LOGINNo dia em que deveria dizer “sim” ao homem que amava, Kiraz é abandonada diante do altar. Com a igreja vazia, o vestido de noiva ainda sobre o corpo e o coração despedaçado, ela recebe uma proposta inesperada de Vicente Albuquerque, um dos homens mais poderosos e enigmáticos da cidade. Um casamento secreto. Sem festas. Sem declarações. Sem promessas de amor. Apenas um acordo. Vicente precisa de uma esposa para cumprir uma cláusula deixada por seu avô. Kiraz precisa recuperar o controle da própria vida depois da humilhação que sofreu. Parece simples. Mas Vicente é tudo, menos simples. Frio, inteligente e impossível de decifrar, ele parece saber mais sobre Kiraz do que deveria. Seus gestos são precisos, suas respostas carregam duplo sentido e cada coincidência ao redor dela parece esconder alguma coisa. Enquanto Dante, o homem que a deixou no altar, tenta descobrir onde Kiraz está, ela começa a perceber que seu casamento de conveniência talvez tenha sido planejado muito antes de sua chegada àquela igreja. Entre segredos, ciúmes, encontros inesperados e verdades enterradas no passado, Kiraz precisará descobrir uma coisa: ela realmente escolheu Vicente... ou foi Vicente quem escolheu ela?
View MoreO relógio marcava quatro e vinte e três da tarde quando Kiraz percebeu que Dante não viria.
Não foi quando o primeiro convidado olhou para o celular. Nem quando a mãe dela começou a caminhar de um lado para o outro, tentando disfarçar a preocupação. Nem quando o padre, já sem saber o que dizer, fechou lentamente o livro sobre o altar. Foi quando as portas da igreja se fecharam. O som ecoou pelo salão vazio. E, naquele instante, Kiraz entendeu. Ele não viria. O vestido branco parecia pesar mais a cada minuto. Era um modelo delicado, feito sob medida, com mangas de renda fina e uma saia que se espalhava pelo chão de mármore. O véu ainda estava preso aos cabelos, embora já não houvesse ninguém para vê-la atravessar aquele corredor. As flores continuavam impecáveis. As velas continuavam acesas. A música havia parado. Só Dante não estava ali. Kiraz respirou fundo. — Ele vai aparecer — disse Cecília, aproximando-se. Kiraz soltou uma risada baixa, sem humor. — Você acredita mesmo nisso? — Acredito que alguma explicação existe. — Uma explicação que demora quatro horas? Cecília ficou em silêncio. Kiraz olhou para o relógio novamente. — Não precisa mentir para mim, Cecília. Eu já passei tempo demais fazendo isso comigo mesma hoje. A amiga segurou sua mão. — Você não precisa ficar aqui. — Eu sei. — Então vamos embora. Kiraz olhou para o altar. — Eu passei a vida inteira imaginando esse momento. — Kiraz... — Não o casamento. — Ela engoliu em seco. — Esse momento. O momento em que eu finalmente saberia que tinha escolhido a pessoa certa. A voz falhou no final. Cecília apertou sua mão. — E você ainda pode escolher a si mesma. Kiraz desviou o olhar. Talvez fosse exatamente isso que ela tivesse esquecido de fazer. Uma hora depois, a igreja estava completamente vazia. As famílias tinham ido embora. Os convidados também. Até o fotógrafo desistira. Kiraz permanecia sentada em um dos bancos, com o buquê sobre o colo. Não chorava mais. O que havia para chorar depois de quatro horas? Ela estava apenas cansada. Cansada de esperar. Cansada de imaginar explicações. Cansada de sentir vergonha por uma coisa que não tinha feito. Levantou-se devagar. Foi então que ouviu passos. Firmes. Sem pressa. Kiraz virou-se. Vicente Albuquerque entrou na igreja. Ele parecia completamente deslocado naquele cenário abandonado. Alto, de ombros largos, postura impecável, cabelos negros penteados para trás, embora algumas mechas tivessem escapado sobre a testa. O maxilar marcado reforçava a expressão naturalmente séria. Os olhos escuros percorriam o ambiente com uma atenção quase desconfortável. Vestia um terno preto perfeitamente ajustado, camisa branca e gravata escura. Vicente sempre parecia estar no lugar certo. Mesmo quando todos os outros já tinham ido embora. Kiraz o conhecia havia anos. As famílias frequentavam os mesmos eventos desde que a família dela havia entrado definitivamente no círculo mais poderoso do setor de tecnologia automotiva. Eles já haviam dividido mesas em jantares. Conversado em recepções. Trocado cumprimentos em eventos. Nunca tinham sido amigos. Também nunca haviam sido exatamente estranhos. Vicente parou a alguns metros dela. — Você ainda está aqui. Kiraz ergueu uma sobrancelha. — Impressionante observação para alguém que acabou de entrar numa igreja vazia. — Eu poderia ter escolhido uma abordagem mais delicada. — Por favor, não escolha. Um quase sorriso apareceu no canto da boca dele. — Você continua sendo você. Kiraz apertou o buquê entre os dedos. — Não tenho certeza se isso é um elogio. — Não foi. Ela respirou fundo. — Então o que você quer? Vicente caminhou até o banco à frente. — Fazer uma proposta. Kiraz soltou uma risada incrédula. — Vicente, se você veio me oferecer condolências, chegou algumas horas atrasado. — Não vim oferecer condolências. — Ótimo. Porque eu não estou procurando piedade. — Eu sei. A resposta foi tão tranquila que ela o encarou. — Você sempre fala como se soubesse mais do que deveria. — Talvez porque as pessoas falem mais do que deveriam quando acreditam que ninguém está prestando atenção. Kiraz ficou alguns segundos em silêncio. — Você veio aqui para me analisar? — Não. — Então por que veio? Vicente sustentou o olhar dela. — Para propor que você se case comigo. O silêncio foi absoluto. Kiraz piscou uma vez. Depois outra. — Você está brincando. — Não. — Vicente, eu acabei de ser abandonada no altar. — Eu sei. — E sua solução para isso é me pedir em casamento? — Não é uma solução. É uma proposta. Kiraz deu um passo na direção dele. — Você percebe que existe uma diferença enorme entre as duas coisas? — Percebo. — E mesmo assim decidiu aparecer aqui, depois de todo mundo ir embora, para me oferecer um casamento como se estivesse negociando uma empresa? Vicente manteve a calma. — Você está confundindo a minha maneira de falar com a minha intenção. — Então me explique a intenção. Ele fez uma pequena pausa. — Preciso me casar. Kiraz riu. Dessa vez, sem conseguir evitar. — Isso é sério? — Infelizmente. — Você é um dos homens mais poderosos desta cidade. Tem dinheiro, influência, empresas, contatos. Aposto que existem mulheres fazendo fila para usar seu sobrenome. — Existem. — E você escolheu justamente a mulher que acabou de ser abandonada pelo próprio noivo. — Escolhi. Kiraz cruzou os braços. — Por quê? Vicente a observou por alguns segundos. — Porque você não está procurando nada de mim. A resposta a desconcertou. — Isso deveria ser um elogio? — É uma constatação. — E você acha que eu deveria aceitar um casamento baseado em uma constatação? — Não. Acho que você deveria aceitar apenas se isso também for conveniente para você. Ela estreitou os olhos. — Conveniente. — Sim. — Você realmente consegue tornar um pedido de casamento mais romântico do que uma reunião de acionistas. — Nunca prometi romance. Aquilo a atingiu de uma maneira estranha. Talvez porque fosse exatamente o que ela precisava ouvir. Sem promessas. Sem pena. Sem falsas palavras. Kiraz caminhou até a janela. Lá fora, o céu começava a escurecer. — Você precisa de uma esposa por quê? Vicente se aproximou, mas manteve distância. — Há uma condição relacionada à sucessão dos negócios da minha família. — E você precisa cumprir essa condição agora? — Em breve. — E não pode escolher qualquer mulher? — Posso. Ela virou-se. — Então por que eu? Por um instante, Vicente não respondeu. Foi apenas um segundo. Mas Kiraz percebeu. — Está vendo? — disse ela. — Até você precisou pensar. — Eu estava escolhendo a resposta mais adequada. — Isso é uma forma elegante de dizer que você não quer responder. — É uma forma elegante de dizer que algumas respostas não precisam ser dadas hoje. Kiraz soltou o ar pelo nariz. — Você é insuportável. — Já me disseram. — Imagino que muitas vezes. — Principalmente por mulheres que depois acabam pedindo minha ajuda. Ela o encarou. — Eu nunca pediria sua ajuda. — Hoje você não pediu. — E não vou pedir. — Talvez seja exatamente por isso que eu tenha vindo. Kiraz ficou em silêncio. A frase parecia ter mais significado do que deveria. Mas ela estava cansada demais para procurar respostas. Vicente retirou um envelope do bolso interno do paletó e colocou sobre o banco. — O acordo está aqui. Ela não tocou. — Você trouxe um contrato? — Trouxe. — Para uma proposta que acabou de fazer? — Eu prefiro estar preparado para aquilo que quero. Kiraz olhou para o envelope. — E se eu recusar? — Você vai embora. — Sem insistir? — Sem insistir. — Sem tentar me convencer? Vicente sustentou o olhar dela. — Kiraz, você acabou de ser abandonada por um homem. Eu não cometeria o erro de começar nosso casamento tentando obrigá-la a ficar comigo. Ela ficou imóvel. Pela primeira vez naquela tarde, alguém não estava tentando dizer o que ela deveria sentir. Kiraz pegou o envelope. — E se eu aceitar? — Será um casamento discreto. — Quanto tempo? — Até que ambos decidamos que o acordo deixou de ser útil. — Você fala de casamento como se fosse uma fusão empresarial. — Talvez porque casamentos e empresas tenham mais coisas em comum do que as pessoas gostam de admitir. Ela quase sorriu. — Você é péssimo em convencer alguém. — E você ainda está segurando o contrato. Kiraz olhou para a própria mão. Ele tinha razão. Isso a irritou. — Eu vou ler. — É tudo o que estou pedindo. — Não. Você está pedindo que eu me case com você. Vicente inclinou levemente a cabeça. — Tem razão. Ela caminhou até ele. — E se eu disser sim, ninguém fica sabendo hoje. — Ninguém. — Nem nossas famílias. — Principalmente elas. — Nenhuma festa. — Nenhuma. — Nenhuma fotografia. — Nenhuma. Kiraz respirou fundo. — E você não vai tentar transformar isso em alguma coisa que não é. Vicente a encarou por alguns segundos. — Concordo. — Então temos um acordo. — Temos. Kiraz estendeu a mão. Vicente olhou para ela antes de apertá-la. O toque foi firme. Quente. Demorado o suficiente para que ambos percebessem. Mas nenhum dos dois comentou. Naquela noite, em uma pequena sala reservada do cartório, sem convidados e sem flores, Kiraz assinou o documento. Vicente assinou logo depois. Duas testemunhas. Um juiz. Nenhuma declaração de amor. Nenhuma promessa eterna. Quando saíram, a cidade estava iluminada. Kiraz olhou para a aliança no dedo. Ainda parecia impossível. — Então é isso? Vicente caminhava ao lado dela. — Por enquanto. Ela olhou para ele. — Você sempre responde assim? — Assim como? — Como se sempre soubesse que existe um próximo capítulo. Vicente abriu a porta do carro para ela. — Eu só não costumo terminar uma história antes de descobrir como ela termina. Kiraz entrou. Antes de fechar a porta, olhou novamente para ele. — Eu espero que você saiba onde está se metendo. Vicente encontrou seus olhos. — Eu sei exatamente onde estou. A porta se fechou. O carro partiu. E nenhum dos dois percebeu que, naquela mesma noite, em outro ponto da cidade, o telefone de Kiraz começava a tocar. Uma vez. Duas. Três. Na tela, um único nome: Dante.Capítulo — Quando o mundo souberÀs duas e quarenta da tarde, a sala de imprensa já estava praticamente preparada.O espaço escolhido pela equipe de comunicação de Vicente ocupava o auditório principal da sede da empresa, no alto de um edifício envidraçado que dominava parte do centro financeiro da cidade. Pelas paredes de vidro, era possível observar o movimento dos carros nas avenidas, o reflexo dos prédios vizinhos e o céu claro que começava a perder a intensidade do meio-dia.Lá dentro, porém, toda a atenção estava concentrada no palco.O painel com o nome da empresa ocupava a parede central. À direita, uma tela exibia as primeiras imagens do novo empreendimento imobiliário: construções baixas, madeira, vegetação abundante, caminhos de areia clara e pequenas estruturas distribuídas ao longo da costa. O projeto havia sido concebido para oferecer uma experiência de vila à beira-mar, com bangalôs, cafés, restaurantes e espaços de convivência integrados à paisagem.As primeiras fileir
Naquela noite, nenhum dos dois dormiu direito.Kiraz entrou no quarto, fechou a porta e permaneceu alguns segundos encostada nela.O silêncio do ambiente parecia diferente.Ela já havia tomado banho, trocado de roupa, prendido parte dos cabelos ainda úmidos e organizado algumas coisas sobre a penteadeira. Tudo estava no lugar.Menos seus pensamentos.Ela se sentou na beirada da cama.Por alguns segundos, tentou pensar apenas no dia seguinte.A coletiva.A família.O anúncio.As perguntas que certamente surgiriam.O casamento que, até então, existia apenas dentro de uma pequena bolha protegida dos olhos do mundo.Mas seus pensamentos insistiam em voltar para o escritório.Para o momento em que Vicente havia lido o cartão.Kiraz fechou os olhos.Ela tinha visto.Não precisava que ele dissesse.A mudança havia acontecido diante dela.A mão apertando o papel.Os nós dos dedos embranquecendo.A mandíbula rígida.Aquele olhar que não era exatamente raiva, mas também estava muito distante da
Dante ainda estava parado diante da mesa de Kiraz.Os olhos continuavam presos à mão dela.Ao anel.Era pequeno.Discreto. Elegante.E, justamente por isso, parecia ainda mais difícil acreditar nele.Dante tentou afastar o olhar, mas não conseguiu.Talvez fosse uma encenação.Era a primeira explicação que sua mente conseguia encontrar.Talvez Kiraz tivesse colocado aquele anel justamente para fazê-lo parar. Talvez tivesse sido uma decisão tomada no impulso, uma forma de estabelecer uma barreira que ela sabia que ele não conseguiria ignorar.Talvez Vicente tivesse comprado aquilo apenas para sustentar uma aparência.Um casamento.Uma história conveniente.Uma maneira de encerrar perguntas.Dante agarrou-se a essas possibilidades como alguém que se recusa a aceitar a porta fechada diante de si.Porque, se aquilo fosse realmente um casamento, então significava que ele havia perdido Kiraz.Não apenas perdido a oportunidade de recuperá-la.Perdido a mulher que, por tanto tempo, ele acredi
A manhã avançava na empresa de Kiraz com a normalidade possível.Reuniões.Documentos.Telefonemas.Pessoas entrando e saindo de sua sala.O trabalho não tinha diminuído apenas porque sua vida pessoal parecia ter decidido concentrar acontecimentos demais em um único período.Kiraz estava inclinada sobre alguns relatórios quando sua secretária apareceu.— Kiraz, chegou uma entrega para você.Dante entrou na sala de Kiraz sem saber que aquele dia seria diferente de todos os outros.Tinha ido até ali porque precisava vê-la.Não sabia exatamente o que esperava encontrar.Talvez a mesma mulher que, apesar de tudo, ainda guardava algum espaço para ele. Talvez uma brecha em alguma conversa. Talvez apenas um olhar que confirmasse aquilo que ele insistia em acreditar: que a história dos dois ainda não tinha terminado completamente.Então viu as flores.O buquê estava sobre a mesa.Não era pequeno.Era cuidadosamente montado, elegante, com rosas em tons claros, flores brancas de pétalas delicad


















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