INICIAR SESIÓNO despertador tocou antes mesmo do sol nascer, quando abri os olhos, o quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, e o frio no meu estômago era mais forte do que qualquer inverno.
Havia chegado o dia. A entrevista com a imigração estava marcada para às 9h30 da manhã. Carolina havia me preparado para tudo, roupa, postura, respostas ensaiadas. Mas nada me prepararia de verdade para a sensação de estar prestes a atravessar uma porta sem volta. Tomei um banho gelado, precisava despertar cada parte do meu corpo, esconder o pânico que insistia em crescer dentro de mim. Depois vesti exatamente o que Carolina havia me mandado usar, uma blusa de gola alta branca, discreta mas justa o suficiente para realçar meu corpo, calça de alfaiataria nude, salto baixo e brincos pequenos. Cabelos presos num rabo de cavalo elegante, maquiagem leve. A intenção era clara, uma jovem sofisticada, de classe média alta, indo para uma viagem de lazer. Olhei no espelho antes de sair. Não parecia eu. A garota do reflexo não tinha cheiro de cigarro, não dançava sob luzes vermelhas, nem suava com notas de cinquenta reais sendo enfiadas no sutiã. Ela parecia rica, preparada, fria. E ainda assim, por trás daquele disfarce, eu era só uma menina de 21 anos prestes a vender a própria virgindade para um completo estranho. Saí de casa com o coração na garganta. Cheguei ao prédio da Polícia Federal meia hora antes do agendado. O local já estava cheio, turistas, famílias com malas, mochileiros. Ninguém sabia que eu não estava ali apenas para tirar um passaporte ou planejar uma viagem de férias. Eu era uma mentira ambulante. Esperei meu nome ser chamado com a ficha de solicitação de visto em mãos e uma pasta com os documentos que Carolina havia preparado, comprovante de renda fictício, reserva de hotel de fachada, uma carta da agência (com outro nome, claro) dizendo que eu era representante de um projeto de moda e que iria à Dubai para conhecer potenciais investidores. — Júlia Mendes? Chamou uma voz masculina. Levantei como se meus joelhos fossem feitos de papel. Sorriso no rosto, postura reta. Fingi ser o que não era. A sala da entrevista era simples, uma mesa de vidro, uma bandeira do Brasil num canto, uma câmera gravando a entrevista e um agente de terno escuro com olhar desconfiado. Ele indicou que eu me sentasse. — Bom dia. Você está aqui para solicitar visto de turista para os Emirados Árabes, correto? — Sim, senhor. Respondi com a voz mais firme que consegui. — É sua primeira viagem internacional? — Sim. Sempre quis conhecer o Oriente Médio. Ele folheou meus documentos com agilidade. Conferia datas, códigos, carimbos. Eu sabia que qualquer erro, qualquer hesitação, poderia colocar tudo a perder. — Qual o propósito da viagem? — Turismo. Tenho interesse na cultura árabe, na arquitetura e vou aproveitar para visitar alguns contatos de trabalho também. Trabalho com eventos de moda. Disse, apontando para a carta na pasta. — Qual a duração prevista da sua viagem? — Sete dias. — Vai viajar sozinha? — Sim. Ele me encarou por alguns segundos, como se tentasse decifrar algo nos meus olhos. Mantive o sorriso leve, os ombros relaxados, como Carolina havia ensinado. — Você já tem passagem comprada? — Tenho a reserva. A compra será efetuada após o visto. Ele digitou algumas coisas no computador, leu algo na tela, e então voltou a me fitar. — Qual é a sua profissão atual? Respirei fundo. — Assessora de eventos. Trabalho de forma autônoma. Era a resposta oficial. Nada de boate, nada de dançarina, nada de verdade. Ele não disse nada por alguns segundos. Só anotou algo num formulário e levantou. — Aguarde lá fora. Em breve será chamada para a coleta de dados biométricos. Saí da sala com as pernas bambas, o ar parecia mais pesado do lado de fora. Sentei em um dos bancos e encarei minhas próprias mãos tremendo no colo. Tudo ali era um teatro. Meu sorriso, minhas roupas, meu passaporte novo com páginas em branco, tudo falso, tudo ensaiado, e ninguém percebia. Ninguém sabia que aquela menina, fingindo ser uma profissional de moda, estava prestes a embarcar para um destino onde deixaria para trás o que ainda restava da sua inocência. Depois de meia hora, me chamaram para coletar digitais e tirar a foto do passaporte. — Olhe para a câmera, por favor. Levantei o rosto, a lente fria me encarava como um espelho da verdade. Pensei na minha mãe, no quarto de hospital, no soro pingando. Na promessa que eu fiz. A foto foi tirada. Quando saí, já era quase meio-dia. O sol castigava lá fora, mas eu não sentia calor, só um enorme vazio. Peguei um táxi e, no caminho de volta para casa, o motorista puxou conversa. — Vai viajar? — Sim… trabalho. — Que bom, tem muita gente indo pra fora pra tentar a vida. Tentei sorrir, mas não consegui. Ao chegar em casa, tirei a roupa como se arrancasse um papel de parede que já não me servia, fiquei sentada no chão ao lado da minha cama por longos minutos, não chorei, não falei. Só fiquei ali, respirando fundo, tentando lembrar quem eu era antes disso tudo começar. Peguei o meu celular, e lá estava a notificação do valor exorbitante que havia caído na minha conta. O dinheiro que poderia salvar a minha mãe estava ali, diante dos meus olhos, e eu me agarrei aquilo como se agarrasse à própria vida. O tempo da dúvida havia acabado. Agora era só seguir. Fui para o hospital e paguei os 20% do tratamento da minha mãe. E pela primeira vez depois de tudo o que havia acontecido, eu senti um pouco de alívio.JÚLIA*Se alguém me dissesse, no início de tudo, que eu terminaria minha história vivendo em Dubai, casada com um Sheik e segurando a mão do homem que um dia eu achei que destruiria minha vida, eu teria rido.Ou talvez chorado.Porque a verdade é que, naquele tempo, eu não conseguia enxergar futuro nenhum.Minha vida era feita de medo.Medo das contas.Medo do hospital ligar.Medo da minha mãe piorar.Medo de ficar sozinha no mundo.E no meio de todo aquele caos, apareceu Al Rashid.Lindo.Frio.Intimidador.O tipo de homem que parecia ter sido criado para nunca ouvir um “não”.E talvez tenha sido exatamente isso que tornou tudo tão destrutivo entre nós no começo.Porque eu lutei contra ele.Contra o desejo.Contra a atração.Contra o sentimento absurdo que começou a crescer mesmo quando eu tentava odiá-lo.Mas a vida…A vida tinha outros planos para nós dois.Hoje, olhando para trás, eu percebo que tudo aconteceu rápido demais.A descoberta da mentira de Carolina.O acordo.Dubai.L
SHEIK*Eu já havia comandado reuniões capazes de mudar economias inteiras.Já sentei diante de reis, presidentes, empresários bilionários e homens que tremiam apenas por ouvir meu nome.Mas nada…Absolutamente nada me deixou tão nervoso quanto esperar Júlia entrar naquele salão.Talvez porque, pela primeira vez na vida, eu realmente tinha algo a perder.Ou melhor…Alguém.Um mês.Foi o tempo que levou para Júlia transformar completamente meu mundo outra vez.Uma semana depois da ilha, embarcamos para Dubai.E um contrato assinado.Ainda lembro da expressão do meu advogado tentando manter a postura séria enquanto lia cada cláusula criada por Júlia.Minha futura esposa basicamente havia elaborado um manual completo de sobrevivência emocional contra mim.E honestamente?Eu assinei tudo sem hesitar.Exclusividade absoluta.Nenhuma outra mulher.Nenhuma concubina.Nenhum casamento além dela.Direito imediato de retornar ao Brasil com nossa filha caso eu quebrasse qualquer cláusula.Patrim
Eu nunca fui uma mulher difícil de impressionar.As pessoas costumavam acreditar nisso porque viam o dinheiro ao redor de Al Rashid, os carros, os seguranças, o poder, as extravagâncias. Mas a verdade era que nada disso me atingia da forma que atingia outras mulheres.O que realmente me desmontava, eram os detalhes.E naquela noite, desde o momento em que entramos no helicóptero, eu percebi que Al Rashid havia preparado cada detalhe pensando em mim.Não na mulher que ele desejava.Mas na mulher que ele amava.O voo até a ilha foi silencioso em vários momentos, não por desconforto, mas porque existia algo extremamente intenso entre nós dois. Uma expectativa quase palpável.Eu sentia o olhar dele em mim o tempo inteiro.Nas minhas pernas.Na minha boca.No meu pescoço.Como se quarenta dias de espera tivessem deixado aquele homem perigosamente perto de perder o controle.E talvez tivesse mesmo.Às vezes eu flagrava ele respirando fundo discretamente, como se estivesse tentando manter o
JÚLIA*Quarenta dias.Foi esse o tempo que levou para minha vida virar completamente do avesso mais uma vez.Mas, diferente de todas as outras mudanças que aconteceram comigo, aquela não veio acompanhada de dor, medo ou desespero.Veio acompanhada de paz.E talvez fosse exatamente isso que mais me assustava.Porque depois de tudo o que Al Rashid me fez passar, depois da forma cruel como nossa história começou, eu jamais imaginei que um dia acordaria feliz ao lado dele.Mas aconteceu.Os primeiros dias após o nascimento da Aisha foram os mais difíceis fisicamente. Meu corpo doía, eu me sentia cansada o tempo inteiro, mal conseguia dormir direito e chorava por qualquer coisa.Às vezes eu chorava porque a bebê dormia demais.Às vezes porque ela chorava demais.Às vezes porque minha mãe não estava ali para ver aquilo.E em todas essas vezes… Al Rashid estava comigo.Sem fugir.Sem reclamar.Sem agir como um homem poderoso que acreditava que certas funções não eram responsabilidade dele.
Durante toda a minha vida, eu pensei que desejo fosse a coisa mais intensa que um homem poderia sentir por uma mulher.Eu estava errado.Desejo queimava.Mas aquilo que Júlia despertava em mim parecia atravessar a pele e atingir diretamente a alma.Ela caminhava devagar pela varanda da casa enquanto o vento balançava suavemente os cabelos dela e o vestido vermelho acompanhava cada movimento do corpo perfeito que eu conhecia bem demais e ao mesmo tempo conhecia tão pouco.Porque não importava quantas vezes eu a tocasse.Nunca parecia suficiente.A ilha inteira estava silenciosa. Apenas o som do mar quebrando nas pedras ao redor da casa preenchia o ambiente, e aquela paz parecia irreal perto da vida caótica que eu sempre tive.Júlia se aproximou lentamente da varanda de vidro, observando a água escura refletindo as luzes suaves espalhadas pela propriedade.— Isso aqui parece um sonho.A voz dela saiu baixa.Quase emocionada.Me aproximei por trás devagar, envolvendo a cintura dela com c
Ao entrar em casa, fui dando ordens para todos que cruzaram meu caminho.— Liga para a babá e manda ela vir mais cedo hoje.Entreguei Aisha cuidadosamente para a cozinheira, que ficou me encarando sem entender nada.Continuei andando pela sala como um homem completamente fora da própria sanidade.Júlia vinha atrás de mim tentando entender o que estava acontecendo.Ou melhor…Tentando não morrer de rir.— E vocês…Apontei para dois dos meus homens.— Arrumem uma casa isolada. Hoje.Eles assentiram imediatamente.— Senhor, temos algumas propriedades...— Não. Eu quero isolamento absoluto.Passei a mão no rosto.— Uma ilha. Um lugar no meio do nada. Sem pessoas. Sem interrupções. Sem bebê chorando no momento errado.Júlia gargalhou alto atrás de mim.— Você está surtando.Ignorei completamente.— Se não existir uma ilha em São Paulo, comprem uma. Se não tiver uma casa, construam uma até a noite chegar.Os homens tentaram manter a postura séria.Mas um deles claramente quase riu.Júlia já







