INICIAR SESIÓNAurora
Eu fiquei alguns segundos olhando para a mensagem na tela do celular. Senhor Monteiro: Senhorita Duarte, quando puder, gostaria que revisássemos os últimos pontos do contrato. Era uma mensagem simples. Profissional. Exatamente como todas as mensagens que Leon Monteiro costumava enviar. Mesmo assim, naquele momento, ela parecia diferente. Porque eu sabia o que aquela conversa significava. Não era mais apenas uma possibilidade. Não era mais uma ideia absurda colocada sobre uma mesa. Era o último passo antes de uma decisão definitiva. Guardei o celular e respirei fundo. — Você vai? A voz de Lívia me tirou dos pensamentos. Olhei para ela. — Vou. Ela observou meu rosto por alguns segundos. — Então é isso? Eu sabia o que ela queria dizer. Era isso? Eu realmente faria aquilo? Olhei para a porta da sala de Leon. — Acho que sim. Lívia não tentou me convencer de nada. Ela apenas assentiu. — Então espero que seja uma escolha sua. Aquelas palavras ficaram comigo. Porque era exatamente isso que eu precisava lembrar. Uma escolha minha. --- Levantei da minha mesa alguns minutos depois e caminhei até a sala dele. Bati na porta. — Entre. Entrei. Leon estava sentado atrás da mesa, com a pasta do contrato aberta à sua frente. A mesma pasta que tinha mudado completamente o rumo dos últimos dias. — Senhor Monteiro. Ele levantou os olhos. — Senhorita Duarte. A formalidade entre nós continuava a mesma. E talvez fosse melhor assim. Ainda não existia intimidade. Ainda não existia nada além daquele acordo que estávamos prestes a fazer. Ele indicou a cadeira. — Sente-se. Fiz isso. Leon empurrou uma cópia do contrato na minha direção. — Antes de qualquer decisão final, quero garantir que todos os pontos estejam claros. Assenti. — Eu agradeço. Ele abriu a primeira página. — A primeira cláusula é sobre confidencialidade. Passei os olhos pelo documento. — Nenhuma informação sobre o acordo pode ser divulgada. — Exatamente. Ele continuou: — O contrato e todos os detalhes relacionados ao casamento permanecem privados entre nós e os envolvidos diretamente na organização. Assenti. Fazia sentido. Se aquela informação vazasse, toda a imagem que eles estavam tentando construir poderia ser destruída. — A segunda cláusula diz respeito à exposição pública. Leon explicou: — Durante eventos, reuniões importantes ou situações em que nossa relação precise ser apresentada, devemos agir como um casal. Olhei para ele. — Incluindo demonstrações de carinho? — Quando necessário. A resposta veio calma. — Mas nada além do que for preciso para manter a aparência. Aquilo me deixou um pouco mais confortável. Porque deixava claro que não existia uma expectativa escondida. Ele não estava tentando transformar aquilo em algo que não era. — A terceira cláusula é sobre convivência. Ele virou a página. — Após o casamento, nós iremos morar na mesma residência. Eu já sabia disso. Mas ouvir novamente tornou tudo mais real. — Teremos quartos separados. Olhei para ele. — Isso está no contrato? — Sim. Uma pequena surpresa passou por mim. Não porque eu esperasse outra coisa. Mas porque Leon parecia ter pensado em tudo. — Também existem regras sobre respeito ao espaço pessoal. Ele continuou: — Nenhum de nós será obrigado a interferir na vida particular do outro. Assenti. Aquilo era importante. Porque, no fim, ainda éramos duas pessoas desconhecidas tentando dividir uma vida por causa de um acordo. — A quarta cláusula fala sobre o prazo. Leon tocou a página. — O contrato terá duração inicial de um ano. — E depois? — Após esse período, decidiremos juntos os próximos passos. Juntos. A palavra parecia estranha naquele contexto. Mas eu não questionei. — Existe alguma penalidade caso alguém queira encerrar antes? Ele assentiu. — Sim. Essa parte chamou minha atenção. — O contrato prevê consequências caso uma das partes quebre o acordo sem uma justificativa válida ou exponha informações confidenciais. Ele não falou como uma ameaça. Apenas como um fato. Tudo estava ali. Claro. Organizado. Profissional. Era exatamente o tipo de coisa que eu esperava de Leon. — E a parte financeira? Ele abriu outra página. — A compensação está dividida conforme combinado. Olhei os valores novamente. Ainda era uma quantia que me deixava desconfortável. Não porque fosse ruim. Mas porque representava muito. Representava uma oportunidade. Representava o mestrado. Representava uma chance de finalmente cumprir aquilo que eu carregava há tantos anos. — Senhor Monteiro. Ele levantou os olhos. — Sim? — Por que o senhor escolheu fazer isso dessa forma? Ele ficou em silêncio. — Quero dizer... um contrato, regras, tudo tão organizado. Por um momento, pensei que ele não responderia. Mas respondeu. — Porque sentimentos mudam. A frase me surpreendeu. — Mas acordos precisam ser claros. Fiquei olhando para ele. Era uma resposta muito dele. Prática. Objetiva. Mas, de alguma forma, fazia sentido. — Entendi. Ele fechou a pasta. — Se estiver de acordo, podemos finalizar. Meu coração bateu um pouco mais forte. Era estranho. Eu sabia que aquela era uma decisão racional. Mas ainda assim parecia um salto. Peguei a caneta. Antes de assinar, fiquei alguns segundos parada. Pensei na minha vida até ali. Na menina que perdeu os pais cedo demais. Na promessa que carregava. Na mulher que eu tinha me tornado. Eu não sabia onde aquilo iria me levar. Mas sabia que não podia passar a vida inteira com medo de escolher. Assinei. Meu nome ficou no papel. Aurora Duarte. Empurrei o documento de volta para ele. Leon pegou a caneta em seguida. Assinou. Leon Monteiro. E naquele momento, o acordo deixou de ser uma possibilidade. Virou realidade. --- Por alguns segundos, nenhum de nós falou. Era estranho pensar que um pedaço de papel podia mudar tantas coisas. — A partir de agora, precisamos organizar os próximos passos. Assenti. — O casamento. — Sim. A palavra ainda parecia distante. Casamento. Eu. Leon. Aquilo ainda parecia pertencer à vida de outra pessoa. — A cerimônia será simples — ele explicou. — Um cartório. Poucas pessoas. — Certo. — Precisamos escolher uma data. Assenti. — E anunciar no momento adequado. Olhei para ele. — Para manter as aparências. — Exatamente. Ele falou aquilo com tanta naturalidade que quase parecia uma reunião de negócios. Talvez porque, para ele, fosse a forma mais fácil de lidar com aquilo. Eu me levantei. — Então está decidido. Leon assentiu. — Está. Segurei a pasta. Quando cheguei à porta, ouvi sua voz. — Senhorita Duarte. Virei. — Sim? Por um segundo, pareceu que ele ia dizer algo diferente. Mas voltou à expressão habitual. Controlada. — Amanhã conversaremos sobre a preparação do casamento. Assenti. — Claro, Senhor Monteiro. Saí da sala. E, pela primeira vez, a sensação de que minha vida estava mudando deixou de parecer uma possibilidade. Era real. Eu tinha acabado de assinar um contrato de casamento com Leon Monteiro. E agora precisava descobrir como seria viver a partir disso.Janeiro de 2030São Paulo, BrasilCinco anos haviam passado desde que Aurora Duarte e Leon Monteiro se conheceram.Cinco anos desde aquele contrato que deveria ser apenas uma solução temporária.Cinco anos desde que duas pessoas completamente diferentes entraram em uma sala acreditando que não tinham nada em comum e acabaram encontrando uma vida inteira uma na outra.Algumas histórias não terminam quando o conflito acaba.Elas continuam nas pequenas coisas.No café preparado pela manhã.Na mão que procura a outra durante a noite.Na risada que surge por algo completamente sem importância.Na certeza tranquila de que, depois de tudo, você finalmente chegou ao lugar certo.---AuroraÀs vezes eu ainda fechava os olhos e conseguia voltar para aquele dia.O aeroporto.A chuva.O medo.A sensação de estar diante da escolha mais difícil da minha vida.Durante muito tempo, achei que aquele momento definiria quem eu seria.Achei que precisava escolher entre o sonho que carreguei por anos e o
AuroraVoltar para casa com Leon naquela noite parecia estranho.Não porque algo estivesse diferente.Mas porque, pela primeira vez em muito tempo...Não havia uma data de término.Não havia uma cláusula.Não havia um contrato determinando quanto tempo teríamos.Não havia uma mentira que precisávamos sustentar.Era apenas nós.Eu olhava nossas mãos entrelaçadas enquanto caminhávamos pelo estacionamento do aeroporto.Ainda parecia impossível.Horas antes, eu acreditava que estava prestes a entrar em um avião e deixar para trás a maior história da minha vida.Agora eu estava voltando para casa.Com ele.Leon abriu a porta do carro para mim como sempre fazia.Sorri.— Você sabe que eu consigo abrir uma porta sozinha, não sabe?Ele fechou a porta depois que entrei e deu a volta.Quando sentou no banco do motorista, olhou para mim.— Eu sei.Fez uma pausa.— Mas eu gosto de fazer isso.Meu coração apertou.Porque era exatamente isso.Leon nunca fazia grandes declarações.Ele demonstrava.N
AuroraO aviso ecoou pelos alto-falantes.— Passageiros do voo com destino a...Parei de prestar atenção.Aquela frase parecia distante.Como se viesse de outro lugar.Olhei para o cartão de embarque nas minhas mãos.Era apenas um pedaço de papel.Mas carregava anos de esforço.Anos de estudo.Anos tentando provar para mim mesma que eu conseguiria.Meu sonho.Ou pelo menos aquilo que eu sempre chamei de sonho.Segurei o papel com força.Minha mãe sempre dizia que sonhos não deveriam ser uma prisão.Ela dizia que uma conquista só valia a pena se ainda existisse felicidade quando chegássemos até ela.Na época, eu não entendia.Agora entendia.Porque eu estava prestes a realizar algo que desejei por tanto tempo...E meu coração estava procurando outra pessoa.---Levantei da cadeira.Minha mala estava ao meu lado.O portão de embarque ficava poucos metros à frente.Era simples.Eu só precisava andar.Um passo.Depois outro.Era tudo.Mas meu corpo não se movia.Porque, pela primeira vez,
LeonMeu nome estava escrito na frente do envelope.A caligrafia era dela.Delicada.Levemente inclinada para a direita.Passei o polegar sobre as letras, como se aquele gesto pudesse, de alguma forma, adiar o que eu já sentia que encontraria ali dentro.O apartamento estava silencioso.Silencioso demais.— Aurora?Minha voz ecoou pela sala.Nenhuma resposta.Olhei para a cozinha.A luz permanecia acesa.Havia uma caneca sobre a bancada.A dela.Ainda pela metade.O sofá continuava desalinhado, como sempre ficava depois que ela passava a noite lendo.Mas havia uma ausência impossível de ignorar.O casaco dela não estava no cabide.As chaves também não.Meu coração acelerou.Segurei o envelope com mais força.Por alguns segundos, simplesmente não consegui abri-lo.Uma parte de mim ainda acreditava que ela sairia do quarto a qualquer instante, reclamando que eu estava dramático.Outra parte...Já sabia.Respirei fundo.Rasguei cuidadosamente o envelope.Dentro havia várias folhas dobrad
LeonSegunda-feira.Acordei antes do despertador.De novo.Durante alguns segundos, fiquei observando Aurora dormir.Ela estava de lado, com o rosto parcialmente escondido no travesseiro.Uma mecha de cabelo caía sobre seus olhos.Afastei-a com cuidado.Ela sorriu dormindo.Meu peito apertou.Talvez fosse uma das últimas manhãs em que eu acordaria ao lado dela.Afastei esse pensamento imediatamente.Não.Eu havia prometido a mim mesmo que não faria isso.Não a faria carregar o peso da minha tristeza.---Quando Aurora acordou, fingimos que era uma segunda-feira comum.Tomamos café juntos.Conversamos sobre uma reunião importante.Daniel havia mandado um áudio reclamando do trânsito.Até rimos.Mas havia um vazio entre cada frase.Como se ambos estivéssemos evitando falar sobre a única coisa que realmente importava.Quando ela terminou o café, levantou-se.Pegou a bolsa.Parou diante de mim.— Tenha um bom dia.Sorri.— Você também.Ela se inclinou.Beijou meus lábios demoradamente.Fo
AuroraFaltavam quatro dias.Quatro.Nunca um número tão pequeno pareceu tão assustador.Passei a manhã inteira repetindo isso mentalmente enquanto organizava a agenda de Leon.Quatro dias.Era o tempo que eu tinha para decidir o resto da minha vida.---— Senhorita Duarte?Levantei os olhos.Clara apareceu na porta da minha sala.— Tem uma encomenda para você.Franzi a testa.— Para mim?Ela assentiu.— Acabou de chegar.Agradeci e recebi uma pequena caixa de papel kraft.Não havia remetente.Apenas meu nome.Abri devagar.Dentro havia um chaveiro antigo.Em formato de avião.Meu coração disparou.Reconheci imediatamente.Era o chaveiro que meu pai usava nas chaves do carro.O mesmo que eu pensava ter desaparecido depois do acidente.Junto dele, havia um pequeno envelope."Encontramos isso durante a organização dos pertences antigos da universidade. Acreditamos que pertença à família Duarte."Sorri entre as lágrimas.Passei o polegar sobre o metal já desgastado.Meu pai dizia que aqu







