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capítulo 3

Autor: Loba azul
last update Data de publicação: 2026-07-25 08:19:44

**Capítulo 3 — Jantar**

Eu troquei de roupa três vezes antes de descer para o jantar.

Não porque me importasse com a opinião deles — dizia isso a mim mesma repetidamente enquanto escolhia um vestido simples, nada chamativo — mas porque, de alguma forma, eu sabia que qualquer deslize seria usado contra mim. Um decote errado, uma cor errada, e eu já podia imaginar o comentário afiado que sairia da boca de Thiago ou o olhar de julgamento silencioso de Felipe.

A sala de jantar era tão grande quanto ridícula, uma mesa que caberia doze pessoas confortavelmente, mas onde só cinco lugares estavam postos. Ricardo já estava sentado na cabeceira quando cheguei, minha mãe ao lado dele, tentando parecer confortável em um ambiente que claramente não era feito para pessoas como nós.

Felipe entrou logo depois de mim, ainda de terno, e se sentou sem dizer uma palavra, abrindo o celular como se o jantar fosse apenas um obstáculo entre ele e o trabalho.

Thiago chegou atrasado, o cabelo ainda molhado, jogando-se na cadeira com a informalidade de quem não estava nem um pouco interessado em impressionar ninguém. Seus olhos encontraram os meus por um segundo antes de desviar, como se tocar aquele contato visual por mais tempo fosse perigoso demais.

Noah foi o último a entrar, e o único que sorriu ao me ver.

— Elisa. — Ele puxou a cadeira ao meu lado antes que eu pudesse decidir onde sentar, deixando claro que a escolha já tinha sido feita por ele. — Achei que fosse fugir pela janela.

— Ainda estou considerando — respondi, mais seca do que pretendia.

Ele riu, um som genuíno que destoava completamente da tensão do resto da mesa.

— Gosto dela — disse, olhando para o pai, como se eu fosse um item de entretenimento recém-adquirido.

O jantar começou em um silêncio incômodo, quebrado apenas pelo som de talheres contra porcelana. Minha mãe tentou puxar assunto duas vezes, e cada tentativa morria em respostas monossilábicas de Felipe e olhares entediados de Thiago.

— Então, Elisa. — A voz de Felipe cortou o silêncio de repente, os olhos frios finalmente saindo do celular para pousar em mim. — O que exatamente você planeja fazer aqui? Estudar? Trabalhar? Ou só... ficar?

A pergunta veio carregada de um desdém que fez o sangue subir ao meu rosto.

— Vou terminar meus estudos — respondi, tentando manter a voz firme. — E depois procurar trabalho, provavelmente.

— Interessante. — Ele voltou a atenção ao prato, como se a resposta tivesse confirmado alguma teoria que ele já tinha sobre mim. — Quanto tempo você acha que vai durar morando com estranhos?

— Felipe — Ricardo disse, um aviso na voz.

— É uma pergunta justa, pai. — Ele nem se deu ao trabalho de olhar para mim novamente. — Ela chegou há algumas horas e já está causando desconforto.

— Eu não causei desconforto nenhum — retruquei. — Vocês que decidiram que eu era um problema antes mesmo de eu abrir a boca.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Thiago ergueu os olhos, surpreso.

Felipe finalmente me encarou de verdade, algo indecifrável passando por seu rosto — não raiva exatamente, mas uma espécie de reconhecimento relutante, como se eu tivesse acabado de fazer algo que ele não esperava que eu tivesse coragem de fazer.

— Ela tem razão — Noah disse ao meu lado, quebrando a tensão com um tom quase divertido. — Vocês dois foram bem grossos hoje.

— Ninguém pediu sua opinião — Thiago rebateu, voltando a atenção para o prato.

— Ninguém nunca pede — Noah respondeu, sem se abalar, e por baixo da mesa, sem que ninguém mais visse, seu joelho roçou de leve no meu, um gesto tão rápido que eu quase duvidei que tivesse acontecido.

Eu me afastei discretamente, o coração batendo descompassado por motivos que eu não queria examinar de perto.

O resto do jantar transcorreu em um silêncio mais controlado, mas eu sentia os olhares — de Felipe, calculistas e frios; de Thiago, evitando os meus a todo custo, como se tocar aquele contato fosse revelar algo que ele preferia manter escondido.

Quando finalmente me levantei da mesa, senti os três pares de olhos me seguirem até a porta.

No corredor, já longe da sala de jantar, encostei-me na parede e respirei fundo.

Eles queriam que eu fosse embora. Isso continuava claro como cristal.

Mas havia algo mais ali, algo que eu não conseguia nomear — nos olhos de Felipe quando finalmente me encarou, no silêncio carregado de Thiago, no toque calculado de Noah por baixo da mesa.

Alguma coisa naquela casa estava prestes a mudar, e uma parte perigosa de mim já não tinha tanta certeza de que queria fugir dela.

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Comentários (1)
goodnovel comment avatar
Irlaine Soares
hummmmmmmm
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