FAZER LOGINRenata
Descemos as escadas do prédio com cuidado eu por causa da sandália nova, Ana porque estava segurando a barra do vestido azul para não tropeçar. O ar da manhã tinha cheiro de nervoso, como se até o vento soubesse que aquele dia não era qualquer dia. Ana apertou o alarme do carro, abriu a porta do motorista e sorriu: — Entra, princesa jambo. Agora é comigo. Eu ri, mas a mão tremia um pouco quando fechei a porta. O caminho até o local do casamento pareceu curto. Talvez porque eu estava tentando controlar a respiração o tempo todo. Talvez porque o vestido me abraçava como coragem. Quando viramos a esquina da igreja, Ana soltou um assovio. — É agora, Rê. Sem medo. Você nasceu pra esse momento. Ela estacionou e me olhou séria, firme, como se fosse meu escudo azul mesmo. — Vamos entrar como duas rainhas. E ninguém toca na sua paz, ouviu? Assenti. Respirei fundo. Saímos do carro. As pessoas já estavam entrando apressadas. O casamento estava quase começando dava pra ouvir a música suave ecoando lá dentro. Ana enlaçou meu braço. — Vai dar tudo certo. E, se não der… eu faço dar. disse ela, rindo. Entramos. Assim que passamos pela porta, um silêncio estranho aconteceu. Não total… mas um silêncio que corta. Um silêncio de surpresa. Pessoas viraram o rosto. Outras arregalaram os olhos. Houve até quem cutucasse o acompanhante. E eu ali, parada, com o vestido dourado refletindo a luz da igreja inteira, tentando fingir que estava imune. Ana murmurou baixinho: — Olha isso… estão todos te engolindo com os olhos. E era verdade. O vestido champagne parecia acender sob os vitrais coloridos. A sandália me deixava mais alta, mais firme. A maquiagem… perfeita. Por um segundo, eu me senti poderosa. Mas então encontrei o olhar dela. Minha madrasta me encarava do corredor do meio com a típica expressão de superioridade. Lábios apertados. Sobrancelha arqueada. Aquela cara de quem vê algo desagradável… como se a minha presença fosse um incômodo que ela não conseguiu evitar. Ela me avaliou dos pés à cabeça com desdém, como se tentasse encontrar defeitos… e não achasse. Ana mexeu os ombros e sussurrou: — Se esse olhar dela fosse faca, já tinha te cortado. Credo. Eu quase ri, mas me segurei. Continuamos caminhando até o fundo, onde havia alguns bancos vazios. Sentamos. E foi aí que aconteceu. Ricardo estava no altar, em pé ao lado do celebrante, ajeitando a gravata como sempre fazia quando ficava ansioso. Ele virou instintivamente para olhar o movimento no fundo da igreja… E congelou. Os olhos dele se arregalaram. A boca dele abriu um pouco. Ele piscou como se não acreditasse. Era como se o mundo tivesse desaparecido e só tivesse sobrado eu ali, no fundo da igreja, com aquele vestido que parecia ter sido feito para me vingar sem precisar levantar a voz. Ana murmurou, com deboche delicioso: — Pronto. Agora sim valeu cada centavo. Olha a cara do idiota. Ricardo continuava me olhando, completamente idiota mesmo, como se tivesse levado um tapa invisível. De repente, a marcha nupcial começou a tocar e todos se levantaram. Minha meia-irmã entrou na igreja segurando o braço do meu pai. Ele me viu lá atrás e fez aquela cara… como se eu estivesse fazendo algo errado. Como se não tivesse sido ele quem me obrigou a vir. Patrícia, quando me viu, travou por um segundo. O ódio no olhar dela praticamente atravessou o corredor inteiro. Ela olhou para o meu vestido como se eu tivesse ousado demais apenas existindo ali. Depois ergueu o queixo, forçando um sorriso artificial, e continuou caminhando até o altar, onde o Ricardo estava… completamente pasmo me encarando. O casamento seguiu, a música enchendo a igreja, mas antes que minha mente voltasse para o momento, dois homens incrivelmente lindos entraram e se sentaram bem perto de mim e da Ana Júlia. Eles acenaram discretamente, sorriram e desejaram boa noite, educados, confiantes… diferentes de tudo ali dentro. Um deles, em especial, tirou meu ar. Os olhos azuis mais lindos que eu já tinha visto na vida. Um azul claro, quase cristalino, que parecia enxergar fundo fundo demais. Ele era muito alto, daqueles que chamam atenção sem esforço. O cabelo caía um pouco sobre os olhos, daquele jeito charmoso que parece que ele acabou de passar a mão e deixou assim mesmo, só que perfeito. E o perfume… Deus. Que cheiro delicioso. Forte na medida certa, elegante, mais viciante que qualquer lembrança boa que eu tentei guardar daquele lugar. Por um instante, esqueci completamente onde estava. E ele ainda sorriu. Aquele sorriso meio torto, meio tímido… mas que dizia muito mais do que qualquer palavra poderia dizer naquele momento. Ana Júlia me cutucou de leve, segurando a risada. — Pelo amor de Deus, amiga… seja mais discreta, — sussurrou, rindo baixinho enquanto eu tentava desviar o olhar daquele homem sem sucesso. Eu revirei os olhos, mas estava rindo também. Era impossível não rir. Eu realmente devia estar encarando demais. O casamento continuou, a música suave preenchendo a igreja enquanto todos observavam a Patrícia caminhar até o altar com aquele sorriso calculado. E, por um momento, o peso da realidade caiu sobre mim. Se eu não tivesse descoberto a traição… seria eu. Eu estaria naquele vestido branco. Eu estaria segurando o braço do meu pai. Eu estaria caminhando em direção ao Ricardo. Aquele pensamento me acertou no peito como um soco. Pisquei rápido, respirando fundo, tentando afastar o nó que começou a crescer na minha garganta. Não queria deixar ninguém perceber. Não ali. Ana Júlia segurou minha mão discretamente, como se sentisse. — Você está bem? ela perguntou baixinho. Eu forcei um sorriso. — Tô sim. Só… pensando. Mas a verdade é que, olhando para o altar, vendo o Ricardo fingindo uma felicidade que eu sabia que não existia, eu senti um estranho alívio misturado com uma pontada de tristeza. Não por ele. Mas por quem eu fui antes de saber a verdade. Uma lágrima escapou antes que eu conseguisse impedir. Desceu quente pelo meu rosto, silenciosa, traindo tudo o que eu tentava esconder. Eu rapidamente levei a mão para limpar… mas, antes que conseguisse, algo entrou no meu campo de visão. Um lenço. Olhei para o lado e era ele o rapaz de olhos azuis. Ele estava me oferecendo o lenço com uma expressão suave, sincera… como se tivesse percebido minha dor mesmo sem me conhecer. Nossos olhares se encontraram e, por um instante, o mundo dentro da igreja pareceu ficar em silêncio. Quando estendi a mão para pegar o lenço, nossos dedos se tocaram. Foi rápido, quase nada… mas suficiente. Uma sensação elétrica, quente, inesperada, percorreu meu corpo inteiro. Meu coração disparou, e eu prendi a respiração como se tivesse sido pega fazendo algo proibido. Ele percebeu. O canto da boca dele se ergueu num sorriso quase imperceptível mas lindo, perigoso, encantador. Como se aquele toque tivesse atingido ele também. — Obrigado… murmurei, sem confiar totalmente na minha voz. — Disponha ele respondeu baixinho, com aquela voz grave que parecia envolver o ar ao redor. E continuou me olhando como se quisesse decifrar tudo o que eu estava sentindo. Eu desviei o olhar apenas para não derreter ali mesmo. Ana Júlia me encarou com os olhos arregalados, segurando outra risada. — Meu Deus… sussurrou. Isso aqui virou filme e eu não fui avisada. Eu só consegui apertar o lenço entre os dedos, tentando controlar a respiração. E lá na frente, no altar, o meu ex-noivo continuava me olhando sem ter ideia de que, naquele instante, meu coração tinha batido por outra pessoa pela primeira vez depois de tudo.Rosângela Acordamos bem cedo no dia seguinte, antes mesmo que o sol terminasse de subir no céu da chácara. Como a Maria já estava de pé na cozinha, o Anthony aproveitou para me puxar para um cantinho logo depois que levantamos da cama. Estávamos os dois rindo feito bobos, com as mãos bobas, trocando beijos escondidos no corredor, quando decidimos contar a novidade para ela. A reação da Maria foi um show à parte. Ela soltou a colher de pau na pia, levou as mãos às bochechas e começou a dar pulinhos de alegria. — Ai, meu Deus! Eu sabia! Eu não disse que essa casa precisava de mais vida? — ela exclamou, com os olhos brilhando. Depois, olhou para a minha barriga e cruzou os braços, com aquele ar de quem sabe de tudo. — Vocês vão povoar essa chácara, estou avisando. Com o gênio de vocês dois, eu tenho certeza de que agora vêm uns três meninos seguidos para correr atrás dessas pimentinhas! Eu e o Anthony caímos na risada na hora. — Calma, Maria! Três meninos? Aí você quer me enlouq
Rosângela O silêncio tomou conta da sala, quebrado apenas pelo estalar da madeira na lareira. Vi o momento exato em que a mente dele de médico começou a fazer as conexões e os olhos dele se arregalaram. Ele olhou para a garrafa na mão dele, depois para a minha barriga, e por fim fixou o olhar diretamente no meu rosto, com o queixo quase caindo.— Rosângela... — a voz dele saiu quase num sussurro, trêmula, misturando o choque com uma ponta de esperança desacreditada. — Você... não pode beber?coloquei a mão no bolso do meu short de pijama e puxei o teste de farmácia que eu vinha escondendo o dia todo. Estendi o bastão de plástico na direção dele, revelando as duas linhas rosas bem marcadas.— Eu fiz hoje, antes de virmos para cá... — falei, com a voz já meio embargada e um sorriso enorme teimando em se abrir. — Eu estou grávida, meu homem.O Anthony paralisou por completo. A garrafa de vinho continuou suspensa na mão dele por alguns segundos, até que ele a colocou no chão devagar,
Anthony Entramos em casa rindo da nossa habitual disputa para ver quem a Zoe tinha puxado. O Anthony insistia que a teimosia era minha, mas a verdade é que eu adorava ver o homem forte e sério que ele era no hospital se derreter por completo e virar um bobão perto das duas pimentinhas dele.Assim que passamos pela porta, o cheirinho do bolo da Maria já dominava o ambiente. Enquanto eu corria para a cozinha para organizar as coisas e colocar o lanche da Zoe na mesa, o Anthony subiu com a nossa princesa no colo para a missão do banho. Lá de baixo, eu conseguia ouvir os passos pesados dele no andar de cima, misturados com os gritinhos e as risadas dela na banheira. O Anthony cuidava dela com uma delicadeza que sempre fazia meu coração transbordar.Não demorou muito para os dois descerem. A Zoe já estava de pijaminha, com os cachinhos limpos e cheirosos, exalando aquele cheirinho de bebê que dá vontade de morder. Ela estava radiante, mas os olhinhos miúdos entregavam que a tarde no lag
Anthony O tempo voa de um jeito que a gente só consegue mensurar de verdade quando olha para os filhos. Parece que foi ontem que eu estava travado no meio de um quarto de bebê, com os olhos cheios de água, ouvindo um "papa" gaguejado e doce mudar a minha vida para sempre.Agora, dois anos se passaram. Duas voltas inteiras ao redor do sol que transformaram a nossa pimentinha em uma garotinha tagarela, cheia de passos firmes, cachinhos balançando e uma energia que às vezes me fazia questionar de onde vinha tanto vigor. Zoe estava completando dois aninhos.Para comemorar o aniversário da nossa princesa, decidimos que o melhor lugar do mundo não seria um salão de festas barulhento ou cheio de formalidades. Nós precisávamos do nosso refúgio. A nossa chácara sempre foi o lugar para onde corríamos quando o hospital parecia pesado demais, quando a rotina pedia um respiro ou quando queríamos apenas ser nós três, longe dos relógios e das obrigações.O caminho até lá foi embalado pelas músi
Anthony O plantão no hospital tinha sido um daqueles testes de resistência. Entre uma emergência e outra, evoluções de pacientes e a correria dos corredores, meu corpo clamava por um café forte e algumas horas de sono. Mas, na verdade, a única coisa que realmente me mantinha firme era a pressa de voltar para casa. Voltar para as minhas meninas.Passava das três da madrugada quando finalmente consegui me sentar por cinco minutos no descanso dos médicos. Peguei o celular e vi a mensagem da minha pimentinha:"Amor sentindo tanto sua falta... Vem logo."Sorri sozinho, sentindo um aperto gostoso no peito. O quarto podia parecer grande demais para ela lá, mas aqui, o mundo inteiro parecia vazio sem o calor do corpo dela e o cheirinho da nossa filha. Respondi com um "Estou chegando logo, meu amor", sabendo que ela já devia estar dormindo, e guardei o aparelho, contando os minutos para o sol nascer.Assim que passei pela catraca da saída do hospital pela manhã, a exaustão parecia ter fic
Rosângela Depois de tomar aquele café da manhã maravilhoso e recuperar todas as energias, tomei um banho rápido, vesti uma roupa bem confortável e desci as escadas com o coração leve.Encontrei a Maria na cozinha, que me deu um sorriso cúmplice ao me ver com a cara ótima. A Zoe estava no cercadinho da sala, cercada por seus brinquedos, com aqueles olhinhos atentos do Anthony focados direto na porta assim que ouviu meus passos.— Olha quem acordou! — falei, correndo até ela e a enchendo de beijos na bochecha, ouvindo aquela risadinha gostosa que curava qualquer cansaço.Aproveitei que o dia estava lindo e que a casa era nossa para espantar qualquer preguiça. Fui até o som, escolhi uma música bem animada e botei o volume alto, deixando o ritmo tomar conta da sala.Olhei para a Zoe, dei uma piscadela e comecei a dançar no meio do tapete. Eu rodava, requebrava, fazia passos engraçados e jogava as mãos para o alto, cantando junto com a música.A Zoe, de apenas 6 meses, ficou fascinad







