FAZER LOGINEvelyn
O cinema foi incrível, vimos O Bebê de Rosemary. Eu amo filmes de terror, mais ainda filmes antigos, densos, cheios de camadas. Histórias que não explicam tudo e deixam a mente trabalhando depois. Um verdadeiro clássico cult. Já Edward acho que não curtiu muito, porque disse que não entendeu muito bem a proposta e reclamou dos efeitos práticos. Ele não podia ser perfeito em tudo. Agora estamos em um restaurante japonês perto do campus, com luz baixa, cheiro de shoyu e gengibre no ar, vozes suaves ao redor. Era para ser perfeito. Era. Eu estou enjoada. De novo. O cheiro do peixe cru, que normalmente eu adoro, hoje parece forte demais. Meu estômago dá pequenas reviradas traiçoeiras e eu preciso manter o sorriso no rosto para não estragar a noite. Eu não quero estragar isso, então respiro pelo nariz, tomo pequenos goles de água e finjo interesse exagerado no cardápio. Também tento não pensar no depois. No futuro, formatura e em despedidas. Mas a imagem de Valerie chorando escondida no dormitório antes de eu sair volta à minha cabeça. O jeito como ela limpou rapidamente as lágrimas quando percebeu que eu vi, com o nome de Dean preso na garganta dela. Aquilo me deixou angustiada, porque, de repente, despedidas deixaram de ser algo distante. Percebo então que Edward está diferente. Desde que saímos do cinema, ele parece um pouco tenso. O sorriso demora mais para aparecer, ele olha o celular várias vezes, como se estivesse esperando algo. — Está tudo bem? — ele pergunta de repente, me observando. — Você quase não comeu. Olho para o prato quase intacto. — Tô bem — respondo rápido. — Só não estou com muita fome. — Se você quiser, a gente pode comer outra coisa. — Ele franze levemente a testa. — Não precisa. Eu estou bem mesmo. — Meu coração aperta com o cuidado. O celular dele vibra na mesa, o som parece alto demais para o ambiente calmo. Ele olha para a tela e seu rosto muda. O maxilar fica mais rígido e o olhar mais sério. Não consigo me segurar. — Aconteceu alguma coisa? Ele demora meio segundo antes de responder, como se decidisse o quanto dizer. — É… um problema de família. Isso me surpreende, Edward raramente fala da família. — Problema? Ele solta o ar pelo nariz. — Eu tenho uma prima desaparecida. Meu corpo inteiro fica atento. — Desaparecida? — Já tem um tempo — ele continua. — E toda vez que meu pai acha que encontrou alguma pista, ele surta, cria expectativa e depois se frustra. Eu fico em silêncio por um momento, absorvendo. Essa é a primeira vez que ele realmente compartilha algo pessoal da família comigo. Algo real. Doloroso. — Eu sinto muito — digo, sincera. E sinto mesmo, porque há um peso na forma como ele fala. Um cansaço que não é recente. De repente, entendo um pouco mais do silêncio dele sobre a família, sobre o pai e sobre certas coisas que ele evita. E, pela primeira vez na noite, meu enjoo deixa de ser o foco. Agora é o jeito como ele segura o celular com força demais que atrai a minha atenção. — Eu espero que vocês a encontrem — digo com sinceridade. — De verdade. Edward me olha por um segundo mais longo, como se medisse o peso das minhas palavras. — Eu também quero muito isso — ele responde. — Talvez isso faça meu pai ficar em paz. E… talvez ajude a gente a ter algo mais próximo de uma família de novo. Família de novo. A forma como ele fala deixa claro que existe uma ausência ali, um vazio antigo. Eu não sei exatamente o que dizer. Não existe frase pronta para desaparecimento, para dor que dura anos. Então fico em silêncio por um instante, oferecendo só minha presença, e ele percebe. — Tá tudo bem — diz, balançando a cabeça de leve. — Não quero estragar a noite com papo baixo astral. Assinto, tentando sorrir e pensando em mudar de assunto rápido para tirar o peso da mesa. Mas ele é mais rápido. — Depois do jogo vai ter a festa na fraternidade — ele comenta. — Quero que você vá comigo. É minha última festa na faculdade. Sei que é Megan que está organizando, mas não quero que isso seja um problema. Última. A palavra ecoa dentro de mim, e como um gatilho, a ficha cai de novo. Último jogo. Última festa. Últimos meses. A pergunta que eu vinha empurrando para debaixo do tapete volta, insistente. Minha ansiedade cresce, silenciosa, apertando o peito. Antes que eu perca a coragem, falo: — Edward… sobre a gente. — Ele me olha atento. — Nosso namoro. Como vai ser depois? A gente se vê o tempo todo no campus, passa a maior parte do tempo aqui. Eu não sei se você vai continuar em São Francisco ou se vai pra outra cidade… — Minha voz sai mais vulnerável do que eu planejava. Ele me observa por alguns segundos e não parece irritado, só pensativo. — Isso não é algo pra você se preocupar agora — ele diz com calma. — Eu ainda estou aqui. Meu coração desacelera um pouco, mas não totalmente. — Eu não pretendo sair de São Francisco nos próximos meses. Meu apartamento é perto do campus, você sabe. Ele pega minha mão por cima da mesa e entrelaça os dedos nos meus. O toque é quente, firme, familiar. — Foca no que a gente tem agora — ele diz. — Tudo bem. — Eu respiro fundo e isso me alivia. Alivia mesmo. Mas existe uma pontinha de medo ali. Pequena, mas presente. Porque “agora” não é “depois”. E ele claramente evita falar de futuro. Mesmo assim, eu escolho aceitar o que ele está oferecendo. O presente. — Você vai comigo? Eu assinto com a cabeça. — Quer ir embora? — ele pergunta. — Quero — respondo. Ele se inclina um pouco na minha direção. — Eu não via a hora de experimentar a sobremesa — diz. Sigo o olhar dele direto para o meu decote. Abro a boca, indignada. — Deixa de ser safado. Ele sorri, sem o menor arrependimento. — Impossível com você sendo tão gostosa.Evelyn O sol da tarde está morno na minha pele quando eu abaixo a câmera. Hina corre pela grama com aquela energia caótica que só uma criança de dois anos consegue ter, os cachinhos escuros balançando enquanto ela tenta pegar uma borboleta que claramente não tem nenhuma intenção de ser capturada.Eu rio.— Hina, cuidado!Ela olha para trás só por um segundo e sorri como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo… e continua correndo. Eu não consigo evitar, meu coração simplesmente transborda.Ela é perfeita. Perfeita do jeito bagunçado, curioso, barulhento e absolutamente adorável que só uma criança pode ser. Minha filha. Minha pequena Hina. Eu a amo de um jeito que não sabia que era possível amar alguém. Um amor que parece viver dentro do meu peito o tempo todo, pulsando junto com meu coração.Eu me levanto da grama quando Edward se aproxima e pega Hina no colo. Ela imediatamente envolve os braços no pescoço dele e começa a falar coisas completamente desconexas sobre
Edward O sol da tarde atravessa as folhas das árvores e pinta o parque com uma luz dourada suave. O vento passa devagar, balançando os galhos e espalhando pelo ar aquele cheiro fresco de grama e terra úmida que sempre me lembra de dias tranquilos. Eu estou sentado em um banco de madeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos, apenas observando. Observando-as. Evelyn está alguns metros à frente, agachada na grama com a câmera nas mãos. O cabelo dela está preso de qualquer jeito em um coque bagunçado que ameaça desmoronar a qualquer momento. Algumas mechas escapam e caem sobre seu rosto, e ela sopra o ar impaciente para afastá-las enquanto ajusta o foco da lente. Ela está completamente concentrada, exatamente como fica quando está trabalhando. — Hina, olha para a mamãe! — ela diz, com aquele tom doce que só usa com a nossa filha. E ali está ela. Hina. Nossa menina. O amor da minha vida. Ela está de pé na grama, com um vestido amarelo cheio de pequenas flores brancas, o cabelo escuro
Evelyn Já faz um mês desde a noite do lançamento. Um mês desde aquela festa que parecia apenas o encerramento de um grande projeto, mas acabou se tornando o início de algo muito maior para mim.Hefes 3.0 já está nas lojas, e como diretora de marketing eu não paro um segundo. Porque é exatamente isso que eu sempre digo para Owen e Clark: marketing não é só divulgação. Marketing é o que faz vender. É o que faz as pessoas desejarem algo que ainda nem sabem que precisam.E Hefes 3.0 está vendendo. Muito.As campanhas estão funcionando, os números estão subindo e os investidores estão felizes. Owen anda com aquele sorriso satisfeito de quem acabou de conquistar o mundo, e Clark já está pensando no próximo passo. Na verdade, no próximo produto.Eles querem trazer de volta os MP4, só que em uma versão moderna, com streaming offline, integração com assistentes inteligentes e uma estética retrô. Eu já sei que vou trabalhar muito nos próximos meses.Mas existe uma grande diferença agora.
Edward Eu acordo devagar. Por um instante ainda fico meio perdido entre sonho e realidade, sentindo apenas calor e um peso confortável sobre o meu peito. Então percebo Evelyn deitada sobre mim, com o cabelo espalhado pelo meu braço e pelo travesseiro, o rosto tranquilo de quem finalmente dormiu sem medo. A respiração dela é lenta e quente contra a minha pele. Meu coração desacelera só de olhar para ela. Durante anos eu imaginei como seria acordar assim novamente. E agora ela está aqui. De verdade. Comigo.Passo a mão devagar pelos cabelos dela, com cuidado para não a acordar. Quero memorizar cada detalhe: a curva da bochecha, os cílios longos, a forma como a boca dela se abre levemente enquanto respira. Mas assim que me mexo um pouco mais, ela se remexe e seus olhos se abrem lentamente. Ela pisca algumas vezes, ainda sonolenta.— Bom dia. — A voz dela sai baixa e rouca de sono.Meu peito aquece. Eu inclino a cabeça e beijo os lábios dela com carinho.— Bom dia. — Passo o polegar
EvelynEu ainda sinto o gosto dele na boca, quente e salgado, enquanto subo por seu corpo, beijando cada centímetro de pele suada. Meu coração bate tão forte que parece que vai sair do peito. Edward me puxa para cima, suas mãos grandes segurando minha cintura com urgência, os olhos verdes escuros de desejo e algo mais profundo, algo que me assusta e me acalma ao mesmo tempo.— Eu te amo — ele sussurra contra meus lábios, sua voz rouca, quebrada. — Porra, Evelyn, eu te amo tanto.Eu não respondo com palavras, somente o beijo com fome, língua dançando com a dele, gemendo quando ele vira nossos corpos e me coloca de costas na cama. O peso dele sobre mim é perfeito. Suas mãos percorrem meu corpo como se quisessem memorizar cada curva, apertando meus seios, roçando os piercings dos mamilos até eu arquear as costas e gemer alto.— Esses peitos… caralho, eles estão ainda mais gostosos — ele rosna, chupando um mamilo com força enquanto a mão desce entre minhas pernas. Dois dedos grossos d
Edward O silêncio dentro do elevador é pesado. O tipo de silêncio que parece ocupar espaço físico entre duas pessoas. As portas se fecham atrás de nós com um som metálico suave, e o elevador começa a subir lentamente pelos andares do prédio. Estou encostado no fundo, olhando para o chão polido, enquanto as luzes frias refletem vagamente nos painéis de aço. Minhas mãos ainda estão fechadas em punhos. Não de raiva, mas de algo muito pior. Decepção.Derek. O nome dele ainda ecoa na minha cabeça como um golpe mal dado. Derek. Meu amigo, pelo menos eu achei que fosse. Anos. Anos de amizade. Risos, viagens, festas, planos. E tudo aquilo era mentira.Solto um pequeno suspiro e passo a mão pelo rosto. Meu lábio ainda dói onde ele acertou o soco, mas a dor física é irrelevante comparada ao que está aqui dentro. Eu nunca fiz nada contra ele. Nunca.Levanto os olhos por um segundo e olho para Evelyn. Ela está ao meu lado, linda em seu vestido azul, mas seu rosto ainda está um pouco tenso. Se







