O som das máquinas preenchia o pequeno quarto branco de um jeito quase cruel. Um bip constante, regular, insistente — às vezes eu odiava aquele som, às vezes me agarrava a ele como se fosse a única coisa mantendo Misa comigo. Dormir ali era impossível; acordar, pior ainda. Sempre o mesmo pesadelo: o estampido seco, o impacto, o corpo dele caindo. Eu acordava arfando, o coração disparado, a garganta fechada.Eu estava com medo.Medo de tudo.Doía vê-lo desacordado, cheio de tubos, tão imóvel. Misa, que sempre foi presença, força, excesso… agora era silêncio. Eu só queria ouvir sua voz outra vez, ver aqueles olhos azuis se abrirem, aquela risada fácil que enchia qualquer espaço, os dedos passando pelos próprios cachos num gesto distraído antes de me puxar para um beijo.— Acho melhor você ir comer alguma coisa — minha mãe disse, entrando no quarto e se sentando no braço da poltrona onde eu estava encolhida.— Não estou com fome — respondi, enxugando uma lágrima que já tinha escapado sem
Última actualización : 2026-01-03 Leer más