Compartilhar

TRÊS

last update Data de publicação: 2024-10-06 10:13:19

As pessoas à minha volta ofegaram e alguém tentou me puxar pela blusa. Empurrei-o firmemente, mas sem machucar. E daí que se machucasse? Ninguém me queria aqui.

Cruzei os braços em frente ao corpo e não falei mais nada. Um silêncio mortal caiu sobre nós me deixando ainda mais nervosa. Um brilho bem humorado surgiu nos olhos dele, mas sua voz soava fria e profissional:

– Não sei do que está falando Srtª, mas sugiro que pare com esses argumentos estúpidos. – Levantou e deu um passo em minha direção.

- Acho que tenho um ponto, já que você está aqui. Qualquer pessoa em seu juízo perfeito reagiria da mesma forma.

Era uma desculpa fraca e o estranho sabia disso. Ele inclinou em minha direção e eu pude sentir sua respiração em meu pescoço. Ficando próximo a mim, sentenciou:

– Você não vai gostar dos resultados se agir assim.

Senti-me pequena e indefesa como nunca me senti antes. Não chegava nem aos ombros dele e precisei fazer um esforço para esconder meu espanto. Nossos olhares se cruzaram e desejei com todas as minhas forças conter minha irritação, mas nem sempre as coisas saem como eu quero. Segurei seu terno impecável e o mantive no lugar. Ele se nivelou ao meu tamanho com incredulidade e sem dar tempo para ele reagir, aproximei meus lábios de seu ouvido.

Uma atitude ousada para alguém que acabei de conhecer, mas aquele homem não era comum e eu não me importava com mais nada.

– Sua proposta é tentadora, mas já vivo um tormento aqui.

– E por quê?

– Simples. Porque trabalho em um lugar onde não sou adequada. – Dei um passo para trás e sorri polidamente. – Tenha um bom dia.

Caminhei com uma confiança inexistente, a barriga dando voltas e mais voltas enquanto voltava para o depósito. Os olhares que recebi pelo caminho eram de assustados a irônicos. Seria um milagre se eu não fosse despedida hoje mesmo. Quando não vi mais ninguém, corri para dentro do depósito e tranquei a porta. Apoiei meu corpo na porta e soltei o ar que estava preso em meus pulmões.

O que foi que eu fiz?

Voltar pra casa naquela noite foi mais tranquilizador que nos outros dias. Considerando a estupidez de hoje, as cinquenta ligações que ignorei e a porta que eu havia deixado trancada para não ver ninguém, foi um alívio sair da empresa. Fiz hora extra para não cruzar com meus colegas de trabalho, adiantei quatro projetos que julguei importante e isso tirou um pouco da carga emocional que pesava em meus ombros. Olhei meu celular e suspirei com desgosto.

Eram onze da noite, o que significava que eu teria que ir a pé para casa.

Olhei para os lados, rezando para encontrar um motoboy, sem entusiasmo. Decidi caminhar um pouco para esticar as pernas, e quem sabe pelo caminho eu encontrasse alguém para me levar para casa.

Raramente tive tempo de apreciar as estrelas, mas hoje elas brilhavam no céu como diamantes. O frio da noite me envolvia em seu abraço e o silêncio era reconfortante. Meu coração se apertou, lembrando-me de muitas coisas e pessoas, principalmente da minha família que havia se mudado para a capital ano passado. Por causa do trabalho, ficava mais difícil vê-los. O que me confortava era saber que eles me amavam, a maneira deles é claro.

Chegando à esquina do fórum, suspirei aliviada por ver dois motoboys no ponto de ônibus. Meus pés latejavam quando parei perto de um deles, ajeitando minha bolsa no ombro. Os homens olharam meu corpo com nojo e se entreolharam em resposta. Um deles devia ser alto, suas pernas eram grandes demais para a moto; cabelo crespo e olhos castanhos. O outro era um pouco mais baixo, porém robusto. Cabelos dourados e encaracolados, olhos castanhos e levemente puxados, o que era muito raro. Ambos usavam coletes ridículos na cor amarela, o que me lembrava de guardas de trânsito.

Tossi levemente e perguntei aos dois:

– Boa noite. Estão disponíveis para uma corrida?

Ambos negaram desconfortáveis com meu pedido desesperado e pularam quando soltei um palavrão. Mesmo frustrada, agradeci aos dois e recomecei a andar, desejando ser morta a tiros para parar de sofrer tanto.

Não sei o quanto andei, mas ao parar em frente a um colégio depois de andar por uma hora, o cansaço me venceu e sentei no chão para tomar um pouco de ar. O chão parecia tão convidativo que quase deitei nele para tirar um pequeno cochilo.

Estava a ponto de fazê-lo quando notei uma moto parada à minha frente. Olhando para cima, vi um dos motoboys com quem falara ainda há pouco. Apelidei como cabelinho de miojo.

– O que você quer? – Eu estava cansada, com fome e muito mal humorada.

O rapaz coçou o pescoço, desconfortável.

– Eu... Eu posso te levar em casa, se ainda quiser.

Pelo tom de voz dele parecia arrependido, mas não quis demonstrar que eu estava simpatizando com ele. Arqueei a sobrancelha.

– Tem certeza? Não quero estourar seu pneu com meu peso.

– Não é problema... – observei que ficou vermelho.

Não quis discutir com ele, até porque eu estava cansada. Levantei do chão e peguei minha bolsa. O motoboy me passou o capacete e depois que subi na moto, deu a partida.

...

Virar na rua onde moro foi um alívio pra mim. Meu coração batia acelerado, toda vez que um caminhão passava por nós e eu já não estava confortável com isso. Ao estacionar em frente a minha casa, desci da moto e peguei o dinheiro, entregando a ele. Cabelinho de Miojo sorriu; um sorriso maravilhoso por sinal, mas recusou o dinheiro.

– Mas... – protestei.

– Considere uma cortesia da minha parte – ele deu de ombros e de seu colete ridículo ele puxa um cartão. – Quando precisar de qualquer serviço de transporte é só me chamar. – Dando uma piscadela, ele vai embora me deixando sem ação por alguns minutos.

Foi impressão minha ou acabei de receber uma cantada?

Não soube lidar bem com isso, não sabia se deveria rir ou chorar e por fim acabei dando uma risada sem humor. Devo ser digna de pena para receber uma piscadela de alguém, mas porque analisar isso agora? O que eu preciso é de uma boa noite de sono para tentar me recuperar dos acontecimentos de hoje. Retirei as chaves da minha casa da bolsa e coloquei–a na porta, abrindo a mesma. Mimi, minha gata de estimação veio me receber com miados altos e se esfregava em minhas pernas pedindo comida. Joguei a bolsa no chão, peguei-a em meus braços e a levei para a cozinha, fazendo cafuné em sua cabeça.

Eu precisava de comida, mas a gata queria ser atendida. Dei uma rápida olhada em seu pratinho e não me surpreendi por estar vazio. Coloquei-a no chão e caminhei até o armário, pegando o pote de ração dela e o chacoalhei, rindo por ela vir correndo em minha direção. Pus uma boa porção em seu pratinho, troquei sua água e a observei se alimentar por um tempo, com um sorriso nos lábios. Sempre fui amante dos animais e se pudesse eu encheria minha casa deles, mas minha casa era pequena e o máximo que eu poderia ter em casa era gatos.

Mimi foi abandonada em frente à casa da minha vizinha e esta odiava gatos. Para não ver a pequena gatinha virar comida de cachorro, adotei–a relutante. Por causa do trabalho, cuidar dela ficou difícil e toda a vez que eu saía de casa, na volta tinha um “presente” embaixo da minha cama. Pensei que fosse enlouquecer com isso, mas no fim tudo deu certo.

O cansaço venceu a fome e quando dei por mim, já estava deitada em minha cama, com minha gata do lado. Sorri ao fechar os olhos e o deus grego surgiu em meus sonhos.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Um Amor Inesperado    EPÍLOGO - O INÍCIO DO CAOS

    São Paulo. — Não acredito que Rafael está noivo. — comentou, olhando distraidamente para a janela. Evan, que estava do outro lado da linha, riu com empolgação. — Concordo. Juliana é totalmente fora dos padrões dele, mas como se tratava de uma paixão antiga, admito que eles dois ficam bem juntos. O homem cerrou os dentes. Rafael, Rafael... tudo era Rafael... Aquele idiota tinha que estragar tudo, perseguindo uma mulher que nem bonita era. Estava sozinho agora e não precisava fingir seus sentimentos. Graças a tudo isso teria que reorganizar seus planos e como David estava preso, teria que viajar para aquele lugar imundo para arrumar a bagunça. Anos de preparativos jogados pela janela por causa de uma mulherzinha qualquer. — Ah... — Evan continuou. — Aquela loira gostosa está ajudando Rafael a respeito da fraude. —Sério? — sua voz soou perigosamente baixa. — Pensei que Márcia estava dando problemas. — Estava, mas as coisas foram resolvidas. Queria matar alguém naquele momento

  • Um Amor Inesperado    SETENTA E UM

    Meu coração palpitou. Todas as vezes que vim ao seu quarto, nunca notei que tinha um espelho tão grande e tomava uma parte da parede. Minha garganta ficou seca e passei a língua entre os lábios secos. Rafael cerrou os olhos, mas podia sentir o quanto ele queria isso. A expectativa do que ele queria fazer me deixou ainda mais molhada. — O que vai fazer? — sussurrei. Seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso ao aproximar, seu terno branco polido captando a luz fraca da sala. O tecido se agarrava a seus ombros largos e afunilava seu corpo musculoso, as linhas nítidas acentuando sua presença dominante. Ele inclinou a cabeça, seus olhos brilhando com uma mistura de diversão e fome enquanto percorria sobre meu corpo nu refletido no enorme espelho. O ar pareceu espesso, carregado com o calor que irradiava dele. — Quero que veja com seus próprios olhos como se desmancha de prazer em meus braços. — respondeu com a voz baixa e rouca. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando levemente ao

  • Um Amor Inesperado    SETENTA

    Era tarde quando retornamos para casa. Sônia e Mauro decidiram não voltar conosco, preferindo ir para a casa de Erick. Evan, por outro lado, decidiu ir para um hotel. Todos eles pareciam estar tramando para que ficássemos sozinhos. — Teve muito trabalho para preparar tudo aquilo? — perguntei quando chegamos ao quarto. Ele sorriu e me abraçou por trás, beijando carinhosamente meu pescoço. Um arrepio percorreu minha espinha e senti seu sorriso em minha pele. — Na verdade não. A única coisa que me afetou foi ter ignorado você durante esse período. Seu amigo me disse que você era capaz de arruinar surpresas, então tive medo que você descobrisse. — e girou-me em seus braços, para olhá-lo. — Eu queria te surpreender. — E conseguiu, meu amor. — passei a mão em seu rosto. — Na verdade, você é o primeiro a conseguir tal feito. Rafael alargou o sorriso, feliz com minha declaração. Me guiou para a cama e me deitou sobre a mesma, subindo na cama em seguida. Meu coração acelerou quando el

  • Um Amor Inesperado    SESSENTA E NOVE

    A noite transcorreu tranquilamente e eu não podia estar mais maravilhada. Nossos amigos conversavam entre si aos risos enquanto a comida maravilhosa do bufê era servida. Todos conseguiram esconder as coisas de mim com maestria e conseguiram me pegar de surpresa. Olhei para o homem charmoso ao meu lado, que segurava minhas mãos com amor e eu não pude me sentir mais feliz. Rafael encontrou meu olhar e meu batimento cardíaco aumentou. Um leve rubor tomou minhas bochechas e ele começou a rir, deu um beijo em meu roso e sussurrou: — Gostou da surpresa? Sua voz era profunda, rouca e sensual. — Isso foi muito além do que eu esperava. Tudo está perfeito. Ele sorriu, mas não respondeu. Levou minha mão aos lábios e depositou um beijo gentil, a mesma mão que colocara o anel. Seu beijo era cheio de promessas e isso não impediu que eu me mexesse na cadeira. Rafael arqueou a sobrancelha e quando se inclinou para me beijar, Erick o interrompeu com uma risada. — Vocês terão todo o tempo do mun

  • Um Amor Inesperado    SESSENTA E OITO

    Não demorei muito no banho, mas passei tempo o bastante para ficar totalmente limpa. Não fazia ideia que estava tão suja e cansada. O banho me ajudou a tirar a tensão que estava sobre meus ombros e relaxar um pouco. Enquanto caminhava até a sacola com as roupas que Mandy me entregou, pensei nas minhas atitudes em relação a Rafael. Ele tinha o direito de permanecer em silêncio. Talvez suas preocupações fossem tão grandes que não queria me chatear com elas. Apesar dessa atitude me irritar, depois de extravasar minha frustração na lanchonete, consegui ver com clareza. Rafael não era de me esconder as coisas, não a maioria, pelo menos. Se for algo relacionado a mim, em algum momento ele iria me falar, certo? Tudo o que podia fazer era esperar. Abri a sacola e franzi o cenho. Que roupas eram aquelas? A lingerie era extremamente sexy, não era algo que eu usasse sem me sentir incomodada. Corri a mão pela calcinha pensando no olhar que Rafael faria ao me ver nela. Meu corpo corou e balance

  • Um Amor Inesperado    SESSENTA E SETE

    Alguns dias se passaram e o clima entre Rafael e eu não mudou muito. Ele continuava evitando algumas perguntas minhas, porém, me dava um pouco mais de atenção. Os hematomas daquela noite sumiram gradualmente e agora eram apenas pequenas manchas amarelas, o que era um alivio, pois via Rafael se culpando pelo que aconteceu. Seu ‘amigo’ permaneceu na casa de Rafael e foi algo no mínimo incômodo. Estava consciente de seus olhares em mim e esforcei-me para o ignorar. Eu poderia estar errada com minhas suspeitas, mas precisava ter certeza que ele não era uma ameaça a Rafael ou a qualquer um de nós. No dia seguinte à conversa do escritório, meu namorado sugeriu que passássemos um tempo juntos. A justificativa dele era que eu precisava conhecer seu amigo para poder criar meu próprio julgamento. Evan apenas permaneceu quieto, escutando as palavras de Rafael com um olhar debochado. Fiquei tentada a recusar, mas isso não era uma opção, segundo ele. Passei os dias ‘passeando’ com Evan, apresen

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status