INICIAR SESIÓNO carro parou. O motorista — homem, uniforme impecável, postura rígida, rosto neutro — abriu a porta. Clara respirou fundo, mas o ar pareceu mais pesado ali.
O hall de entrada era amplo e frio; o mármore branco refletia seu rosto pálido e os olhos cansados. As paredes altas, espelhadas por lustres enormes, pareciam observá-la. Passos ecoaram atrás das portas internas. A primeira a aparecer foi Suzana. Mulher elegante, por volta dos 55 anos. Cabelos loiros presos em um coque milimetricamente alinhado, maquiagem impecável, postura ereta e imponente. O olhar afiado avaliava como bisturi. Nenhuma lágrima, nenhum descontrole — apenas serenidade dura, quase ameaçadora. Os olhos percorriam Clara com frieza e curiosidade calculada. — Então é você — disse Suzana, sem sorrir. — A esposa do meu enteado. Clara assentiu, insegura. Sua pele clara estava marcada pelo cansaço, olheiras roxas denunciavam a noite sem descanso. Seus cabelos castanhos e longos estavam presos às pressas, e mesmo assim ela carregava uma beleza suave. — Eu… vim assim que pude. Como ele está? Já encontraram alguma coisa? Suzana respirou devagar. — Ainda não. Mas esperamos respostas logo. Do segundo andar, passos corridos. Sabrina apareceu. A jovem, cerca de 25 anos, tinha cabelos castanho-claros soltos e bagunçados; olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. Usava um moletom largo, contrastando com a formalidade do lugar. Ela desceu quase tropeçando e, diferente de Suzana, correu para abraçar Clara. — Você veio — sussurrou, soluçando. — Ele vai voltar… ele tem que voltar… Temos que ter esperança. Clara fechou os olhos para conter o choro. — Também acredito — respondeu, com a voz fraca. Suzana retomou o comando. — Você deve estar exausta. — Ela fez sinal para uma funcionária. — Marina, leve-a ao quarto de hóspedes. Depois traga algo quente para ela comer. Marina era uma mulher de cerca de 40 anos, uniforme alinhado, cabelos presos em um coque simples. O olhar dela era o único acolhedor naquele ambiente enorme. Clara a seguiu pelos corredores decorados com grandes quadros de antepassados, molduras douradas e tapete felpudo. Cada porta fechada parecia esconder memórias que não eram suas. O peso do desconhecido apertava o peito. O quarto era grande, iluminado, com cortinas longas, cama imensa e perfume suave de lavanda. Clara sentou-se — o colchão afundou levemente sob seu corpo frágil. Pegou o celular, esperando uma mensagem de milagre. Nada. Abraçou os joelhos e chorou silenciosamente. Lágrimas escorreram até molhar o travesseiro. Naquele quarto estranho, ela desejou que tudo fosse mentira. Clara dormiu vencida pelo esgotamento. Ao amanhecer, se arrumou e desceu. O aroma de café fresco preencheu o ar, mas Clara se sentia distante, como se fosse visita em um mundo que não lhe pertencia. Sabrina estava à mesa com uma xícara. Quando viu Clara, sorriu fraco. — Conseguiu descansar? Clara assentiu. Antes que Sabrina respondesse, a porta se abriu. Henrique Menezes entrou. Homem, cerca de 30 anos, presença dominante. Alto, 1,85 m, terno cinza-escuro perfeitamente alinhado. Cabelos loiros curtos, barba bem aparada. O olhar — azul intenso — era analítico, sério. Algo nele transmitia autoridade e proteção, mas também firmeza inflexível. Henrique parou ao ver Clara, surpresa evidente nos olhos. Sabrina, vendo o espanto no olhar dele, se adiantou: — Henrique, essa é a Clara — disse, levantando-se. — A… esposa do Vinícius. Ele piscou, como se precisasse de alguns segundos para processar. — Esposa? — repetiu devagar, sem elevar o tom. — Não sabia que ele… — respirou fundo, tentando organizar a ideia. — Que surpresa. Nunca comentou nada conosco. Clara sustentou o olhar, insegura. — Casamos há pouco tempo — explicou. — Ele preferiu manter em segredo por enquanto. Henrique assentiu lentamente, ainda sem entender, mas sem hostilidade. — Certo… é só inesperado. Vinícius geralmente compartilha decisões importantes, especialmente comigo. — Ele passou a mão na nuca, desconcertado. — Mas se ele escolheu assim, deve ter seus motivos. Henrique respirou fundo, lembrando-se do motivo da visita. — Encontramos Vinícius. O coração de Clara parou. — Ele está vivo? — perguntou num fio de voz. — Está. Foi resgatado e levado para Novo Horizonte. Deve voltar em alguns dias. Henrique respirou fundo, como quem carregava um peso enorme. — Ele está bem — acrescentou, e Clara quase desabou ali mesmo. — Foi resgatado ontem à noite. Sofreu um traumatismo craniano leve, teve uma pequena hemorragia controlada ainda no resgate. Está consciente. Além disso, fraturou algumas costelas durante a queda, está com escoriações e um pouco debilitado. Os médicos o mantêm em observação apenas por segurança, mas afirmaram que não há risco de morte. Clara levou a mão à boca; o choro veio como avalanche. — Ele… está mesmo vivo? Falando? — suas palavras saíram abafadas entre lágrimas. — Sim. — Henrique confirmou. — Anda com dificuldade por causa das costelas, sente dor ao respirar e deve evitar esforço, mas está lúcido. Se tudo evoluir como o esperado, pode ser liberado em alguns dias. Clara chorou, rindo e soluçando. Sabrina a puxou para um abraço apertado. Suzana — imóvel — congelou por um segundo. As mãos tremeram, a xícara parou no ar. Algo brilhou nos olhos dela — mas desapareceu em dois segundos, substituído por um sorriso falso. — Que notícia maravilhosa… graças a Deus — disse sem emoção real. Levantou-se. — Vou avisar alguns familiares. Preciso espalhar a notícia, todos estão aflitos. E saiu pelo corredor. Clara permaneceu sentada, tentando organizar os pensamentos enquanto Sabrina servia café. — Eu achei que nunca o veria de novo… — Ele está voltando pra você. As palavras trouxeram paz suficiente para que Clara conseguisse comer. Depois levantou devagar. — Vou deitar um pouco. Minha cabeça está pesada. — Se precisar, me chama. Clara subiu sentindo o corpo finalmente ceder ao alívio. Porém, ao passar pelo corredor, um murmúrio a fez parar. A porta do escritório estava entreaberta, e a voz de Suzana — agora baixa e urgente — soou completamente diferente do tom doce de minutos atrás. — A gente precisa agir e resolver isso. Precisa vir aqui para conversarmos. Clara congelou. Resolver o quê? Quem precisava vir? Por quê? O arrastar de uma cadeira a fez recuar. Rápida, entrou no quarto e fechou a porta, o coração acelerado. Respirou fundo tentando controlar o desespero. E pela primeira vez desde que chegou àquela mansão… Clara sentiu medo real.Vinícius estava a poucos minutos do mercado quando viu o movimento à frente.Um carro havia parado no meio da avenida, e várias pessoas corriam em direção à pista.— O que aconteceu? — perguntou, já abrindo a porta.Eduardo freou rapidamente.Vinícius saiu antes mesmo que o carro parasse completamente e correu em direção à aglomeração.— Saiam da frente!As pessoas se afastaram, e ele conseguiu enxergar uma mulher caída no asfalto.Vinícius parou por um instante.Alguma coisa naquela cena fez seu coração disparar.— Clara?Ele voltou a correr.Quando chegou mais perto, reconheceu os cabelos.Era ela.— Clara!Vinícius caiu de joelhos ao lado dela, mas não a tocou.— Clara, olha para mim.Ela não respondeu.Havia sangue próximo à cabeça dela. O som dos carros, das vozes e das buzinas pareceu ficar distante, como se Vinícius só conseguisse enxergar aquela mulher caída diante dele.— Alguém já chamou uma ambulância?— Já. Está chegando!Eduardo se aproximou logo depois, acompanhado de um
Vinícius entrou no carro e Eduardo ocupou o banco do motorista. Assim que a porta fechou, Vinícius pegou o telefone e ligou para Samuel, o chefe da sua equipe de segurança.— Samuel, encontrei o Leonardo.Do outro lado, houve um breve silêncio.— E a senhora Clara?Vinícius olhou pela janela enquanto o carro deixava a propriedade.— Ela fugiu antes de chegarmos. Entrou escondida em uma van de entrega.— Você sabe qual empresa?— Sei. Vi a gravação das câmeras. É uma van da Costa Sul Distribuidora, de entrega de alimentos e mantimentos.Vinícius passou a mão pelo rosto.— Quero que descubram qual era a rota. Se o motorista ainda estiver fazendo as entregas, talvez alguém tenha visto a Clara.— Entendido.— E avise as outras equipes. Quero todo mundo procurando pela região.— Pode deixar.Vinícius desligou e guardou o telefone.Eduardo seguiu pela avenida, aumentando a velocidade sempre que encontrava espaço. Vinícius permaneceu olhando pela janela, mas mal prestava atenção nas ruas. A
Leonardo encerrou a ligação e voltou para a sala de jantar.— Clara?Nenhuma resposta.A cadeira estava vazia.Ele franziu a testa e olhou ao redor. Por alguns segundos, ficou esperando ouvir algum barulho vindo do corredor, mas a casa permanecia silenciosa.— Clara?Nada.Leonardo foi até o quarto, abriu a porta e parou. Não havia ninguém ali. Olhou no banheiro, abriu o closet e voltou para o corredor, começando a ficar inquieto.— Clara!Um dos funcionários apareceu logo depois.— Senhor?— Onde ela está?O homem olhou para os lados, confuso.— Eu não sei. Achei que estivesse com o senhor.Leonardo voltou para a sala de jantar e parou ao perceber a porta lateral entreaberta.Seu olhar foi direto para o pátio, mas a van da entrega já não estava mais ali.— Quando ela saiu?— Uns vinte minutos atrás, senhor.Leonardo passou a língua pelos lábios, sentindo a garganta secar.— As câmeras.Virou-se e saiu da sala sem esperar resposta. Pouco depois, já estava diante dos monitores da centr
Nos dias que se seguiram, Leonardo continuou tentando fazer com que Clara se acostumasse àquela vida.Ela ainda recusava muitas das coisas que ele oferecia, evitava conversas desnecessárias e mantinha distância sempre que podia. Mas, aos poucos, percebeu que enfrentá-lo o tempo todo não a levaria a lugar algum.Então mudou de estratégia.Parou de discutir, começou a responder com mais calma e passou a aceitar algumas refeições. Quando Leonardo tentava conversar, ela já não encerrava o assunto imediatamente. Aos poucos, ele começou a acreditar que Clara estava finalmente cedendo.Era exatamente isso que ela queria que ele pensasse.Naquela manhã, quando Leonardo apareceu no quarto, encontrou Clara sentada perto da janela.— Dormiu bem?Ela demorou alguns segundos antes de responder.— Um pouco.Leonardo entrou.— Quer tomar café comigo?Clara olhou para ele. Dessa vez, não recusou.— Pode ser.O sorriso dele apareceu imediatamente.— Vamos.Eles seguiram para a sala de jantar. Clara pu
Clara acordou antes de ouvir qualquer movimento pela casa. Permaneceu deitada, olhando para o teto, sem vontade de levantar. Nos últimos dias, os horários haviam perdido o sentido. Ela comia quando insistiam, dormia quando o corpo não aguentava mais e passava boa parte do tempo tentando imaginar uma maneira de sair dali. Uma batida soou na porta. Ela se sentou na cama. — Quem é? — Sou eu. A voz de Leonardo fez seu corpo ficar tenso. A porta se abriu. Ele entrou e encontrou Clara ainda sentada na cama. — Bom dia. Ela não respondeu. Leonardo caminhou até a janela e abriu parcialmente a cortina. — A obstetra chegou. Clara olhou para ele. — Agora? — Sim. Ela trouxe tudo o que precisa para fazer sua avaliação aqui mesmo. Clara desviou os olhos. — Eu não quero. — Clara... — Eu não quero fazer exame nenhum. Leonardo se aproximou. — Você precisa saber como está o bebê. A mão dela foi automaticamente até a barriga. — Então me deixa ir embora que eu
Leonardo abriu a porta do quarto, e Clara entrou devagar.O ambiente era amplo, iluminado apenas pela luz dos abajures. A cama ocupava o centro do cômodo, coberta por lençóis de linho claro, enquanto as grandes janelas mostravam o mar sob a luz da lua.Por alguns segundos, Clara ficou parada. Anos antes, teria entrado ali sorrindo, imaginando o futuro que teria naquele lugar. Agora, só conseguia pensar em como sair.Leonardo fechou a porta atrás deles.— Gostou?Clara passou os olhos pelo quarto.— É bonito.Ele sorriu.— Fiz exatamente como você imaginava.Clara não respondeu. Leonardo caminhou até a cama e se sentou na beirada.— Depois de tudo o que aconteceu, podemos começar de novo.Ela permaneceu de pé.— Eu só quero dormir.— Então vamos dormir.Clara olhou para ele.— Você vai ficar aqui?Leonardo pareceu surpreso.— É o nosso quarto.O corpo dela ficou tenso.— Leonardo, eu não quero.Ele a observou por alguns segundos antes de responder.— Você não precisa ter medo de mim.C







