FAZER LOGINCapítulo 3
Astrid Eriksson Meu dedo ainda estava firme no gatilho, o corpo preparado para reagir ao menor movimento, mas tudo o que veio foi um rosto conhecido. Era Alexei, e ao lado dele, Maria Luíza. Soltei o ar devagar, mas não abaixei a arma de imediato pela tensão. — O que foi isso, hein? Em pleno dia do casamento? — Alexei perguntou, analisando os corpos no chão com aquele olhar frio e calculista de sempre. João Miguel respondeu antes que eu dissesse qualquer coisa. — Alguém queria impedir o casamento. Só esqueceram com quem estavam lidando. Deveriam ter se preparado melhor. Cruzei os braços, ainda sentindo a adrenalina pulsando nas veias. — Amadores. Maria Luíza passou os olhos rapidamente por mim, avaliando se eu estava ferida. — Tá tudo bem? — perguntou mesmo não vendo algum estrago. — Estou sim, Malu. E vocês? Afinal também deveriam estar no hotel. O que aconteceu? Alexei começou a dizer: — Eu e a Malu estávamos esperando a Astrid, mas quando vimos fumaça no hotel subimos rapidamente — Alexei continuou. — Da janela de uma das escadas vi os nossos dois carros sendo roubados e, como trouxemos poucos homens, descemos pra resolver. Nils apareceu com o carro dele e conseguimos recuperar tudo. Meu olhar encontrou Nils, e, pela primeira vez desde que tudo começou, senti um alívio real. Ele estava bem. Intacto. Nos conhecemos a anos aqui da Suécia. Assenti de leve. — Parece que a nossa equipe da Suécia é ótima... — comentei, arrumando minha arma antes de finalmente guardá-la. Foi então que o celular de João tocou. Ele se afastou, falando baixo. Observei sua postura, a tensão ainda estava ali, mas não era só pelo ataque. Era pelo que aquilo significava. Quando voltou, já vinha decidido. — Precisamos nos apressar. Estamos atrasados. Meu pai já está preocupado. Estão todos nos esperando. Maria Luíza olhou para mim. — Astrid precisa trocar de roupa? Passei a mão pelo vestido branco. A barra estava suja, havia poeira e um pequeno rasgo quase imperceptível. Nada que importasse. — Não. Só me desfiz da luva, o resto está ok. E estava mesmo, porque aquilo também fazia parte de quem eu era. — Certo, então vamos — João disse, já assumindo o comando. — Ragnar, você cuida da limpeza aqui? — Claro, Don. A palavra "Don" ainda soava nova, mas ninguém contestava. Nils deu um passo à frente. — Eu ajudo Ragnar. — Mas eu não concordei com aquilo. — Ragnar resolve, Nils — cortei, firme. — Quero você na cerimônia. Senti o olhar de João sobre mim. Sua mão foi pra cintura me olhando. — O que foi? — O questionei — Nils é como um irmão. Ele não gostou. Vi no maxilar travado, mas não discutiu. Nils hesitou. — Não quero causar problemas, Don. Posso ficar aqui— ele é tão atencioso e bom. — Não — João interrompeu movendo a cabeça. — Se Astrid quer você na cerimônia, não tem discussão. Você vem. Isso me fez olhar para ele por um segundo. Não era só autoridade. Era outra coisa que eu ainda não queria nomear. Ele pensou em mim. Nils assentiu e foi até o carro. Eu entrei no carro de Alexei com João logo atrás. Não era o protocolo porque deveríamos estar cada um num carro, não era o certo ele me ver de noiva antes da hora, mas depois de tudo aquilo, ninguém ali estava interessado em seguir etiqueta. O caminho foi silencioso, mas não confortável. Eu sentia o olhar de João em alguns momentos e, por mais que não olhasse diretamente, sabia que ele também estava sentindo como as coisas estavam mudando. Afinal, agora tudo mudaria. Quando chegamos ao reduto sueco, tudo já estava preparado. O jardim estava impecável, como se não tivesse existido caos nenhum minutos antes. Desci do carro sem dizer nada. João seguiu com os outros até a cerimônia e fiquei sozinha por alguns minutos. Esperando ouvir a música que diria o momento em que eu deveria entrar. Então de repente ouvi: — Vim levar a noiva até o altar. — Virei o rosto. Era Hugo. Um sorriso escapou antes mesmo que eu pudesse conter. — Achei que não viria. Aliás, que ninguém viria. — Não perderia isso por nada. — Ele estendeu o braço. Segurei. E, pela primeira vez naquele dia, respirei de verdade. Caminhamos até a entrada do jardim. O ambiente era mais íntimo do que muitos esperariam, nada exagerado, nada público. Apenas os Strondda, os suecos e aqueles que realmente importavam do conselho da máfia. Soldados fazendo a segurança e pessoas que sabiam exatamente o que aquele casamento significava. Não era romance. Era poder, aliança. Era guerra disfarçada de união para algum sueco por aí. A música começou, baixa e elegante. Dei o primeiro passo, e então outro. Meu olhar foi direto até ele. João Miguel já estava no altar, com a postura firme e os olhos travados em mim, como se todo o resto tivesse desaparecido. Meu coração não acelerou como deveria. Mas também não estava frio, e isso me irritou. Continuei andando, controlada, precisa, com cada passo calculado. Até que algo quebrou o ritmo. Uma sensação estranha como se alguém ali não quisesse esse casamento. Como se quem tivesse tramado contra nós estivesse assistindo a cerimônia com algum sorriso falso. E isso infelizmente é muito provável no nosso meio. Meu olhar desviou por instinto olhando para os convidados. E então eu vi. Ela. A mulher do hotel, sentada ali, entre os convidados, como se pertencesse àquele lugar. Quem convidou essa mulher? Meu passo falhou, quase imperceptível, mas Hugo sentiu. — Astrid… — murmurou baixo. Ignorei. Endireitei a postura, levantei o queixo e continuei andando, meus olhos não saíram dela. Minha arma estava bem posicionada por baixo do vestido...Capítulo 206 Narrativa da autora. Meses depois. Lars Lindström já bem debilitado havia feito um último pedido a Karl. Queria que eles deixassem Emil conhecer os sobrinhos. Ambos os irmãos acabaram aceitando pelo pai e levaram seus filhos lá pra ele conhecer. Mas a mudança de Emil parecia sincera dessa vez. Talvez estivesse arrependido ou com algum remorso, apenas. Hugo e Karl sabiam dos riscos, e aceitaram com olhares dobrados sobre ele. — Eu sinto muito por tudo que fiz. Sei que estava errado e não mereço perdão, mas peço mesmo assim. Me deixaram viver e isso é importante. — Disse Emil ao ver as três crianças a poucos metros com as mães assim que ele as viu. — Eu realmente espero que tenha mudado Emil. — Hugo disse sério. — Obrigado... Conhecer meus sobrinhos é muito importante. Me faz pensar que não tive filhos. Nossa mãe, Karl... Ela me induziu a fazer muita coisa. Sei que não justifica, mas se tivesse prestado atenção no nosso pai como Hugo fez, talvez tudo tivesse
Capítulo 205 Giulia Strondda Caruso A dor me rasgou como se alguém estivesse partindo meu corpo ao meio. Ele virou a cabeça para mim no mesmo instante. Seus olhos azuis se arregalaram. A arma que apontava para o homem e a menina tremeu pela primeira vez. — Giulia! Eu não conseguia responder. A dor era diferente agora — profunda, violenta, como se meus ossos estivessem se partindo por dentro. Outra contração veio, ainda mais violenta. Senti algo quente escorrendo entre as minhas pernas. — KARL! O QUE EU FAÇO? Karl ficou paralisado por meio segundo. Outra contração me rasgou. Um grito escapou da minha garganta, rouco e longo. O médico se aproximou devagar, as mãos erguidas. Karl reagiu como um animal. Em um movimento brutal, ele agarrou a menina pelos cabelos e puxou-a contra o próprio corpo, apontando a pistola para a cabeça dela. — Se você errar um único movimento com a minha mulher ou meus filhos — rosnou para o médico, a voz mortalmente baixa —, eu
Capítulo 204 Giulia Strondda Caruso Eu estava com uma barriga tão grande que mal conseguia ver meus próprios pés. Os gêmeos pareciam ter resolvido ocupar cada centímetro disponível dentro de mim. A dor nas costas era constante, a respiração curta, e cada movimento exigia um esforço que eu tentava esconder de Karl. Mesmo assim, não conseguia parar de sorrir toda vez que olhava para ele. Ele tentava ser durão. Tentava com todas as forças. Mas bastava eu respirar um pouco mais fundo ou mudar de posição no banco que ele virava a cabeça imediatamente, os olhos azuis varrendo meu rosto em busca de qualquer sinal de desconforto. — Eu nem acredito que estamos viajando duas horas só para buscar uma fruta, Karl — reclamei, reclinando o banco o máximo que a barriga permitia. Ele manteve as mãos firmes no volante, olhar fixo na estrada. — Nossos filhos não vão ficar com vontade de nada. Muito menos você, Giulia. Se você quer a fruta da árvore, vamos buscar a fruta da árv
Capítulo 203Don João Miguel Fernandes(Meses depois)Eu sempre achei que comandar uma máfia fosse complicado.Não é.Complicado é impedir um bebê de sete meses de escalar uma estante. Johan estava exatamente tentando fazer isso naquele momento.Eu o peguei pela cintura antes que conseguisse alcançar a segunda prateleira da biblioteca e o ergui no ar.— Nem pensar.Meu filho respondeu com uma gargalhada e tentou agarrar meu nariz. Atrás de mim, Astrid riu.— Ele faz isso porque sabe que você vai impedir.— Ele tem sete meses.— Exatamente. Já entendeu como você funciona.Balancei a cabeça e sentei Johan sobre meu antebraço. O pequeno imediatamente começou a puxar o colarinho da minha camisa enquanto observava tudo ao redor com enorme interesse.Era impressionante. Em poucos meses ele havia transformado completamente a rotina da casa.Os relatórios continuavam chegando, as reuniões continuavam acontecendo, os problemas continuavam existindo, mas agora tudo parecia menor quando comparad
Capítulo 202Don João Miguel FernandesQuatro meses e meio haviam se passado desde o nascimento de Johan, e eu estava completamente perdido em casa.Nunca imaginei que um ser humano tão pequeno pudesse dominar um homem como eu. Johan Eriksson Fernandes tinha apenas quatro meses e meio, mas já comandava a casa inteira com um simples olhar ou um chorinho manhoso. Eu passava horas olhando para ele enquanto dormia, segurando sua mãozinha, ou simplesmente observando aqueles olhos azuis idênticos aos da mãe.Astrid não perdia nenhuma oportunidade de me zoar.— Olha só pra você — disse ela naquela manhã, encostada no batente da porta do quarto do bebê, braços cruzados sobre a barriga já bem chapada — O Don da Suécia, o homem que fez a África tremer, agora derretido por causa de um bebê que nem sabe falar ainda.Eu nem me dei ao trabalho de negar. Estava sentado na poltrona com Johan no colo, balançando-o devagar enquanto ele dormia.— Ele sorriu pra mim ontem — respondi, sério. — Foi um sorr
Capítulo 201 Karl Lindström Eu ainda estava fervendo quando chegamos ao reduto. O carro mal havia parado e eu já abri a porta do passageiro, segurando o braço de Giulia com firmeza — não o suficiente para machucar, mas o bastante para ela entender que não era uma sugestão. Ela me lançou um olhar afiado, mas não resistiu quando eu a puxei para fora do veículo. — Karl… — começou ela. — Agora não — cortei, a voz baixa e rouca de raiva. João Miguel e Astrid chegaram logo atrás. O Don carregava o pequeno Johan no colo como se o bebê fosse feito de vidro. Toda a família já esperava na entrada principal: Ragnar, Lorenzo, alguns capos antigos e até alguns soldados que não conseguiam esconder a curiosidade. Provavelmente, a família Strondda já esteja viajando pra conhecer o novo membro. Astrid estava radiante, mesmo exausta. Johan dormia tranquilamente nos braços do pai. Por um momento, a imagem me atingiu — meu Don, o homem mais temido da Suécia, completamente derreti