LOGINAs palavras ecoavam na mente dela, repetindo-se como um aviso. Como uma sombra crescendo pelas paredes.
A gente precisa agir e resolver isso… Clara caminhou até a cama e sentou-se devagar, sentindo o colchão afundar sob o peso do corpo cansado. O quarto, elegante e acolhedor à primeira vista, naquele momento parecia frio. Quase hostil. Ela apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu o rosto entre as mãos. O que estava acontecendo naquela casa? Por que Suzana reagira daquela forma? O que precisava ser “resolvido”? Quem deveria “vir”? Nada fazia sentido. Clara tentou respirar fundo, mas o ar parecia preso na garganta. Apesar do pânico, o cansaço puxava seu corpo para baixo como uma maré pesada. Ela se deitou por um instante, apenas para descansar a mente. Os olhos se fecharam antes que pudesse impedir. Não sabia se cochilou por minutos ou segundos… Mas o som que veio a seguir atravessou qualquer descanso: TOC. TOC. TOC. Clara abriu os olhos bruscamente, o coração acelerando. O quarto ainda estava semi-escuro, a luz suave filtrando pelas cortinas. Por um momento, ela não soube onde estava. TOC. TOC. Agora mais firme. Ela se sentou na cama, respirando fundo para estabilizar a voz. — Q-Quem é? A porta abriu apenas um palmo, e uma das empregadas apareceu com postura respeitosa e expressão neutra. — Senhora Clara — disse ela, com a voz baixa. — Dona Suzana pediu que a senhora a encontre no escritório. Ela está esperando. O estômago de Clara apertou. — Certo… eu já vou. A empregada se afastou, deixando o corredor silencioso novamente. Clara permaneceu sentada por alguns segundos, imóvel, tentando reunir coragem dentro do peito. Mas tudo que encontrou foi um arrepio. Ela se levantou devagar, como se cada passo arrastasse um peso invisível, e caminhou até a porta. Seguiu pelo corredor como se estivesse pisando em gelo fino. O silêncio da casa não era apenas silêncio — era uma presença. Algo que observava. Cada passo ecoava mais alto do que deveria. Parou diante da porta do escritório e respirou fundo, tentando estabilizar o coração que martelava no peito. A mão dela tremia ao tocar a maçaneta. Quando abriu a porta, o mundo pareceu parar. O escritório estava iluminado pela luz suave da manhã, filtrada pelas cortinas. O cheiro de madeira, livros e perfume masculino pairava no ar — um perfume que ela conhecia. Ou achava que conhecia. Suzana estava de pé próxima à mesa, numa postura quase cerimonial, como se aguardasse algo importante. Mas Clara não olhou para ela. Porque, no canto do escritório, de costas, estava ele. Ou… a figura que seu coração reconheceu antes da mente. O homem permanecia diante da janela, as mãos nos bolsos, a cabeça levemente inclinada. A luz da manhã delineava os fios escuros e levemente ondulados do cabelo, destacando o brilho sutil que ela sempre achou irresistível. O porte dele — alto, forte, cerca de 1,80 — preenchia o espaço com a mesma presença que sempre a marcou. Os ombros largos, a postura firme, a silhueta elegante sob a camisa… cada detalhe atingia Clara como uma memória viva. Era assim que ela lembrava dele. O homem por quem se apaixonara. O homem com quem se casara. Aquele perfil que misturava força e mistério. Aquele corpo que parecia carregar poder em silêncio. Clara sentiu os olhos arderem. O peito afrouxar. Por um instante — breve, precioso — acreditou que tudo faria sentido de novo. Era o rosto que ela conhecia. O rosto que amava. Mas quando os olhos dele encontraram os dela… o chão sumiu sob seus pés. Havia algo errado ali. Ele a olhou como quem observa um estranho. Clara engoliu seco, apoiando-se na porta sem perceber que o corpo desfalecia por dentro. Mesmo assim, avançou. Passos curtos, arrastados contra o próprio instinto. Quando finalmente alcançou distância suficiente para tocá-lo, ergueu a mão com cautela. A rigidez que encontrou quase arrancou seu fôlego. Ele não sorriu como sempre fazia quando a via. — Eu pensei que você só viria daqui a alguns dias… — murmurou ela, a voz tentando não quebrar. — O Henrique disse que você ainda estava no hospital… O homem demorou demais para responder. Tempo que bastou para a incerteza se formar dentro dela. — As coisas mudaram — respondeu enfim, com uma voz que deveria ser familiar… mas não era. Clara recuou um passo. O coração acelerava por um motivo muito diferente agora. O ar ficou denso, pesado. Como se algo invisível preenchesse o espaço entre eles. Algo que ela não conseguia nomear, mas que apertava seu peito com força. Ela tentou falar novamente, mas a voz falhou. O homem continuava imóvel. Observando-a. Estudando-a. Como se decidisse alguma coisa. Clara deu outro passo para trás, instintivamente. Os olhos dele acompanharam o movimento — lentos, calculados. Um arrepio cortou sua espinha. — O que… realmente aconteceu com você? — perguntou num fio de voz, mais para si do que para ele. Nenhuma resposta. Nenhuma mudança de expressão. Nenhum sinal de reação. Só silêncio. Um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra. Clara sentiu a respiração falhar. Havia algo terrivelmente errado naquela sala. Algo que ela ainda não entendia… mas que, no fundo, já começava a sentir. Ela recuou. Os olhos dele continuaram fixos nela — frios, tensos. Clara baixou a mão devagar, como se temesse provocar o inesperado. — O que aconteceu com você…? — repetiu, quase inaudível. Ele permaneceu em silêncio. E, naquele silêncio, Clara sentiu o primeiro lampejo de algo que não tinha coragem de nomear.Vinícius estava a poucos minutos do mercado quando viu o movimento à frente.Um carro havia parado no meio da avenida, e várias pessoas corriam em direção à pista.— O que aconteceu? — perguntou, já abrindo a porta.Eduardo freou rapidamente.Vinícius saiu antes mesmo que o carro parasse completamente e correu em direção à aglomeração.— Saiam da frente!As pessoas se afastaram, e ele conseguiu enxergar uma mulher caída no asfalto.Vinícius parou por um instante.Alguma coisa naquela cena fez seu coração disparar.— Clara?Ele voltou a correr.Quando chegou mais perto, reconheceu os cabelos.Era ela.— Clara!Vinícius caiu de joelhos ao lado dela, mas não a tocou.— Clara, olha para mim.Ela não respondeu.Havia sangue próximo à cabeça dela. O som dos carros, das vozes e das buzinas pareceu ficar distante, como se Vinícius só conseguisse enxergar aquela mulher caída diante dele.— Alguém já chamou uma ambulância?— Já. Está chegando!Eduardo se aproximou logo depois, acompanhado de um
Vinícius entrou no carro e Eduardo ocupou o banco do motorista. Assim que a porta fechou, Vinícius pegou o telefone e ligou para Samuel, o chefe da sua equipe de segurança.— Samuel, encontrei o Leonardo.Do outro lado, houve um breve silêncio.— E a senhora Clara?Vinícius olhou pela janela enquanto o carro deixava a propriedade.— Ela fugiu antes de chegarmos. Entrou escondida em uma van de entrega.— Você sabe qual empresa?— Sei. Vi a gravação das câmeras. É uma van da Costa Sul Distribuidora, de entrega de alimentos e mantimentos.Vinícius passou a mão pelo rosto.— Quero que descubram qual era a rota. Se o motorista ainda estiver fazendo as entregas, talvez alguém tenha visto a Clara.— Entendido.— E avise as outras equipes. Quero todo mundo procurando pela região.— Pode deixar.Vinícius desligou e guardou o telefone.Eduardo seguiu pela avenida, aumentando a velocidade sempre que encontrava espaço. Vinícius permaneceu olhando pela janela, mas mal prestava atenção nas ruas. A
Leonardo encerrou a ligação e voltou para a sala de jantar.— Clara?Nenhuma resposta.A cadeira estava vazia.Ele franziu a testa e olhou ao redor. Por alguns segundos, ficou esperando ouvir algum barulho vindo do corredor, mas a casa permanecia silenciosa.— Clara?Nada.Leonardo foi até o quarto, abriu a porta e parou. Não havia ninguém ali. Olhou no banheiro, abriu o closet e voltou para o corredor, começando a ficar inquieto.— Clara!Um dos funcionários apareceu logo depois.— Senhor?— Onde ela está?O homem olhou para os lados, confuso.— Eu não sei. Achei que estivesse com o senhor.Leonardo voltou para a sala de jantar e parou ao perceber a porta lateral entreaberta.Seu olhar foi direto para o pátio, mas a van da entrega já não estava mais ali.— Quando ela saiu?— Uns vinte minutos atrás, senhor.Leonardo passou a língua pelos lábios, sentindo a garganta secar.— As câmeras.Virou-se e saiu da sala sem esperar resposta. Pouco depois, já estava diante dos monitores da centr
Nos dias que se seguiram, Leonardo continuou tentando fazer com que Clara se acostumasse àquela vida.Ela ainda recusava muitas das coisas que ele oferecia, evitava conversas desnecessárias e mantinha distância sempre que podia. Mas, aos poucos, percebeu que enfrentá-lo o tempo todo não a levaria a lugar algum.Então mudou de estratégia.Parou de discutir, começou a responder com mais calma e passou a aceitar algumas refeições. Quando Leonardo tentava conversar, ela já não encerrava o assunto imediatamente. Aos poucos, ele começou a acreditar que Clara estava finalmente cedendo.Era exatamente isso que ela queria que ele pensasse.Naquela manhã, quando Leonardo apareceu no quarto, encontrou Clara sentada perto da janela.— Dormiu bem?Ela demorou alguns segundos antes de responder.— Um pouco.Leonardo entrou.— Quer tomar café comigo?Clara olhou para ele. Dessa vez, não recusou.— Pode ser.O sorriso dele apareceu imediatamente.— Vamos.Eles seguiram para a sala de jantar. Clara pu
Clara acordou antes de ouvir qualquer movimento pela casa. Permaneceu deitada, olhando para o teto, sem vontade de levantar. Nos últimos dias, os horários haviam perdido o sentido. Ela comia quando insistiam, dormia quando o corpo não aguentava mais e passava boa parte do tempo tentando imaginar uma maneira de sair dali. Uma batida soou na porta. Ela se sentou na cama. — Quem é? — Sou eu. A voz de Leonardo fez seu corpo ficar tenso. A porta se abriu. Ele entrou e encontrou Clara ainda sentada na cama. — Bom dia. Ela não respondeu. Leonardo caminhou até a janela e abriu parcialmente a cortina. — A obstetra chegou. Clara olhou para ele. — Agora? — Sim. Ela trouxe tudo o que precisa para fazer sua avaliação aqui mesmo. Clara desviou os olhos. — Eu não quero. — Clara... — Eu não quero fazer exame nenhum. Leonardo se aproximou. — Você precisa saber como está o bebê. A mão dela foi automaticamente até a barriga. — Então me deixa ir embora que eu
Leonardo abriu a porta do quarto, e Clara entrou devagar.O ambiente era amplo, iluminado apenas pela luz dos abajures. A cama ocupava o centro do cômodo, coberta por lençóis de linho claro, enquanto as grandes janelas mostravam o mar sob a luz da lua.Por alguns segundos, Clara ficou parada. Anos antes, teria entrado ali sorrindo, imaginando o futuro que teria naquele lugar. Agora, só conseguia pensar em como sair.Leonardo fechou a porta atrás deles.— Gostou?Clara passou os olhos pelo quarto.— É bonito.Ele sorriu.— Fiz exatamente como você imaginava.Clara não respondeu. Leonardo caminhou até a cama e se sentou na beirada.— Depois de tudo o que aconteceu, podemos começar de novo.Ela permaneceu de pé.— Eu só quero dormir.— Então vamos dormir.Clara olhou para ele.— Você vai ficar aqui?Leonardo pareceu surpreso.— É o nosso quarto.O corpo dela ficou tenso.— Leonardo, eu não quero.Ele a observou por alguns segundos antes de responder.— Você não precisa ter medo de mim.C







