INICIAR SESIÓNValentina
— É isso? — ele perguntou, sem emoção. — Foi isso que me mandaram?
Eu não respondi. O silêncio era a única coisa que eu ainda controlava. Dante Vitale deu um passo à frente. Depois outro. Devagar. Como um predador que não precisa correr porque sabe que a presa não tem para onde ir. O som dos sapatos dele contra o mármore ecoava baixo, calculado, cada passo marcando território. O olhar percorreu meu rosto, demorou um segundo a mais nos meus olhos, depois desceu pelo meu corpo como se estivesse lendo um relatório silencioso. Não havia pressa. Não havia pressa nenhuma. — Seu nome. — Valentina. — respondi, firme, mesmo com a garganta seca. — Valentina Rojas. Ele inclinou levemente a cabeça, como quem registra uma informação para uso futuro. — Quantos anos? — Vinte e dois. — Virgem? — perguntou, sem rodeios, com um tom que misturava desdém e certeza. Engoli seco. Eu sabia por que ele queria saber. Sabia antes mesmo de entrar naquele lugar. — Sim. Dante assentiu uma única vez. Um gesto frio. Definitivo. — Boa. A palavra me feriu mais do que um insulto. — Boa pra quê? — disparei, antes que pudesse me impedir. Ele sorriu. Não foi um sorriso bonito. Foi um sorriso letal. — Você sabe exatamente pra quê. — Sei, sim. — rebati, sentindo o veneno escorrer pelas palavras. — Que um pervertido como você gosta de comprar virgens. O sorriso dele não desapareceu. Apenas mudou de forma. — Acha que te comprei pela sua pureza? — devolveu, frio. Pisquei, confusa apesar de mim mesma. — Não foi por isso? — Sua pureza não me interessa. — disse ele, sem hesitar. — Mas não posso negar… foi um bônus. Meu estômago revirou. — Então por quê? Os olhos cinzentos me encararam com atenção redobrada, como se aquela fosse a primeira pergunta que realmente valesse a pena responder. — Eu quero um herdeiro. — afirmou. — E você vai me dar um. Minha respiração falhou. — Um… herdeiro? — repeti, sentindo o chão sumir sob meus pés. — Eu não concordei com isso. — Acredito que você não esteja em posição de decidir, senhorita Rojas. — Por que precisa sequestrar alguém pra isso? — rebati, cruzando os braços para esconder o tremor. — Já ouviu falar em adoção? Ou inseminação artificial? Ele deu uma risada baixa. Sem humor. — Primeiro: eu não sequestrei. Eu paguei. — respondeu, e meu corpo reagiu no mesmo instante, lembrando de Giovanni. — E muito bem pela senhorita. — Segundo: sabe quem eu sou? Não corro riscos. Não coloco meu nome em clínicas. Quero um herdeiro legítimo. Sangue do meu sangue. — Eu não aceito. — falei, cada palavra sustentada por pura teimosia. — Eu não vou ter um filho seu. — Já disse. — Dante deu mais um passo, invadindo meu espaço. — Não está nas suas mãos essa decisão. Cruzei os braços com mais força. Meu corpo tremia por dentro, mas eu me recusava a abaixar a cabeça. — E o que me impede de fugir? Ele chegou perto o bastante para que eu sentisse o perfume caro que usava. Amadeirado. Envolvente. Cruel. Meu corpo reagiu antes da razão, e eu odiei cada segundo disso. Dante abaixou a cabeça e murmurou, a voz quase um roçar na minha pele: — Nada impede. Ele ergueu meu queixo com firmeza. — Mas você vai descobrir… que ninguém foge de mim. Nem o passado. — seus olhos se cravaram nos meus. — Nem o futuro. Ele me soltou e se virou para um dos homens. — Levem-na para o quarto da ala leste. — Qual deles, senhor? Dante olhou por cima do ombro. O olhar era puro aço. — O mais próximo do meu. Não disse mais nada. O guarda segurou meu braço e me conduziu em silêncio por corredores longos demais, frios demais. Parou diante de uma porta, abriu com força e me empurrou para dentro. A porta se fechou atrás de mim com um tranco seco. O som do trinco ecoou alto. Definitivo. O quarto era grande. Luxuoso. Gelado. Uma cama de casal enorme. Lençóis brancos impecáveis. Uma bandeja com comida que eu não pedi. Nenhuma janela. Só uma porta. E um silêncio que gritava. Sentei na beira da cama, tentando processar tudo. Minha vida tinha mudado por causa de um bilhete. “Ela é virgem. É perfeita para o acordo.” Fechei os olhos. Eu ia sobreviver. Mesmo que, no final, não restasse nada de mim além de uma cicatriz. A porta se abriu. Levantei num reflexo. Uma mulher entrou com uma caixa nas mãos. — Sou Teresa. — disse, sem emoção. — Você vai se lavar e vestir isso. O senhor Vitale quer vê-la depois do jantar. — E se eu não quiser? Ela não respondeu. Apenas colocou a caixa sobre a poltrona. Antes de sair, murmurou: — Ele quer um herdeiro. E você foi comprada pra isso. Pelo seu bem… só obedeça. Quando fiquei sozinha, a humilhação gritou dentro de mim. Um objeto. Uma barriga. Um nada. Entrei no banho. A água quente caiu sobre meu corpo, mas não limpou nada. Nem a traição. Nem a venda. Nem o nojo de mim mesma por ainda estar respirando. Vesti o vestido preto. Justo demais. Provocante demais. Escolhido para marcar posse. No espelho, vi uma mulher que eu mal reconhecia. Mas ainda havia fogo no olhar. A porta se abriu sem aviso. Dante entrou. Sem paletó. Camisa preta aberta nos primeiros botões. Tatuagens insinuando perigo. Dominante. Inaceitavelmente bonito. — Bonita. — disse, como um dado. — Mas não comprei você pela beleza. Não comprei você. As palavras ecoaram como sentença. Ele se aproximou. Observou. Estudou. — Não vai demorar, Valentina. — falou. — Você vai entender seu lugar aqui. — E qual é esse lugar? — desafiei. Dante sorriu. Chegou perto demais. Quente demais. — Em cima da minha cama. Comigo dentro de você. — se afastou antes de concluir. — Só até deixar aí dentro o herdeiro que eu comprei. E então ele saiu. Me deixando tremendo. De raiva. De medo. E de algo mais… que eu me recusava a nomear.EpílogoDanteDois anos depois.A casa cheirava a cera de madeira antiga e biscoitos de canela. Parei na porta da biblioteca, apoiando o ombro no batente, sem fazer barulho. Eu tinha acabado de chegar de uma viagem de três dias a Milão e estava exausto, com o cheiro de aeroporto e reuniões entediantes impregnado na roupa.Mas aquela cena... aquela cena limpou minha alma instantaneamente. A luz dourada do fim de tarde entrava pelas janelas altas. Valentina estava sentada ao piano de cauda. Ela tocava algo suave, uma melodia que parecia flutuar no ar, os dedos dançando sobre as teclas com uma leveza que contrastava com a força que eu sabia que aquelas mãos tinham.No sofá de veludo, Sofia estava esparramada, com os pés apoiados numa pilha de almofadas, massageando o tornozelo inchado. A barriga de sete meses de gravidez era uma curva proeminente sob o vestido florido.- Eu juro, Tina... - Sofia resmungava, interrompendo a música. - Se o Mario me disser mais uma vez para "ficar calma", e
Dante Eu enfrentei exércitos. Negociei com terroristas. Sobrevivi a torturas e enterrei inimigos com as minhas próprias mãos. Mas nunca, em trinta e dois anos de vida, minhas mãos suaram tanto quanto agora. Ajeitei a gravata pela décima vez na frente do espelho do hall. O nó estava perfeito, mas parecia apertar minha garganta. - Se você mexer nessa gravata de novo, eu vou chamar a Teresa para te dar uma colherada na mão. Virei-me. Mario estava encostado na porta, um copo de uísque na mão e um sorriso debochado no rosto. O Sottocapo parecia irritantemente calmo. - A segurança? - perguntei, ignorando a piada. - O perímetro está fechado, Dante. - Mario revirou os olhos, desencostando da porta. - Temos atiradores nos telhados, drones no ar e mais homens armados disfarçados de garçons do que garçons de verdade. Nem uma mosca entra aqui sem autorização. Relaxe. Hoje é dia de paz. Ele me estendeu o copo. - Beba. Você parece que vai vomitar. Peguei o copo e virei o líquido âmbar de u
ValentinaTrês meses.Noventa dias de fisioterapia, exercícios respiratórios para fortalecer meu pulmão remendado e sessões de fonoaudiologia para que minha voz voltasse a ser mais do que um sussurro rouco.A recuperação foi uma escalada lenta, mas a vista do topo valia a pena. A mansão Vitale nunca esteve tão viva. O silêncio solene dos corredores tinha sido substituído pelo som de joelhos pequenos batendo no chão de madeira e balbucios que soavam como ordens ditatoriais.Nicolau e Vittoria estavam com oito meses. E eram o caos encarnado. Nico engatinhava como um tanque de guerra, derrubando tudo o que via pela frente, com a força bruta do pai. Vittoria era rápida, estratégica; ela esperava o irmão derrubar a barreira de almofadas para passar pelo buraco.Eu estava sentada no tapete da sala, rindo enquanto Nico tentava comer o pé da mesa e Vittoria puxava a orelha de um urso de pelúcia.- Eles vão destruir a casa antes de completarem um ano. - Elisa comentou, passando com uma pilha d
Valentina Acordar não foi como acender uma luz. Foi como emergir de um oceano profundo e escuro. Primeiro veio o som: o bipe rítmico, a respiração pesada de alguém ao meu lado. Depois veio o toque: uma mão grande, áspera e quente segurando a minha. E por último, a dor. Não era a dor aguda do tiro. Era uma dor surda, de corpo esquecido, de músculos atrofiados. Tentei engolir e senti um bloqueio estranho na garganta. Algo plástico. Algo errado. Levei a mão ao pescoço, os dedos trêmulos tocando o curativo, o tubo pequeno. - Calma, Tina. - A voz de Chiara veio do outro lado, profissional, mas embargada de alívio. - Não tente falar. Você está com uma traqueostomia. Vai incomodar um pouco, mas é o que te ajudou a respirar. Abri os olhos completamente. A luz do abajur era fraca, dourada. Dante estava ajoelhado ao meu lado. O rosto dele... meu Deus. Ele estava barbudo, com olheiras profundas, mas o sorriso que ele me deu foi a coisa mais bonita que já vi na vida. - Você voltou. - ele s
Dante Dois meses. Sessenta e um dias. Mil, quatrocentas e sessenta e quatro horas. Eu aprendi a contar o tempo não por relógios ou prazos de carregamentos, mas pelos bipes de um monitor cardíaco e pelas mamadas de duas crianças que não entendem por que a mãe não vem quando elas choram. Transformei a ala leste da mansão em um hospital de ponta. A Doutora Chiara praticamente mora aqui. Três enfermeiras se revezavam em turnos de oito horas. O quarto onde Valentina dormia cheirava a antisséptico e lavanda, o cheiro dela lutando contra o cheiro da medicina. A ferida no peito dela estava fechada. A cicatriz, uma linha rosada e furiosa, era a marca da bala que deveria ter me matado, não ela. O corpo estava curado. Os ossos, colados. Mas a mente... a mente dela decidiu vagar por lugares onde eu não podia entrar. Desci as escadas com a camisa social desabotoada, manchas de leite no ombro esquerdo e olheiras que nenhum dinheiro no mundo podia apagar. Na sala de estar, o caos habitual da
Dante O mundo era barulho. Sirenes. Gritos. O som do monitor cardíaco falhando. Mas dentro da minha cabeça, havia apenas um silêncio branco. Eu estava dentro da ambulância. Minhas mãos ainda pressionavam a gaze sobre o peito dela, embora o paramédico tivesse tentado me afastar duas vezes. - O senhor precisa soltar! - ele gritou. - Se eu soltar, ela sangra! - rosnei, e ele viu nos meus olhos que eu mataria qualquer um que me impedisse de tentar salvá-la. - Dirija essa merda mais rápido! Eu olhava para o rosto dela. Pálido. Cinza. A máscara de oxigênio embaçava ritmicamente, cada vez mais fraca. - Não ouse. - sussurrei perto do ouvido dela, ignorando o caos ao redor. - Você não tem permissão para ir, Valentina. Eu não autorizei. Você me ouviu? Eu não autorizei! A ambulância parou no hospital com um solavanco. As portas se abriram. O mundo virou um borrão de luzes fluorescentes e jalecos brancos. - Ferimento por arma de fogo no tórax! Perda massiva de sangue! Pressão 6 por 4! Prep







