登入O abraço não durou muito. Beatriz logo se recompôs da emoção e da gratidão. Quando percebeu a intimidade do próprio gesto, soltou Marcelo depressa.Ele mantivera os braços ao redor dela com leveza.Assim que sentiu Beatriz recuar, também soltou o abraço com naturalidade.Os dois ficaram em silêncio por um instante, constrangidos.Marcelo pigarreou de leve para quebrar o clima.— Você passou o dia sem comer. Deve estar com fome. Vou buscar alguma coisa.Saiu do quarto, dando a Beatriz espaço para acalmar as emoções.......No escritório da presidência do Grupo Santos, Flávio colocou um documento sobre a mesa com respeito.— Sr. Gabriel, esta é a cópia do prontuário de Beatriz que o hospital enviou.Gabriel ergueu os olhos e abriu o prontuário. Seus dedos pararam quando leu os diagnósticos de “recaída de depressão grave” e “comportamento de autolesão desencadeado por estresse emocional”.As lembranças voltaram sem que ele conseguisse evitar: os olhos vazios e desesperados de Beatriz n
A decepção e a tristeza voltaram.Não podia ser Neve. Regina e Murilo tinham matado ele...Marcelo devia ter encontrado um coelho igual para tentar consolar Beatriz.Mas certas perdas não podiam ser amenizadas por uma substituição.Ela recolheu a mão devagar, baixou o rosto e falou com a voz rouca:— Obrigada pela intenção. Mas não precisa. Ele não é Neve.O esforço de Beatriz para conter a tristeza provocou em Marcelo uma mistura de ternura e dor.Ele não afastou o coelho. Pelo contrário, aproximou um pouco mais e falou com calma e certeza:— Olha com atenção. É Neve mesmo.Beatriz levantou o rosto de repente e encarou Marcelo, sem acreditar. Hesitante, pegou o coelho e examinou com cuidado.O olhar conhecido, a pequena mancha discreta na ponta da orelha e o hábito de esfregar o rosto na palma dela... Cada detalhe confirmava: era Neve de verdade!Ainda assim, Beatriz mal conseguia acreditar.— Como isso é possível...?Marcelo explicou:— Anteontem à noite, depois de deixar você em c
O olhar perdido de Beatriz foi se fixando no rosto de Marcelo, e a tensão começou a diminuir.Seus dedos relaxaram. A faca caiu no chão no mesmo instante em que seu corpo perdeu a força. Ela desmaiou e tombou para trás.Gabriel e Marcelo avançaram juntos, mas Marcelo chegou um instante antes. Segurou Beatriz, pegou ela no colo e se virou para sair.Gabriel bloqueou o caminho, com a voz carregada de emoções difíceis de separar.— Pare! Ela é minha esposa! Deixa ela comigo!Marcelo parou e encarou Gabriel com frieza.— Você ajudou essa família de desgraçados a fazer ela sofrer e chegar a esse ponto, e ainda tem coragem de dizer isso? Ou só vai ficar satisfeito quando a Beatriz morrer na sua frente?As palavras atingiram Gabriel em cheio. Todas as tentativas de defesa ficaram presas na garganta.O rosto pálido de Beatriz e o sangue no pulso dela provocavam uma dor que impedia Gabriel de falar. Só conseguiu observar Marcelo sair com ela nos braços e desaparecer pela porta.Marcelo aco
Beatriz estava no meio dos cacos, segurando a faca com força. Os olhos vermelhos e a respiração acelerada faziam ela parecer alguém que tinha sido encurralada até não restar saída.Vanessa se escondeu imediatamente atrás de Gabriel e falou com a voz aguda, entre lágrimas:— Gabriel! Beatriz enlouqueceu! Ela quer matar meus pais!Regina e Murilo correram até eles, abatidos e assustados, assumindo na mesma hora o papel de vítimas.Regina começou a chorar e gritar:— Finalmente vocês chegaram! Não sei o que deu nela! Entrou aqui quebrando tudo e ainda tentou atacar a gente com uma faca! Nem sabemos o que fizemos para ela!Murilo concordou depressa, insinuando algo mais:— É verdade, Gabriel. Ela está muito perigosa! Já teve crises antes, é muito instável. Acho que precisamos chamar um hospital psiquiátrico. Quem sabe o que ainda pode fazer?Gabriel olhou além dos dois, concentrando toda a atenção em Beatriz.Ela respirava depressa. Os olhos que antes eram tão vivos agora estavam vazios e
Beatriz se virou de repente e encarou Regina com fúria.— O que isso quer dizer? O que você fez com ele?Regina soltou uma risada de desprezo, como se aquilo não tivesse importância.— Era só um coelho. Nem valia tanto assim. Murilo ficou com vontade de comer coelho ensopado, então a gente... Quer ficar para jantar? Pode provar minha comida.— O que você disse?A voz de Beatriz tremia sem controle. Ela ficou paralisada por um instante, depois correu para a cozinha como se tivesse enlouquecido.O cheiro forte de carne veio de imediato. A panela no fogão ainda soltava vapor. Na lixeira ao lado, havia tufos sujos de pelo branco de coelho. A visão fez os olhos de Beatriz arderem.Foi como ouvir um estrondo dentro da própria cabeça. Ela sentiu o sangue subir ao rosto. A visão ficou distorcida e embaçada, e as lágrimas começaram a cair de uma vez.Seu corpo inteiro tremia. As palavras saíam quebradas, quase incapazes de formar uma frase.— Vocês mataram ele... Mataram o meu Neve...Regi
Naquele momento, alguns clientes apareceram com seus animais de estimação.A equipe estava ocupada com os cadastros e não percebeu a presença dos dois.Eles entraram escondidos na área de observação. Um deles abriu rapidamente a gaiola de Neve, pegou ele e escondeu dentro do casaco largo. O outro ficou na porta, de vigia.Depois, os dois saíram depressa, de cabeça baixa.A funcionária olhava para a gravação, sem acreditar.— Como isso pôde acontecer?Alguém tinha ido até o hospital veterinário para roubar um coelho? Os dois estavam tão cobertos que não dava para ver o rosto deles.Beatriz, porém, não tirava os olhos da tela. Reconheceria em qualquer lugar a silhueta e o jeito de andar daquela mulher, assim como o hábito do homem de esfregar as mãos.Regina e Murilo! Aqueles dois que ainda tinham coragem de se dizer parentes dela!E havia Vanessa, aquela desgraçada. No dia anterior, tinham se encontrado no hospital veterinário. Agora, os pais dela sabiam exatamente onde encontrar







