FAZER LOGINA primeira lembrança que Genara tinha era de seus pais embarcando em um navio na Itália e desembarcando em uma fria Nova York, ver a neve caindo do céu era como estar em um paraíso particular.
— O que é isso, mamãe?
— Neve, filha... aqui é tão frio no inverno que a água congela no céu e cai em flocos de gelo.
— É a coisa mais linda que já vi na vida.
— É porque você ainda não se olhou em um espelho.
As duas riram e continuaram a vislumbrar a nova terra em que iriam morar.
Era uma nova língua, novos costumes, mas o melhor de tudo, eram novas oportunidades...
ELA LEMBRA DOS PAIS trabalhando e ganhando dinheiro como jamais haviam ganhado na vida, era como se a vida de miséria que tinham levado finalmente tinha ido embora.
Genara cresceu dentro dos galpões das fábricas que seu pai trabalhava e aprendeu tudo o que poderia sobre o negócio, ela estava no âmago de onde tudo funcionava.
Os pais inicialmente trabalharam em uma empresa férrea, depois conheceram os Rockfellers, foi então que tudo mudou.
Quando a América conheceu a tecnologia mecânica, no dia em que seu pai ia inaugurar a fábrica, simplesmente a pegou transando com um dos seus funcionários mais fieis, era o pequeno Pablo, que tentou se defender das agressões do velho Sala e acabou recebendo um tiro certeiro.
— Levante-se e vamos embora agora, filha – disse o pai – ele nunca mais vai incomodar você.
Mas Genara em um acesso de fúria simplesmente empurrou o pai do saguão e acabou batendo a cabeça em uma das máquinas de ferro fundido e o líquido da vida simplesmente se espalhou ao seu redor, sua mãe ao ver o corpo estendido do pai ali no chão teve um enfarto fulminante e ela teve que enterrá-los no quintal da fábrica como um memorial de que haviam dado a vida para que aquela empresa ganhasse a América.
— Quem irá assumir a empresa agora? – Disse o gerente que sempre tinha acompanhado o pai em suas empreitadas.
— Eu vou...
— Isso aqui não é lugar para garotas brincarem, Genara.
— Daqui para frente será...
Então Guilhermo teve outra ideia que mudaria de vez a sua vida.
GENARA SE CASOU COM O GERENTE da fábrica, um jovem ambicioso também de família italiana chamado Guilhermo Veronese, que sempre estava na fábrica, o que era um alívio para ela, pois, uma das únicas vezes que transaram, foi que sua filha Janice nasceu, depois disso, toda a sua vida foi em função da filha e seu império estava em boas mãos de seu marido ambicioso que fez de tudo para que a fábrica ganhasse o país.
Todos sabiam que os italianos tinham que trabalhar feito leões para compensar seu gênio forte e a família Veronese não era diferente, fizeram inúmeras melhorias no bairro para conseguirem redução de impostos e contatos com mais clientes, preferencialmente aqueles que tinham ligações com o governo.
A tática era a mesma, se o governo aliviasse a entrada de mais italianos no país teria mão-de-obra barata e funcionários mais aguerridos, os americanos eram egocêntricos demais para trabalharem sob um regime de escravidão disfarçada e os deixar ainda mais ricos.
— Jamais irei deixar um centavo para esta terra, um dia voltaremos para a Itália ricos, Genara.
Pelo menos nisso ela concordava com ele.
APESAR DE TUDO, Genara se sentia uma mulher afortunada, pois diferente dela, seu marido havia comido o pão que o diabo havia amassado para chegar ali e ninguém no mundo trabalhava mais do que ele para que a fábrica desse certo e realmente deu.
Os Estados Unidos foram o país que mais recebeu imigrantes italianos na História. Cerca de 5,5 milhões de italianos imigraram para os Estados Unidos desde 1820. A década de 1870 foi seguida pela maior onda de imigração, que ocorreu e trouxe mais de 4 milhões de italianos para os Estados Unidos, a grande maioria sendo do sul da Itália e da Sicília, com a maioria tendo origens agrárias.
Foi nesse ínterim que a família Veronese se arriscou no Novo Mundo que prometia muitas vantagens, entre elas terra para trabalharem.
Aproximadamente 84% dos imigrantes italianos vieram do antigo Reino das Duas Sicílias. Essa era a parte mais pobre e menos desenvolvida da Itália, ainda em grande parte rural e agrícola, onde grande parte da população estava empobrecida por séculos de desgoverno estrangeiro, e por um sistema de tributação opressivo, imposto após a unificação italiana em 1861.
Nos Estados Unidos, a maioria dos italianos começaram suas novas vidas como trabalhadores manuais nas cidades do leste, campos de mineração e na agricultura. Os descendentes dos imigrantes italianos subiram gradualmente de uma classe econômica mais baixa, na primeira geração, para um nível comparável à média nacional.
A comunidade italiana tem sido frequentemente caracterizada por fortes laços com a família, a Igreja Católica Romana, organizações fraternais e partidos políticos.
Logo após a Unificação Italiana, em 1861, a Itália entrou em um gigantesco processo de emigração. Milhões de pessoas abandonaram a Itália e partiram, principalmente, para as Américas: Brasil, Argentina e, sobretudo, os Estados Unidos.
A unificação italiana em 1861 fez com que as condições econômicas piorassem consideravelmente para muitos no antigo Reino das Duas Sicílias. Os principais fatores que contribuíram para o grande êxodo do sul da Itália e da Sicília após a unificação, incluíram: agitação política e social; a alocação do governo de muito mais de seus recursos para a industrialização do Norte do que para a do Sul; uma carga fiscal desigual no Sul; tarifas sobre os produtos do Sul; exaustão do solo e erosão; e recrutamento militar com duração de sete anos.
De 1880 a 1915, cerca de 13 milhões de italianos emigraram da Itália, tornando a Itália o local da maior emigração voluntária registrada na história mundial.
Os Estados Unidos começaram a dominar a emigração italiana a partir da década de 1890. Antes disso, a maior parte dos italianos tinha como destino o Brasil ou a Argentina ou outros países da Europa.
Os Estados Unidos ofereceram empregos que os camponeses italianos não qualificados e sem instrução poderiam ocupar. Os Estados Unidos estavam crescendo rapidamente durante o século XIX e muitas vezes havia escassez de trabalhadores. Imigrantes de todas as nações preencheram essa demanda, empregando-se na construção de ferrovias e de edifícios, enquanto outros empregavam-se em fábricas que exigiam pouca ou nenhuma habilidade especial. Esse tipo de trabalho era ideal para atender às necessidades dos imigrantes e, apesar de serem mal remunerados, ainda era muito mais do que eles podiam ganhar na Itália.
Uma vez na América, os imigrantes enfrentaram grandes desafios. Muitas vezes, sem nenhum conhecimento do idioma inglês e com pouca educação formal, muitos dos imigrantes eram obrigados a aceitar empregos com baixos salários e eram frequentemente explorados por pessoas que atuavam como intermediárias entre eles e os possíveis empregadores.
Apenas os alemães e irlandeses chegaram em maior número. A maior parte dos imigrantes eram camponeses oriundos do Sul da Itália, especialmente da Sicília e de Campânia e se instalaram, na sua maioria, no Nordeste do país, sendo a cidade de Nova Iorque o destino preferido.
Dominaram bairros específicos (chamados "Little Italy") onde podiam se interagir e encontrar comida típica. Esses bairros eram tipicamente favelas construídas com habitações coletivas, com péssimo ou praticamente inexistência de saneamento básico.
Os imigrantes do sexo masculino nas "Little Italies" eram mais empregados em trabalhos manuais e estavam fortemente envolvidos em obras públicas, como a construção de estradas, trilhos de trem, esgotos, metrôs, pontes e os primeiros arranha-céus no nordeste dos Estados Unidos. Em 1890, 90% dos trabalhadores nas obras públicas de Nova York eram italianos.
NAQUELA NOITE EM ESPECIAL, seu marido ouviu um barulho estranho, levantou-se da cama, pegou a espingarda e foi até a sala, quando percebeu quem era, não deu tempo para quase nada, a reação foi apertar o gatilho sem sequer mirar no desgraçado, ele sabia que tinha acertado o maldito, mas ele também foi ferido.
Genara desceu correndo as escadas e viu a sombra de uma pessoa fugir pela porta deixando um rastro de sangue, mas a atenção ficou fixamente em seu marido, ali, deitado no chão agonizando.
— Querido...
Ela ajoelhou-se ao seu lado e apoiou sua cabeça em suas mãos, ele estava cuspindo sangue.
— Que... que... ri... da...
— Não fala nada... vou buscar ajuda... você vai ver... vai ficar tudo bem...
— Não...
Ele se esforçou para colocar sua mão em sua face e sorriu gentilmente para ela pela primeira e única vez na vida e sussurrou a única palavra que esperou ouvir toda a vida daqueles lábios:
— Te... a... mo...
Sua cabeça caiu pesadamente em suas mãos e pela primeira vez ela percebeu o quanto o amava e que a sua ausência seria sentida a cada segundo que vivesse na vida.
Genara deitou gentilmente o marido no chão e chorou copiosamente sobre o peito dele como há muito tempo não chorava na vida, ela sabia que a vida havia sido dura com ela, repleta de perdas como sempre precisasse sacrificar alguém em prol de algo maior do que ela mesma.
Os vizinhos ouviram os barulhos dos tiros e correram para ajudá-la:
— Você está bem?
Ela assentiu, mas os vizinhos ao verem seu marido perceberam que realmente não estava nada bem.
— Vamos chamar a polícia e prender esse desgraçado.
Ela não tinha forças nem para desejar vingança contra quem quer que fosse.
Assim que os paramédicos terminaram e constataram que Guilhermo estava morto, receberam outra chamada, ela só não imaginava que enterraria quase toda a sua família no mesmo dia.
GENARA MANDOU FAZER três túmulos no quintal de sua casa, ali era a casa deles, sempre foi e sempre será, todos eles estariam um dia juntos, vivendo lado-a-lado por toda a eternidade, por mais que sentisse que não amara o marido suficientemente, agora era difícil conviver com a sua ausência.
Maldita hora em que fui m****r matá-lo...
IGUALMENTE AO LIVRO “O sorriso de Cíntia Donnaville”, este livro surgiu de uma ideia absurda que veio em uma talagada só, uma amiga, Tânia postou uma foto com um lenço azul amarrado ao pescoço e até então nada daquilo havia me chamado a atenção, mas como se tivesse recebido uma marretada na cabeça, a ideia veio...A menina do lenço azul...Essa era a primeira ideia de um título, contei a ela, que inicialmente gostou, mas achou que tudo fazia parte de alguma brincadeira, o que não é o meu caso, se eu simplesmente vislumbrar uma ideia, com certeza a colocarei para frente sem pestanejar, e assim sucedeu.Em sua maioria, os personagens são inspirados em pessoas reais, Marcel um Guitarrista, amigo em minha adolescência, Gleide, uma amiga do Rio de Janeiro, com uma personalidade forte e que vence tudo e todos dia-a-d
Tânia Copelli continuou a ser conhecida no mundo todo como a mulher que revolucionou a moda, ela se casou novamente e foi avó de muitos netos, abriu uma fundação com o mesmo nome de sua grife e ajudou a muitas crianças carentes, abrindo oportunidades em seus ateliês no mundo todo.JANICE, AO CONTRÁRIO DA MÃE, seguiu a carreira militar, sendo uma oficial altamente condecorada igual ao pai, lutou em diversas batalhas, como o Vietnã e no Golfo, quando se aposentou, seguiu na carreira política, chegando ao Senado dos Estados Unidos e sendo cotada a ser a primeira mulher a disputar para a Presidência dos Estados Unidos, perdendo nas eleições primárias duas vezes seguidas.THEODORE seguiu a carreira de cineasta de filmes eróticos parisienses, um dos primeiros a seguir aquele ramo, ganhando fama mundial seguindo o sucesso de Deep Throat, do qual er
Tânia fechou os olhos e por um instante o tempo começou a passar em câmera lenta, então, ouviu o barulho oco do corpo sem vida de Marcel cair no chão e a voz de Greg.— Ainda bem que chegamos a tempo.— GREG!!! – Ela jamais imaginou que ficaria tão feliz em vez alguém na vida quanto ele – Nunca achei que ficaria tão feliz ao vê-lo novamente.— Ainda bem que meus instintos estavam certos em segui-la até aqui, sabia que uma hora esse miserável apareceria.— Mas...— Sei que deve estar pensando que ele era apenas o auxiliar de Gladys, mas era um miserável invejoso, matou Gael, o pai de Gladys, Jorge e agora queria te matar também.— Jorge está morto?— Infelizmente... ele foi sequestrado e torturado no dia do acidente.— Coitado do Jorge... era um excelente profissional.
Theodore entrou no escritório de sua mãe e olhou para o atelier, todos estavam tristes e o ambiente visivelmente sem vida.— Sua mãe era uma grande mulher.Theo olha para trás e viu Gabrielle, a secretária de sua mãe e a intermediária entre eles.— É o que todos dizem.— Isso aqui agora é tudo seu.— Isso aqui nunca será meu.Apesar de ser um rapaz que acabou de sair da adolescência, ela o percebeu muito adulto naquele instante.— Mas alguém terá que dar seguimento ao que ela construiu.Theo sorriu.— Parabéns, Gabi... é todo seu... só me mande relatórios semanais.— Para de brincadeira, Theo.— Você acha que eu iria brincar com uma coisa dessas, e outra, era o desejo da minha mãe.Theo abriu o cofre e mostrou o tes
Os médicos estavam correndo com as duas macas emparelhadas lado-a-lado, tudo estava turvo, as luzes se revezavam entre clarear e escurecer...— Tânia... disse quase num sussurro quando as camas pararam para iniciarem os procedimentos médicos.— Não fala nada...— Queria que você soubesse que foi uma extraordinária adversária... fico feliz em tê-la como minha rival.— Agora não é hora....— Nem nunca mais será...Gladys sorriu e por um instante, Tânia percebeu que era seu adeus.— RÁPIDO!!! – Gritou um dos médicos – perdemos os sinais vitais dela.Tudo o que Tânia ouviu foi sumindo... então ela adormeceu.AOS POUCOS, TÂNIA foi recobrando a consciência e, de repente, se lembrou de Gladys.— GLADYS!!! CADÊ A GLADYS???As
Theo estava passeando pelas ruas de Paris e sabia que seriam bem tranquilas devido à semana da moda em Milão, não haveriam madames desfilando pelas ruas, pois todas estariam por lá vendo as tendências para a próxima estação, então era apenas administrar seus negócios ilegais.— E aí, Theo, tudo bem? Meus sentimentos...— Tudo bem... porque meus sentimentos?— Você não ouviu o rádio e nem viu as capas de jornais?Ele negou com a cabeça e correu até a banca e viu estampado na primeira página a tragédia tripla... porém só uma delas lhe chamou a atenção...“MORRE A HEROÍNA PARISIENSE, GLADYS VIERMOND...”