FAZER LOGINEvelyn
O percurso de volta é um borrão. O enjoo que eu vinha segurando desde o restaurante explode de repente em uma onda violenta que me faz apertar a boca com a mão. Edward percebe na hora, eu vejo pelo canto do olho como ele aperta o volante e o maxilar trava de preocupação. Ele encosta no primeiro posto de gasolina que encontra, um lugar iluminado por lâmpadas fluorescentes amarelas, com cheiro de diesel e café requentado. — Evelyn, amor... você tá bem? — pergunta ele, já soltando o cinto de segurança. Eu não respondo, simplesmente saio tropeçando do carro, correndo para o banheiro feminino, e mal chego ao vaso antes de vomitar tudo. O gosto amargo sobe pela garganta e meus olhos lacrimejam, então me apoio na parede fria de azulejo, tremendo inteira. Meu corpo dói, a cabeça lateja, e eu me sinto péssima. Péssima por estragar a noite, por parecer fraca, por não conseguir nem fingir que está tudo bem. Edward está esperando do lado de fora quando saio, encostado na parede, com os braços cruzados e o rosto sério. — A gente vai para o hospital agora — ele diz, sem espaço para discussão. — Não — respondo rápido, limpando a boca com as costas da mão. — Eu vou ao médico na semana que vem, prometo. Só... só preciso de algo pro estômago e um remédio pra dor de cabeça. Tem uma farmácia aqui ao lado. Ele suspira, mas não briga. Me leva até lá de mãos dadas, como se eu pudesse desabar a qualquer momento. Na farmácia, o ar-condicionado gelado me deixa arrepiada. Eu pego um antiácido, um analgésico, uma água e... meus olhos param nos testes de gravidez expostos na prateleira ao lado do caixa. Aquela fileira colorida com promessa de resposta. Por desencargo de consciência, só por isso, eu pego dois. Claro que vai dar negativo. Eu uso adesivo direitinho, nunca falhei. É só atraso, estresse, besteira, meu ciclo é meio esquisito mesmo. A funcionária do caixa soma tudo devagar demais, digitando cada item como se tivesse o dia inteiro. Eu sinto o suor frio na nuca e meu coração acelerado por nada. Assim que ela entrega a sacola, eu enfio tudo na bolsa sem conferir e me viro, dando de cara com Edward. Ele está bem aqui, dentro da farmácia, com os braços cruzados enquanto me espera. — Eu falei pra você esperar no carro! Era rápido — digo, minha voz saindo mais aguda do que eu queria. Ele ergue uma sobrancelha, mas o tom é suave. — Você demorou. E eu não ia te deixar sozinha. — Ele me olha de cima a baixo, preocupado. — Você tá pálida pra caramba. Tá bem mesmo? — Tô bem — minto, puxando-o pela manga para fora. — Vamos embora. No carro, ele abre a porta do passageiro para mim como sempre faz, um gesto automático que me derrete mesmo quando estou um caco. Eu entro e fecho os olhos por um segundo, respirando fundo. — É melhor você me deixar no dormitório — digo, baixinho. — Eu já estraguei a noite inteira. Ele solta um riso baixo e quente que enche o carro. — De jeito nenhum. Você vai dormir no meu apartamento. Eu vou ficar de olho em você a noite toda, cuidar de você. Eu viro o rosto para ele, sentindo um calor bom subir pelo meu peito apesar de tudo. O cuidado dele, o jeito como ele não aceita me deixar sozinha... isso me toca fundo. Me faz sentir vista, protegida. Eu dou pequeno sorriso sincero. — Obrigada. Mas você não precisa se preocupar tanto. Ele liga o carro, mas antes de sair, se inclina para mim e coloca a mão no meu rosto. — É claro que preciso. Você é a minha namorada. Eu tô fazendo o papel de namorado direitinho. Ele se aproxima mais e dá um beijo suave na minha bochecha, demorado e quente. Meu coração acelera, e as palavras saem antes que eu consiga segurar: — Eu te amo. O silêncio cai por um segundo. Eu o amo. Amo o jeito como ele cuida de mim, como ri das minhas zoações, como me faz sentir que sou importante. Ele não responde com palavras, em vez disso, faz um carinho lento no meu rosto, seu polegar traçando minha bochecha enquanto seus olhos fixam nos meus com uma intensidade que diz mais do que qualquer “eu também”. Só então sai devagar do estacionamento. Eu encosto a cabeça no vidro frio, olhando as luzes da cidade passarem. Não me arrependo do que disse. E o carinho dele, o cuidado, o jeito como me segura sem me sufocar... tudo isso me faz acreditar que ele sente algo perto disso. Perto o suficiente para me dar esperança. Pelo menos por essa noite, com o estômago ainda embrulhado e o coração batendo forte, eu escolho acreditar nisso.Evelyn O sol da tarde está morno na minha pele quando eu abaixo a câmera. Hina corre pela grama com aquela energia caótica que só uma criança de dois anos consegue ter, os cachinhos escuros balançando enquanto ela tenta pegar uma borboleta que claramente não tem nenhuma intenção de ser capturada.Eu rio.— Hina, cuidado!Ela olha para trás só por um segundo e sorri como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo… e continua correndo. Eu não consigo evitar, meu coração simplesmente transborda.Ela é perfeita. Perfeita do jeito bagunçado, curioso, barulhento e absolutamente adorável que só uma criança pode ser. Minha filha. Minha pequena Hina. Eu a amo de um jeito que não sabia que era possível amar alguém. Um amor que parece viver dentro do meu peito o tempo todo, pulsando junto com meu coração.Eu me levanto da grama quando Edward se aproxima e pega Hina no colo. Ela imediatamente envolve os braços no pescoço dele e começa a falar coisas completamente desconexas sobre
Edward O sol da tarde atravessa as folhas das árvores e pinta o parque com uma luz dourada suave. O vento passa devagar, balançando os galhos e espalhando pelo ar aquele cheiro fresco de grama e terra úmida que sempre me lembra de dias tranquilos. Eu estou sentado em um banco de madeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos, apenas observando. Observando-as. Evelyn está alguns metros à frente, agachada na grama com a câmera nas mãos. O cabelo dela está preso de qualquer jeito em um coque bagunçado que ameaça desmoronar a qualquer momento. Algumas mechas escapam e caem sobre seu rosto, e ela sopra o ar impaciente para afastá-las enquanto ajusta o foco da lente. Ela está completamente concentrada, exatamente como fica quando está trabalhando. — Hina, olha para a mamãe! — ela diz, com aquele tom doce que só usa com a nossa filha. E ali está ela. Hina. Nossa menina. O amor da minha vida. Ela está de pé na grama, com um vestido amarelo cheio de pequenas flores brancas, o cabelo escuro
Evelyn Já faz um mês desde a noite do lançamento. Um mês desde aquela festa que parecia apenas o encerramento de um grande projeto, mas acabou se tornando o início de algo muito maior para mim.Hefes 3.0 já está nas lojas, e como diretora de marketing eu não paro um segundo. Porque é exatamente isso que eu sempre digo para Owen e Clark: marketing não é só divulgação. Marketing é o que faz vender. É o que faz as pessoas desejarem algo que ainda nem sabem que precisam.E Hefes 3.0 está vendendo. Muito.As campanhas estão funcionando, os números estão subindo e os investidores estão felizes. Owen anda com aquele sorriso satisfeito de quem acabou de conquistar o mundo, e Clark já está pensando no próximo passo. Na verdade, no próximo produto.Eles querem trazer de volta os MP4, só que em uma versão moderna, com streaming offline, integração com assistentes inteligentes e uma estética retrô. Eu já sei que vou trabalhar muito nos próximos meses.Mas existe uma grande diferença agora.
Edward Eu acordo devagar. Por um instante ainda fico meio perdido entre sonho e realidade, sentindo apenas calor e um peso confortável sobre o meu peito. Então percebo Evelyn deitada sobre mim, com o cabelo espalhado pelo meu braço e pelo travesseiro, o rosto tranquilo de quem finalmente dormiu sem medo. A respiração dela é lenta e quente contra a minha pele. Meu coração desacelera só de olhar para ela. Durante anos eu imaginei como seria acordar assim novamente. E agora ela está aqui. De verdade. Comigo.Passo a mão devagar pelos cabelos dela, com cuidado para não a acordar. Quero memorizar cada detalhe: a curva da bochecha, os cílios longos, a forma como a boca dela se abre levemente enquanto respira. Mas assim que me mexo um pouco mais, ela se remexe e seus olhos se abrem lentamente. Ela pisca algumas vezes, ainda sonolenta.— Bom dia. — A voz dela sai baixa e rouca de sono.Meu peito aquece. Eu inclino a cabeça e beijo os lábios dela com carinho.— Bom dia. — Passo o polegar
EvelynEu ainda sinto o gosto dele na boca, quente e salgado, enquanto subo por seu corpo, beijando cada centímetro de pele suada. Meu coração bate tão forte que parece que vai sair do peito. Edward me puxa para cima, suas mãos grandes segurando minha cintura com urgência, os olhos verdes escuros de desejo e algo mais profundo, algo que me assusta e me acalma ao mesmo tempo.— Eu te amo — ele sussurra contra meus lábios, sua voz rouca, quebrada. — Porra, Evelyn, eu te amo tanto.Eu não respondo com palavras, somente o beijo com fome, língua dançando com a dele, gemendo quando ele vira nossos corpos e me coloca de costas na cama. O peso dele sobre mim é perfeito. Suas mãos percorrem meu corpo como se quisessem memorizar cada curva, apertando meus seios, roçando os piercings dos mamilos até eu arquear as costas e gemer alto.— Esses peitos… caralho, eles estão ainda mais gostosos — ele rosna, chupando um mamilo com força enquanto a mão desce entre minhas pernas. Dois dedos grossos d
Edward O silêncio dentro do elevador é pesado. O tipo de silêncio que parece ocupar espaço físico entre duas pessoas. As portas se fecham atrás de nós com um som metálico suave, e o elevador começa a subir lentamente pelos andares do prédio. Estou encostado no fundo, olhando para o chão polido, enquanto as luzes frias refletem vagamente nos painéis de aço. Minhas mãos ainda estão fechadas em punhos. Não de raiva, mas de algo muito pior. Decepção.Derek. O nome dele ainda ecoa na minha cabeça como um golpe mal dado. Derek. Meu amigo, pelo menos eu achei que fosse. Anos. Anos de amizade. Risos, viagens, festas, planos. E tudo aquilo era mentira.Solto um pequeno suspiro e passo a mão pelo rosto. Meu lábio ainda dói onde ele acertou o soco, mas a dor física é irrelevante comparada ao que está aqui dentro. Eu nunca fiz nada contra ele. Nunca.Levanto os olhos por um segundo e olho para Evelyn. Ela está ao meu lado, linda em seu vestido azul, mas seu rosto ainda está um pouco tenso. Se







