Partager

CAPÍTULO 2

Auteur: Bagel
No instante em que a porta se fechou, a provocação triunfante de Clara atravessou a fresta.

— Você não vai correr atrás daquele bichinho de estimação que mantém?

Ronan soltou uma risada de desprezo.

— Ela só queria atenção. Se eu me rebaixasse ao nível dela e corresse atrás, como isso pegaria para você?

Ele fez uma pausa, e sua voz veio ainda mais indiferente.

— Ela não tem nada nesta cidade além de mim. É muito mais fácil de controlar do que uma princesa como você.

Meu coração, que antes ardia por ele, foi rasgado em pedaços.

As palavras dele foram como sal em uma ferida aberta, cada uma cortando mais fundo do que a anterior.

...

O vento na rua estava gelado. O vinho no meu vestido havia se transformado em uma mancha fria e pegajosa contra a minha pele.

Chamei um táxi e me encolhi no banco de trás, enquanto minha mente voltava, sem controle, para seis anos atrás.

Seis anos antes, nos degraus daquele mesmo clube privado, Ronan me disse que eu era a única mulher da vida dele.

Na verdade, ele tinha se esforçado bastante para me conquistar.

Naquela época, eu mal tinha completado dezoito anos, tentava fugir de um lar destruído e sobreviver sozinha em uma cidade desconhecida.

Eu era extremamente insegura e desconfiava de qualquer homem que se aproximasse demais. Ele me cortejou, e eu o rejeitei cinco vezes. Na sexta vez, tudo foi diferente.

Eu tinha acabado de me mudar para um apartamento barato na zona sul da cidade.

O bairro tinha uma péssima fama por causa da criminalidade. Alguns valentões locais começaram a me mirar, bloqueando minha passagem na escada para exigir dinheiro, depois meu celular. Logo, começaram a me encarar com olhares nojentos.

Foi então que Ronan apareceu.

Os valentões puxaram facas. Ele tomou uma facada por mim, abrindo um corte longo que ia do cotovelo ao pulso. O sangue escorria da ponta dos dedos dele até o chão.

Mais tarde, na sala de emergência, enquanto uma enfermeira cuidava do ferimento, ele me olhou com os olhos avermelhados.

— Você pode parar de ser tão teimosa e deixar alguém te proteger?

A voz dele saiu baixa, quase rouca.

— Alguém como eu, por exemplo?

Eu admitia. Meu coração derreteu completamente.

Naquele instante, pensei que finalmente tinha encontrado um porto onde poderia ancorar minha vida à deriva.

Ele me pediu para ser sua namorada naquela mesma noite, de forma simples e direta, exatamente como eu gostava.

Depois que assenti, aquele homem conhecido por ser cruel e impiedoso me puxou para os braços, tão empolgado que quase derrubou nós dois.

Mas, naquela época, por estar nos braços dele, eu não senti medo nenhum.

A lua estava cheia naquela noite. A promessa de amor e companhia dele me deu toda a coragem de que eu precisava e se tornou a soma de todas as minhas esperanças.

Mas agora...

Ri da minha própria estupidez.

O carro parou em frente ao meu prédio. O calor da lembrança colidiu com o frio da realidade, e comecei a tremer.

Subi, abri meu notebook e cliquei no rascunho da carta de demissão que deixei intocado por dias. O cursor pairou sobre "Enviar". Respirei fundo e cliquei.

Cortar os laços com o passado, no fim das contas, era tão simples quanto apertar algumas teclas.

"Está vendo, Ronan? Eu não sou tão fácil de controlar assim."

Mas, dali em diante, ele não precisaria mais se incomodar. Meu voo de partida estava marcado para a semana seguinte, então não me restava muito tempo.

De volta ao apartamento, tomei um banho rápido, lavei o fedor de vinho tinto do corpo e comecei a arrumar minhas malas.

Eu nunca tive muita coisa desde o início, e tudo o que possuía coube em duas malas.

Às duas da manhã, assim que fechei o zíper da última mala e me preparava para ir a um hotel, a porta da frente se abriu de repente.

Ronan entrou, meio carregando Clara, que estava completamente bêbada. Ela se pendurava no ombro dele e resmungava que queria frutas.

— Ronan, eu quero uma daquelas bandejas de frutas, daquelas cortadas em formato de coelhinhos.

Ronan a ajudou a se sentar no sofá, então se virou para mim, com um tom natural, como se estivesse apenas dando uma ordem qualquer.

— Aurora, vá cortar uma para ela.

Fiquei paralisada. Ele tinha esquecido.

Quando começamos a namorar, ele voltou de uma festa e passou mal no banheiro, vomitando sem parar.

Preocupada, levantei no meio da noite para descascar uma maçã para ele, mas a lâmina abriu um corte raso no meu dedo.

Ele saiu correndo do banheiro e, quando viu o que tinha acontecido, perdeu toda a cor do rosto. A embriaguez desapareceu na mesma hora.

Ele pressionou meu corte para estancar o sangue, com a voz trêmula enquanto pedia desculpas sem parar. No dia seguinte, trancou todas as facas, descascadores e tesouras da cozinha dentro de um cofre.

Ele beijou a ponta dos meus dedos e jurou que, a partir daquele dia, seria ele quem cortaria as frutas naquela casa. Eu nunca mais deveria tocar em uma faca.

Durante todos aqueles anos, eu realmente não tinha tocado em uma faca.

Mesmo agora, ao lado do meu prato de jantar, ainda havia uma faquinha de manteiga de prata esterlina, feita sob medida, que ele mandou encomendar só para mim.

A parte mais ridícula era a pequena placa de madeira que ele mesmo fez e que ainda estava pendurada na porta da cozinha.

Nela estava escrito:

"Cozinha Proibida para Aurora."

Arranquei a placa da porta e a joguei no lixo. E agora ele me pedia para cortar uma bandeja de frutas para outra mulher.

Promessas eram as coisas mais ridículas deste mundo.

— Se ela quer comer, corte você mesmo. — Falei, com o rosto sem expressão.

Fechei minha mala com um estalo, puxei a alça e caminhei em direção à porta.

— Estou indo embora.

Só então ele percebeu as duas malas. Seu rosto escureceu, e, em poucos passos, ele bloqueou a saída.

— Chega, Aurora. Você já provou seu ponto. Está mesmo fazendo as malas? Eu já disse, foi só um jogo.

Ele estendeu a mão para agarrar meu pulso. Seu aperto era forte enquanto me prensava contra a porta.

A respiração dele, cheirando a álcool, caiu perto do meu ouvido, trazendo consigo aquele controle possessivo e familiar que ele estava tão acostumado a exercer sobre mim.

— Aurora, não faça essas brincadeiras infantis.

Ele estava convencido de que eu ainda estava fazendo birra pelo que aconteceu naquela noite.

— Eu sei que você quer se estabilizar. Eu também quero, mas ano que vem. Nós vamos nos casar no ano que vem, com certeza. Está bem?

Encarei-o e, nos olhos dele, que ainda esperavam que eu cedesse, vi o reflexo dos meus últimos seis anos.

Então ergui a mão e lhe dei um tapa no rosto.

— Ronan, eu ainda não fui clara o bastante? Nós terminamos. E eu nunca, nunca vou me casar com você!
Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application

Dernier chapitre

  • Verdade ou Desafio? Eu Escolhi Ir Embora   CAPÍTULO 9

    Eu ainda não gostava de cozinhar, então sempre frequentava uma lanchonete no andar de baixo do escritório.Sentia medo de dormir sozinha, mas meu novo apartamento contava com um sistema de segurança de última geração. A empresa até organizava aulas táticas de autodefesa durante as integrações mensais da equipe, ensinando-nos a lidar com situações de perigo.Assim, todas as inseguranças que um dia pensei que só poderiam ser acalmadas por um relacionamento foram desaparecendo em silêncio, uma por uma, em uma nova cidade e uma nova vida.Se eu tivesse encontrado coragem para deixá-lo mais cedo, talvez essa vida tranquila já fosse minha havia muito tempo.Alguns meses depois, durante um feriado prolongado, alguns colegas simpáticos, ao me verem sempre trancada no quarto estudando, insistiram em me levar de carro até a praia.Quando saí naquele dia, encontrei Ronan inesperadamente.Ele acabava de sair da cafeteria da esquina, em frente ao prédio da nossa empresa.Só então me lembrei

  • Verdade ou Desafio? Eu Escolhi Ir Embora   CAPÍTULO 8

    Os olhos dele começaram a ficar vermelhos.— Eu nunca vou deixar você ir embora! Prefiro morrer a terminar com você! Aurora, eu fui um canalha, mas aquele jogo foi há seis anos.A voz dele tremia enquanto tentava se explicar.— Eu realmente me apaixonei por você. O que eu sinto por você é real.— Um começo ruim não significa que não possamos ter um bom final. Você mesma me disse isso. Talvez isso seja destino, talvez nós sempre estivemos destinados a nos encontrar, de um jeito ou de outro.Balancei a cabeça.— Mas meu destino jamais envolveria um homem que só me trouxe mentiras, humilhação e dor. Você entende?Ele ficou parado ali, atordoado, enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto sem aviso. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, eu quase nunca o vi chorar.Dizem que as lágrimas de um homem são a fraqueza de uma mulher. Mas, vendo Ronan chorar, eu não senti nada. Talvez porque lágrimas de crocodilo fossem falsas por natureza.As lágrimas de alguém como ele, alguém que

  • Verdade ou Desafio? Eu Escolhi Ir Embora   CAPÍTULO 7

    O frágil fio de esperança ao qual Ronan se agarrou durante todo o caminho até ali finalmente se rompeu.As pernas dele cederam, e Ronan escorregou pela parede, quase desabando no chão.A mão que normalmente permanecia firme ao segurar uma arma tremia contra a parede. Seus olhos estavam injetados de sangue, e sua mente era um caos.— Isso... Isso é impossível. Ela não comentou nada. Vocês forçaram ela a pedir transferência?A supervisora balançou a cabeça, falando com pena:— Não. Isso foi finalizado uma semana atrás. Eu tentei convencê-la a ficar. No começo, ela estava hesitante, mas ontem à meia-noite me ligou para confirmar tudo. Disse que já tinha reservado o primeiro voo para ir embora.Ela fez uma pausa antes de continuar:— Ela não contou ao senhor? Bem, agora não há mais nada a fazer. Ela finalizou toda a documentação ontem à noite. Hoje demos folga para que ela arrumasse as coisas.Naquele instante, ele finalmente entendeu: quando Aurora disse que eles estavam terminand

  • Verdade ou Desafio? Eu Escolhi Ir Embora   CAPÍTULO 6

    Naquele instante, foi como se o mundo inteiro ficasse em silêncio.O rosto de Ronan perdeu toda a cor.— Alta? Que tipo de brincadeira é essa? Ela acabou de acordar, não conseguiria sair sozinha. Tem certeza de que viu a pessoa certa?A enfermeira franziu a testa e folheou a ficha em suas mãos.— Não tem erro. Aurora. Esse é o nome. O senhor não sabia que sua própria namorada recebeu alta? Vocês dois devem ter brigado feio, agora entendi por que ela chorava daquele jeito.Ela suspirou, colocou a ficha debaixo do braço e se virou para sair.Ronan ficou congelado no lugar.Ele não sabia que suas próprias pernas podiam ficar tão fracas, quase incapazes de sustentá-lo. Um suor frio cobriu suas palmas.Com a mão trêmula, puxou o celular e discou o número de Aurora. Ligou mais de dez vezes. Ou ninguém atendia, ou a chamada caía direto na caixa postal.Recusando-se a desistir, ele arrancou o celular de Clara e tentou de novo, apenas para ouvir a mesma voz mecânica e fria.Foi então

  • Verdade ou Desafio? Eu Escolhi Ir Embora   CAPÍTULO 5

    No silêncio do quarto da clínica, Ronan estava sentado ao lado da cama fazia mais de dez minutos. A tela do celular continuava escura.De repente, ele se lembrou do som fraco de passos no fim do corredor.Naquele momento, chegou a pensar em se levantar para verificar, mas Clara o puxou de volta pela manga.Um pressentimento ruim brilhou dentro dele, uma sensação de que as coisas estavam saindo do controle. Porém, ele esmagou aquele pensamento quase no mesmo instante.Impossível.Conhecendo a natureza teimosa e direta de Aurora, ele imaginou que, se ela tivesse ouvido alguma coisa, teria entrado ali na hora e o confrontado.— No que você está pensando? Seu bichinho precioso ainda não voltou rastejando? Se ela continuar com aquela atitude comigo, eu nem vou me dar ao trabalho de pedir desculpas pela metade.Clara passou os braços ao redor do pescoço dele, com um tom impaciente.A sobrancelha de Ronan se contraiu. Pela primeira vez, um gesto que ele conhecia desde sempre provocou

  • Verdade ou Desafio? Eu Escolhi Ir Embora   CAPÍTULO 4

    Empurrei Clara para longe com toda a força que ainda me restava.Minha mão foi instintivamente até o rosto para coçar, mas o menor toque fez uma onda de dor arrepiante atravessar minha pele.— Cof... cof... Meu rosto... O que era aquilo?Ronan saiu correndo do quarto e congelou no instante em que me viu. Ele agarrou o pulso de Clara, e sua voz saiu afiada de fúria.— Você disse que só ia trocar o perfume dela! Como o rosto dela reagiu desse jeito?!Ele a encarou com os olhos sombrios.— Que diabos você está tentando fazer?Clara arrancou a mão do aperto dele. Seu rosto estava corado, e seus lábios tremiam.— Eu... Eu não sei! Só peguei um frasco qualquer!Ela parecia ofendida, como se também fosse vítima naquela situação.— Como eu ia saber que ela era tão delicada? Além disso, foi você quem reclamou alguns dias atrás que odiava o perfume sem graça dela. Você praticamente me deu permissão para fazer isso!O produto químico agressivo fez meu corpo tremer, e minha pele começou

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status