existisse felicidade quando chegássemos até ela.Na época, eu não entendia.Agora entendia.Porque eu estava prestes a realizar algo que desejei por tanto tempo...E meu coração estava procurando outra pessoa.---Levantei da cadeira.Minha mala estava ao meu lado.O portão de embarque ficava poucos metros à frente.Era simples.Eu só precisava andar.Um passo.Depois outro.Era tudo.Mas meu corpo não se movia.Porque, pela primeira vez,
LeonMeu nome estava escrito na frente do envelope.A caligrafia era dela.Delicada.Levemente inclinada para a direita.Passei o polegar sobre as letras, como se aquele gesto pudesse, de alguma forma, adiar o que eu já sentia que encontraria ali dentro.O apartamento estava silencioso.Silencioso demais.— Aurora?Minha voz ecoou pela sala.Nenhuma resposta.Olhei para a cozinha.A luz permanecia acesa.Havia uma caneca sobre a bancada.A dela.Ainda pela metade.O sofá continuava desalinhado, como sempre ficava depois que ela passava a noite lendo.Mas havia uma ausência impossível de ignorar.O casaco dela não estava no cabide.As chaves também não.Meu coração acelerou.Segurei o envelope com mais força.Por alguns segundos, simplesmente não consegui abri-lo.Uma parte de mim ainda acreditava que ela sairia do quarto a qualquer instante, reclamando que eu estava dramático.Outra parte...Já sabia.Respirei fundo.Rasguei cuidadosamente o envelope.Dentro havia várias folhas dobrad
LeonSegunda-feira.Acordei antes do despertador.De novo.Durante alguns segundos, fiquei observando Aurora dormir.Ela estava de lado, com o rosto parcialmente escondido no travesseiro.Uma mecha de cabelo caía sobre seus olhos.Afastei-a com cuidado.Ela sorriu dormindo.Meu peito apertou.Talvez fosse uma das últimas manhãs em que eu acordaria ao lado dela.Afastei esse pensamento imediatamente.Não.Eu havia prometido a mim mesmo que não faria isso.Não a faria carregar o peso da minha tristeza.---Quando Aurora acordou, fingimos que era uma segunda-feira comum.Tomamos café juntos.Conversamos sobre uma reunião importante.Daniel havia mandado um áudio reclamando do trânsito.Até rimos.Mas havia um vazio entre cada frase.Como se ambos estivéssemos evitando falar sobre a única coisa que realmente importava.Quando ela terminou o café, levantou-se.Pegou a bolsa.Parou diante de mim.— Tenha um bom dia.Sorri.— Você também.Ela se inclinou.Beijou meus lábios demoradamente.Fo
AuroraFaltavam quatro dias.Quatro.Nunca um número tão pequeno pareceu tão assustador.Passei a manhã inteira repetindo isso mentalmente enquanto organizava a agenda de Leon.Quatro dias.Era o tempo que eu tinha para decidir o resto da minha vida.---— Senhorita Duarte?Levantei os olhos.Clara apareceu na porta da minha sala.— Tem uma encomenda para você.Franzi a testa.— Para mim?Ela assentiu.— Acabou de chegar.Agradeci e recebi uma pequena caixa de papel kraft.Não havia remetente.Apenas meu nome.Abri devagar.Dentro havia um chaveiro antigo.Em formato de avião.Meu coração disparou.Reconheci imediatamente.Era o chaveiro que meu pai usava nas chaves do carro.O mesmo que eu pensava ter desaparecido depois do acidente.Junto dele, havia um pequeno envelope."Encontramos isso durante a organização dos pertences antigos da universidade. Acreditamos que pertença à família Duarte."Sorri entre as lágrimas.Passei o polegar sobre o metal já desgastado.Meu pai dizia que aqu







