FAZER LOGINCapítulo 3 — Jantar
Eu troquei de roupa três vezes antes de descer. Não porque eu me importasse com o que eles pensavam. Foi o que eu repeti pra mim mesma na frente do espelho, enquanto jogava um vestido no chão e pegava outro. Mas eu sabia. Eu sabia que qualquer deslize ia ser usado contra mim. Decote demais? Ia ser vulgar. Fechado demais? Ia ser sem graça. Cor chamativa? Ia ser tentativa de chamar atenção. Escolhi um vestido simples. Preto, sem nada demais. O mais invisível que eu tinha. A sala de jantar era ridícula de tão grande. Uma mesa que cabia doze pessoas. Lustre de cristal pendendo como uma ameaça. E só seis lugares postos. Como se alguém tivesse feito questão de mostrar o quanto sobrava espaço. Ricardo já estava na cabeceira. Minha mãe ao lado, com aquele vestido novo que ela comprou pro casamento, tentando sorrir. As mãos dela não paravam de mexer no guardanapo. Ela também sentia. Eu me sentei. O mais longe possível da cabeceira. Felipe entrou logo depois. Ainda de terno. Nem olhou pra mim. Se sentou, abriu o celular, como se eu fosse parte da decoração. Como se o jantar fosse só um intervalo irritante entre uma reunião e outra. Thiago chegou atrasado. De propósito. Cabelo ainda molhado, camiseta preta colada no corpo. Ele se jogou na cadeira com a postura de quem não queria estar ali. Os olhos dele encontraram os meus por um segundo. Um segundo só. E desviaram rápido. Rápido demais. Como se me olhar fosse queimar. Noah foi o último. E o único que sorriu. — Elisa — ele disse meu nome como se estivesse provando. Puxou a cadeira do meu lado antes que eu pudesse escolher outro lugar. — Achei que você fosse fugir pela janela do quarto. É bem alta, mas pra quem tá desesperada... — Ainda estou considerando — respondi seca. Ele riu. Alto. Genuíno. Um som que destoou de todo o resto da mesa. — Gosto dela — ele anunciou para a mesa, como se eu fosse um brinquedo novo que o pai tinha trazido. — Ela tem garrinhas. O jantar começou. Silêncio. Só o som irritante de talheres contra porcelana cara. Minha mãe tentou duas vezes puxar assunto. — Felipe, como foi o trabalho hoje? — Normal. — Thiago, você ainda está na faculdade? — Tô. Morreu. Tudo morreu ali. Até que Felipe largou o celular. Devagar. E levantou os olhos para mim. Frios. Calculistas. — Então, Elisa — a voz dele cortou o silêncio. Não alta. Pior. Baixa e controlada. — O que exatamente você planeja fazer aqui? Senti o sangue subir. — Como assim? — Aqui. Nesta casa. Na nossa vida — ele apoiou o queixo na mão, me estudando. — Você planeja estudar? Trabalhar? Ou só... ficar? Ocupando espaço? — Felipe — Ricardo avisou, baixo. — É uma pergunta justa, pai — ele não desviou os olhos de mim. — Ela chegou há algumas horas e já causou desconforto suficiente. — Eu não causei desconforto nenhum — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Vocês decidiram que eu era um problema antes mesmo de eu abrir a boca! Silêncio absoluto. Até o Thiago parou de comer. Olhou pra mim, surpreso. De verdade. Felipe me encarou. Por longos segundos. Não era raiva no rosto dele. Era outra coisa. Uma espécie de reconhecimento. Relutante. Quase... impressionado que eu tive coragem de responder. — Ela tem razão — a voz de Noah quebrou a tensão do meu lado. Leve, divertida, mas com veneno embaixo. — Vocês dois foram bem escrotos hoje. Principalmente você, Thiago. Encurralando a menina no corredor à tarde? Meu corpo inteiro gelou. Thiago ergueu a cabeça na hora. Os olhos pegando fogo agora, cravados no Noah. — Fecha a boca, Noah. — Por quê? É mentira? — Noah deu de ombros, mas por baixo da mesa, escondido pela toalha branca e longa, eu senti. O joelho dele roçando no meu. Lento. Calculado. De propósito. Não foi um esbarrão. Foi um toque. Que subiu um centímetro. E ficou ali. Meu coração disparou. Me afastei um centímetro, discreta. Ele me seguiu. O joelho dele pressionou o meu de novo. Mais firme. — Ninguém pediu sua opinião — Thiago rebateu, a voz dura, mas os olhos dele agora estavam em mim. Na minha reação. Na minha perna que eu tentava afastar. — Ninguém nunca pede a minha — Noah respondeu, sorrindo pra mim. Só pra mim. — Mas eu sempre dou mesmo assim. Eu levantei da mesa. Bruscamente. A cadeira fez barulho. — Com licença. Já terminei. Ninguém disse nada. Mas senti. Três pares de olhos nas minhas costas enquanto eu andava até a porta. Queimando. Felipe, calculando. Thiago, com raiva por ter olhado. Noah, sorrindo porque tinha conseguido o que queria. No corredor, longe da sala, encostei na parede. Respiração presa. Pernas bambas. A pele onde o joelho dele tinha tocado ainda queimava. Eles queriam que eu fosse embora. Isso continuava claro. Mas agora eu sabia de outra coisa. Uma coisa muito pior. Eles não estavam só me odiando. Eles estavam competindo. E eu era o prêmio. Atrás de mim, passos. Lentos. Pesados. Vindo da sala de jantar. Não precisei me virar pra saber quem era. Só um deles andava daquele jeito, como se já fosse dono de tudo. Inclusive de mim. Nota da autora: o que acharam desse capítulo,não deixa de comentar e me seguir bjosCapítulo 103: A Chegada da Princesa e a Paz na LEGADOOs meses seguintes àquele ensaio fotográfico inesquecível na joalheria passaram voando em um ritmo alucinante de expectativas exacerbadas, reformas no quartinho da bebê e uma torrente infinita de mimos que desafiava qualquer senso de proporção lógica. Se dependesse estritamente do Felipe, a maternidade seria transformada em uma fortaleza inexpugnável com segurança particular armada e detectores de metal na porta; se dependesse do Thiago, o quarto da recém-nascida já estaria equipado com uma mini quadra de futebol com grama sintética e traves de alumínio; e se dependesse do Noah, a menininha viveria vinte e quatro horas por dia cercada por uma trilha sonora de violão acústico e poesias românticas sussurradas ao pé do ouvido.No entanto, o verdadeiro centro de gravidade de todo aquele universo caótico e apaixonado continuava sendo a joalheria LEGADO e a minha barriga, que nos últimos dias parecia ter decidido crescer o dobro do taman
Capítulo 102: O Ensaio Gestante na LEGADO e o Primeiro Chute Oficial A escolha dos nomes — Helena Luna Andrades ou Luna Helena Andrades — tinha trago uma trégua temporária à mansão, mas a calmaria na vida de uma grávida cercada por três empresários obcecados durava exatamente o tempo de um suspiro. Com seis meses de gestação completados na semana anterior, a minha barriga finalmente havia decidido que era hora de aparecer para o mundo de forma inegável. Não dava mais para disfarçar com roupas largas; eu parecia estar carregando uma melancia perfeitamente polida sob a blusa de seda. E, claro, se dependesse do Felipe, do Thiago e do Noah, cada centímetro daquele crescimento estaria documentado por uma equipe de cinegrafistas profissionais, fotógrafos de alta sociedade e drones particulares. — Eu já disse que não vou fazer um ensaio gestante dentro de uma mina de diamantes na África do Sul, Felipe! — esbravejei da porta do closet, cruzando os braços e encarando o mais velho, que segur
Capítulo 101: Desejos da Madrugada e a Guerra do BerçoA gravidez de Elisa vinha provando ser uma verdadeira montanha-russa de emoções, mas, acima de tudo, de exigências culinárias absolutamente improváveis. Se antes a dona da joalheria LEGADO gerenciava diamantes, ouro e pedras preciosas com uma precisão cirúrgica, agora ela gerenciava um estoque caótico de vontades repentinas que desafiavam qualquer lógica gastronômica.Eram três da manhã quando o quarto do casal — ou melhor, o apartamento espaçoso onde os quatro viviam um arranjo tão caótico quanto apaixonante — foi invadido por um gemido manhoso.— Felipe... — a voz de Elisa saiu abafada pelo travesseiro. — Felipe, acorda. Acorda os meninos também. É sério.Felipe Andrades, o mais velho, empresário sério que costumava resolver crises corporativas com uma única sobrancelha erguida, abriu os olhos imediatamente. O instinto protetor despertou antes mesmo da consciência. Ao seu lado, Thiago resmungou algo sobre o Corinthians ganhar o
Capítulo 100 - A Guerra dos NomesDescobrir que a nossa pequena herdeira vinha por aí foi um dos momentos mais mágicos e barulhentos da minha vida. A joalheria LEGADO ficou tingida de rosa por uma semana inteira, com resquícios de pó brilhante grudados nos cantos dos balcões e nas caixas de veludo mais caras, resultado direto daquela explosão catastrófica no nosso chá revelação. Todo mundo comemorou, chorou de emoção e se abraçou até faltar o ar.Só que, no dia seguinte à euforia coletiva, o verdadeiro caos foi instaurado.A guerra dos nomes.Antes de engravidar, eu nutria a doce e ingênua ilusão de que escolher o nome de um filho seria uma tarefa romântica, pacífica e cheia de poesia. Imaginava nós quatro sentados na varanda, tomando um chá gelado, folheando um livro de nomes com caligrafia clássica e chegando a um consenso harmônico.Ledo engano. A começar pelo fato de que a casa dos irmãos Andrades não conhecia o significado da palavra "paz" quando o assunto envolvia proteger, mima
Capítulo 99 - O Chá de Bebê Mais Catastrófico (e Rosa) da História da LEGADOA Júlia levou a missão de organizar o meu chá de bebê extremamente sério. Sério demais, do tipo que deveria ser investigado por uma junta de planejamento militar ou por especialistas em megalomania corporativa.Quando eu soltei a frase mais inocente do mundo — “Júlia, amiga, faz um cházinho simples, só para nós da loja e a família, bem básico” —, a cabeça dela interpretou algo completamente diferente. Na mente da minha funcionária mais empolgada, a tradução simultânea daquela frase foi: “Arrasa, gasta o PIB de um país pequeno, aluga a praça pública e faz o evento do ano da joalheria LEGADO”.No dia marcado, cheguei à entrada da loja por volta das dez da manhã, acompanhada pelos três seguranças particulares mais corujas e exagerados de São Paulo. Assim que desci do carro e olhei para a fachada de vidro temperado, quase tive um infarto fulminante na calçada.A vitrine que antes exibia delicados colares de ouro
Capítulo 98 - O Anúncio na LEGADO A gente segurou o segredo por quatro dias. Quatro dias inteiros sabendo de algo que mudaria a nossa realidade para sempre, mas guardando a sete chaves apenas entre nós e a família mais próxima. Para três homens que não conseguem guardar nem o que vão comer no jantar sem começar uma discussão sobre delivery, manter essa novidade em sigilo foi, sem dúvida alguma, um recorde mundial absoluto. No quinto dia, eu olhei para o espelho do closet, apertei de leve a ponta do meu próprio nariz e decidi: chega. Eu sou a dona da LEGADO. Minha vida inteira é construída à base de transparência, conquistas e dedicação com as meninas que fazem aquela joalheria funcionar com um reloginho suíço. Eu simplesmente não conseguia continuar escondendo uma bênção tão gigante daquelas que trabalhavam comigo todos os dias, dividindo risadas, perrengues de atendimento e os melhores momentos da minha rotina. — Hoje eu vou contar na loja — declarei, virando-me para o quarto onde







