Compartir

05

last update Fecha de publicación: 2026-08-02 04:26:00

Annie Rothschild sentiu que todos na agência Fitzwilliam a olhavam mais do que o costume. E ela, que já andava paranoica com o do hospital, ficou cravada nessa sensação de ter demasiada atenção em cima. Os olhares, cheios de julgamento e uma curiosidade doentia, seguiam-na como holofotes enquanto caminhava em direção ao seu pequeno cubículo.

Por isso esteve nervosa quase toda a manhã.

Ainda não tinha acabado de pousar a mala quando a voz do seu chefe, o senhor Fitzwilliam, rimbombou através do intercomunicador.

— Rothschild. Ao meu gabinete. Agora!

Annie caminhou com as pernas trêmulas. Sobre a secretária do senhor, um tablet mostrava a imagem que tinha incendiado as redes sociais essa manhã: Ian Winchester, o homem mais poderoso do país, a segurá-la a ela contra a parede de um hospital num beijo que parecia saído de um filme romântico.

No entanto, só se pintava para ela como um filme de terror.

O senhor Fitzwilliam olhou-a de alto a baixo com um esgar de incredulidade.

— Podes explicar-me o que é este circo, Annie? —perguntou, apontando para o ecrã—. Um cliente importante ligou-me a perguntar por que razão uma das nossas assistentes junior aparece nos tabloides com o CEO da Winchester. Achei que era uma piada de mau gosto, mas ao ver a foto, indubitavelmente és tu.

Annie engoliu em seco. As suas mãos, escondidas debaixo da mesa, não paravam de tremer.

— É... é real, senhor —sussurrou, com a voz apenas audível—. Sim, sou eu a da foto.

O silêncio que se seguiu foi tão intenso que atordoava mais do que o próprio ruído, e quando se quebrou foi pior. Fitzwilliam estava a gozar na cara dela, cheio de desprezo.

— Tu? —debochou, encostando-se na sua cadeira—. Por favor, Annie. Tens uma parecença razoável, mas sejamos realistas. Um homem como Ian Winchester, um homem que tem modelos e mulheres aos seus pés, ia reparar numa empregada de recados que mal pode pagar o aluguel? Não me mintas.

— Não lhe minto —replicou ela, embora o rosto lhe ardesse de vergonha.

No entanto tinha de mitigar não só a raiva, mas também a impotência que sentia.

— Vou ligar para o gabinete do Winchester agora mesmo para esclarecer esta confusão tirada de um circo, não, aliás vou ligar-lhe pessoalmente —quase rosnou o velho debochado, pegando no telefone com arrogância.

Annie sentiu que o mundo desabava. E, quando colocou no alta-voz escutou a voz rouca, fria e perfeitamente reconhecível de Ian Winchester.

— Quem fala?

— Senhor Fitzwilliam, não é? —soltou endireitando-se no seu assento, sentindo-se tão inferior, mesmo sendo dono e chefe da sua própria agência, mas perante Winchester não era nada—. Alegra-me que atenda o senhor. Senhor, antes de mais nada quero pedir desculpas, se uma das minhas empregadas causou um problema, prometo-lhe que...

— Espere, senhor Fitzwilliam... Estava prestes a entrar no seu edifício. A minha noiva, Annie, tem passado por muito stress ultimamente e não quero que perca mais um minuto nesse cubículo. É dela que fala, não é?

O rosto de Fitzwilliam passou do vermelho ao branco num segundo. Fora de jogo. Enquanto olhava para Annie, que ali permanecia de cabeça baixa e cheia de muita vergonha.

— A sua noiva? —sussurrou sem dar crédito—. Senhor... Senhor Winchester... eu não...

Pouco depois alguém abriu caminho no gabinete sem sequer se dar ao trabalho de bater à porta. Apareceu, tão deslumbrante como sempre, ali estava o elegante Ian, com o seu fato à medida e os seus olhos focados nela. Caminhou diretamente para Annie e, perante o olhar atónito daquele homem que os observava quase com o queixo no chão, pegou na mão dela com uma firmeza possessiva.

— Annie, já é hora, vamos embora —assinalou, dedicando-lhe um sorriso gélido que não chegava aos seus olhos—. O senhor Fitzwilliam compreende que a tua demissão é imediata. Temos um casamento para planejar. Não podes ser a garota dos recados agora que te vais transformar na minha esposa.

Fitzwilliam, cada vez mais perplexo, não conseguia articular uma única palavra, apenas balbucios incoerentes. E nada acabou ali, deixando-se levar para o exterior, Annie engoliu em seco, sentindo o olhar dos seus agora ex-colegas cravados nas suas costas como punhais. Só quando as portas do elevador se fecharam e ficaram sozinhos, soltou a mão de Ian como se queimasse.

— O que foi tudo isso?! —reclamou com a respiração desbocada e os lábios pálidos—. O acordo era sermos noivos, um álibi, não organizar um casamento real à frente do meu chefe! O senhor disse que seria apenas uma fachada!

Ian ajeitou a gravata, recuperando o seu domínio, a sua expressão de CEO imperturbável enquanto continuavam a descer para o estacionamento subterrâneo; só quando estiveram no carro em andamento é que olhou para ela.

— Não me vai dizer nada? —quase gritou de braços cruzados no lugar do passageiro.

— Um noivado sem planos de casamento é um noivado em que ninguém acredita, Annie —respondeu sem olhar para ela—. O conselho de administração precisa de ver que há uma data, um futuro. Precisam de acreditar que a minha estabilidade emocional é absoluta.

— O senhor não pode decidir isso por mim! —gritou ela, com lágrimas de frustração—. Acabo de perder esse emprego por sua culpa. Sou uma interesseira à frente de todos!

Ian virou a cabeça lentamente. Os seus olhos cravaram-se nos dela com uma intensidade que a fez calar. Sem dizer uma palavra, estendeu-lhe um tablet.

Ela paralisou.

No ecrã, Annie viu um vídeo em direto. A sua mãe estava numa suite privada que parecia mais um hotel de cinco estrelas do que um hospital. Ela olhou para ele atónita.

— O que é isto? Por que é que a mamã está...

— Cumpri a minha parte do acordo antes do que pensaste, Annie —assinalou Ian, com uma voz baixa e perigosa—. A tua mãe tem a melhor atenção médica do mundo e as tuas dívidas foram apagadas. Agora deixa de te queixar e faz a tua parte.

Ela estava estupefacta. O que sentia não queimava como o gelo, nem ardia como o fogo, a sensação de se sentir controlada por ele; o facto de se converter em "sua esposa" por obrigação, era um efeito aterrorizador.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • ​O Segredo do CEO: Esposa por Obrigação   199

    Noah soltou um bufo seco que terminou em um riso autêntico, um som rouco que guardava zelosamente para os momentos em que a fachada de herdeiro da indústria têxtil se lhe caía por completo. —Como esquecer. Você havia colocado um vestido rígido de linhas geométricas, preto e verde esmeralda, que parecia desenhado exclusivamente para intimidar a qualquer um que se aproximasse a menos de um metro. Tinhas o aspecto de uma monarca implacável disposta a executar seu próprio conselho de administração em metade do coquetel. Te odiei profundamente os primeiros cinco minutos, sobre todo quando me soltaste na cara que meus melhores padrões industriais eram planos e careciam de qualquer rastro de identidade. —E você carregava com essa prepotência insuportável dos Sinclair, convicto de que um maço de contratos de exclusividade e um talonário de cheques com demasiaados zeros bastariam para comprar o controle da minha marca e me pôr a desenhar uniformes ex

  • ​O Segredo do CEO: Esposa por Obrigação   197

    Levava um traje sob medida de cor azul noite, cortado com essa precisão arquitetônica que ele dominava tão bem. Não levava gravata, fiel ao seu estilo rebelde. Quando me viu avançar, sua habitual expressão de arrogância brincalhona desapareceu por completo, deixando espaço para um olhar de absoluta vulnerabilidade e assombro que me deteve o coração por um segundo. Caminhei para ele sentindo que flutuava. Atrás ficavam os arquivos escuros, as extorsões e as máscaras. Tudo o que nos havia levado até este instante parecia um ensaio para a obra-prima que estávamos a ponto de assinar. Quando cheguei ao seu lado, tomou minhas mãos. Estavam quentes e firmes. —De la Vega — murmurou, com a voz um pouco rouca, inclinando-se para que só eu pudesse escutá-lo—. Acabas de arruinar qualquer desenho que tente fazer no futuro. Nada vai poder superar como você está neste momento. —Espero que você esteja à altura do desafio, Sinclair — respondi, devolvendo-lhe o

  • ​O Segredo do CEO: Esposa por Obrigação   196

    Meu coração deu um pulo tão violento que senti que o ar abandonava meus pulmões. Pisquei, aproximando-me mais do papel, incapaz de processar o que estava vendo. Sob a imagem, escrita com sua inconfundível caligrafia elegante e decidida, havia uma única linha de texto: "Parece que vamos ter que desenhar uma coleção em miniatura, Sinclair. Projeto estimado para daqui a sete meses". Fiquei congelado. Meus dedos roçaram a borda da fotografia em preto e branco, traçando a pequena e difusa forma que descansava no centro da imagem. Um filho. Nosso filho. Todo o império que havíamos construído, todo o sucesso, os desfiles e as capas de revistas se reduziram a nada ante a imensidão do que significava esse pequeno pedaço de papel. Deixei o copo sobre a mesa com mãos temerosas e corri para as escadas, subindo os degraus de dois em dois até chegar ao nosso quarto. A porta estava entreaberta. Miranda estava sentada na borda da cama, envolvida na mi

  • ​O Segredo do CEO: Esposa por Obrigação   195

    Perspectiva de MirandaCinco anos. Esse era o tempo exato que havia transcorrido desde que decidimos que jamais voltaríamos a ser peças no tabuleiro de nenhuma corporação.A luz ambarina do entardecer se filtrava pelos imensos vitrais da sede principal da Sinclair & De la Vega em Manhattan. Encontrava-me no meu escritório privado, imersa na criação de um collage digital de estilo scrapbook que serviria como capa e conceito visual para nosso livro retrospectivo de aniversário. Havia passado as últimas horas ajustando filtros, adicionando texturas superpostas e pequenos rabiscos artísticos na tela, completamente isolada do bulício da cidade.Llevava postos meus grandes fones de ouvido de diadema. Para me concentrar, sempre necessitava que a música me envolvesse com uma fidelidade absoluta, detestava que se perdesse o mais mínimo detalhe sonoro. Havia conectado o cabo ao meu telefone usando meu adaptador DAC, deslizando pela interface escura do Samsung Music para repro

  • ​O Segredo do CEO: Esposa por Obrigação   194

    Perspetiva de Miranda Tinham passado três semanas desde que rejeitámos a oferta de aquisição. A tempestade mediática tinha acalmado e, pela primeira vez em meses, o estúdio estava submerso num silêncio absoluto. Era sexta-feira à noite, e a equipa tinha partido mais cedo para celebrar o fecho do trimestre. Encontrava-me sentada no chão da sala de design, rodeada de amostras de tecidos e paletas de cor para a próxima temporada. A luz cálida das lâmpadas de pé projetava sombras compridas sobre a madeira. Esfreguei os olhos, sentindo o cansaço acumulado, mas era um cansaço satisfatório. Era o peso de construir algo próprio. Ouvi os passos de Noah antes de o ver. Entrou no estúdio com duas taças de vinho tinto e um pequeno pacote retangular embrulhado em papel kraft debaixo do braço. Vestia de maneira informal, com uma camisola escura com as mangas arregaçadas até aos cotovelos, e esse olhar intenso que, por mais tempo que

  • ​O Segredo do CEO: Esposa por Obrigação   193

    Perspetiva de NoahO silêncio no nosso estúdio nessa manhã tinha um peso distinto. Não era o silêncio tenso das datas de entrega, nem o nervosismo prévio a um desfile, mas o silêncio denso das decisões que alteram a vida.Sobre a minha secretária descansava um contrato impresso em papel de alta gramagem, adornado com o inconfundível timbre da companhia. Massimiliano não tinha demorado nem quarenta e oito horas desde o triunfo da nossa passarela a mover as suas peças. A oferta de compra era obscena. Uma cifra com zeros suficientes para que Miranda e eu desaparecêssemos na costa de Amalfi pelo resto das nossas vidas sem voltar a tocar num esboço.Levantei o olhar. Miranda estava do outro lado da sala, iluminada pela luz da manhã, concentrada enquanto servia duas chávenas de café. Vestia uma camisa branca larga e o cabelo apanhado de forma descuidada. Ao vê-la, no seu próprio ambiente, livre das restrições corporativas, senti aquela pontada familiar de admiração absolu

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status