INICIAR SESIÓNEle me estendeu o braço, como um cavalheiro que conduz, mas havia algo naquela simples ação que carregava autoridade demais para ser só cortesia. Hesitei por um segundo, antes de aceitar. Por um instante tive a sensação de estar firmando um acordo invisível.
— Pronta? — a pergunta saiu baixa, quase um comando. Assenti, permitindo que ele me guiasse até o elevador. O silêncio entre nós era espesso, e eu me peguei olhando de soslaio, tentando adivinhar o que se passava por trás daquela expressão inabalável. Ele não parecia nervoso, tampouco animado para o jantar. Spencer caminhava como quem sabe exatamente onde deve estar — e quem deve controlar. Quando entramos no carro, ele se acomodou ao meu lado no banco traseiro. O motorista fechou a porta, e o mundo lá fora ficou para trás. A tensão, no entanto, estava toda ali dentro. — Você… costuma escolher as roupas das mulheres que o acompanham? — perguntei, tentando soar irônica, mas minha voz saiu mais curiosa do que eu queria. Ele voltou o rosto para mim, e o canto de sua boca se ergueu num quase sorriso. — Apenas quando a ocasião exige perfeição. Franzi o cenho. — E eu não poderia escolher minha própria roupa? — Poderia. — Ele inclinou a cabeça levemente, os olhos presos nos meus. — Mas talvez não acertasse no que eu queria. Um arrepio percorreu minha nuca. Era como se ele tivesse dito muito mais do que aquilo. — E o que exatamente você queria? — desafiei, sem quebrar o olhar. Spencer demorou alguns segundos para responder, como se estivesse decidindo se valia a pena me dar uma resposta. Finalmente, murmurou: — Que todos a notassem… mas que ninguém ousasse se aproximar. Meu coração tropeçou dentro do peito. Eu não sabia se aquilo era proteção, arrogância ou uma obsessão disfarçada. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo. Virei o rosto para a janela, tentando disfarçar a confusão que me corroía. O reflexo no vidro devolveu a imagem de uma mulher diferente — arrumada, elegante, pertencente a um universo que não era o dela. E ele, sentado ao meu lado, parecia saber disso desde o início. — Não entendo por que insiste em me escolher — sussurrei, mais para mim do que para ele. Mas Spencer ouviu. Sempre ouvia. — Porque você ainda não entende — disse calmamente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — E é justamente isso que me interessa. Virei para ele, confusa. — O que eu não entendo? Seus olhos mergulharam nos meus, firmes, enigmáticos. E, antes que eu pudesse obter qualquer explicação, o carro reduziu a velocidade diante de um luxuoso salão iluminado, onde dezenas de pessoas desfilavam vestidos e ternos caros. Spencer apenas ajeitou a gravata e abriu a porta. — Vamos descobrir, Lucile. E estendeu o braço mais uma vez, agora diante de um mundo que parecia me engolir inteira. Do lado de fora, um tapete vermelho se estendia até a entrada, e flashes pipocavam de todos os lados. Jornalistas, fotógrafos e curiosos aguardavam os convidados. Minha primeira reação foi prender a respiração.1 ano depois O vento da praia tinha o cheiro de sal que sempre parece abrir espaço no peito, como se dissesse “respira, garota… olha onde você chegou”. Um ano tinha passado. Um ano inteiro desde a última conversa com meu pai — mesmo que fosse em silêncio —, desde o funeral, desde a leitura daquele testamento que virou minha vida de cabeça pra baixo. A vida deu voltas, e eu fui junto, tropeçando, mas sem quebrar. E agora eu estava ali, perto da costa, com o vestido que sempre imaginei, mas nunca achei que teria coragem de usar. A história começou a se encaixar muito antes desse dia. Destinei parte da herança para minha mãe porque parecia justo. Não justo como “equilibrar uma conta”, mas justo como “fazer o universo parar de pesar só pra ela”. Ela aceitou, discutiu um pouco, tentou recusar, tudo muito típico dela. No fim, pegou o suficiente para manter o abrigo funcionando exatamente do jeito que sonhava. Ela continua trabalhando lá todos os dias, com o jeito teimoso de quem achou
Depois que levaram o corpo do meu pai para algum lugar onde eu não precisava mais ouvir o barulho das máquinas sendo desligadas, fiquei parada no corredor, sentada num banco duro que cheirava a desinfetante barato. Era como se meu corpo tivesse sido deixado ali antes da minha alma chegar, porque eu me sentia meio atrasada dentro de mim mesma, meio flutuando. Aquele corredor branco não ajudava. As pessoas passavam como vultos cansados, e eu não sabia se queria que alguém parasse pra falar comigo ou se preferia que todos sumissem. Lydia se sentou devagar ao meu lado, como se tivesse medo de me quebrar com a aproximação. Quando ela tocou meu ombro, o gesto foi tão suave que por um segundo parecia que eu ia desabar só por ter alguém fazendo isso do jeito certo. — Ele pediu pra entregar isso se você viesse… — ela disse, tirando um envelope da bolsa. Olhei praquilo como se fosse um bicho que eu não sabia se atacava ou se ignorava. Era um envelope comum, mas parecia pesado demais na
Levantei da cama com a cabeça ainda pesada da noite em claro. Foi ridículo o tanto que eu rodei de um lado pro outro, tentando convencer meu cérebro a desligar. A verdade é que não desligou. Cada palavra da minha mãe ficou martelando, como se tivesse sido colada por dentro do meu peito. A ideia do meu pai pedindo por mim soava absurda… mas, ao mesmo tempo, era uma porta que talvez eu precisava fechar de uma vez. Não por ele. Por mim. Eu já estava cansada de carregar fantasmas, e essa era a chance de deixar esse, pelo menos esse, descansando em algum canto que não me atormentasse mais. Matt estava na cozinha quando desci. Ele levantou os olhos cheio de uma preocupação silenciosa. — Acho que preciso vê-lo. — falei. — Você não precisa fazer isso — disse, chegando perto, como se as palavras pudessem me ajudar a respirar melhor. — Eu sei que não preciso… mas talvez eu precise — respondi, sentindo o nó na garganta que eu jurava ter deixado no travesseiro. — Quero encerrar esse c
Matt tinha levado Cori para dar uma volta no parque — ele andava preocupado dela se sentir empurrada para o canto com a chegada dos gêmeos. E, no fundo, eu sabia que ele tinha razão. O coração de uma criança é uma coisa delicada, ainda mais quando passa a dividir a casa com dois recém-chegados que mamam, choram e ocupam todos os braços disponíveis, e toda a atenção. Eu estava deitada, exausta daquele jeito que só quem amamenta dois de uma vez entende. A camisola meio aberta, os seios ainda sensíveis, o corpo pedindo cinco vidas de descanso enquanto a cabeça tentava organizar o caos. Thomas tinha acabado de dormir, Emma estava apagada no colo da Jesse quando minha mãe se levantou para atender o celular na sala. Eu fechei os olhos por alguns segundos. O suficiente para a mente divagar entre preocupações e a estranha paz de ver meus filhos respirando. Quando minha mãe voltou, percebi antes mesmo de ela abrir a boca. O rosto dela estava pálido, tenso, como se tivesse visto alguém q
A alta veio num fim de tarde estranho, quando o hospital parecia suspenso num silêncio que só existe depois de dias de ansiedade acumulada. Saí de lá com dois bebês minúsculos, uma filha histérica de alegria e medo, uma mãe que eu ainda não sabia como encaixar na minha vida e um companheiro atento como se fosse meu guarda-costas. O carro até parecia pequeno demais para tanta gente, mas chegamos inteiros — física e emocionalmente, mais ou menos. Cori correu pela casa antes mesmo de tirarmos os sapatos, abrindo caminho para o enxame de sentimentos que veio atrás. Ela parava na frente dos berços, depois no bebê conforto, depois no meu colo, como se tivesse medo de perder algum detalhe daquela nova fase. Matt estava grudado em mim, ajeitando meus passos, conferindo se eu estava tudo bem, segurando minha mão quase o tempo todo. Lucile e minha mãe entraram logo depois, cada uma pegando um dos gêmeos como se já tivessem combinado isso muito antes de chegarmos. Minha mãe com Emma; Luci
Eu estava encarando o teto quando Matt apareceu na porta, com aquela mesma expressão de quando tenta ser forte e falha miseravelmente. Os olhos dele me procuraram primeiro, depois minha barriga, depois voltaram para mim como se quisessem confirmar que eu ainda estava inteira. — Você tá bem? — ele perguntou, já chegando perto. — Eu tô… eu acho. Só tô com medo. Os bebês... — respondi sem rodeios, porque não havia mais espaço pra fingimento naquele quarto que cheirava a álcool e ansiedade. Matt segurou minha mão com força suficiente para ancorar meu corpo no planeta. — Eu falei com a médica. Eles estão bem. Mas… — ele engoliu em seco — …estão dando sinais de que podem nascer a qualquer momento. E talvez você precise de uma cesária. Sua pressão está um pouco alta. Meu coração falhou uma batida inteira. — E a Cori? Onde ela está? — A Lucile levou ela pra casa dela. Quis te dar sossego pra não se preocupar. Jesse te mandou lembranças e disse que viria depois ver os bebês.







