Se connecterAcordei decidido. De uma forma que não sentia há muito tempo. Pela primeira vez em semanas não havia dúvida pairando no ar, não havia indecisão me puxando pra trás, não havia justificativa nenhuma pra adiar. O momento era aquele.O papel continuava sobre a mesa, amassado de tanto que eu tinha lido e relido. A tinta já parecia quase desbotada de tanto olhar.Galpão 17.Distrito Industrial.Era tudo. Nada mais. Sem nome, sem explicação, sem assinatura. E aquilo bastava. Bastava pra me fazer levantar, lavar o rosto, respirar fundo e seguir.Saí cedo. A cidade ainda despertava devagar, como quem abre os olhos com preguiça. As ruas estavam mais vazias que o normal, com aquele ar úmido de manhã cedo, poucos carros passando, poucas pessoas na calçada. Passei na padaria de sempre, aquela que já conhece meus gostos. Comprei um café forte e fumegante e um pão com manteiga quentinho. Sentei na mesa perto da janela, do jeito que gosto.Precisava organizar meus pensamentos antes de dar qualquer pa
Acordei antes de Bella.Algo muito raro. Muito, muito raro mesmo. Normalmente ela conseguia transformar qualquer manhã tranquila numa verdadeira competição olímpica de barulho, pulo e voz alta — parecia que o sol não podia nascer sem que ela já estivesse correndo pelos cantos, cantando, chamando, fazendo da casa um lugar cheio de vida. Mas hoje ,nesse dia… não. O silêncio vinha antes do Aquele telefonema de Leandro me deixou pior, não porque ele sumiu.Isso é do feitio dele,as vezes não conheço ele direito, não sei se ele some por medo ou querendo resolver as coisas.Fui até a cozinha devagar, na ponta dos pés, como se não quisesse que o dia me notasse ainda. Coloquei água para ferver. O som da água enchendo a chaleira foi a primeira coisa que ouvi, suave, familiar. Abri a janela e o ar fresco da manhã entrou devagar, trazendo o cheiro de grama molhada e café de longe.Na casa da frente, uma mulher regava as plantas com calma, o jato d’água brilhando no sol que começava a aparecer. Um
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Eu vi Bela me olhando,eu fingir que não a vi, fui deitar...Durante a noite não consegui dormi. De jeito nenhum. Tentei. Deitei, fechei os olhos, contei até cem, respirei devagar… mas a mente não parava. Levantei, fui até a cozinha, voltei para a cama. Acendi a televisão, passei os canais, desliguei de novo. Nada funcionava. O envelope continuava ali, sobre a mesa da sala, visível de qualquer canto do cômodo. Parecia-me observar. Me vigiar. Toda vez que eu passava por ele, os olhos desciam sozinhos para a frase, lendo de novo, como se pudesse mudar de alguma forma:"Pare de procurar respostas sobre sua mãe antes que Bella pague o preço."Era impossível ignorar. Se a ameaça fosse contra mim, talvez eu até conseguisse deixar de lado, fingir que não vi. Mas não era. Era ela. A Bela. Uma criança que não tinha nada a ver com isso. Nada. Ela não escolheu nenhum dos lados. Não fez mal a ninguém. Só queria saber de brinquedos, de filmes
ConsequênciasEu estava na cozinha, com o café fumegando na mesa, quando a Bela apareceu ali na porta, com uma das minhas revistas nas mãos, aberta no meio, os olhinhos brilhando de curiosidade.— Mãe.— Hm? — respondi, sem tirar os olhos da xícara.— Você sabia que a Mônica ideia o Cebolinha?ela bate nele sempre com o coelhinho azul.Olhei para ela por cima da borda da xícara, segurando o riso:— Como é que você observa essas coisas, hein?— Está aqui, ó bem grande! — apontou o dedinho para a página.— E por que você está lvendo essa revista de gente grande? — perguntei, secando a mão no avental.— Pesquisa ,mas o que Cebolinha e Mônica está fazendo na revista de gente grande?— Disse ela, com a seriedade de uma professora.— Eu não queria acabar com sua fantasia, mas a turma da Mônica e mais velha do que eu e você?__ Mas você é velha mamãe? É mais velha que o papai?__ Seu pai é mais velho que eu pouca coisa.__ Não acledito!__Entao tá ficando aí bobinha.Bela ficou séria, endire







