LOGINCapítulo 4 — A Biblioteca
Não consegui dormir. A cama era macia demais. O silêncio da casa era pesado demais. Cada estalo na madeira, cada sopro de vento contra as janelas enormes, me fazia sentar na cama em alerta. Como se algo fosse acontecer a qualquer momento. Depois de duas horas encarando o teto, desisti. Saí do quarto descalça, só de camisola, em busca de qualquer coisa que me distraísse. Encontrei a biblioteca por acaso. Uma porta entreaberta no fim do corredor, luz baixa vazando por ela. Entrei sem pensar duas vezes. Estantes até o teto. Cheiro de couro e papel velho. O tipo de lugar que eu poderia ter amado, se não estivesse tão cansada de tudo. Não estava vazia. Felipe estava sentado numa poltrona no canto, uma pilha de documentos no colo, óculos de leitura que eu não esperava que ele usasse. Ele ergueu os olhos quando a porta rangeu. E por um segundo — só um segundo — pareceu genuinamente pego de surpresa. Sem a máscara fria de sempre. — Não conseguia dormir — expliquei rápido, já me virando para sair. — Desculpa, não queria incomodar. — Fique. A palavra saiu antes que ele parecesse decidir dizê-la. Ele mesmo pareceu surpreso com o próprio convite. — A biblioteca é grande o suficiente para os dois. Hesitei. Mas o cansaço falou mais alto que a cautela. Escolhi um livro qualquer de uma prateleira próxima e me sentei numa poltrona longe da dele. Abri na primeira página sem realmente ler nada. O silêncio entre nós não era confortável. Mas também não era hostil como antes. Era uma trégua não declarada. — Você não precisava ter respondido daquele jeito no jantar — ele disse de repente, sem tirar os olhos dos documentos. — Que jeito? — Com coragem — ele finalmente ergueu o olhar. Os óculos faziam algo estranho com a intensidade dos olhos dele. Suavizavam. — A maioria das pessoas simplesmente concorda comigo. É mais fácil. — Eu não sou a maioria das pessoas. Um silêncio se seguiu. Dessa vez carregado de algo diferente. Felipe me observava com uma atenção que ele claramente não pretendia demonstrar. Como se estivesse tentando resolver um problema que se recusava a fazer sentido. — Não — ele concordou, baixinho, quase para si mesmo. — Não é, mesmo. Ele voltou a atenção aos documentos, mas percebi que os olhos dele não se moviam mais nas linhas do papel. Estava fingindo ler. — Por que você quer tanto que eu vá embora? — perguntei. A pergunta escapou antes que eu pudesse me conter. A caneta dele parou no ar. — Porque essa casa não é lugar para pessoas como você — respondeu, depois de um longo momento. A voz mais baixa que o normal. — Pessoas como eu? — Pessoas que ainda acreditam em coisas boas — ele fechou a pasta de documentos. Os olhos finalmente encontrando os meus por inteiro, sem a frieza calculada de antes. — Essa família... nós... não somos gentis, Elisa. Você devia ter medo de nós, não curiosidade. O jeito como ele disse meu nome fez algo estranho acontecer no meu peito. — E se eu não tiver medo? — perguntei, a voz mais baixa do que pretendia. Felipe se levantou. Guardou os documentos debaixo do braço. A distância entre nós de repente pareceu menor do que as poltronas sugeriam. Ele parou diante de mim. Alto demais. Perto demais. Os olhos frios agora carregados de algo quente e perigoso. — Então você é mais tola do que eu pensava — ele disse, mas a voz não tinha convicção nenhuma. Por um momento, ele pareceu prestes a dizer algo mais. A distância entre nós diminuiu um passo. O ar ficou pesado demais para respirar direito. Mas então ele balançou a cabeça. Como se estivesse se repreendendo por um pensamento que não deveria ter tido. E se afastou em direção à porta. — Vá dormir, Elisa — a voz dele voltou a ser fria, controlada, a máscara reconstruída às pressas. — Amanhã é um novo dia. Ele saiu sem olhar para trás. Deixando-me sozinha na biblioteca, o coração batendo forte demais para uma simples conversa. Fiquei ali por um longo tempo. O livro esquecido no colo, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Felipe Andrade queria que eu tivesse medo dele. O problema era que, cada vez mais, o que eu sentia parecia perigosamente distante de medo. --- Nota da autora: Gente, o que vocês acharam desse Felipe de óculos? 😏 Eu surtei escrevendo! Vocês acham que ele tá começando a gostar dela ou é só culpa por ter sido grosso no jantar? Team Felipe ou ainda Team Thiago? Me conta aqui nos comentários que eu vou ler TUDO! 👇❤️Capítulo 103: A Chegada da Princesa e a Paz na LEGADOOs meses seguintes àquele ensaio fotográfico inesquecível na joalheria passaram voando em um ritmo alucinante de expectativas exacerbadas, reformas no quartinho da bebê e uma torrente infinita de mimos que desafiava qualquer senso de proporção lógica. Se dependesse estritamente do Felipe, a maternidade seria transformada em uma fortaleza inexpugnável com segurança particular armada e detectores de metal na porta; se dependesse do Thiago, o quarto da recém-nascida já estaria equipado com uma mini quadra de futebol com grama sintética e traves de alumínio; e se dependesse do Noah, a menininha viveria vinte e quatro horas por dia cercada por uma trilha sonora de violão acústico e poesias românticas sussurradas ao pé do ouvido.No entanto, o verdadeiro centro de gravidade de todo aquele universo caótico e apaixonado continuava sendo a joalheria LEGADO e a minha barriga, que nos últimos dias parecia ter decidido crescer o dobro do taman
Capítulo 102: O Ensaio Gestante na LEGADO e o Primeiro Chute Oficial A escolha dos nomes — Helena Luna Andrades ou Luna Helena Andrades — tinha trago uma trégua temporária à mansão, mas a calmaria na vida de uma grávida cercada por três empresários obcecados durava exatamente o tempo de um suspiro. Com seis meses de gestação completados na semana anterior, a minha barriga finalmente havia decidido que era hora de aparecer para o mundo de forma inegável. Não dava mais para disfarçar com roupas largas; eu parecia estar carregando uma melancia perfeitamente polida sob a blusa de seda. E, claro, se dependesse do Felipe, do Thiago e do Noah, cada centímetro daquele crescimento estaria documentado por uma equipe de cinegrafistas profissionais, fotógrafos de alta sociedade e drones particulares. — Eu já disse que não vou fazer um ensaio gestante dentro de uma mina de diamantes na África do Sul, Felipe! — esbravejei da porta do closet, cruzando os braços e encarando o mais velho, que segur
Capítulo 101: Desejos da Madrugada e a Guerra do BerçoA gravidez de Elisa vinha provando ser uma verdadeira montanha-russa de emoções, mas, acima de tudo, de exigências culinárias absolutamente improváveis. Se antes a dona da joalheria LEGADO gerenciava diamantes, ouro e pedras preciosas com uma precisão cirúrgica, agora ela gerenciava um estoque caótico de vontades repentinas que desafiavam qualquer lógica gastronômica.Eram três da manhã quando o quarto do casal — ou melhor, o apartamento espaçoso onde os quatro viviam um arranjo tão caótico quanto apaixonante — foi invadido por um gemido manhoso.— Felipe... — a voz de Elisa saiu abafada pelo travesseiro. — Felipe, acorda. Acorda os meninos também. É sério.Felipe Andrades, o mais velho, empresário sério que costumava resolver crises corporativas com uma única sobrancelha erguida, abriu os olhos imediatamente. O instinto protetor despertou antes mesmo da consciência. Ao seu lado, Thiago resmungou algo sobre o Corinthians ganhar o
Capítulo 100 - A Guerra dos NomesDescobrir que a nossa pequena herdeira vinha por aí foi um dos momentos mais mágicos e barulhentos da minha vida. A joalheria LEGADO ficou tingida de rosa por uma semana inteira, com resquícios de pó brilhante grudados nos cantos dos balcões e nas caixas de veludo mais caras, resultado direto daquela explosão catastrófica no nosso chá revelação. Todo mundo comemorou, chorou de emoção e se abraçou até faltar o ar.Só que, no dia seguinte à euforia coletiva, o verdadeiro caos foi instaurado.A guerra dos nomes.Antes de engravidar, eu nutria a doce e ingênua ilusão de que escolher o nome de um filho seria uma tarefa romântica, pacífica e cheia de poesia. Imaginava nós quatro sentados na varanda, tomando um chá gelado, folheando um livro de nomes com caligrafia clássica e chegando a um consenso harmônico.Ledo engano. A começar pelo fato de que a casa dos irmãos Andrades não conhecia o significado da palavra "paz" quando o assunto envolvia proteger, mima
Capítulo 99 - O Chá de Bebê Mais Catastrófico (e Rosa) da História da LEGADOA Júlia levou a missão de organizar o meu chá de bebê extremamente sério. Sério demais, do tipo que deveria ser investigado por uma junta de planejamento militar ou por especialistas em megalomania corporativa.Quando eu soltei a frase mais inocente do mundo — “Júlia, amiga, faz um cházinho simples, só para nós da loja e a família, bem básico” —, a cabeça dela interpretou algo completamente diferente. Na mente da minha funcionária mais empolgada, a tradução simultânea daquela frase foi: “Arrasa, gasta o PIB de um país pequeno, aluga a praça pública e faz o evento do ano da joalheria LEGADO”.No dia marcado, cheguei à entrada da loja por volta das dez da manhã, acompanhada pelos três seguranças particulares mais corujas e exagerados de São Paulo. Assim que desci do carro e olhei para a fachada de vidro temperado, quase tive um infarto fulminante na calçada.A vitrine que antes exibia delicados colares de ouro
Capítulo 98 - O Anúncio na LEGADO A gente segurou o segredo por quatro dias. Quatro dias inteiros sabendo de algo que mudaria a nossa realidade para sempre, mas guardando a sete chaves apenas entre nós e a família mais próxima. Para três homens que não conseguem guardar nem o que vão comer no jantar sem começar uma discussão sobre delivery, manter essa novidade em sigilo foi, sem dúvida alguma, um recorde mundial absoluto. No quinto dia, eu olhei para o espelho do closet, apertei de leve a ponta do meu próprio nariz e decidi: chega. Eu sou a dona da LEGADO. Minha vida inteira é construída à base de transparência, conquistas e dedicação com as meninas que fazem aquela joalheria funcionar com um reloginho suíço. Eu simplesmente não conseguia continuar escondendo uma bênção tão gigante daquelas que trabalhavam comigo todos os dias, dividindo risadas, perrengues de atendimento e os melhores momentos da minha rotina. — Hoje eu vou contar na loja — declarei, virando-me para o quarto onde







